Capítulo 86

Capitulo 86 - Marcas pelo caminho.

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 86 – Marcas pelo caminho.

 

Miriam deixou a cozinha organizada antes de subir. Conferiu se a porta dos fundos estava trancada, passou pela sala apagando as luzes e verificou as janelas uma por uma. Só então começou a subir as escadas.

Quando passou em frente ao quarto de Rebeca, parou.

A menina estava sentada em cima do skate, no meio do quarto, cercada pelos livros que Helba havia lhe dado. Alguns estavam abertos, outros empilhados de qualquer jeito ao lado dela. Rebeca segurava um deles no colo, mas seus olhos já não pareciam muito interessados na leitura.

Ela piscava devagar, lutando bravamente contra o sono.

Miriam encostou-se ao batente da porta.

— O que você está fazendo, menina?

Rebeca ergueu os olhos.

— Nada.

Miriam olhou para o relógio.

— Nada em cima de um skate, à meia-noite?

— Eu só estava...

A frase terminou num resmungo incompreensível.

Miriam cruzou os braços.

— Já pra cama. Você tem aula amanhã.

Rebeca fez uma careta, mas não discutiu. Desceu do skate, arrastou os pés até a cama e praticamente escalou o colchão.

Miriam entrou no quarto.

Pegou o skate pelo eixo, colocou-o em pé e o encostou cuidadosamente na parede. Depois começou a recolher os livros espalhados pelo chão. Um por um, foi colocando-os sobre a escrivaninha.

Quando terminou, olhou para a cama.

Rebeca já estava toda enrolada na coberta.

Só a cabeça aparecia.

Os olhos ainda estavam abertos.

Miriam soltou uma risadinha.

— Você ainda está acordada?

— Tô.

— Está mesmo?

— Tô...

A resposta saiu tão arrastada que Miriam nem precisou perguntar outra vez.

Sentou-se na beirada da cama.

Rebeca se ajeitou um pouco mais para perto dela.

Miriam passou os dedos delicadamente pela testa da menina e começou a acariciar o espaço entre as sobrancelhas, num movimento lento e repetido.

Rebeca fechou os olhos.

Por alguns segundos, não disse nada.

Então abriu um deles.

— De novo?

Miriam sorriu.

— Sempre que for necessário.

Os dedos continuaram se movendo devagar.

Rebeca fechou os olhos outra vez.

A respiração foi ficando mais tranquila.

— Eu queria que fosse final de semana pra sempre...

Miriam continuou fazendo carinho.

— É mesmo?

— Uhum.

— E o que você faria se fosse final de semana todos os dias?

Rebeca demorou alguns segundos para responder.

— Eu poderia ficar com a Janis todos os dias...

Miriam sorriu, mas não disse nada.

Rebeca já falava cada vez mais devagar.

— Eu comeria pudim da vó todos os dias...

Uma pequena pausa.

— Andaria de skate...

Outra pausa.

— Iria ao cinema...

A voz ficou quase um sussurro.

— E...

Miriam esperou.

— E...

Não veio mais nada.

Ela olhou para Rebeca.

A menina havia adormecido.

Miriam continuou ali por alguns minutos, mantendo a mão sobre a testa dela, até ter certeza de que estava completamente entregue ao sono.

Só então se levantou.

Foi até o banheiro, abriu o armário e pegou a placa de bruxismo.

Voltou para o quarto e sentou-se novamente na beirada da cama.

Com cuidado, levantou um pouco o rosto de Rebeca e encaixou a placa em seus dentes.

A menina resmungou alguma coisa, fez uma careta e virou-se de lado, puxando a coberta até o queixo.

— Pronto — murmurou Miriam.

Uma mecha de cabelo havia caído sobre o rosto de Rebeca.

Miriam afastou-a delicadamente, colocando-a atrás da orelha da menina.

Ficou mais alguns segundos olhando para ela.

Então apagou a luz, fechou a porta apenas o suficiente para deixar uma pequena fresta e foi para o próprio quarto.

***

Janis também deveria estar dormindo.

Estava sentada no chão do quarto, cercada pelas revistas em quadrinhos que tinha acumulado ao longo dos anos.

Algumas estavam abertas. Outras, empilhadas umas sobre as outras. Havia uma revista debaixo da cama, outra perto da mochila e uma terceira apoiada na parede, como se tivesse sido abandonada no meio de alguma coisa.

Janis pegou uma delas.

Abriu em qualquer página.

Não começou a ler.

Ficou olhando.

Passou os olhos pelos desenhos, demorando-se nos rostos, nas roupas, nos cenários. Observou como as sombras mudavam a expressão de um personagem. Como algumas linhas eram mais grossas e outras quase desapareciam. Como um simples risco podia fazer alguém parecer irritado, assustado ou cansado.

Virou a página.

Continuou olhando.

Ela gostava daquelas coisas.

Gostava de desenhar.

Gostava de olhar desenhos.

Gostava de quadrinhos.

Gostava de ficar tentando descobrir como alguém tinha conseguido fazer determinada imagem parecer tão viva.

Nunca tinha parado para pensar muito no motivo.

Era simplesmente uma coisa que fazia.

Uma coisa que gostava.

Uma coisa que sempre esteve ali.

Janis largou a revista no chão e pegou outra.

Depois de alguns minutos, esticou o braço até a escrivaninha e alcançou o livro que Helba havia lhe dado.

Frankenstein.

Ela ainda não tinha começado a leitura de verdade.

Abriu o livro sem muita pressa, folheando as páginas, deixando os olhos passarem pelas palavras sem se preocupar em acompanhá-las.

Até que parou.

Uma ilustração.

Janis voltou algumas páginas.

Depois, novamente para a imagem.

Ficou olhando.

Havia alguma coisa naquela ilustração que a prendia.

Ela aproximou o livro do rosto.

Observou os detalhes.

As linhas.

As sombras.

A maneira como o desenhista havia escolhido mostrar a criatura.

Pensou em quanto tempo alguém deveria ter levado para fazer aquilo.

Quantas vezes havia apagado.

Quantas vezes havia tentado de novo.

Como decidira que aquela sombra ficaria daquele jeito e não de outro.

Janis ficou alguns segundos em silêncio.

Então uma ideia pequena apareceu.

Tão pequena que quase não parecia uma ideia.

E se...

Ela franziu a testa.

Olhou novamente para a ilustração.

E se alguém pudesse viver fazendo aquilo?

Ela nunca tinha pensado nisso.

Desenhar era uma coisa que ela gostava de fazer.

Quadrinhos eram coisas que ela gostava de comprar e ler.

Ilustrações eram coisas que ela gostava de olhar.

Mas alguém tinha desenhado aquela página.

Alguém tinha feito aquelas imagens.

Alguém tinha passado horas trabalhando nelas.

E, em algum lugar, alguém estava sendo pago por isso.

Janis olhou para as próprias mãos.

Pegou um lápis que estava sobre a escrivaninha.

Girou-o entre os dedos.

E se eu pudesse fazer isso?

O pensamento pareceu estranho.

Não impossível.

Só... estranho.

Como se ela tivesse acabado de descobrir uma porta que sempre esteve ali, mas que nunca tinha percebido.

Janis sorriu sozinha.

Não sabia se seria boa o bastante.

Não sabia como alguém fazia aquilo.

Não sabia nem se era possível ganhar dinheiro desenhando as coisas que gostava.

Mas o pensamento continuou ali.

E se?

— Janis!

Ela levou um pequeno susto.

Maria Helena estava parada na porta.

— Que foi?

— Já passou da hora de dormir.

Janis olhou para o relógio.

— Nossa...

— Você está aí há quanto tempo?

— Não sei.

A avó olhou para as revistas espalhadas pelo chão.

— Estava lendo?

Janis olhou para o livro aberto nas mãos.

Depois para a ilustração.

— Mais ou menos.

Maria Helena balançou a cabeça, já acostumada.

— Então termine esse "mais ou menos" amanhã. Agora, cama.

Janis fechou o livro.

— Tá bom.

Maria Helena saiu.

Janis ficou mais um instante sentada no chão.

Olhou para o Frankenstein.

Depois para o lápis em sua mão.

E sorriu outra vez.

Talvez fosse só uma ideia boba.

Talvez amanhã nem lembrasse dela.

Mas, pela primeira vez, Janis se permitiu pensar:

E se não fosse?

Quando o dia amanheceu, a sensação não tinha passado.

O pensamento continuava ali.

Quieto.

Janis acordou, tomou café da manhã, pegou a mochila e saiu para a escola como fazia todos os dias.

Mas alguma coisa estava diferente.

No caminho, ela começou a reparar nas coisas.

Não porque nunca tivesse visto aquilo antes.

Ela simplesmente nunca tinha olhado daquele jeito.

Um muro grafitado chamou sua atenção.

Janis diminuiu o passo.

Havia um desenho enorme ocupando boa parte da parede. As cores se misturavam, algumas linhas eram mais delicadas, outras mais marcadas. Ela ficou alguns segundos observando antes de continuar.

Mais adiante, passou por uma loja ainda fechada.

A fachada tinha um letreiro desenhado à mão. As letras tinham formatos diferentes, pequenas imperfeições que faziam com que parecessem mais vivas.

Janis olhou para a vitrine.

Depois para a fachada.

Alguém fez isso.

Continuou andando.

Num poste, havia vários anúncios sobrepostos.

Cursos.

Shows.

Serviços.

Aulas particulares.

Um anúncio escondia parte do outro, e as bordas dos papéis estavam começando a se soltar.

Janis parou novamente.

Não era bonito.

Não exatamente.

Mas alguém tinha escolhido uma fonte.

Uma imagem.

Um tamanho.

Uma disposição.

Alguém tinha pensado naquilo.

No ponto de ônibus, havia um cartaz grande.

Janis ficou olhando enquanto esperava.

Talvez fosse isso que estivesse acontecendo.

Talvez ela sempre tivesse passado por aquelas coisas sem perceber.

Um desenho numa parede.

Uma placa.

Um cartaz.

Uma capa de revista.

Uma história em quadrinhos.

Uma ilustração.

Tudo aquilo tinha sido feito por alguém.

E, de repente, aquele "alguém" deixou de parecer tão distante.

Janis apertou a alça da mochila.

E se eu pudesse?

Não sabia exatamente o que faria.

Não sabia se desenharia quadrinhos, ilustrações, cartazes ou qualquer outra coisa.

Não sabia sequer se seria boa o bastante.

Mas talvez não fosse necessário saber ainda.

Talvez bastasse descobrir que aquilo existia.

Que havia pessoas que passavam o dia desenhando.

Criando.

Inventando imagens.

Fazendo aquilo que gostavam.

E vivendo disso.

Janis voltou a andar.

O caminho até a escola era o mesmo de sempre.

Mas, naquela manhã, parecia cheio de possibilidades.

E a pergunta continuava acompanhando seus passos.

E se?

***

No Dois Tons, Samira tinha decidido que não desistiria tão cedo.

Desde que vira o desenho de Janis, a ideia de encontrar uma maneira de aproximá-la do ateliê não saía de sua cabeça.

O problema era que, até aquele momento, ela ainda não tinha descoberto como.

Sentada diante da mesa, Samira rabiscava algumas ideias em uma folha de papel enquanto Rui trabalhava do outro lado do ateliê.

— E se...

Rui nem levantou os olhos.

— Isso nunca começa bem.

Samira ignorou.

— E se a gente fizesse uma oficina de guache?

Rui finalmente olhou para ela.

— Uma oficina?

— De guache.

— Eu ouvi.

Samira apoiou o queixo na mão.

— Uma oficina simples. Algumas vagas. Material incluso. A pessoa se inscreve, vem no sábado, aprende algumas técnicas...

Rui estreitou os olhos.

— E pra quando você está pensando em fazer essa oficina?

— Sábado à tarde.

Rui largou o que estava fazendo.

— O quê?

— Sábado à tarde.

— Você ficou doida?

Samira sorriu.

— Eu sempre fui. Pensei que tinha se apaixonado por mim por causa disso.

Rui revirou os olhos.

— É um tipo diferente de loucura.

Samira riu.

Rui voltou ao que estava fazendo.

— O que você está tentando fazer por uma menina que você nem conhece é uma missão impossível.

Samira ficou alguns segundos olhando para a folha.

— Talvez.

Rui deu de ombros e voltou a cuidar da própria vida.

Samira continuou olhando para o papel.

Depois pegou o telefone.

Se era uma missão impossível, ela teria que descobrir por onde começar.

Dois dias depois, Rui entrou no ateliê e encontrou Samira diante de uma pilha de folhetos.

Parou.

Olhou para ela.

Olhou para os papéis.

Depois voltou a olhar para ela.

— Não.

Samira abriu um sorriso.

— Sim.

— Você não conseguiu.

— Consegui.

Ela empurrou um dos folhetos na direção dele.

Rui pegou.

A oficina de guache tinha data, horário, endereço, valor e número de vagas.

Ao lado, havia o nome de uma marca que havia se oferecido para patrocinar os materiais.

Rui levantou as sobrancelhas.

— Você conseguiu patrocínio?

— Uhum.

— Em dois dias?

— Uhum.

— E já tem divulgação?

— Os folhetos chegaram hoje.

— E inscrições?

Samira apontou para um caderno.

— Sete.

Rui ficou olhando para ela.

— Você é assustadora.

— Eu prefiro eficiente.

Ele soltou uma risada e devolveu o folheto.

Samira pegou o telefone e abriu uma conversa.

— Agora só falta avisar a Helba.

Mais tarde, o telefone de Helba tocou.

Ela leu a mensagem de Samira e abriu um sorriso.

— Olha só...

A resposta veio alguns minutos depois.

— Excelente. Mais tarde eu passo aí para buscar um folheto de divulgação e fazer a inscrição das meninas.

Samira franziu a testa.

Meninas?

Digitou:

— Meninas?

A resposta de Helba veio quase imediatamente.

— É impossível ter uma por perto sem a outra.

Samira olhou para a tela.

Depois para os folhetos empilhados sobre a mesa.

Pegou um deles e sorriu.

Talvez Rui estivesse errado.

Talvez aquela missão não fosse tão impossível assim.

***

Naquela noite, a família Carvalho estava reunida à mesa de jantar.

Ou quase toda.

Rebeca estava presente apenas fisicamente.

Entre uma garfada e outra, ela virava uma página.

Depois outra.

E mais uma.

Augusto percebeu primeiro.

Olhou para o livro apoiado ao lado do prato.

Depois para a menina.

Depois para Miriam.

Miriam já havia percebido.

Na verdade, estava visivelmente incomodada havia alguns minutos, mas ainda não tinha dito nada.

Rebeca continuava lendo.

Uma garfada.

Uma página.

Outra garfada.

Mais uma página.

Júnior observou a cena por alguns segundos.

Então apoiou os talheres no prato.

— E então, mãe?

Rebeca não levantou os olhos.

— Hm?

— Qual a sensação de ter outro adolescente sem noção em casa?

Rebeca parou.

Piscou.

Júnior continuou, muito sério:

— Boa? Recomenda a experiência para os amigos?

Rebeca piscou mais duas vezes.

Como assim, outro adolescente sem noção?

Ela ergueu os olhos lentamente.

Foi então que percebeu.

Todos estavam olhando para ela.

Augusto segurava o garfo no ar.

Miriam tinha os braços cruzados.

Júnior sorria, satisfeito consigo mesmo.

Rebeca olhou para o próprio prato.

Depois para o livro.

— Ah...

Miriam respirou fundo.

— Rebeca.

— Mas...

— Já conversamos sobre isso.

— Eu só estava...

— Eu sei.

Miriam apontou discretamente para o livro.

— Sei que você gostou da história. Aliás, acho que todo mundo nesta casa já percebeu.

Miriam continuou:

— Mas seria bom se você se concentrasse na sua refeição e conversasse com a sua família um pouco.

Rebeca fechou o livro, contrariada.

— Tá.

Colocou-o ao lado do prato.

Por alguns segundos, ficou olhando para a comida.

Depois pegou o garfo.

Júnior esperou exatamente três segundos.

— Então... a senhora não respondeu minha pergunta.

Miriam lançou um olhar para ele.

— Júnior.

— O quê? Eu estou tentando promover a integração familiar.

Augusto soltou uma risada.

Rebeca também.

Desde o início da semana, quando começara a ler Tomates Verdes Fritos, Rebeca havia entrado em uma espécie de obsessão.

O livro estava sempre por perto.

Na mochila.

Na escrivaninha.

Na cama.

No sofá.

E, quando ninguém estava prestando atenção, até ao lado do prato.

Ela lia sem parar.

Às vezes avançava várias páginas de uma vez. Outras vezes voltava algumas linhas e lia o mesmo trecho novamente.

Havia cenas que a faziam parar.

Outras que a faziam sorrir.

E algumas que ela simplesmente precisava reler.

Mas não era apenas a história de Ruth e Idgie que a havia prendido.

Era Ruth.

A maneira como aquela mulher saía de uma vida de violência e, aos poucos, encontrava espaço para reconstruí-la.

Uma casa diferente.

Pessoas diferentes.

Uma vida diferente.

Uma vida em que ela podia simplesmente existir sem estar o tempo inteiro esperando pelo pior.

Rebeca não sabia exatamente por que aquilo mexia tanto com ela.

Só sabia que mexia.

Talvez porque, de algum modo, aquela história tivesse lhe mostrado algo que ela ainda estava aprendendo a acreditar: que sair de uma vida não significava apenas deixar algo para trás.

Às vezes, significava finalmente descobrir o que poderia existir depois.

— Rebeca?

Ela levantou os olhos.

Miriam estava olhando para ela.

— Hm?

— Você ainda está conosco?

Rebeca olhou para o próprio prato.

Júnior riu.

— Ela foi embora de novo.

— Não fui.

— Foi sim.

— Não fui.

— Foi.

Miriam balançou a cabeça, tentando esconder um sorriso.

— Come, menina.

Rebeca pegou o garfo.

Dessa vez, deixou o livro de lado.

Por um tempo.

Depois do jantar, Rebeca subiu para o quarto.

Colocou o livro sobre a escrivaninha.

Olhou para ele.

Depois para o caderno.

— Primeiro a lição.

Sentou-se na cadeira.

Abriu o caderno.

Tentou se concentrar.

Tentou de verdade.

Leu o enunciado.

Começou a responder.

Parou.

Olhou para o livro.

Voltou para a lição.

Escreveu mais algumas linhas.

Olhou novamente.

— Não.

Empurrou o livro um pouco mais para longe.

Continuou.

Levou muito mais tempo do que deveria.

Quando finalmente terminou, largou o lápis sobre o caderno e soltou o ar, como se tivesse acabado de cumprir uma tarefa gigantesca.

Então olhou para o livro.

Não precisou pensar duas vezes.

Pegou-o e se jogou na cama.

Ainda faltava pouco.

Muito pouco.

Rebeca se ajeitou entre os travesseiros e voltou exatamente para onde havia parado.

Leu uma página.

Depois outra.

Mais uma.

Até que ouviu passos no corredor.

A porta se abriu.

Miriam apareceu.

Olhou para o relógio.

Depois para Rebeca.

Depois para o livro.

— Já passou da hora de ficar acordada.

Rebeca nem levantou os olhos.

— Só mais um pouquinho.

— Rebeca...

— Eu estou quase terminando.

Miriam entrou no quarto.

— Amanhã você termina.

Rebeca fez uma careta.

— Mas falta tão pouco.

— Justamente. Amanhã vai continuar faltando pouco.

A menina fechou o livro devagar.

Olhou para a capa como se estivesse se despedindo de alguém.

— Tá.

Miriam sorriu.

— Boa noite.

— Boa noite.

Rebeca colocou o livro na escrivaninha, deitou-se e puxou a coberta.

Não demorou muito para dormir.

E, naquela noite, a história continuou.

Misturou-se aos seus sonhos.

Rostos que ela conhecia apenas das páginas apareceram em lugares que não existiam. Casas, ruas, vozes e acontecimentos se embaralharam, até que já não houvesse diferença entre aquilo que havia lido e aquilo que sua cabeça inventava.

Quando abriu os olhos novamente, o quarto ainda estava escuro.

Rebeca ficou imóvel por alguns segundos.

Olhou para o relógio.

Ainda era madrugada.

Virou-se para o outro lado.

Tentou voltar a dormir.

Não conseguiu.

O livro estava na escrivaninha.

Faltavam poucas páginas.

Rebeca ficou olhando para ele.

Pensou em Miriam.

Pensou na escola.

Pensou que deveria esperar até de manhã.

Depois pensou que ninguém estava acordado.

E então veio uma ideia simples.

Por que não?

Rebeca se levantou.

Pegou o skate.

Pegou o livro.

Abriu a porta do closet e entrou.

Sentou-se no skate, fechou a porta atrás de si e acendeu a pequena luz.

Ali dentro, cercada pelas roupas e pelo cheiro familiar de madeira e tecido, abriu o livro.

Leu.

Mais uma página.

Depois outra.

E outra.

O mundo inteiro parecia ter desaparecido.

Até que, finalmente, chegou à última página.

Rebeca diminuiu o ritmo.

Leu as últimas linhas.

Ficou alguns segundos olhando para elas.

Então fechou o livro.

Ficou em silêncio.

A história tinha acabado.

Ela passou a mão sobre a capa.

Um sorriso pequeno apareceu em seu rosto.

Talvez fosse isso que as histórias faziam.

Elas terminavam.

Mas alguma parte delas continuava dentro da gente.

Ela ainda estava sentada no skate, dentro do closet, com o livro apoiado no colo.

Então se lembrou de uma coisa.

As receitas.

Rebeca abriu o livro novamente e começou a folhear as últimas páginas.

Havia várias.

Algumas pareciam complicadas demais.

Outras exigiam ingredientes que ela nem sabia onde encontrar.

Até que encontrou uma que parecia possível.

Biscoitos.

Rebeca leu a receita duas vezes.

Não parecia tão difícil.

Talvez fosse.

Mas ela podia tentar.

Guardou o livro debaixo do braço, saiu do closet e deixou o skate para trás.

A luz continuou acesa.

Desceu as escadas em silêncio.

A casa permanecia completamente quieta.

Na cozinha, abriu os armários.

Farinha.

Açúcar.

Manteiga.

Ovos.

Rebeca foi reunindo os ingredientes sobre a bancada.

Não tinha exatamente experiência suficiente para justificar a confiança que demonstrava.

Mas tinha fé.

Muita fé.

E, naquela madrugada, isso teria que bastar.

Abriu o livro sobre a mesa e começou a seguir a receita.

Primeiro, uma coisa.

Depois outra.

Em algum momento, farinha foi parar na bancada.

Depois no chão.

Depois nas mãos.

E, por algum motivo que Rebeca não saberia explicar, também no cabelo.

Ela continuou.

Misturou.

Mexeu.

Provou a massa.

Pensou que talvez tivesse colocado açúcar demais.

Tentou modelar os biscoitos em forma de coração.

Colocou os biscoitos no forno.

Programou o timer.

E sentou-se à mesa para esperar.

Não percebeu quando fechou os olhos.

Algum tempo depois, Miriam acordou.

Ainda sonolenta, sentou-se na cama.

Estranhou o silêncio.

Ou talvez fosse justamente a falta dele.

Alguma coisa estava diferente.

Levantou-se e passou pelo corredor.

A porta do quarto de Rebeca estava aberta.

Miriam parou.

Olhou para dentro.

O skate estava parcialmente abandonado no closet, com uma das rodas aparecendo para fora da porta.

A luz ainda estava acesa.

Miriam ficou alguns segundos olhando para aquela cena.

— Meu Deus.

Desceu as escadas.

O cheiro chegou antes dela.

Doce.

Quente.

Miriam entrou na cozinha.

Parou.

Rebeca estava dormindo sobre a mesa.

O livro permanecia aberto ao lado dela.

O timer estava apoiado perto de sua cabeça.

Havia farinha nas mãos.

E no cabelo.

E provavelmente em lugares que Miriam nem queria descobrir.

Miriam olhou para o forno.

Depois para a menina.

Depois novamente para o forno.

Soltou o ar.

— Eu mereço isso.

Miriam sorriu.

Pegou um pano e começou a limpar a farinha que havia caído sobre a mesa.

Os biscoitos ainda estavam no forno.

E, apesar de tudo, a cozinha inteira estava tomada por aquele cheiro doce e quente.

Miriam olhou novamente para Rebeca.

A menina dormia profundamente.

Como se não tivesse acabado de passar a madrugada lendo um livro escondida no closet e tentando cozinhar uma receita que provavelmente não deveria ter tentado sozinha.

Miriam balançou a cabeça.

— Você ainda vai me matar de susto, menina.

O timer tocou.

Rebeca acordou de repente.

— Oi?

Levantou a cabeça, completamente perdida.

Piscou uma vez.

Duas.

Olhou para a cozinha.

Para a mesa.

Para o livro.

Para as próprias mãos cobertas de farinha.

Depois olhou para Miriam.

— Como eu vim parar aqui?

Miriam cruzou os braços.

— Estou me fazendo a mesma pergunta.

Rebeca franziu a testa, tentando reconstruir os acontecimentos.

Então seus olhos foram parar no forno.

— Os biscoitos!

Miriam abriu a porta do forno e retirou a forma.

O cheiro doce se espalhou ainda mais pela cozinha.

Rebeca se aproximou.

— O que você pretendia fazer?

— Biscoitos.

— Isso eu já percebi.

Rebeca apontou para a forma.

— Em forma de coração.

Miriam olhou para os biscoitos.

Alguns estavam tortos.

Outros pareciam ter crescido mais para um lado do que para o outro.

Um deles lembrava vagamente um coração.

Talvez.

— Pra nós — explicou Rebeca — e... pra Janis.

Miriam avaliou a forma mais uma vez.

— Você mirou no coração e acertou no fígado.

Rebeca fez uma careta.

— Muito engraçado.

— Eu achei.

A menina ignorou a provocação e estendeu a mão para pegar um biscoito.

Miriam segurou seu pulso.

— Ainda está quente.

— Mas eu quero provar.

— E vai provar. Quando esfriar.

Rebeca fez outra careta.

Miriam colocou a forma sobre o fogão.

— Enquanto isso, tome um banho.

Rebeca olhou para si mesma.

Só então percebeu a quantidade de farinha espalhada pelo pijama.

— Ah.

Miriam apontou para a escada.

— E tire a farinha do seu corpo.

Rebeca começou a subir.

Depois de alguns passos, voltou.

— Tia Miriam?

— O quê?

— Você acha que a Janis vai gostar?

Miriam olhou para a forma.

Depois para a menina.

— Se ela sobreviver à aparência, provavelmente.

Rebeca sorriu.

— Então tá.

E subiu as escadas, deixando atrás de si pequenas marcas de farinha pelo caminho.

 

 

 

Fim do capítulo

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