Capítulo 87

Capitulo 87 - Tuc, Tuc, Tuc

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 87 – Tuc, Tuc, Tuc

 

O banho não havia sido suficiente para espantar o sono.

Nem a discussão com Júnior.

Dos presentes à mesa do café da manhã, ele havia sido o que mais gostara dos biscoitos.

O que, na opinião de Rebeca, era uma injustiça.

Ela havia passado a madrugada inteira fazendo aqueles biscoitos.

Eles eram para ela, Miriam, Augusto, Júnior e Janis.

Principalmente para Janis.

E Júnior estava comendo um atrás do outro.

— Deixa de ser chata — reclamou ele, de boca cheia. — Depois você faz mais.

Rebeca segurou o prato com as duas mãos.

— Esses são da Janis.

Júnior estendeu a mão.

— Tem um monte.

Rebeca afastou o prato.

— Não.

— Só mais um.

— Não.

— Um feio.

— Não.

Júnior pegou o biscoito mesmo assim.

Rebeca tentou recuperar, mas ele já havia colocado na boca.

— Júnior!

Ele mastigou tranquilamente.

Augusto observava a discussão enquanto tomava café.

— Acho difícil ela conseguir mais biscoitos.

Rebeca virou-se para ele.

Augusto tomou outro gole.

— Uma pessoa que passou a madrugada lendo não deve estar funcionando direito.

Rebeca abriu a boca para responder.

Não respondeu.

Porque, naquele instante, bocejou.

Miriam olhou para ela.

Depois para Augusto.

E percebeu que o marido tinha razão.

A menina não estava de mau humor apenas por causa dos biscoitos.

Estava exausta.

Quando chegou a hora de sair, Augusto e Júnior foram os primeiros a deixar a casa.

Rebeca ainda estava fazendo o nivelamento, então suas aulas começavam mais tarde.

Miriam a levaria para a escola.

No carro, tentou puxar conversa.

— Então... Você terminou o livro?

— Uhum.

— Gostou do final?

— Uhum.

— E os biscoitos?

— Uhum.

Miriam olhou rapidamente para ela.

— Você está ouvindo o que eu estou falando?

Rebeca virou o rosto.

— Tô.

Alguns segundos de silêncio.

— Então me responde.

Rebeca abriu os olhos.

— O quê?

Miriam soltou uma risada curta.

— Nada.

Continuou dirigindo.

Rebeca encostou a cabeça no vidro.

A paisagem passava do lado de fora.

Casas.

Lojas.

Pessoas.

Carros.

Ela tentou acompanhar.

Não conseguiu.

A cabeça começou a pender lentamente para o lado.

Tuc.

Miriam olhou.

A cabeça voltou.

Tuc.

Mais alguns segundos.

Tuc.

— Rebeca...

— Hm?

— Quer dormir?

— Não.

Tuc.

Miriam mordeu o lábio para não rir.

— Você está batendo a cabeça no vidro.

— Eu tô acordada.

Tuc.

— Estou vendo.

Quando chegaram à escola, Miriam estacionou.

Desligou o carro e ficou olhando para a menina.

Rebeca estava praticamente desabando sobre o cinto de segurança.

— Rebeca.

Nada.

— Rebeca.

A menina abriu os olhos.

— Chegamos?

— Chegamos.

Miriam pegou a carteira e tirou algumas notas.

Estendeu o dinheiro para ela.

— Toma.

Rebeca olhou para a mão da tia.

— Pra quê?

— Café.

— Eu já tomei café.

— Você precisa de outro.

Rebeca olhou para Miriam, ainda tentando entender.

— Eu não estou brava com você — explicou Miriam. — Mas, garota, você precisa funcionar minimamente hoje.

Rebeca pegou o dinheiro.

— Tá.

— Compra alguma coisa para comer também.

— Tá.

— E dê o seu melhor.

Rebeca abriu a porta do carro.

— Não prometo.

Miriam sorriu.

— Vai.

A menina entrou na escola.

Comprou o café.

Tomou.

Esperou.

Nada.

Continuava cansada.

Na primeira aula, a professora ainda tentou.

Explicou o conteúdo.

Fez algumas perguntas.

Chamou Rebeca pelo nome duas vezes antes de perceber que a menina estava olhando para a folha com a mesma expressão de quem tentava decifrar um idioma desconhecido.

— Está entendendo?

Rebeca piscou.

— Estou.

A professora ficou olhando para ela.

— Tem certeza?

— Tenho.

Não tinha.

Depois de mais alguns minutos, a professora desistiu de insistir.

— Vamos fazer assim. Vou deixar uma lista de exercícios para você resolver. Quando terminar, me entrega.

Rebeca assentiu.

Pegou o lápis.

Começou.

Ou tentou.

O problema não era exatamente não saber fazer.

Era que sua cabeça parecia estar funcionando em algum lugar muito distante dali.

Ela lia o enunciado.

Fazia as contas.

Chegava a uma resposta.

Passava para o próximo.

Depois voltava.

Lia novamente.

Fazia tudo outra vez.

Quando terminou, entregou a folha.

A professora pegou.

Começou a corrigir.

Parou no terceiro exercício.

Olhou para Rebeca.

Voltou para a folha.

Depois percebeu.

O mesmo problema aparecia três vezes.

Com três respostas diferentes.

E as três estavam erradas.

A professora apertou os lábios.

Precisou respirar fundo para não rir.

— Rebeca...

— Hm?

— Você percebeu que resolveu um dos exercícios três vezes?

Rebeca olhou para a folha.

— Resolvi?

— Três vezes.

Ela analisou as três respostas.

— Nossa.

A professora finalmente deixou escapar um sorriso.

— Pelo menos você foi persistente.

Rebeca apoiou o queixo na mão.

— Eu não lembrava de ter feito.

— Eu imaginei.

A segunda professora entrou na sala, colocou o material sobre a mesa e olhou para Rebeca.

Bastou um segundo.

Ela não precisava conhecer a história dos biscoitos.

Nem saber que a menina havia passado a madrugada lendo.

Bastava olhar para ela.

Rebeca estava sentada com os olhos semicerrados, o cabelo ligeiramente bagunçado e uma expressão de completo abandono.

A professora largou o material.

— Você está cansada.

— Não.

A professora ergueu uma sobrancelha.

— Está sim.

Rebeca não respondeu.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Dormiu pouco?

Silêncio.

— Quanto?

Rebeca pensou.

— Não sei.

A professora desistiu de descobrir.

— Certo.

Pegou o controle remoto.

— Vamos fazer diferente hoje.

Rebeca ergueu os olhos.

— Como?

— Filme.

A professora escolheu um filme relacionado ao conteúdo que estavam estudando.

Apagou as luzes.

Rebeca se ajeitou na cadeira.

Tentou assistir.

De verdade.

Os primeiros minutos passaram.

Depois seus olhos começaram a pesar.

Ela piscou.

Piscou novamente.

A cabeça caiu um pouco para frente.

Voltou.

Mais alguns minutos.

Dessa vez, não voltou.

A professora olhou para ela.

Rebeca estava dormindo.

Deixou.

Continuou assistindo ao filme.

Quando chegou ao fim, Rebeca havia acompanhado aproximadamente quinze minutos.

O restante tinha sido um borrão de cochilos.

A professora acendeu as luzes.

— Rebeca.

A menina abriu os olhos.

— Acabou?

— Acabou.

— O filme?

— O filme.

Rebeca olhou para a tela.

— O que aconteceu?

A professora riu.

— Eu também gostaria de saber o que aconteceu com você hoje.

Rebeca sorriu, ainda sonolenta.

— Eu tô bem.

A professora olhou para aquela menina que claramente não era mais nada além do chassi do grilo.

— Claro que está.

Rebeca bocejou.

— Estou.

E fechou os olhos por mais alguns segundos.

Quando as aulas do nivelamento finalmente terminaram, Rebeca marchou, da melhor maneira possível, até a sala de música.

Helba já estava esperando.

Não perguntou nada.

Apenas observou a menina entrar, tirar a mochila de qualquer maneira e praticamente deixá-la cair no chão.

Rebeca caminhou até o piano.

Sentou-se na banqueta.

Ficou olhando para as teclas.

Helba cruzou os braços.

— Hum.

Rebeca levantou os olhos.

— O quê?

— Nada.

Helba foi até a estante, escolheu uma partitura e colocou sobre o suporte do piano.

— Toque.

Rebeca respirou fundo.

Colocou as mãos sobre as teclas.

Começou.

Os primeiros compassos saíram corretamente.

Ela errou uma nota.

Corrigiu.

Continuou.

Chegou ao final da primeira folha.

Passou para a segunda.

E parou.

Franziu a testa.

Olhou para a partitura.

Depois para o piano.

Começou novamente.

Parou no segundo compasso.

Tentou mais uma vez.

Dessa vez chegou um pouco mais longe.

Parou.

— O que está acontecendo?

Helba permaneceu séria.

— Não sei.

Rebeca olhou para ela.

— Essa música...

— O quê?

— Está errada.

— Está?

— Está.

Rebeca voltou a tocar.

Mais uma vez.

Mais outra.

A cada tentativa, a sensação de que alguma coisa estava profundamente errada aumentava.

A melodia da primeira página parecia fazer sentido.

A segunda, não.

Era como se alguém tivesse trocado a música no meio.

Rebeca virou a página.

Olhou para o verso.

Depois para a primeira.

— Eu estou fazendo alguma coisa errada?

Helba finalmente sorriu.

— Não.

— Então por que parece outra música?

Helba apontou para as folhas.

— Simples. As folhas pertencem a peças diferentes.

Rebeca olhou para as partituras.

Depois para Helba.

— Por quê?

Helba deu de ombros.

— Eu não queria perder a oportunidade de me divertir um pouco.

Rebeca ficou encarando a professora.

Helba tentou manter a expressão séria.

Não conseguiu.

Começou a rir.

Rebeca soltou um suspiro e deixou a cabeça cair sobre o piano.

— Eu te odeio.

— Não odeia.

— Hoje eu odeio.

— De acordo.

Rebeca levantou a cabeça.

— Eu estou muito cansada.

— Eu percebi.

— Minha cabeça não está funcionando.

— Eu também percebi.

Helba fechou a partitura.

— Então hoje não vamos exigir que ela funcione muito.

Rebeca apoiou o queixo nas mãos.

— Graças a Deus.

Helba pegou outra partitura.

Dessa vez, conferiu cuidadosamente se todas as páginas pertenciam à mesma peça.

— Vamos fazer alguma coisa mais simples.

Rebeca olhou para ela com desconfiança.

— Você promete que não vai trocar as folhas?

Helba sorriu.

— Prometo.

— Tá.

Rebeca colocou as mãos sobre as teclas.

E, pela primeira vez naquela manhã, parecia existir uma chance real de que aquela aula terminasse sem nenhum outro desastre.

Quando a aula terminou, Helba guardou as partituras e voltou para a escrivaninha.

Abriu a gaveta.

Tirou um folheto.

— Rebeca.

A menina, que já estava colocando as coisas na mochila, ergueu os olhos.

— Hm?

Helba estendeu o papel.

— Você e Janis têm planos para amanhã à tarde?

Rebeca pegou a mochila.

— Vamos ao cinema.

— Não vão mais.

Rebeca parou.

— Como assim?

Helba estendeu o folheto.

— Você e Janis estão inscritas em uma oficina de guache.

Rebeca olhou para o papel.

Depois para Helba.

— Guache?

— Uhum.

— Mas... guache é coisa de criança.

Helba ergueu uma sobrancelha.

— Não julgue tão apressadamente.

Rebeca voltou a olhar para o folheto.

Havia data, horário, endereço e o nome do ateliê.

— Tenho certeza de que vocês duas vão se divertir muito.

Rebeca fez um muxoxo.

— A gente ia ao cinema.

— O cinema não vai fugir.

— Mas o filme vai.

— Então vocês assistem outro dia.

Rebeca suspirou.

Dobrou cuidadosamente o folheto e guardou dentro da mochila.

Helba sorriu.

— Vocês podem adiar o cinema. É por uma boa causa.

— Que causa?

— Guache.

Rebeca revirou os olhos.

— Isso não é uma causa.

— Para mim é.

Rebeca balançou a cabeça.

As duas almoçaram juntas antes de se despedirem.

Rebeca comeu mais do que esperava, embora estivesse tão cansada que parecia precisar fazer um esforço consciente para lembrar de mastigar.

Depois pegou a mochila.

— Tchau, professora Helba.

— Tchau, querida.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

Rebeca caminhou até a portaria da escola e ficou esperando pelo transporte da tia Lígia.

Quando o carro chegou, ela entrou, cumprimentou a motorista e se acomodou no banco.

Lígia olhou para ela pelo retrovisor.

— Tudo bem?

— Uhum.

— Você está com uma cara...

Rebeca fechou os olhos.

— Eu estou bem.

Lígia não pareceu convencida.

Começou a dirigir.

Poucos minutos depois:

Tuc.

A cabeça de Rebeca havia batido no vidro.

A menina abriu os olhos.

— Ai.

— Quer deitar?

— Não.

Tuc.

Lígia suspirou.

— Rebeca...

— Eu estou acordada.

Tuc.

— Claro.

E, pelo resto do caminho, o som continuou.

Tuc.

Pausa.

Tuc.

Pausa.

Tuc.

Até chegarem à clínica.

Quando o carro parou, Rebeca abriu os olhos com dificuldade.

Desceu.

Ou tentou.

Na prática, saiu do carro se arrastando.

Lígia ficou olhando.

— Boa sorte.

Rebeca levantou uma mão, sem se virar.

— Obrigada.

E entrou na clínica.

Naquela tarde, Rebeca tinha aula de violão.

Ou deveria ter.

Assim que atravessou a recepção da clínica, Luma levantou os olhos do balcão e se assustou.

Rebeca caminhava em direção à área de descanso com a mochila pendurada em um ombro e os olhos semicerrados.

Parecia um zumbi.

Um zumbi particularmente cansado.

— Rebeca?

A menina parou.

Virou-se lentamente.

— Hm?

Luma franziu a testa.

— Está tudo bem?

Rebeca respondeu alguma coisa.

Luma não entendeu uma única palavra.

— O quê?

A menina já estava andando novamente.

— Nada...

E desapareceu na área de descanso.

Luma ficou olhando.

— Certo...

Quando Miriam finalmente apareceu, vinha acompanhada de um paciente e da mãe dele.

Terminou de conversar com os dois na recepção e os acompanhou até a porta.

Assim que eles foram embora, Luma se aproximou.

— Doutora.

— Oi?

Luma falou mais baixo.

— É melhor dar uma olhada na Rebeca.

Miriam franziu a testa.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não sei.

Luma fez uma pausa.

— Ela chegou parecendo que tinha acabado de atravessar o deserto a pé.

Miriam suspirou.

— Eu imagino por quê.

— Você sabe?

— Tenho uma ideia.

Miriam terminou o que precisava fazer e, alguns minutos depois, foi até a área de descanso.

— Rebeca?

Nenhuma resposta.

Ela entrou.

A menina estava largada na parte de baixo do beliche.

Deitada de lado.

A mochila estava no chão.

Os braços estavam soltos ao redor do corpo.

Miriam se aproximou.

— Rebeca?

Nada.

Abaixou-se ao lado da cama.

— Rebeca.

A menina se mexeu um pouco.

Miriam tocou delicadamente seu ombro.

— Rebeca, você tem aula de violão.

Um pequeno ronco respondeu.

Miriam ficou imóvel por um instante.

Depois sorriu.

— Eu mereço isso.

Não tentou acordá-la novamente.

Tirou cuidadosamente os sapatos da menina e os colocou ao lado da cama.

Depois ajeitou Rebeca no colchão.

Pegou o cobertor que estava na cama de cima e o puxou para baixo, cobrindo a menina até os ombros.

Rebeca soltou outro suspiro sonolento.

Miriam afastou uma mecha de cabelo do rosto dela.

— Dorme.

Levantou-se.

Antes de sair, olhou mais uma vez para a menina.

A aula de violão poderia esperar.

Naquele momento, Rebeca precisava muito mais de algumas horas de sono.

 

 

Fim do capítulo

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