Capítulo 90

Capitulo 90 - São meus?

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 90 – São meus?

 

Mais tarde, as meninas foram para o quarto.

Janis abriu o guarda-roupa e começou a tirar algumas roupas dos cabides.

— Vou abrir espaço para você.

Rebeca sorriu.

— Obrigada.

— De nada.

Janis pegou algumas camisetas e calças de Rebeca que estavam dentro da mochila.

Antes de guardá-las, passou as mãos sobre o tecido, alisando cada peça.

Depois colocou tudo cuidadosamente no guarda-roupa.

Rebeca ficou observando.

Ainda sorria.

Então pareceu se lembrar de alguma coisa.

— Tem mais uma coisa para você aqui.

Janis virou-se.

— O quê?

Rebeca abriu um dos bolsos da mochila e tirou o folheto que Helba havia lhe dado.

Entregou a ela.

Janis pegou.

Leu.

Seu rosto mudou imediatamente.

— Espera...

Rebeca fez uma careta.

— Uhum. A Helba inscreveu a gente na oficina

Janis continuou lendo.

— Caramba!

Virou-se para Rebeca, animada.

— A gente vai em um ateliê de verdade!

Rebeca deu de ombros.

— E daí?

Janis olhou para ela como se tivesse acabado de dizer uma coisa absurda.

— Eu sempre quis ir em um ateliê.

Rebeca olhou novamente para o folheto.

— Eu ainda acho que a gente podia ir ao cinema.

— A gente vai outra hora.

Janis voltou a olhar para o papel.

— Dois Tons...

Guardou o folheto cuidadosamente.

No corredor, Ester havia captado o final da conversa.

Parou por um instante.

Dois Tons?

Não pôde deixar de se surpreender com a rapidez de Helba em conseguir colocar Janis dentro daquele ateliê.

Mas não disse nada.

Ainda não.

— Meninas?

As duas olharam para a porta.

— Hora de irmos dormir.

Janis bocejou.

Ester apagou a luz do corredor.

Janis se deitou no canto da cama e abriu espaço para Rebeca. A menina deitou junto com ela.

Ester estendeu o colchão no chão do quarto, colocou os travesseiros e o cobertor no lugar e se deitou.

O problema era que as três tinham chegado àquela noite em estados completamente diferentes.

Janis havia estudado pela manhã e trabalhado à tarde.

Ester tinha trabalhado durante a manhã e passado praticamente toda a tarde dirigindo.

As duas estavam cansadas.

Muito cansadas.

Rebeca, por outro lado, havia passado boa parte da tarde dormindo na clínica.

Ela estava ótima.

Perfeitamente descansada.

E, enquanto Janis fechava os olhos e Ester finalmente se preparava para descansar, Rebeca permanecia acordada.

Ela tentou dormir.

De verdade.

Enroscou-se em Janis, fechou os olhos e ficou quietinha.

Por alguns minutos.

Nada.

O sono não vinha.

Janis, por outro lado, parecia ter encontrado o caminho para ele sem nenhuma dificuldade.

Respirava tranquilamente.

E, de vez em quando, soltava um ronquinho baixinho.

Rebeca abriu um olho.

Sorriu.

Fechou novamente.

Outro ronquinho.

Ela segurou uma risadinha.

Depois abriu os olhos outra vez.

Ficou olhando para Janis.

A luz fraca que entrava pela janela iluminava apenas parte do rosto dela.

Rebeca ficou alguns segundos em silêncio.

Ela é tão bonita.

Seu coração acelerou um pouquinho.

E, antes que percebesse o que estava fazendo, levantou a mão.

Com a ponta dos dedos, começou a tocar o rosto de Janis.

Passou pelas sobrancelhas.

Deslizou pelas maçãs do rosto.

Depois, delicadamente, contornou a boca.

Janis se mexeu.

— Rebeca...

A menina levou um susto.

— O que foi?

Janis abriu os olhos só o suficiente para enxergá-la.

— Está me fazendo cócegas.

Rebeca imediatamente recolheu a mão.

— Desculpa.

Janis fechou os olhos novamente.

— Tudo bem...

Rebeca se ajeitou.

Fechou os olhos.

Tentou dormir.

Nada.

Virou para um lado.

Depois para o outro.

Suspirou.

Ficou alguns minutos em silêncio.

Então, sem perceber, começou a murmurar baixinho a melodia de Wonderwall.

Janis abriu um olho.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um travesseiro atingiu Rebeca em cheio.

— Ai!

Rebeca se virou, assustada.

Ester estava sentada no colchão, segurando o travesseiro como uma arma.

— Fique quieta ou vai dormir no sofá.

Rebeca ficou olhando para ela.

— O que eu fiz?

— Estava cantando.

— Eu estava cantando baixinho.

— Para mim, não foi baixinho.

Ester voltou a deitar.

— Dorme.

Rebeca fez um muxoxo.

— Rebeca?

— Hm?

— Prefere a rua?

Rebeca pensou.

— Não.

A menina puxou a coberta até a cabeça.

Ester sorriu no escuro.

— Foi o que pensei.

Janis fez o que pode, mas não conseguiu segurar o riso.

Rebeca tirou apenas os olhos debaixo da coberta.

— De que lado você está?

Janis tentou parar de rir.

Não conseguiu.

— Desculpa.

Rebeca resmungou alguma coisa e voltou a se esconder.

Janis fechou os olhos.

Ainda sorrindo.

E, finalmente, o quarto ficou em silêncio.

Por alguns segundos.

Até Rebeca sussurrar:

— Janis?

— O quê?

— Você é muito bonita.

Janis abriu os olhos.

Rebeca já estava de olhos fechados.

— Boa noite.

Janis ficou olhando para ela no escuro.

Depois sorriu.

— Boa noite, Rebeca.

Apesar de tudo, Rebeca só conseguiu dormir quando a madrugada já estava avançada.

De manhã, o celular de Janis despertou.

Ela abriu os olhos, desligou o alarme rapidamente e começou a se levantar.

Não conseguiu.

Alguma coisa segurava sua camisa do pijama.

Janis olhou para baixo.

Rebeca.

A menina ainda estava de olhos fechados, mas segurava o tecido com uma força surpreendente para alguém que claramente não estava completamente acordada.

— Ei, Esquilinho...

Rebeca apertou ainda mais.

Janis tentou se soltar.

— Eu tenho que trabalhar.

— Não...

A resposta saiu abafada pelo travesseiro.

Janis sorriu.

— Se você me deixar ir...

Rebeca não respondeu.

— Eu compro uma torta de morango para você.

Um dos olhos de Rebeca se abriu.

Janis percebeu.

— Uma bem grande.

O olho permaneceu aberto.

— Cheia de morangos suculentos.

Rebeca ficou alguns segundos considerando a proposta.

Então soltou a camisa.

Fechou o olho novamente.

A expressão dizia claramente:

Negócio fechado.

Janis riu baixinho.

— Foi o que eu pensei.

Levantou-se.

Ajeitou a coberta sobre Rebeca, cobrindo-a até os ombros.

Pegou o uniforme que havia deixado sobre a escrivaninha e caminhou até o banheiro.

Antes de fechar a porta, olhou mais uma vez para a cama.

Rebeca já parecia ter desaparecido novamente no sono.

Janis sorriu.

— Dorme, Esquilinho.

E foi se trocar.

Na cozinha, Janis encontrou Maria Helena tomando uma xícara de café.

O café da manhã dela já estava pronto.

Pão com manteiga.

E uma xícara de café com leite.

— Valeu, vó.

Janis sentou-se e comeu depressa.

Não porque estivesse com muita fome.

Estava com pressa.

Assim que terminou, levantou-se, pegou o skate e colocou-o debaixo do braço.

— Cuida delas por mim.

Maria Helena sorriu.

— Está bem.

Janis saiu.

Chegou rapidamente à padaria.

Escondeu o skate atrás do balcão e foi direto para o setor da confeitaria.

Algumas tortas de morango já começavam a ser preparadas.

Janis apontou para elas.

— Reserva uma para mim.

O confeiteiro apenas assentiu.

Estava concentrado no próprio trabalho.

Janis voltou para a área da frente e começou a ajudar a organizar os pães para a abertura.

Pegava as bandejas.

Ajeitava os produtos.

Conferia as prateleiras.

Fazia tudo quase no automático.

De vez em quando, porém, seus olhos escapavam para o relógio de parede.

Ainda faltava.

Ela voltava ao trabalho.

Alguns minutos depois, olhava novamente.

Ainda faltava.

Janis suspirou.

Se dependesse dela, aquela manhã poderia passar depressa.

Muito depressa.

Havia uma torta esperando por Rebeca.

Mas não era apenas isso.

Janis estava ansiosa.

Pela companhia da Rebeca, é claro.

Mas também pelo que aconteceria à tarde.

O Dois Tons.

Um ateliê de verdade.

Ela ainda não sabia exatamente o que encontraria lá.

Só sabia que, pela primeira vez, teria a chance de entrar em um lugar onde pessoas faziam daquilo que ela amava alguma coisa maior.

Desenhos.

Tintas.

Criação.

Talvez até trabalho.

Janis olhou novamente para o relógio.

Ainda faltava muito.

— Anda...

O relógio, obviamente, não se importou.

Continuou andando no seu ritmo.

Janis voltou para os pães.

Mas o sorriso que apareceu em seu rosto não desapareceu.

***

Quando Ester acordou, a primeira coisa que percebeu foi que Rebeca aparentemente havia travado uma batalha durante o sono.

E perdido.

O cobertor estava todo embolado.

Uma parte estava presa debaixo das pernas da menina.

Outra estava encostada na parede.

O travesseiro, por sua vez, estava preso em um abraço apertado.

Ester ficou alguns segundos olhando para aquela cena.

— Meu Deus.

Levantou-se.

Recolheu os travesseiros e o colchão, colocando tudo em um canto do quarto.

Depois pegou o cobertor que ela mesma havia usado e jogou sobre Rebeca.

A menina se mexeu.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto.

E continuou dormindo.

Ester balançou a cabeça.

— De nada...

Rebeca permaneceu ali.

Dormindo.

Profundamente.

Até que seu nariz decidiu que já era hora de acordar.

Um cheiro apetitoso chegou até ela.

Rebeca franziu o nariz.

Mexeu a cabeça.

Piscou.

Abriu os olhos.

Por alguns segundos, não entendeu onde estava.

Olhou para o teto.

Para o quarto.

Para o cobertor.

Então conseguiu focar.

O cheiro continuava ali.

E era muito bom.

A barriga roncou.

Alto.

Rebeca colocou a mão sobre ela.

Como se o próprio corpo estivesse fazendo uma cobrança formal:

As refeições estão atrasadas, colega.

Rebeca ficou alguns segundos em silêncio.

Então sentou-se.

— Tá bom...

Outro ronco.

— Eu entendi.

Quando se sentou na cama, Rebeca percebeu que havia alguma coisa sobre a cadeira.

Um roupão felpudo estava pendurado no encosto.

Sobre o assento, havia uma toalha.

Os dois combinavam perfeitamente.

Rebeca ficou olhando.

Então se aproximou.

Passou os dedos pelo tecido da toalha.

Foi quando percebeu.

Seu nome estava bordado ali.

Rebeca.

Com cuidado.

As letras eram pequenas e delicadas.

No bolso do roupão, o mesmo nome aparecia novamente.

E, ao lado, uma pequena clave de sol completava o desenho.

Rebeca piscou algumas vezes.

— Oi?

Não sabia exatamente o que estava perguntando.

Levantou-se.

Pegou a toalha e o roupão com cuidado, como se fossem alguma coisa muito frágil.

Ainda tentando entender, saiu do quarto.

Na cozinha, Maria Helena sorriu assim que a viu.

— Bom dia.

Rebeca não respondeu imediatamente.

Maria Helena continuou:

— O almoço está quase pronto. Vá tomar um banho. Enquanto isso, vou preparar um lanchinho para você.

Rebeca continuou parada.

Olhou para a toalha.

Depois para o roupão.

— São...

A voz saiu baixinha.

— São meus?

Ester estava sentada à mesa, lendo o jornal enquanto tomava café.

Nem levantou os olhos.

— Está vendo outra Rebeca por aqui?

Maria Helena lançou um olhar para ela.

— Ester...

— O quê?

— Não seja rude.

Rebeca continuava imóvel.

Esperando.

Maria Helena percebeu.

Aproximou-se dela.

— É claro que são seus.

Rebeca olhou novamente para o próprio nome bordado.

— Mas...

— Achei que ficaria mais confortável se tivesse suas próprias coisas.

Rebeca passou o polegar sobre uma das letras.

Não sabia o que dizer.

Maria Helena tocou de leve o ombro da menina.

— Agora...

Apontou para o corredor.

— Chuveiro.

Rebeca finalmente assentiu.

— Tá.

Deu alguns passos.

Parou.

Olhou novamente para a toalha.

E sorriu.

Então seguiu para o banheiro, carregando o roupão e a toalha contra o peito.

Enquanto Rebeca tomava banho, dona Maria Helena preparava o café da manhã.

Ou, mais precisamente, preparava alguma coisa que pudesse ser considerada café da manhã e almoço ao mesmo tempo.

Pegou um pão e cortou-o ao meio.

Passou uma camada generosa de maionese.

Depois abriu a panela de carne de panela.

Escolheu três cubinhos.

Desfiou cada um cuidadosamente com um garfo e colocou a carne dentro do pão.

Por fim, acrescentou um pouco do caldinho.

Ester acompanhava tudo por cima do jornal.

— Quanta mordomia.

Maria Helena nem olhou para ela.

— Deixe de ser ciumenta, Ester.

Pegou o copo.

— Se quiser, eu faço um lanche para você.

Ester virou uma página.

— Não estou com fome.

— Então não reclame.

Alguns minutos depois, Rebeca saiu do banheiro.

Estava usando o roupão felpudo.

Nos pés, os chinelos de Janis.

A toalha estava enrolada nas mãos.

Maria Helena sorriu.

— Pronto.

Pegou a toalha.

— Deixe comigo. Vou colocar na área de serviço para secar.

Rebeca entregou.

Maria Helena colocou um copo de suco de laranja sobre a mesa e indicou a cadeira.

— Sente-se.

Rebeca sentou.

Olhou para o sanduíche.

Por um instante, pareceu não acreditar que aquilo era realmente para ela.

Então pegou o pão com as duas mãos.

Deu uma mordida caprichada.

Fechou os olhos.

A cabeça pendeu lentamente para o lado enquanto mastigava.

Devagar.

Muito devagar.

Como se cada pedaço precisasse ser apreciado individualmente.

Maria Helena observou.

Ester também.

Ester precisou reunir todas as forças para não cair na gargalhada.

A menina parecia estar tendo uma experiência espiritual.

Rebeca abriu os olhos.

Olhou para o sanduíche.

Deu outra mordida.

Fechou os olhos novamente.

Ester baixou o jornal um pouco.

— Está bom?

Rebeca assentiu, ainda mastigando.

— Muito.

Maria Helena sorriu.

— Eu imaginei.

Ester voltou a esconder o rosto atrás do jornal.

Mas seus ombros começaram a tremer.

Rebeca olhou para ela.

— A senhora está rindo?

— Não.

— Está sim.

— Estou lendo.

— Jornal não faz ninguém tremer.

Ester finalmente não conseguiu mais segurar.

Começou a rir.

Rebeca franziu a testa.

— O quê?

Ester apontou para ela.

— Nada.

Tentou recuperar a compostura.

— Você só está... muito feliz com o pão.

Rebeca olhou para o sanduíche.

Deu outra mordida.

— Estou mesmo.

Maria Helena riu.

— Coma antes que esfrie.

Rebeca obedeceu.

E Ester decidiu que talvez fosse melhor não dizer mais nada.

Aquela menina estava feliz demais para ser contrariada antes do almoço.

Quando terminou de comer, Rebeca limpou a boca com o guardanapo.

Depois olhou para dona Maria Helena.

Um olhar pidão.

Maria Helena reconheceu imediatamente.

— O que foi?

Rebeca sorriu.

— Vó?

— Sim?

— Posso buscar a Janis?

Maria Helena pensou por um instante.

— Pode.

O sorriso aumentou.

— Com a bicicleta?

Maria Helena olhou para ela.

Depois para o roupão.

Depois para os chinelos.

— Vai usando o roupão?

Rebeca começou a rir.

— Não.

— Então pode.

Rebeca já estava quase levantando.

Maria Helena levantou um dedo.

— Mas nada de ficar de conversa com estranhos.

— Tá.

— E cuidado no caminho.

— Tá.

— E não...

Rebeca já estava saindo.

— Rebeca!

— Eu ouvi!

Maria Helena balançou a cabeça.

A menina disparou para o quarto de Janis.

Pegou algumas roupas.

Vestiu-se rapidamente.

Calçou os próprios tênis.

Parou diante da porta.

Olhou para ela.

Pensou.

Se saísse pela porta, precisaria passar pela cozinha para sair de casa. E... talvez Maria Helena pensasse melhor.

Talvez dissesse:

Pensando bem...

Rebeca olhou para a janela.

Olhou novamente para a porta.

Decidiu.

Abriu a janela.

Pouco depois, desapareceu por ela.

No quintal, encontrou a bicicleta.

Subiu.

Ligou o motor.

O barulho ecoou pelo terreno.

E Rebeca saiu pelo portão.

Na cozinha, Ester levantou os olhos do jornal.

— Eu disse que o barulho que ouvimos não era um gato.

Maria Helena ficou alguns segundos em silêncio.

Depois suspirou.

— Menina pestinha.

Ester sorriu.

— Ela é rápida.

— Rápida demais.

Rebeca deu algumas voltas pelo quarteirão antes de seguir para a padaria.

Não tinha pressa.

Parou perto da saída e ficou esperando.

O tempo passou devagar.

Até que, finalmente, Janis apareceu.

Assim que viu a bicicleta, abriu um sorriso.

— Ei!

Acelerou o passo.

— Minha garota veio me buscar.

Rebeca sorriu.

Esperou até que Janis chegasse perto.

— Buscar você e a minha torta.

Janis riu.

Inclinou-se e deu um beijo leve nos lábios da menina.

— Então você lembra do nosso acordo?

Rebeca fez uma expressão ofendida.

— Eu jamais esqueceria de uma torta.

Janis riu novamente.

As duas se ajeitaram na bicicleta.

Janis acomodou cuidadosamente a caixa da torta em um dos braços.

— Pronta?

— Uhum.

Rebeca acelerou.

As duas seguiram pelas ruas.

Conversavam entre uma coisa e outra, até que Janis apontou para uma rua.

— Vira aqui.

Rebeca obedeceu.

Pouco depois, Janis apontou novamente.

— Olha!

Rebeca diminuiu a velocidade.

— O quê?

— A casa da tia Glória e do tio Gordo.

Rebeca olhou.

— E do lado é a oficina deles.

Na entrada da oficina, Gordo estava parado.

Braços cruzados.

O bigode levantado em um sorriso.

Assim que viu as duas, abriu ainda mais o sorriso.

Janis levantou uma das mãos.

— E aí, Bigode?

Gordo balançou a cabeça.

— Olha quem apareceu.

Rebeca sorriu.

Janis continuou:

— Tudo certo?

— Tudo.

Gordo olhou para a caixa que Janis carregava.

— Isso aí é o quê?

Janis protegeu a caixa.

— Não é da sua conta.

Gordo riu.

— Então deve ser importante.

Rebeca olhou para Janis.

— É a minha torta.

Gordo levantou as sobrancelhas.

— Ah.

Fez uma pausa.

— Então é melhor eu nem pedir um pedaço.

Janis apertou a caixa contra o corpo.

— Nem pense.

Gordo riu.

— Bom ver vocês.

Janis sorriu.

— A gente está indo pra casa.

Rebeca voltou a pedalar.

Janis acenou.

— Tchau, Bigode!

— Tchau, meninas!

As duas seguiram pela rua.

E Gordo continuou parado na porta da oficina, sorrindo enquanto observava as duas se afastarem.

Quando as duas chegaram, dona Maria Helena já estava com o almoço na mesa.

Rebeca olhou para a comida.

Apesar do pão monstruoso que havia acabado de comer, ainda sentia fome.

Aceitou uma porção generosa de arroz fresquinho, feijão e carne de panela com bastante caldo.

Sentou-se.

Pegou o garfo.

Começou a comer.

Ester observava.

Depois de alguns minutos, não resistiu.

Rebeca estava com os olhos fechados.

A cabeça tombava lentamente para o lado enquanto mastigava.

Ester olhou para o relógio.

— Vamos ver...

Rebeca abriu um olho.

— O quê?

— Foram dois minutos e trinta e sete segundos mastigando a terceira garfada.

Rebeca lançou um olhar azedo para ela.

— Não tem graça.

Falou de boca cheia.

Ester começou a rir.

Maria Helena colocou mais um pouco de caldo no prato da menina.

— Deixe a menina comer.

— Eu estou deixando.

— Então pare de contar.

Ester levantou as mãos.

— Está bem.

Rebeca continuou comendo. Depois de esvaziar o prato, foi a vez da torta. Duas fatias caprichadas foram suficientes.

Quando terminou, recostou-se na cadeira.

— Agora estou satisfeita.

Janis levantou-se imediatamente.

— Vou trocar de roupa.

Correu para o quarto.

Pouco depois, voltou vestida para sair e com uma mochila nas costas.

Rebeca olhou para ela.

— O que você colocou aí?

— Algumas coisas.

Janis abriu a mochila.

Colocou mais um item.

Rebeca reconheceu.

— Minha lapiseira.

Janis sorriu.

— A que você me deu.

— Acho que não precisa levar nada.

— Nunca se sabe.

Rebeca deu de ombros.

Alguns segundos depois, Ester apareceu. Pronta.

Vestida, bolsa no ombro e esperando por elas.

Janis franziu a testa.

— A senhora vai com a gente?

— Vou.

— Sem querer ofender...

Janis fez uma pausa.

— Mas eu consigo me virar sozinha.

Ester sorriu.

— Eu sei disso.

Apontou para Rebeca.

— Mas você está com a joia da coroa da Miriam.

Rebeca olhou para ela.

— O quê?

— E eu não quero que a doutora me coloque embaixo de uma lâmpada fluorescente e fique me interrogando sobre o paradeiro do bibelô dela.

Rebeca cruzou os braços.

— Eu não sou um bibelô.

Janis assentiu imediatamente.

— É isso mesmo.

Rebeca pareceu satisfeita.

Então Janis completou:

— Ela é uma bonequinha de porcelana.

Rebeca ficou em silêncio.

Piscou.

Uma vez.

Duas.

Precisou de alguns segundos para processar.

Então olhou para Janis.

— Sorte sua que a torta estava boa...

Janis sorriu.

Rebeca apontou para ela.

— Do contrário...

Fez uma pausa dramática.

— Eu ficaria muito zangada.

Janis riu.

— Está vendo? Bonequinha de porcelana mesmo.

Rebeca bufou.

Ester abriu a porta.

— Vamos antes que a bonequinha quebre alguém.

 

 

Fim do capítulo

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