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ObsessivaMente por Elin Varen

Ver comentários: 1

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Palavras: 1381
Acessos: 69   |  Postado em: 24/04/2026

Capitulo 7 - O tempo apenas pioraria tudo

Capítulo 7 - O tempo apenas pioraria tudo

Me ofereceram alguns dias de licença no trabalho.

Recusei.

Achei que manter a rotina ajudaria.

Não ajudou.

Continuei recebendo condolências.

Apertos de mão.

Frases prontas.

“Vai ficar tudo bem.”

Mas eu sabia.

O tempo não ia melhorar nada.

O tempo apenas pioraria tudo.

Como piorou o meu relacionamento com Camila.

Ela me deu alguns dias.

Depois começou a agir como se tudo devesse voltar ao normal.

Quando nosso aniversário de casamento chegou, ela decidiu comemorar.

Não perguntou.

Nunca perguntava.

Eu estava sentada no sofá.

Um livro aberto no colo.

Sem ler.

— Se arrume. Vamos sair.

Olhei para ela.

— O quê?

— Estamos fazendo um ano de casadas.

Como se isso explicasse tudo.

Respirei.

O ar saiu frio.

Muito frio.

Levei a mão à boca.

— Hoje não…

— A reserva já está feita.

Cruzou os braços.

— Eu fui gentil em escolher o seu restaurante favorito.

— Camila, por favor…

— Se você não for, eu vou sozinha.

Ela saiu.

Eu deveria ter ficado.

Deixado.

Mas levantei.

Fui me trocar.

Como sempre.

O vestido já estava separado.

— Você fica linda com ele.

Sorri.

Ou algo parecido.

Me vesti.

Me maquiei.

O frio crescendo dentro de mim.

Fomos.

Comemos.

Bebemos.

Ela estava satisfeita.

Eu não estava em lugar nenhum.

Voltamos.

Ela deitou.

Dormiu.

Eu tomei banho.

Longo.

Inútil.

O tempo passou.

E, em algum momento…

eu comecei a perceber.

Os pensamentos.

No começo, eram leves.

Como uma garoa.

Quase imperceptíveis.

Mas constantes.

Coisas fora do lugar.

Quadros tortos.

Livros desalinhados.

Objetos que não encaixavam.

Eu via.

E não conseguia ignorar.

Os pensamentos vinham.

Ordenavam.

Eu obedecia.

Uma vez.

Duas.

Três.

Dez.

Era como fome.

Um vazio que precisava ser preenchido.

E nunca era suficiente.

O intervalo entre uma necessidade e outra diminuiu.

Horas.

Minutos.

Segundos.

Eu arrumava.

Arrumava.

Arrumava.

E quanto mais arrumava…

mais tudo parecia errado.

Era como estar presa.

Uma caixa apertando.

Diminuindo.

E eu…

diminuindo junto.

De garoa…

para tempestade.

No trabalho, Mauro percebeu.

— Você está bem?

— Estou.

Mentira.

Minhas mãos se moviam sozinhas.

Canetas.

Clipes.

Papéis.

Tudo no lugar.

Mas nunca suficiente.

Quadros.

Computadores.

Qualquer coisa.

— Você tem certeza?

— Tenho.

Não tinha.

Em casa…

era pior.

Eu ficava sozinha.

Camila saía cedo.

Voltava tarde.

Ou dizia que voltava.

Eu chegava.

E começava.

Limpava.

Organizava.

Repetia.

Sem parar.

A casa nunca estava certa.

Meu corpo doía.

Mandíbula travada.

Mãos feridas.

Eu evitava espelhos.

Não me reconhecia.

Camila era…

um freio.

Não conforto.

Um limite.

Eu sabia que aquilo não era um casamento.

Mas tinha medo.

Medo de ficar sozinha.

Medo de nunca conseguir parar.

Um domingo.

Mensagem da Odete.

“Quando precisar, estou aqui.”

Como ele.

Meu pai.

Não respondi.

Olhei ao redor.

As canecas.

Erradas.

Lavei.

Sequei.

Organizei.

Não estava certo.

De novo.

E de novo.

Até perder a noção do tempo.

A porta abriu.

Camila voltou.

Parei.

Voltei.

Fingi normalidade.

— Traz uma toalha.

Fui.

Olhei para ela.

E não vi beleza.

Vi perigo.

— Uma de nós precisa se cuidar, não é?

Não respondi.

Dormi no sofá.

Ela calava os pensamentos.

Mas não era diferente deles.

***

Saí da universidade em um fim de tarde.

Cansada.

Com a cabeça cheia.

E o corpo… pesado.

Caminhei sem pressa.

Sem pensar muito no caminho.

Só andando.

Como se o movimento fosse suficiente para me manter… funcionando.

Passei por um restaurante.

Um dos que ficavam no trajeto.

Já tinha passado por ali dezenas de vezes.

Talvez mais.

Mas, naquele dia, alguma coisa me fez olhar.

Não sei o quê.

Talvez o reflexo no vidro.

Talvez o movimento.

Ou só…

um erro.

Primeiro, vi a mão.

A mão dela.

Sobre a mesa.

Não.

Sobre a mão de outra pessoa.

Um toque leve.

Mas íntimo.

Familiar demais.

Meu passo desacelerou.

Sem que eu percebesse.

Então vi o rosto.

Camila.

Sorrindo.

De um jeito que eu conhecia.

De um jeito que…

eu não via há algum tempo.

A mulher à frente dela falava alguma coisa.

Camila inclinou o corpo levemente para frente.

A atenção inteira voltada para ela.

Como se não existisse mais nada ali.

Meu estômago revirou.

Mas não foi choque.

Não exatamente.

Foi…

reconhecimento.

Eu sabia.

Antes mesmo de entender.

Camila ergueu os olhos.

Me viu.

O tempo parou.

Só por um instante.

Eu esperei.

Não sei o quê.

Talvez um movimento.

Um recuo.

A mão saindo.

O corpo afastando.

Alguma coisa.

Nada veio.

Ela não se mexeu.

Não soltou.

Não desviou.

Só sustentou o olhar.

E, por um segundo…

pareceu escolha.

Respirei.

O ar saiu frio.

Cortando.

Como sempre.

Desviei.

E continuei andando.

Não entrei.

Não falei.

Não parei.

Só fui embora.

Como se nada tivesse acontecido.

Ou…

como se tudo já tivesse acontecido antes.

Quando cheguei em casa, Camila ainda não estava lá.

Sentei no sofá.

Sem fazer nada.

Sem pensar direito.

O tempo passou.

Ou algo parecido com isso.

A porta abriu.

Ela entrou.

— Oi.

— Oi.

Silêncio.

— Você saiu mais cedo hoje? — ela perguntou.

Assenti.

Ela deixou a bolsa de lado.

Se aproximou.

Parou na minha frente.

— Você passou pelo centro?

Olhei para ela.

— Passei.

Outra pausa.

Mais longa.

— E?

A palavra veio seca.

Direta.

— E o quê?

Ela soltou um riso curto.

Sem humor.

— Você viu.

Não era uma pergunta.

Baixei os olhos.

— Vi.

Silêncio.

Pesado.

— E você foi embora.

Levantei os olhos de novo.

— Eu…

A palavra travou.

— É sempre assim.

Ela se afastou.

Passou a mão pelo cabelo.

— As coisas acontecem… e você simplesmente aceita.

Respirei fundo.

Mas o ar não entrou direito.

— Não é assim.

— É exatamente assim, Helena.

Ela se virou para mim.

Agora sem disfarce.

— Você nunca fala nada. Nunca reage. Nunca se coloca.

Fiquei em silêncio.

— Eu estou aqui, praticamente dizendo na sua cara… — ela fez um gesto vago — e você só… vai embora.

— Eu não sabia o que fazer.

— Esse é o problema.

Ela respondeu rápido.

— Você nunca sabe.

A frase ficou.

Doendo.

— Eu cansei.

Ela disse mais baixo.

Mas mais firme.

— Cansou de quê?

— De carregar isso sozinha.

— Sozinha?

— Sim.

Ela riu.

Sem alegria.

— Eu me movo. Eu faço. Eu decido.

E você…

Ela hesitou.

— Você se ajusta.

O silêncio que veio depois foi pior que qualquer resposta.

— Eu conheci alguém.

Dessa vez, não desviou.

— E com ela… as coisas acontecem.

Natural.

Sem esforço.

Meu corpo ficou imóvel.

— Eu não preciso puxar nada.

Ela completou.

Quase justificando.

— E você precisa?

Perguntei.

Sem saber de onde veio a pergunta.

Ela me encarou.

Por um segundo.

— Eu não quero mais precisar.

Silêncio.

— E agora?

Minha voz saiu baixa.

Pequena.

— Agora eu vou embora.

Simples.

Como tudo entre nós.

Olhei para ela.

Para o espaço entre nós.

Para tudo que já tinha acabado.

— Tá.

Ela franziu a testa.

— Só isso?

Assenti.

Ela ficou parada.

Esperando.

Nada veio.

Nunca vinha.

— É por isso.

Ela disse.

Mais para si do que para mim.

Pegou a bolsa.

Caminhou até a porta.

Parou.

Esperou.

Silêncio.

Saiu.

A porta fechou.

Levantei.

Fui até o quarto.

Abri o guarda-roupa.

As roupas dela estavam ali.

Misturadas às minhas.

Como sempre.

Comecei a separar.

Sem pressa.

Cores primeiro.

Depois tipos.

Depois tamanhos.

Blusas.

Calças.

Vestidos.

Uma pilha de cada vez.

Alinhadas.

Simétricas.

Levei tudo para a sala.

Coloquei no sofá.

Uma peça ao lado da outra.

Sem sobreposição.

Sem erro.

Ajustei.

Milímetros.

Recomecei algumas vezes.

Até ficar certo.

Tudo dela.

Separado.

Organizado.

Pronto.

Olhei.

Respirei.

O ar saiu frio.

Fui para o quarto.

Deitei.

Não dormi.

Levantei.

Preparei café.

Não senti o gosto.

Saí.

Na faculdade…

arrumei.

Livros.

Prateleiras.

Alinhamentos.

Quantos consegui.

O máximo.

Sem parar.

Até não haver mais nada fora do lugar.

Ou até eu não ver mais.

Voltei para casa.

Abri a porta.

O sofá estava vazio.

As pilhas tinham sumido.

Não havia roupas.

Não havia nada.

Só uma xícara.

Na mesinha de centro.

Marcada de batom.

Com restos de café.

Fiquei olhando.

Por alguns segundos.

Ou minutos.

Não sei.

Me aproximei.

Peguei a xícara.

Segurei.

Com cuidado.

Girei levemente.

Observei a marca.

Depois…

me virei.

E fui colocá-la no lugar.

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Oi, leitoras

Quero deixar um pequeno aviso: Obsessivamente é uma história emocionalmente delicada de escrever. Alguns capítulos exigem mais de mim, então seguirei atualizando no ritmo que eu conseguir sustentar.

Não pretendo deixar a história em hiato, apenas respeitar o tempo necessário para continuar escrevendo com verdade e cuidado.

Obrigada por acompanharem essa jornada.

Com carinho,
Elin Varen

 


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Comentários para 8 - Capitulo 7 - O tempo apenas pioraria tudo:
Thalita31
Thalita31

Em: 29/04/2026

?Olá, autora. 
 
Gostei desses capítulos recentes. A meu ver, a sua escrita é sucinta, mas transmite toda a emoção das cenas.
 
Sinto muito por Helena e torço muito para que ela possa cuidar da saúde mental dela. Agora eu acho que esse casamento, desde o início, foi por conveniência. Eu não consigo perceber o amor entre elas desde o primeiro capítulo.
 


Elin Varen

Elin Varen Em: 29/04/2026 Autora da história
Olá!

Muito obrigada pelo comentário e pela leitura tão sensível.

Fico feliz que a escrita esteja conseguindo transmitir a emoção que eu gostaria para essa fase da história.

E achei muito interessante sua percepção sobre o casamento delas. Algumas relações, por fora, parecem uma coisa… e por dentro podem ser bem diferentes.

Também torço muito pela Helena. Ela ainda tem um caminho difícil pela frente, mas espero conseguir contar essa trajetória com o cuidado que ela merece.

Obrigada por acompanhar


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