Capítulo 85 – A paz do condomínio tinha acabado.
As meninas chegaram carregadas de livros.
As pilhas quase escondiam seus rostos, mas isso não parecia impedi-las de subir as escadas.
Os passos pesados ecoaram pela casa.
Augusto, que estava na cozinha preparando o jantar, interrompeu o que fazia.
Ergueu a cabeça.
Olhou para a escada.
As vozes continuaram subindo.
Então Miriam apareceu.
Tranquila.
Plena.
Carregava nas mãos o caderno de música que Helba havia preparado para Rebeca.
Augusto olhou para ela.
Depois para o caderno.
— Vejo que está de bom humor.
Miriam sorriu.
— E por que não deveria estar?
Antes que Augusto pudesse responder, uma nova discussão começou no andar de cima.
Ele voltou os olhos para o teto.
— Acho que elas trouxeram uma biblioteca inteira.
Miriam apenas sorriu.
— Talvez.
O barulho chamou a atenção de Júnior.
Ele saiu do próprio quarto e encontrou as meninas no quarto de Rebeca.
Janis estava largada na cama, completamente à vontade, jogando no tablet da Rebeca.
Júnior parou na porta.
Olhou para ela.
— Janis?
Ela levantou os olhos.
Por um instante, houve aquele pequeno estranhamento de quem não se vê há muito tempo.
Então o reconhecimento veio.
— Júnior?
— Caramba...
Ela sorriu.
— Você cresceu.
— Você também.
— Isso foi um elogio?
— Acho que sim.
Janis voltou ao jogo.
— Então obrigada.
Rebeca estava sentada no chão, cercada pelos livros.
Júnior pegou um volume.
— Me empresta esse.
— Não.
— Por quê?
— Porque eu ainda não li.
— Você tem um milhão livros aí.
— E daí?
Júnior pegou outro.
— Esse, então.
— Também não.
— Esse?
— Não.
— Esse aqui?
Rebeca esticou o braço e arrancou o livro das mãos dele.
— Júnior!
— O quê?
— Você não pode simplesmente pegar os meus livros.
— Eu não estou pegando. Estou pedindo emprestado.
— E eu estou dizendo não.
— Você não vai conseguir ler tudo isso hoje.
— Não preciso ler hoje.
— Então me empresta enquanto você dorme.
— Não.
Júnior abriu a boca para responder.
Foi quando alguém bateu levemente à porta.
Os três olharam.
Miriam entrou carregando uma caixa.
Rebeca imediatamente se calou.
Olhou para a caixa.
Depois para Miriam.
— O que é isso?
Miriam não respondeu.
Apenas colocou a caixa no chão.
Era grande.
Retangular.
Fechada.
E não havia absolutamente nada na embalagem que revelasse o conteúdo.
Janis pausou o jogo.
Júnior também se aproximou.
Rebeca levantou-se devagar.
— Tia...
Miriam sorriu.
— É seu.
Rebeca ficou olhando.
— Meu?
— Seu.
Ela se aproximou.
Abaixou-se.
Tocou a caixa.
Olhou para Miriam.
— Posso abrir?
— Pode.
Rebeca abriu.
Por alguns segundos, não disse nada.
Então...
— AAAAAAH!
O grito ecoou pelo corredor.
Janis quase deixou o tablet cair.
Júnior deu um passo para trás.
Rebeca levantou-se de um salto.
— UM SKATE!
Pulou.
Depois pulou de novo.
Pegou o skate com as duas mãos.
— Meu Deus!
Passou a mão pela superfície.
Virou-o.
Olhou para as rodas.
— Tia!
Miriam riu.
— Gostou?
— Eu amei!
Rebeca deu outro gritinho.
Janis levantou-se da cama.
— Deixa eu ver!
As duas começaram a examinar o skate.
Rebeca falava rápido demais.
— Olha isso! Olha as rodas! É lindo! É demais...
Júnior observou a cena.
Esperou alguns segundos.
Então, discretamente, começou a recuar.
Um passo.
Depois outro.
Ninguém percebeu.
Chegou à porta.
Saiu.
Desapareceu pelo corredor.
Não.
Ele não estava surrupiando livros.
Dessa vez, estava apenas sendo inteligente.
Pouco depois, o barulho voltou a tomar conta da casa.
Rebeca desceu a escada usando capacete, joelheiras e cotoveleiras.
O skate estava debaixo do braço.
Janis vinha logo atrás.
— Espera por mim!
— Eu estou esperando!
— Você está descendo a escada rápido demais!
— Eu estou protegida!
Miriam vinha atrás das duas.
E parecia satisfeita consigo mesma.
Muito satisfeita.
Augusto estava no sofá.
Olhou para Rebeca.
Depois para o equipamento.
Depois para Miriam.
— Não era para ela estar de castigo?
Miriam acomodou-se tranquilamente em uma poltrona.
Pegou o livro que havia deixado sobre a mesa.
— Eu ainda estou vendo isso.
Abriu o livro.
Como se aquela resposta encerrasse completamente o assunto.
Augusto ficou olhando para ela.
— Miriam...
Ela virou uma página.
— O quê?
Ele desistiu.
As meninas chegaram à frente da casa.
Rebeca já falava sobre alguma manobra que pretendia aprender.
Foi quando parou.
— Ei!
Júnior estava esperando por elas.
Ao lado dele estava a bicicleta de Rebeca.
Ele segurou o guidão.
Olhou rapidamente para a casa.
Depois para as duas.
— Xiu...
Colocou um dedo diante dos lábios.
Fez sinal para que o seguissem.
Rebeca olhou para Janis.
Janis olhou para Júnior.
— Vai dar confusão.
Rebeca sorriu.
— Acho que sim.
Janis olhou novamente para Júnior.
— Gostei do seu primo.
Júnior fez sinal para que andassem logo.
Os três se afastaram da casa em silêncio.
Júnior empurrava a bicicleta.
Rebeca levava o skate.
Janis caminhava ao lado dos dois.
Quando já estavam bem longe da casa de Miriam, Júnior olhou para trás mais uma vez.
Nada.
Nenhum sinal dela.
Sorriu.
— Agora sim.
Ligou a caixa de som.
Os primeiros acordes de Footloose começaram a ecoar pela rua.
Janis abriu um sorriso.
— Boa escolha.
— Eu sei.
Ela pegou o guidão da bicicleta.
— Deixa comigo.
Júnior subiu na garupa.
Por alguns segundos, tudo parecia perfeitamente normal.
Então ele teve uma ideia.
Levantou-se.
Apoiou os pés nos suportes laterais junto à roda traseira e abriu os braços, equilibrando-se de pé na bicicleta.
Janis olhou para trás.
— Júnior!
— Relaxa!
— Você é maluco!
— Só um pouco!
Ela balançou a cabeça, rindo, e girou o acelerador.
O motor despertou com um ronco.
Brrrrrrrrr!
A música e o som da bicicleta se misturaram.
Footloose ecoava pelas ruas enquanto o motor vibrava sob os pés de Janis.
Rebeca colocou o skate no chão.
Empurrou uma vez.
Depois outra.
Logo estava acompanhando os dois.
O trio avançava pelas ruas mais distantes da casa de Miriam, seguindo em direção ao bosque do condomínio.
O vento batia no rosto de Rebeca.
Ela ria.
Júnior permanecia em pé na garupa, braços abertos, como se estivesse conduzindo algum desfile particular.
Janis ria enquanto pilotava.
A caixa de som continuava tocando.
O motor respondia a cada aceleração.
Era barulho demais para passar despercebido.
Uma janela se abriu.
Depois outra.
Uma senhora colocou a cabeça para fora.
Um homem interrompeu a caminhada.
Duas pessoas na calçada tiraram os celulares do bolso.
— Olha aquilo...
— É o Júnior?
— É ele mesmo.
Uma garota começou a filmar.
Rebeca percebeu e acenou para ela, sem diminuir a velocidade.
A música ainda estava tocando quando um utilitário preto apareceu no fim da rua.
Janis foi a primeira a notar.
— Ih...
Júnior olhou por cima do ombro.
Reconheceu o veículo.
— Droga.
Janis reduziu a velocidade.
Rebeca freou o skate.
Os três pararam.
O utilitário aproximou-se devagar e estacionou perto deles.
Júnior colocou os pés no chão.
A porta se abriu.
Uma mulher alta desceu.
Tinha uma expressão séria e pouco paciente.
Júnior suspirou.
Janis olhou para ele.
— É o FBI?!
— Pior!
A mulher fechou a porta do carro.
Caminhou até eles.
Júnior abriu um sorriso sem a menor vergonha.
— Qual é, Mari?
Ela cruzou os braços.
Por alguns segundos, manteve a expressão feroz.
Então um pequeno sorriso apareceu.
— Você conhece as regras.
Júnior assentiu solenemente.
— Sim.
Fez uma pausa.
Olhou para a caixa de som.
Depois para a bicicleta.
Por fim, para Rebeca, ainda em cima do skate.
— É proibido ser feliz por aqui.
Mari tentou segurar o sorriso.
Não conseguiu.
Dentro da casa, o silêncio havia voltado.
Miriam estava sentada no sofá, finalmente com o livro aberto nas mãos. Augusto voltou para a cozinha para terminar de preparar o jantar.
Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nada.
Então um som distante atravessou as paredes.
Brrrrrrrrrrr...
Miriam ergueu os olhos.
O som desapareceu.
Ela voltou a olhar para o livro.
Então ouviu novamente.
Brrrrrrrrrrr...
Dessa vez, mais nítido.
Miriam fechou o livro devagar.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Depois se levantou.
— Elas não tiveram coragem.
Augusto parou o que estava fazendo.
Olhou para ela.
— Você acha?
Outro ronco do motor ecoou pelo condomínio.
Miriam não respondeu.
Augusto caminhou até a porta da garagem.
Segurou a maçaneta.
Antes que pudesse abri-la, o celular vibrou em seu bolso.
Ele soltou a maçaneta.
Pegou o aparelho.
Uma mensagem havia acabado de chegar.
Era uma fotografia.
Augusto abriu.
Ficou imóvel.
Na imagem, Janis pilotava a bicicleta.
Júnior estava na garupa, em pé sobre os apoios laterais da roda traseira, os braços erguidos como se estivesse comemorando uma vitória.
Ao lado deles, Rebeca avançava sobre o skate.
Capacete.
Joelheiras.
Cotoveleiras.
Um sorriso enorme no rosto.
Augusto ficou olhando para a tela.
Abriu a boca.
Fechou.
Tentou dizer alguma coisa.
Não conseguiu.
Então começou a rir.
Miriam se aproximou.
— O que foi?
Augusto apenas estendeu o celular.
Ela pegou o aparelho.
Olhou para a fotografia.
Ficou em silêncio.
Voltou a olhar para Augusto.
Depois para a tela.
— Meu Deus.
Augusto começou a rir ainda mais.
Miriam apertou os lábios, tentando manter a compostura.
Não conseguiu.
Um pequeno sorriso apareceu.
Ela balançou a cabeça.
— Eu dei um skate para aquela menina...
Olhou novamente para a fotografia.
— ...e em menos de uma hora ela formou uma quadrilha.
O som do motor começou a desaparecer ao longe.
Miriam ainda segurava o celular de Augusto quando ouviu outro ruído se aproximando.
Dessa vez, não era a bicicleta.
Era o utilitário da segurança.
Ela soltou um suspiro.
— Fique aqui. Eu cuido disso.
Augusto assentiu.
Ainda ria.
Encostou as costas na parede da cozinha e passou a mão pelo rosto, tentando recuperar o fôlego.
Não conseguiu.
Miriam saiu.
O utilitário estava parado diante da casa.
Mari já havia descido.
Ao lado dela, os três aguardavam.
Rebeca abraçava o skate contra o peito como se ele pudesse protegê-la de alguma coisa.
Janis mantinha os lábios apertados, fazendo um esforço quase heroico para não rir.
Júnior, por outro lado, estava emburrado.
Muito emburrado.
Mari olhou para Miriam.
— Peço perdão, doutora Miriam. Mas... são as regras.
Júnior imediatamente repetiu, imitando o tom sério dela:
— "São as regras."
Miriam virou-se para ele.
— Seja respeitoso, rapaz.
Júnior cruzou os braços.
Miriam respirou fundo.
— Eu proibi o uso da bicicleta da Rebeca.
Júnior ergueu um dedo.
— Tecnicamente...
Miriam fechou os olhos por um instante.
— Júnior.
— A senhora disse que eu não podia pilotar.
Apontou para Janis.
— Mas não proibiu a Janis.
Janis assentiu.
— Ele tem um ponto.
Miriam olhou para os dois.
Depois para Mari.
Depois novamente para os dois.
Suspirou.
Mari decidiu esclarecer:
— Eles podem usar a bicicleta. Mas não têm permissão para ligar o motor nem usar a caixa de som.
Olhou para Rebeca.
— E o skate só poderá ser usado na pista.
Rebeca apertou o skate contra o peito.
Miriam assentiu.
— Não se preocupe. Eu vou conversar com eles.
Janis e Rebeca entraram rapidamente na casa.
Júnior ficou para trás.
Pegou a bicicleta e começou a empurrá-la em direção à garagem.
Quando todos estavam dentro da casa, reunidos na sala de estar, Janis apontou para o Júnior:
— Foi ideia dele!
— Sua dedo-duro.
Janis deu de ombros.
— Nada pessoal, cara. Mas eu quero continuar vindo ver a Rebeca.
Miriam fechou os olhos.
— Eu mereço isso.
Miriam massageou a têmpora.
Respirou fundo.
Olhou para os três.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Então Rebeca apertou o skate contra o peito.
— Eu posso ficar com o skate?
Miriam olhou para ela.
A pergunta parecia tão sincera que quase chegou a ser engraçada.
— Pode.
O rosto da menina se iluminou.
— E com a bicicleta também?
Miriam parou.
Ficou olhando para ela.
Não respondeu imediatamente.
Júnior ergueu discretamente as sobrancelhas.
Janis percebeu.
— No meu bairro ninguém teria tido coragem de chamar... – fez um sinal de aspas com as mãos e completou – a segurança.
Júnior virou-se para ela.
— Por quê?
— Geral tem medo da minha vó.
Rebeca franziu a testa.
— A vó é um amor!
— Eu sei.
Janis deu de ombros.
— Mas ninguém sabe disso.
Júnior pareceu ainda mais interessado.
— Como assim?
Janis fez uma expressão de quem estava prestes a contar um segredo completamente absurdo.
— Quando ela se mudou pra lá, inventou um monte de histórias sobre ela mesma.
— Que histórias? — perguntou Júnior.
— Ah, várias.
Janis começou a contar nos dedos.
— Que já colocou ladrão pra correr. Que conhece gente perigosa. Que ninguém mexe com ela.
Fez uma pausa.
— E o pessoal acredita.
Rebeca arregalou os olhos.
— A vó fez isso?
— Fez.
Janis deu de ombros.
— E nunca desmentiu.
Júnior começou a sorrir.
— Então lá na sua casa...
— É seguro usar o motor.
Miriam finalmente voltou a olhar para Rebeca.
— Vocês precisam mesmo usar o motor?
Rebeca respondeu imediatamente:
— O charme é o motor.
Silêncio.
Janis assentiu solenemente.
— Ela tem razão.
Júnior também.
— Tem mesmo.
Miriam olhou para os três.
Depois para a bicicleta.
Depois para o skate.
E, por fim, para o céu, como se procurasse alguma espécie de orientação.
Não encontrou.
— Eu vou pensar.
Rebeca sorriu.
— Isso significa sim?
— Não.
— Talvez?
— Rebeca.
— Tá bom.
Ela abraçou o skate outra vez.
— Eu espero.
Miriam olhou para os três.
Respirou fundo.
— Vou ver o que consigo fazer.
Apontou para a escada.
— Os três... pra cima.
Rebeca abraçou o skate contra o peito.
Janis tentou subir sem chamar atenção, como se pudesse se tornar invisível simplesmente andando devagar.
Júnior, por sua vez, arrastou os pés pelos degraus.
Nenhum dos três parecia particularmente satisfeito.
As meninas seguiram para o quarto de Rebeca.
Júnior entrou no próprio quarto e fechou a porta.
Janis sentou-se na cama.
— Poderia ser pior.
Rebeca soltou o skate no chão e se jogou de costas sobre a cama.
— Minha vida acabou.
Janis abriu a boca para responder.
Não teve tempo.
Um pequeno carrinho de controle remoto entrou no quarto.
As duas olharam para ele.
O carrinho parou no meio do chão.
Uma pequena bandeira branca estava presa na parte de trás.
Rebeca ergueu uma sobrancelha.
— Boa tentativa.
O carrinho deu meia-volta e desapareceu pelo corredor.
Janis começou a rir.
Poucos segundos depois, outro surgiu.
Dessa vez, era uma pequena picape.
Na caçamba havia uma quantidade considerável de balas.
Janis imediatamente se inclinou para frente.
— Pobre rapaz...
Rebeca olhou para ela.
— O quê?
Janis colocou a mão sobre o peito.
— Ele é só um menino.
Suspirou.
— Devíamos ser bondosas com ele.
Rebeca estreitou os olhos.
— Você só quer ficar com as balas.
Janis sorriu.
— Detalhes.
A picape parou diante da cama.
Janis já estava se preparando para pegar uma bala quando outro ruído surgiu no corredor.
Um terceiro carrinho entrou no quarto.
Dessa vez, carregava bombons.
Janis ficou em silêncio.
Olhou para o carrinho.
Depois para Rebeca.
— Ele está falando sério.
Rebeca tentou manter a expressão fechada.
Não conseguiu.
Um sorriso apareceu no canto da boca.
Ela olhou para a porta.
— Tá...
Fez uma pausa.
— Você pode vir pra cá.
O terceiro carrinho parou.
Júnior apareceu na porta, sorrindo.
Rebeca apontou para ele.
— Mas os livros são meus!
Júnior levantou as mãos.
— Negócio fechado.
Janis já estava pegando um bombom.
— Excelente negociação.
Rebeca olhou para ela.
— Você é muito fácil de comprar.
— Chocolate é uma questão de princípios.
Miriam e Augusto estavam no andar de baixo.
Ela finalmente conseguira voltar ao livro.
Augusto continuava na cozinha, ocupado com o jantar.
Por alguns minutos, a casa permaneceu tranquila.
Até que um grito atravessou o andar de cima.
Depois outro.
E então uma sequência de gargalhadas.
Augusto ergueu a cabeça.
Miriam fechou o livro.
Os dois se entreolharam.
Um estrondo veio do corredor.
— Vamos — disse Miriam.
Os dois subiram rapidamente as escadas.
Quando chegaram ao quarto de Rebeca, Augusto abriu a porta.
Parou.
Miriam parou logo atrás dele.
O quarto estava irreconhecível.
Livros espalhados pelo chão.
Almofadas fora do lugar.
Uma cadeira tombada.
Objetos espalhados pela escrivaninha.
E, atravessando aquele cenário de um lado para o outro, três carrinhos de controle remoto corriam em velocidades diferentes.
Um carregava a bandeirinha branca.
Outro ainda tinha algumas balas na caçamba.
O terceiro levava os bombons.
Janis estava sentada no chão, rindo enquanto tentava controlar um deles.
Rebeca perseguia outro pelo quarto.
Júnior, do outro lado, gritava instruções como se estivesse comandando uma operação militar.
— VIRA! VIRA!
O carrinho bateu na parede.
— NÃO PRAÍ!
Outro passou por baixo da cama.
Rebeca caiu na gargalhada.
Augusto levou a mão à boca.
Tentou se controlar.
Não conseguiu.
Começou a rir novamente.
Miriam ficou imóvel na porta.
Olhou para o quarto.
Depois para Augusto.
— Meu Deus...
Augusto apontou para o caos.
Ainda rindo:
— O que a gente faz?
Miriam permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então fechou os olhos.
Respirou fundo.
— A gente desce...
Abriu os olhos novamente.
— ...e finge que não viu.
Augusto virou-se para ela, incrédulo.
— Miriam?
Ela deu de ombros.
— Tem uma ideia melhor?
Augusto olhou mais uma vez para o quarto.
Um dos carrinhos passou entre os pés dele.
Ele acompanhou o veículo com os olhos.
Depois olhou para Miriam.
— Não.
Miriam assentiu.
— Então vamos.
Os dois começaram a descer.
Atrás deles, um carrinho bateu contra a porta.
— Gol! — gritou Júnior.
Augusto precisou se apoiar no corrimão para não começar a rir outra vez.
Miriam continuou descendo como se nada tivesse acontecido.
— Eu não vi nada.
— Nem eu.
— Ótimo.
E os dois desapareceram escada abaixo.
***
O fim da tarde já se aproximava quando Miriam levou Janis para casa.
No banco de trás, Rebeca estava completamente equipada.
Capacete.
Joelheiras.
Cotoveleiras.
E o skate cuidadosamente apoiado sobre as pernas.
Ela falava sem parar.
— Primeiro eu vou aprender a fazer a curva sem perder o equilíbrio. Depois eu quero tentar aquela manobra que o Júnior mostrou. Aí, quando eu estiver melhor, eu vou tentar descer aquela pista maior...
Janis olhou para ela.
— Você não vai dormir com isso, né?
Rebeca revirou os olhos.
— É claro que não.
Fez uma pequena pausa.
— Mas eu posso deixar perto da cama.
Janis riu.
— Claro.
Pouco atrás do carro, uma picape seguia carregando a bicicleta de Rebeca.
A bicicleta parecia ter tido um dia tão movimentado quanto os adolescentes.
Quando chegaram, Ester já estava pronta para ir embora.
Assim que o carro parou, as duas meninas desceram.
Rebeca mal tocou os pés no chão e já voltou a falar.
— Tia Ester, você precisava ter visto! Eu consegui ficar em cima do skate e depois o Júnior...
Janis já estava correndo para dentro.
— Eu já volto!
— Janis!
A menina desapareceu pela porta.
Rebeca continuou falando, sem perceber que estava falando sozinha.
— ...e aí ele quase caiu, mas depois ele disse que...
Janis reapareceu alguns segundos depois.
Agora carregava o próprio skate.
Passou pela mãe, deu-lhe um beijo rápido no rosto.
— Tchau, mãe!
— Tchau, filha.
Janis agarrou Rebeca pelo braço.
— Vamos!
— Mas eu estava contando...
— Você continua contando semana que vem.
As duas montaram nos skates.
— Tchau, tia Ester! — gritou Rebeca.
E desapareceram rua abaixo.
Ester ficou olhando por alguns segundos.
Depois ouviu o motor de uma picape se aproximando.
Virou-se.
A bicicleta estava sendo retirada da caçamba.
Miriam conversava com o motorista.
Entregou-lhe algumas notas.
Agradeceu.
Esperou o veículo partir.
Ester olhou para a bicicleta.
Depois para Miriam.
Não disse nada.
Miriam apenas segurou o guidão e começou a empurrar a bicicleta em direção ao quintal de Dona Maria Helena.
Quando ela voltou, Ester finalmente comentou:
— Eu nem vou perguntar.
Miriam soltou uma risada.
— Obrigada.
Por alguns instantes, nenhuma das duas disse nada.
Então Ester falou:
— Eu gostaria de ter tido uma tia como você.
Miriam olhou para ela.
— Por quê?
Ester demorou um pouco para responder.
Baixou os olhos para a bicicleta.
Quando falou, sua voz estava mais baixa.
— Eu teria chorado menos.
Miriam ficou em silêncio.
Não tentou responder.
Apenas tocou de leve o braço de Ester.
Fim do capítulo

Socorro
09/08/2026 às 11:49
A quadrilha do terror kkkkk atacando kkkk
Quero ver essa bagunça toda com a avó kkkkk
eu tbm gostaria de ter uma tia como a Miriam
Elin Varen 19/08/2026 às 05:56