Capítulo 88

Capitulo 88 - Vocês já são de casa.

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 88 – Vocês já são de casa.

 

Quando o expediente da clínica chegou ao fim, Miriam e Luma começaram a organizar tudo para o fechamento.

Guardaram os últimos materiais.

Conferiram as salas.

Apagaram algumas das luzes.

Quando terminaram, Luma pegou a bolsa e olhou para Miriam.

— Vamos?

— Vamos.

As duas seguiram até a área de descanso.

Antes mesmo de abrirem a porta, ouviram:

— Hrrrrr...

Luma parou.

Olhou para Miriam.

Outro ronco.

Luma levou a mão à boca, tentando segurar o riso.

— Nossa...

Miriam não achou graça.

— Só espero que ela não comece a trocar o dia pela noite.

Luma abriu a porta.

Rebeca continuava profundamente adormecida no beliche.

Luma foi até a geladeira pegar sua frasqueira, enquanto Miriam se aproximou da cama.

— Rebeca.

Nada.

— Rebeca.

A menina se mexeu.

Virou para o outro lado.

Miriam suspirou.

— Não. Não se acomode.

Rebeca não pareceu ouvir.

Miriam segurou delicadamente seu ombro e tentou fazê-la sentar.

— Vamos. Acorda.

Foi preciso insistir algumas vezes.

Finalmente, Rebeca sentou-se.

Ficou ali.

Quietinha.

A cabeça pendia para um lado.

Os olhos continuavam fechados.

Luma observou a cena.

Tentou segurar.

Não conseguiu.

Soltou uma risada.

Miriam olhou para ela.

— Meu Deus.

— Desculpa.

— Você não está ajudando.

Luma tentou se recompor.

— Eu estou tentando.

Miriam voltou a atenção para Rebeca.

— Rebeca.

Nada.

Ela estalou os dedos perto do rosto da menina.

Nada.

Então começou a dar pequenas batidinhas com o indicador na ponta do nariz dela.

— Acorda.

Uma batidinha.

— Rebeca.

Outra.

— Vamos.

A menina finalmente piscou.

Abriu os olhos.

Olhou para Miriam.

— Oi, tia Miriam.

Miriam sorriu.

— Oi, Rebeca. Hora de ir para casa.

Rebeca piscou algumas vezes.

Parecia estar processando a informação.

— Casa...

— Isso. Pega suas coisas e vai me esperar no carro.

A menina assentiu.

Levantou-se.

Ou tentou.

Ficou alguns segundos parada, equilibrando-se.

Então percebeu que ainda estava enrolada no cobertor.

Ajeitou-o ao redor do corpo.

Miriam observou, pronta para segurá-la caso fosse necessário.

A menina começou a andar.

Passos lentos.

Pesados.

Arrastados.

Rebeca saiu da sala de descanso levando apenas o cobertor.

Miriam ficou olhando para a porta por alguns segundos.

Depois olhou para Luma.

— Eu mereço isso.

Voltou para a sala.

A mochila de Rebeca estava no chão, aberta.

Miriam suspirou e começou a organizar as coisas.

Pegou as pastas que seriam usadas na aula de violão e guardou dentro da mochila.

Fechou o zíper.

Colocou a mochila nas costas.

Depois pegou a própria bolsa.

Os tênis de Rebeca.

E o violão.

Luma observava tudo.

Tentava, com todas as forças, não rir.

— Doutora...

Miriam olhou para ela.

— Eu realmente mereço isso.

Luma perdeu a batalha.

Soltou uma gargalhada.

— Eu ajudo.

Pegou o violão das mãos de Miriam.

As duas saíram da clínica.

Quando chegaram à rua, encontraram Rebeca encostada no carro.

Esperando.

Ainda enrolada no cobertor.

Miriam olhou para ela.

Depois para Luma.

— Pelo menos uma coisa ela conseguiu fazer.

Destravou as portas.

Rebeca abriu a porta traseira e entrou.

Sentou-se.

Miriam e Luma guardaram as coisas no porta-malas.

Quando fecharam, Luma olhou para dentro do carro.

— Olha lá...

Miriam se aproximou.

Rebeca havia conseguido colocar o cinto de segurança.

Miriam sorriu.

— Ótimo.

Fechou a porta.

— Ainda existe salvação pra ela.

Luma riu.

— Talvez.

Miriam entrou no carro.

Antes de ligar o motor, olhou pelo retrovisor.

Rebeca já estava com os olhos fechados.

— Não dorme ainda.

A menina abriu um olho.

— Não tô dormindo.

Miriam balançou a cabeça.

Ligou o carro.

— Claro que não.

Miriam dirigiu em direção a casa.

Rebeca dormia no banco de trás.

Ou melhor, estava em algum lugar entre o sono e a inconsciência.

A cabeça encostada no banco.

O cobertor enrolado ao redor do corpo.

Os olhos fechados.

A cidade passava do lado de fora sem que ela percebesse.

Até que Miriam mudou o trajeto.

Rebeca não notou.

Continuou dormindo.

Só percebeu alguma coisa quando seu nariz captou o cheiro.

Um cheiro quente.

Bastante característico.

E extremamente apetitoso.

Ela franziu o nariz.

Piscou.

Mais uma vez.

Abriu os olhos.

Demorou alguns segundos para entender onde estava.

Miriam a observava pelo retrovisor.

— Bem-vinda de volta.

Rebeca se ajeitou no banco.

— O que aconteceu?

Miriam voltou os olhos para a rua.

— Coisas demais para serem discutidas agora.

Rebeca bocejou.

Depois se espreguiçou, levantando os braços o máximo que o cinto permitia.

Foi então que percebeu o cheiro novamente.

Olhou pela janela.

Depois para Miriam.

Miriam estacionou.

Desligou o carro.

Abriu a porta e se preparou para sair.

— Vamos.

Rebeca continuou sentada.

— Espera.

Miriam olhou para trás.

— O quê?

Rebeca passou a mão pelo cabelo.

Olhou para o próprio reflexo no vidro.

Depois para Miriam.

— Eu estou bonita?

Miriam fechou os olhos por um segundo.

Respirou fundo.

Fez o possível para não perder a paciência.

— Tão bonita quanto pode estar uma pessoa que deixou de dormir na hora certa para cochilar a tarde inteira.

Rebeca fez uma pequena careta.

— Então estou bonita.

Miriam abriu a porta.

— Desce.

Rebeca saiu do carro ainda enrolada no cobertor.

E seguiu Miriam em direção ao cheiro que havia conseguido, finalmente, tirá-la do mundo dos sonhos.

Miriam abriu o porta-malas e pegou os tênis de Rebeca.

Entregou para a menina.

— Coloca isso.

Rebeca olhou para os próprios pés descalços.

— Ah.

Sentou-se no banco do carro por alguns segundos e calçou os tênis.

Depois acompanhou Miriam.

As duas entraram em uma pizzaria.

Miriam foi direto para a área de delivery.

Rebeca olhou para o balcão.

Depois para Miriam.

— Pode ser de quatro queijos?

— Pode.

— E com borda recheada?

— Sim.

Rebeca pensou um pouco.

— Refrigerante?

— Também.

A menina ficou em silêncio por alguns segundos.

Então perguntou:

— Está zangada comigo?

Miriam olhou para ela.

— Não.

Rebeca pareceu aliviada.

Miriam completou:

— Estou zangada comigo.

Rebeca franziu a testa.

— Por quê?

Miriam respirou fundo.

— Eu estou estragando você.

Rebeca piscou.

Uma vez.

Duas.

— Como assim?

Miriam olhou para a menina.

Viu a expressão completamente confusa.

Suspirou.

— Melhor deixar para lá.

— Mas...

— É uma conversa que eu vou reservar para o meu terapeuta.

Rebeca ficou olhando para ela.

— Você acha que está me estragando?

Miriam desviou os olhos.

— Faz o favor de não analisar minha vida enquanto eu estou tentando pedir uma pizza.

Rebeca fez uma careta.

— Tá.

Miriam fez o pedido.

Depois as duas se sentaram para esperar.

Rebeca ficou olhando para o balcão.

Depois para Miriam.

Depois para o balcão novamente.

— Tia?

— Hm?

— Ainda está zangada?

— Não.

— Tem certeza?

Miriam olhou para ela.

— Absoluta.

Rebeca assentiu.

Alguns segundos depois, perguntou:

— A borda vai ser de catupiry?

Miriam sorriu.

— Vai.

Rebeca se acomodou na cadeira.

— Então está tudo bem.

Miriam riu.

— Claro que está.

Na volta para casa, Rebeca parecia outra pessoa.

Estava sentada no banco de trás, segurando as três caixas de pizza de sabores diferentes com o maior cuidado do mundo.

E falando.

Muito.

Miriam percebeu que a menina havia captado pelo menos parte do que Helba havia contado sobre a oficina de guache.

E estava particularmente revoltada.

— Isso é uma injustiça.

— Total — concordou Rebeca. — A Janis e eu tínhamos decidido ir ao cinema.

— E que filme vocês iam assistir?

Rebeca pensou.

— A gente ia decidir na hora.

Miriam assentiu.

— Claro.

Rebeca continuou falando sobre a oficina.

Sobre o fato de que ninguém tinha perguntado se elas queriam fazer uma oficina de guache.

Sobre como o cinema tinha sido planejado.

Sobre como Helba simplesmente decidiu tudo.

Miriam ouviu em silêncio por alguns segundos.

Então perguntou:

— A única coisa que estava certa é que vocês duas iam usar aquelas poltronas reservadas para casais de namorados, certo?

O silêncio foi imediato.

Rebeca ficou vermelha.

Da raiz dos cabelos até o pescoço.

— É claro que não.

Miriam olhou para ela pelo retrovisor.

Rebeca desviou o olhar para a janela.

Ficou em silêncio.

Miriam sorriu.

— Esse é o tipo de conversa que fica reservada para o terapeuta, certo?

Rebeca continuou olhando para fora.

— Sim...

Uma pausa.

— Quando eu tiver um.

Miriam mordeu o canto da boca para não rir.

— Justo.

As duas chegaram em casa antes de Augusto e Júnior.

Rebeca foi direto para o quarto.

Tomou um banho rápido, vestiu um pijama confortável e desceu as escadas quase correndo.

Augusto abriu a porta da frente justamente quando ela alcançava os últimos degraus.

Ele parou.

Olhou para a menina.

Depois para a escada.

— Seu quarto está pegando fogo?

Rebeca parou.

— Não.

— Ah, tá.

Augusto entrou.

— Você estava descendo tão rápido que eu pensei que estivesse fugindo do fogo.

Rebeca fez uma careta.

— Eu só estou com fome.

— Isso explica muita coisa.

Miriam já havia tomado banho também e estava terminando de arrumar a mesa.

Pouco depois, Augusto se juntou a elas.

Os três começaram a jantar.

Júnior chegou alguns minutos depois.

Estava cansado por causa de um ensaio de balé e deixou a mochila perto da porta antes de se sentar.

O jantar transcorreu tranquilamente.

Até que, assim que terminaram, Miriam se levantou.

— Vocês dois lavam a louça.

Júnior deixou a cabeça cair para trás.

— Eu estou exausto.

Rebeca concordou imediatamente.

— Eu também.

Miriam olhou para ela.

— Se eu não tivesse te acordado, você ainda estaria dormindo no beliche da clínica.

Júnior ergueu a cabeça.

— Ela dormiu?

Rebeca respondeu depressa:

— Não.

Miriam virou-se para ela.

— Rebeca...

A menina corrigiu:

— Um pouco.

Júnior olhou para ela.

— Um pouco quanto?

Rebeca pensou.

— Não tanto quanto eu gostaria.

Miriam cruzou os braços.

— Sou obrigada a concordar.

Júnior começou a rir.

— Você passou o dia inteiro dormindo!

— Não passei.

— Passou sim.

— Eu tive aula.

— Dormindo?

Rebeca apontou para ele.

— Não começa.

Júnior riu ainda mais.

Miriam pegou os pratos.

— Chega de conversa. Os dois.

Júnior levantou-se com um suspiro dramático.

Rebeca fez o mesmo.

Os dois começaram a recolher os pratos.

Augusto ficou sentado, observando a cena.

— Vocês parecem dois velhos reclamando da vida.

Júnior respondeu:

— Eu ensaiei balé a tarde inteira.

Rebeca completou:

— Eu tive aula.

Miriam olhou para os dois.

— E eu trabalhei.

Silêncio.

Júnior pegou uma pilha de pratos.

— Tá bom.

Rebeca pegou os copos.

— Tá bom.

Augusto sorriu.

— Boa noite para vocês também.

— Não acabou ainda — disse Miriam.

Os dois desapareceram na cozinha.

Augusto olhou para Miriam.

— Você está cansada?

Ela soltou o ar.

— Muito.

— E ela?

Miriam olhou para a cozinha.

Um barulho de copo quase caindo veio de lá.

Miriam fechou os olhos.

— Acho que ela ainda vai aprontar.

Os dois dividiram a tarefa.

Júnior lavava a louça.

Rebeca secava e guardava tudo.

Era um acordo simples.

E, pela primeira vez naquela noite, funcionava sem discussão.

Até que Júnior encontrou um pequeno pote escondido atrás da caixa de pão.

Ele puxou.

Abriu.

Biscoitos.

Os biscoitos.

Júnior sabia muito bem que eram para Janis.

Também sabia que Rebeca provavelmente o mataria se descobrisse que ele havia comido algum.

Mas a vontade de implicar com ela era maior do que o bom senso.

Pegou um.

Mordeu.

Toc.

Rebeca virou imediatamente.

— Seu menino chato!

Júnior parou com o biscoito ainda na boca.

Rebeca atravessou a cozinha, tomou o pote das mãos dele e colocou de volta no lugar.

— Eu já falei que esses biscoitos são da Janis!

— Eu sei.

— Então por que você pegou?

— Porque...

— Não interessa!

Rebeca começou um sermão.

Explicou que ela havia feito os biscoitos para Janis.

Que tinha passado horas fazendo aquilo.

Que eram especiais.

Que ele não podia simplesmente pegar as coisas dos outros.

Que, se quisesse biscoito, havia outros na cozinha.

Júnior ficou parado diante dela.

Quieto.

Olhos arregalados.

Rebeca apontou para ele.

— Você entendeu?

Nada.

— Entendeu?

Júnior continuou imóvel.

— Júnior?

Ele passou a língua cuidadosamente pelo lado de dentro da boca.

— Acho que o seu biscoito quebrou meu dente.

Rebeca revirou os olhos.

— Ah, para.

— É sério.

— Você está brincando comigo.

— Não estou.

— Júnior...

— Se não acredita em mim...

Ele abriu a boca.

— Dá uma olhada.

Rebeca ficou alguns segundos encarando-o.

Depois pegou o pote.

Abriu.

— Não é possível.

Escolheu um dos biscoitos.

Olhou para ele.

Depois para Júnior.

— Você está dizendo que isso...

— Estou.

Rebeca mordeu.

Toc.

Ela congelou.

Os olhos se arregalaram.

O grito ecoou pela cozinha.

E pela sala.

E provavelmente por toda a casa.

Miriam levantou-se imediatamente.

— O que aconteceu?

Rebeca virou-se imediatamente.

Ainda segurava o pedaço do biscoito.

— Eu tenho que ir na Janis.

Miriam piscou.

— O quê?

— Agora!

— Rebeca...

— Eu preciso ir.

Júnior levantou uma mão.

— Tecnicamente, ela tem um motivo.

Miriam olhou para ele.

— Você não ajuda.

Júnior apontou para o pote.

— Os biscoitos estão ficando duros.

Rebeca se apressou:

— Eles eram para a Janis!

— Eu sei — disse Miriam.

— Eu fiz para ela.

— Eu sei.

— E agora eles estão...

Rebeca olhou para o biscoito.

— ...estragando.

Júnior completou:

— Principalmente depois que um deles tentou assassinar meu dente.

— Júnior!

— O quê? É verdade.

Miriam pegou o pote e olhou para os biscoitos.

— Rebeca, nós não vamos invadir a casa da dona Maria Helena em uma sexta à noite para entregar biscoitos.

— Mas...

— Não.

— Por favor.

— Você pode entregar amanhã.

Rebeca olhou para o pote.

— Mas amanhã eles vão estar ainda mais duros.

Júnior assentiu solenemente.

— A essa altura, talvez seja melhor levar uma furadeira.

Rebeca lançou um olhar mortal para ele.

— Não tem graça.

— Eu estou tentando ajudar.

Miriam colocou o pote sobre a bancada.

— Vamos fazer o seguinte: amanhã vocês levam os biscoitos e, se estiverem realmente impossíveis de comer, vocês jogam fora.

Rebeca pareceu horrorizada.

— Jogar fora?

— Sim.

— Mas eu fiz para a Janis.

Miriam suavizou a expressão.

— Eu sei.

Rebeca ficou olhando para ela.

— Por favor...

Miriam respirou fundo.

— Não.

Era uma tentativa.

Uma tentativa triste, mas ainda assim uma tentativa de impor limites.

Rebeca ficou olhando para ela.

— Por favor...

— Não.

— Por favor...

— Rebeca.

— Por favor...

A menina deu um pequeno pulo.

— Por favor...

Outro pulo.

— Por favor...

Mais um.

Miriam levou as duas mãos às têmporas.

Não sabia se ria ou se chorava.

Júnior observava a cena.

— Mulher...

Miriam fechou os olhos.

— Não.

— Tenha coração.

Miriam abriu os olhos.

Olhou para Júnior.

Depois para Rebeca.

A menina continuava ali.

Olhos enormes.

Mãos juntas.

Pronta para dizer “por favor” mais umas cinquenta vezes.

Miriam desistiu.

Pegou o celular.

— Está bem.

Rebeca parou de pular.

Miriam procurou o número de Maria Helena.

Chamou.

— Alô?

— Dona Maria Helena? Desculpe o horário.

Rebeca ficou imóvel.

— É a Miriam.

Júnior já estava sorrindo.

— A Rebeca tem uma surpresa para a Janis.

Rebeca abriu um sorriso enorme.

Miriam continuou:

— Eu sei que está tarde, mas...

Fez uma pausa.

Ouviu a resposta do outro lado.

— Certo.

Mais uma pausa.

— Sim.

Olhou para Rebeca.

— Então está combinado.

Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Rebeca disparou para a escada.

— Rebeca!

Tarde demais.

Miriam desligou o telefone.

Júnior começou a rir.

— Você acabou de perder completamente o controle da situação.

— Eu sei.

Poucos minutos depois, passos apressados ecoaram pela escada.

Miriam levantou os olhos.

Rebeca apareceu.

Era praticamente outra pessoa.

Ainda estava de pijama. Mas...

O cabelo estava escovado.

Os tênis estavam calçados.

Havia maquiagem no rosto.

E uma mochila enorme estava pendurada nas costas.

Miriam ficou olhando.

A manga de uma blusa escapava pelo zíper e balançava junto com os passos apressados da menina.

— O que tem nessa mochila?

— Roupas.

— Para quê?

Rebeca congelou.

Ficou parada no último degrau.

Olhou para Miriam.

Depois para a mochila.

Abriu a boca.

— Eu pensei que...

Parou.

Não conseguiu terminar.

Miriam esperou.

Rebeca continuou olhando para ela.

Foi Júnior quem decidiu ajudar.

— Veja a coisa dessa forma.

Ele apontou para Rebeca.

— É como se a senhora estivesse levando um Kinder Ovo pra Janis.

Miriam fechou os olhos.

Júnior continuou:

— Os biscoitos são o chocolate...

Apontou novamente para Rebeca.

— ...e a Rebeca é a surpresa.

Silêncio.

Miriam abriu os olhos.

Olhou para Júnior.

— Vá para o seu quarto, Júnior.

— Eu só queria ajudar.

— Eu sei que sim.

Júnior deu de ombros.

— De nada.

Virou-se e subiu as escadas.

Rebeca ainda estava parada.

Miriam olhou para ela.

Para o pijama.

Para a mochila.

Para o pote de biscoitos.

Depois suspirou.

— Vamos.

Rebeca abriu um sorriso.

— Posso ir assim?

Miriam olhou novamente para o pijama.

— Pode.

A menina ajeitou a mochila nas costas.

— Sério?

— Sério.

Miriam pegou as chaves.

— Mas você vai assim porque eu não estou disposta a discutir.

Rebeca sorriu.

— Tá.

Ela pegou o pote de biscoitos.

Miriam abriu a porta.

E, apesar de contrariada com toda aquela história, permitiu que Rebeca saísse de casa de pijama, tênis nos pés, uma mochila carregando praticamente o mundo inteiro nas costas e um pote de biscoitos duros nas mãos.

Miriam fechou a porta atrás delas.

Ficou alguns segundos em silêncio.

— Eu realmente mereço isso.

Do lado de fora, Rebeca já estava entrando no carro.

No caminho, Miriam decidiu estabelecer algumas regras.

— Você não vai dormir lá se a dona Maria Helena não te convidar.

— Tá.

— E vai dormir na hora que mandarem você para a cama.

— Tá.

— Nada de fugir do colchão para ler ou ficar no celular.

— Tá...

Miriam lançou um olhar pelo retrovisor.

Rebeca estava olhando pela janela.

— Você está realmente concordando comigo ou só está respondendo o que eu quero ouvir?

Rebeca ficou em silêncio.

Alguns segundos.

Mais alguns.

Então olhou para o céu pela janela.

— A Lua está bonita.

Miriam virou os olhos para o retrovisor.

— Rebeca!

A menina sorriu.

— Prometo que vou me comportar.

Miriam suspirou.

— É bom mesmo.

Quando chegaram à casa de dona Maria Helena, Janis já estava esperando na calçada.

Assim que o carro parou, ela abriu a porta antes mesmo de Miriam desligar o motor.

— Vem!

Pegou Rebeca pela mão e a puxou para fora.

— Janis!

As duas já estavam indo em direção à casa.

Miriam saiu do carro.

— Meninas...

Nenhuma das duas parou.

Miriam ficou olhando.

— Aff...

Nesse momento, dona Maria Helena saiu pela porta.

— Boa noite.

Miriam respirou fundo e se voltou para ela.

— Boa noite. Desculpe pela invasão.

Maria Helena deu de ombros.

— Pare com isso.

Miriam sorriu.

— É que está tarde...

— Vocês já são de casa.

Miriam relaxou um pouco.

Maria Helena olhou para o carro.

Depois para o pote de biscoitos nas mãos de Rebeca, já desaparecendo pela porta.

— E... falando nisso...

Ela voltou os olhos para Miriam.

— Que tal um café?

Miriam sorriu.

— Seria ótimo.

Maria Helena abriu espaço para que ela entrasse.

— Então venha.

Miriam pegou a própria bolsa no carro.

Antes de fechar a porta, ainda olhou para a casa.

As duas meninas já tinham desaparecido lá dentro.

— Pelo menos ela chegou inteira.

Maria Helena riu.

— Isso já é uma vitória.

Miriam fechou o carro.

E entrou.

 

 

 

Fim do capítulo

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