Capítulo 89 – Notícias da nossa menina.
Quando Miriam e dona Maria Helena entraram na cozinha, encontraram uma cena curiosa.
Rebeca estava radiante.
Janis estava visivelmente encantada com o presente.
E Ester parecia profundamente preocupada com o futuro dos dentes da filha.
Janis segurava um dos biscoitos entre os dedos.
— Você fez sozinha?
— Fiz.
Janis deu uma mordida.
Toc.
Rebeca sorriu.
— Eu peguei a receita no livro da Lara.
Janis mastigou com esforço.
— Estão uma delícia.
Toc.
Ester olhou para a filha.
— Espero que seus dentes pensem a mesma coisa.
Toc.
Janis apontou para a mãe.
— Invejosa.
Falou de boca cheia.
— Só está dizendo isso porque a Rebeca não fez biscoitos para a senhora.
Toc.
Ester cruzou os braços.
— Sou grata a Deus por isso.
Rebeca perdeu um pouco do sorriso.
— Eles ficaram um pouco duros agora à noite...
Olhou para Janis.
— Mas de manhã estavam melhores.
Janis deu outra mordida.
Toc.
— Não liga para ela.
Mais um pedaço.
Toc.
— São os melhores biscoitos que eu já comi.
Rebeca ainda tentou manter acesa a pequena chama da esperança.
— Sério?
Janis sorriu.
— É claro que sim.
Toc.
Ester balançou a cabeça.
— Com certeza serão inesquecíveis.
Rebeca olhou para ela, tentando decidir se aquilo era um elogio.
Dona Maria Helena apenas observava.
Foi até o armário, pegou uma xícara e serviu café para Miriam.
— Açúcar?
— Duas colheres, por favor.
Maria Helena colocou o açúcar na xícara.
Depois abriu a geladeira.
Janis imediatamente olhou para ela.
Maria Helena retirou um pote de sorvete.
Abriu.
Pegou duas bolas de sorvete de chocolate e colocou em uma pequena vasilha.
Janis arregalou os olhos.
— Ei!
— O quê?
— A senhora me disse que não era sorvete.
Maria Helena colocou a vasilha diante dela.
— É mesmo?
— A senhora disse que tinha feijão guardado nesse pote.
Maria Helena fez uma expressão séria.
— Eu sou uma pobre senhora idosa.
Janis estreitou os olhos.
— Vó...
— Minha memória não é mais a mesma.
Empurrou a vasilha um pouco mais para perto da neta.
— Talvez isso ajude a transformar os melhores biscoitos que você já comeu em algo mais fácil de mastigar.
Janis olhou para o sorvete.
Depois para os biscoitos.
Uma ideia pareceu surgir.
Ela pegou um dos biscoitos e o mergulhou no sorvete.
Rebeca arregalou os olhos.
— O que você está fazendo?
— Resolvendo.
Janis esperou alguns segundos.
Tirou o biscoito do sorvete.
Ele estava coberto de chocolate derretido.
Mordeu.
Dessa vez, não houve nenhum toc.
Janis abriu um sorriso.
— Viu?
Rebeca se aproximou.
— Funcionou?
Janis estendeu a colher.
— Experimenta.
Rebeca pegou um pedaço de biscoito, mergulhou no sorvete e provou.
Mastigou.
Os olhos se iluminaram.
— Funcionou!
As duas se entreolharam.
Então começaram a rir.
Janis pegou outro biscoito.
— Acho que descobrimos uma coisa.
— O quê?
— Seu biscoito fica melhor com sorvete.
Rebeca pensou.
— Então você gostou mesmo?
Janis olhou para ela.
— Eu já falei.
Mergulhou outro pedaço no sorvete.
— São os melhores biscoitos que eu já comi.
Rebeca riu.
As duas continuaram mergulhando os biscoitos no sorvete, até que o pequeno pote de chocolate começou a desaparecer.
No fim, os biscoitos continuavam tortos.
Continuavam duros.
E provavelmente nunca ganhariam nenhum prêmio de confeitaria.
Mas Janis tinha gostado.
E, para Rebeca, aquilo era suficiente.
Enquanto as duas terminavam de comer os biscoitos com sorvete, dona Maria Helena levantou-se.
Foi até o armário, pegou uma vasilha e caminhou até o fogão.
Sem chamar atenção, começou a preparar alguma coisa.
Miriam observou por alguns segundos, mas não perguntou.
Maria Helena terminou de colocar a comida na vasilha, fechou a tampa e a deixou sobre a pia.
Então se virou para as meninas.
— Posso ver a receita que você seguiu?
Rebeca largou a colher.
Levantou-se, foi até a mochila e começou a procurar.
Depois de alguns segundos, encontrou o livro de Lara.
— Aqui.
Entregou a Maria Helena.
Ela colocou os óculos de leitura e abriu o livro.
Leu a receita.
Voltou algumas linhas.
Leu novamente.
Olhou para Rebeca.
Depois para os biscoitos.
Então fechou o livro.
— Se quiser aprender a fazer biscoitos que não virem pequenas pedrinhas feitas de açúcar, vá lavar as mãos.
Rebeca arregalou os olhos.
— Sério?
Maria Helena devolveu o livro.
— Não vou oferecer de novo.
A menina levantou-se tão depressa que quase virou a cadeira.
— Já volto!
Saiu correndo em direção ao banheiro.
Maria Helena pegou a vasilha que havia deixado sobre a pia e a entregou a Ester.
— Melhor avisar a Débora que Rebeca está aqui.
Ester olhou para o pote.
Depois para Maria Helena.
— Tem razão.
Pegou a vasilha e saiu apressada para a rua.
Miriam acompanhou a saída com os olhos.
Depois olhou para Maria Helena, interrogativa.
— Débora?
— Ela costuma jantar conosco na sexta.
Maria Helena voltou para a mesa.
— Mas ainda não apareceu.
Miriam assentiu.
— Entendi.
Alguns minutos depois, Rebeca voltou.
As mãos estavam limpas.
O cabelo ainda estava um pouco desalinhado.
E o rosto estava iluminado.
— E agora?
Maria Helena apontou para a pia.
— Venha.
Rebeca se aproximou.
Maria Helena começou a separar os ingredientes.
Rebeca observava tudo com atenção.
Miriam sorriu.
— Creio que a senhorita passará a noite...
Rebeca olhou imediatamente para ela.
Depois para Maria Helena.
Maria Helena sorriu.
— Será um prazer ter você aqui mais uma noite.
O sorriso de Rebeca aumentou.
Ela virou-se para Miriam.
— Tchau, tia Miriam.
Miriam riu.
— Tchau, menina.
Aproximou-se e deu um beijo na testa de Rebeca.
Depois outro em Janis.
— Se comportem.
— Tá — responderam as duas quase juntas.
Miriam se despediu de Maria Helena.
— Obrigada.
— Vá tranquila.
Miriam abriu a porta.
Antes de sair, ainda olhou para as duas meninas.
Rebeca já estava completamente concentrada na bancada.
Janis estava ao lado dela.
Miriam sorriu.
— Boa noite.
— Boa noite — respondeu Maria Helena.
Miriam saiu.
Do lado de fora, aproveitou para correr atrás de Ester.
— Ester!
A mulher já estava alguns metros à frente.
— Espere!
Miriam e Ester seguiram juntas no carro.
Por alguns minutos, nenhuma das duas falou.
Então Miriam quebrou o silêncio.
— Tenho algumas novidades para contar para a Débora.
Ester sorriu.
— Ela vai ficar feliz.
Olhou pela janela.
— Está sendo difícil para ela se manter distante.
Miriam assentiu.
— Não será por muito tempo.
Ester virou o rosto para ela.
— Você tem certeza?
Miriam sorriu.
— Tenho.
Pouco depois, chegaram à pequena casa.
Ester abriu o portão e entrou sem anunciar a chegada.
Havia música vindo de dentro.
Quando entraram, encontraram Débora sentada diante de uma menina.
Ela parecia ter praticamente a mesma idade de Janis e Rebeca.
As duas estavam diante de um instrumento, concentradas.
Débora levantou os olhos.
— Oi!
Sorriu.
— Melissa e eu estamos acabando. Já falo com vocês.
Ester assentiu.
Miriam ficou em silêncio, observando.
Débora retomou a última parte da aula.
Explicou mais uma vez o exercício.
Deu algumas instruções de estudo.
A menina ouviu atentamente.
Quando terminou, agradeceu.
— Até a próxima, professora.
— Até.
Melissa pegou suas coisas e se despediu das três mulheres antes de sair.
Assim que a porta se fechou, Débora levantou-se.
— Café?
Ester riu.
— Você nem perguntou se queremos.
— Vocês vieram até aqui. É claro que querem.
Débora já estava pegando as xícaras.
Ester olhou para o relógio.
— Eu não posso demorar.
Colocou a vasilha sobre a mesa.
— A Rebeca veio um pouco mais cedo e não quero que ela fique desconfiada com a minha ausência.
Débora parou.
— Rebeca está aí?
— Está.
Ester entregou a marmita.
— A dona Maria Helena mandou isso para você.
Débora pegou a vasilha.
— Ela lembrou de mim.
— Ela sempre lembra.
— Preciso ir.
— Tá.
— Depois eu te conto os detalhes da visita.
Débora sorriu.
— Eu já quero saber tudo.
Ester abriu a porta.
— Boa noite.
— Boa noite.
E saiu.
Miriam permaneceu.
Débora fechou a porta e voltou para a cozinha.
— Você fica?
Miriam assentiu.
— Espero que você tenha tempo para me escutar.
Débora parou.
Seus olhos brilharam imediatamente.
— Notícias da nossa menina?
Miriam sorriu.
— Muitas.
Fez uma pausa.
— Algumas bem divertidas.
Débora abriu um sorriso enorme.
— Então sente.
Guardou a marmita na geladeira.
Depois pegou duas xícaras.
Serviu o café.
Colocou uma diante de Miriam e sentou-se em frente a ela.
— Começa.
Miriam tomou um gole.
— Bom...
E começou a contar.
Contou sobre os livros.
Sobre o skate.
Sobre a escola.
Sobre a música.
Sobre Janis.
Sobre a madrugada.
Sobre os biscoitos.
Quando chegou nessa parte, Débora começou a rir.
— Ela fez biscoitos?
— Fez.
— Sozinha?
— Sozinha.
— E você deixou?
Miriam levantou as sobrancelhas.
— Eu descobri depois.
Débora riu ainda mais.
Miriam continuou.
Falou sobre Rebeca dormindo no beliche da clínica.
Sobre o cobertor.
Sobre a pizza.
Sobre a insistência para dormir na casa de Maria Helena.
E sobre a maneira como a menina havia saído de casa de pijama, carregando uma mochila cheia de roupas e um pote de biscoitos.
Débora ouvia tudo.
Às vezes ria.
Às vezes fazia perguntas.
Às vezes simplesmente ficava em silêncio.
O café foi acabando.
Depois foi substituído por mais café.
E a conversa continuou.
Por boa parte da noite.
Porque, para Débora, não havia notícia pequena demais quando se tratava de Rebeca.
E, naquela noite, Miriam tinha muitas para contar.
Fim do capítulo

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