Capítulo 8 - Tic-Tac.
O envelope chegou numa terça-feira.
Meu nome estava escrito reto demais.
Perfeito demais.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos antes de abrir.
Não porque tivesse dúvidas sobre o conteúdo.
Eu sabia.
Desde o dia em que Camila saiu.
Desde a xícara esquecida sobre a mesa.
Desde o sofá vazio.
Eu sabia.
Ainda assim, demorei.
O relógio da sala continuava funcionando.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Abri o envelope.
Li meu nome.
Li o nome dela.
Li a palavra divórcio.
Então parei.
O som do relógio ficou mais alto.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Dobrei o papel.
Levantei.
Fui até a cozinha.
Havia um pano de prato torto.
Arrumei.
Um copo ligeiramente fora de posição.
Arrumei.
Uma colher desalinhada.
Arrumei.
Voltei para a mesa.
O papel continuava lá.
Esperando.
Como se soubesse que eu voltaria.
Tic.
Tac.
Li outra vez.
Camila queria vender o apartamento.
Eu precisava desocupar o imóvel.
Prazo.
Assinaturas.
Advogados.
Palavras frias.
Palavras que pareciam pertencer à vida de outra pessoa.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Minha respiração saiu gelada.
A mesma sensação de sempre.
O Frio.
Levantei novamente.
O quadro da sala estava torto.
Ou talvez não estivesse.
Endireitei.
Depois conferi.
Depois conferi outra vez.
Ainda não parecia certo.
Tic.
Tac.
Se eu deixasse assim...
Algo aconteceria.
Parei.
Fechei os olhos.
Aquilo não fazia sentido.
Eu sabia.
Sabia que não fazia sentido.
Mesmo assim voltei.
E ajustei mais uma vez.
Só para garantir.
O alívio durou poucos segundos.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Olhei para o documento.
Voltei a ler.
Eu precisava sair.
Não havia escolha.
A casa não era mais minha.
Talvez nunca tivesse sido.
Respirei fundo.
O ar saiu frio.
Muito frio.
E então os pensamentos vieram.
Se eu tivesse percebido antes.
Se eu tivesse sido diferente.
Se eu tivesse reagido naquele restaurante.
Se eu tivesse dito alguma coisa.
Se eu tivesse sido uma esposa melhor.
Se eu tivesse ficado mais tempo com meu pai.
Se eu tivesse ido visitá-lo naquela semana.
Se eu tivesse...
Parei.
Apoiei as mãos sobre a mesa.
Aquilo também não era verdade.
Eu sabia.
Sabia tão bem quanto sabia que o quadro estava reto.
Tão bem quanto sabia que deixar um copo fora do lugar não mataria ninguém.
Mas saber nunca parecia suficiente.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Fui até a estante.
Os livros estavam alinhados.
Mesmo assim comecei.
Um por um.
Retirei.
Limpei.
Reposicionei.
Ajustei as lombadas.
Conferi as alturas.
As distâncias.
As margens.
Tudo.
Quando terminei, o relógio ainda estava lá.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Nada tinha mudado.
Camila continuava indo embora.
Meu pai continuava morto.
Eu continuava sozinha.
E, pela primeira vez, entendi que não estava tentando organizar a casa.
Estava tentando organizar uma vida que tinha se partido.
Mas algumas coisas não podiam ser colocadas de volta no lugar.
Não importava quantas vezes eu tentasse.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Fim do capítulo

HelOliveira
04/06/2026 às 03:22
Helena está passando uma fase muito difícil, mas acredito que nesse momento de solidão ela vai se encontrar...ou quem sabe aparece alguém para ajuda-la
Elin Varen 14/06/2026 às 06:03
Mas, às vezes, é justamente nos momentos de maior solidão que a gente acaba se encontrando. Acho que ela ainda tem muita coisa para descobrir sobre si mesma, longe das expectativas e dos conflitos que a acompanharam por tanto tempo.
E quem sabe esse caminho não traga também alguém disposto a estender a mão na hora certa? Não necessariamente para salvá-la, mas para caminhar ao lado dela enquanto ela aprende a se reconstruir.
Estou torcendo para que essa dor não seja o fim da história dela, mas o começo de uma nova fase.
Thalita31
02/06/2026 às 08:39
Eu fico com pena da Helena, está tão sozinha. Espero que as coisas melhorem para ela.
Elin Varen 03/06/2026 às 10:57
A Helena realmente está atravessando uma fase muito solitária da vida dela. Mas, às vezes, é justamente quando tudo parece perdido que algumas mudanças começam.
Obrigada por continuar acompanhando a jornada dela.