Capítulo 84

Capitulo 84 - Como eu começo?

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 84 –  Como eu começo?

As três já haviam desistido da mesa fazia algum tempo.

Agora ocupavam a sala de estar.

Helba acomodara-se em uma poltrona.

Janis e Rebeca dividiam o sofá, cada uma com uma tigela de sorvete nas mãos.

Mozart deitou-se atravessado aos pés de Janis.

Apoiou a cabeça em seu colo e acompanhava atentamente cada colherada que ela levava à boca.

Os olhos iam do sorvete para o rosto da menina.

Depois voltavam para o sorvete.

Janis suspirou.

— Lamento, parceiro... mas sua mãe me proibiu.

Mozart piscou lentamente.

Continuou olhando.

Como se acreditasse que insistência fosse uma excelente estratégia.

Helba riu.

— Deixe de ser teimoso, rapaz. Chocolate não faz bem para você.

Mozart soltou um suspiro resignado.

Ou fingiu.

Ninguém ali acreditava muito naquela encenação.

Rebeca sorriu discretamente.

Mas logo seu olhar escapou para o piano.

Permaneceu ali.

Quieto.

Demorado.

Helba percebeu.

— O que foi?

Rebeca demorou alguns segundos para responder.

Brincou distraidamente com a colher dentro da tigela.

Depois levantou os olhos.

— Fiz uma coisa que não deveria ter feito.

Helba redobrou a atenção.

Então Rebeca começou a contar sobre a aventura com a bicicleta.

Falou do entusiasmo.

Das voltas pelo parque.

Da sensação de liberdade.

Da empolgação.

E de como, por muito pouco, ela não havia transformado uma tarde divertida em um problema muito maior.

Quando terminou, Helba sorriu.

— Deve ter sido divertido.

Rebeca fez uma careta.

— Foi...

Baixou os olhos.

— Mas eu quase matei a tia Miriam de susto.

Janis levantou imediatamente a colher.

— Impressionante.

As duas olharam para ela.

— Ninguém menciona a pobre da Janis, que foi feita de refém nessa aventura.

Rebeca mostrou a língua.

Janis respondeu com uma careta exagerada.

Helba observou as duas por alguns instantes.

Depois voltou o olhar para Rebeca.

Havia alguma coisa que ainda não tinha sido dita.

— Em que você está pensando?

Rebeca permaneceu alguns segundos em silêncio.

Olhou novamente para o piano.

Depois para a tigela quase vazia em suas mãos.

Respirou fundo.

— Eu queria pedir desculpas para a tia Miriam...

Fez uma pequena pausa.

Então sorriu, um pouco sem jeito.

— Mas de um jeito especial.

Helba sorriu.

Olhou para o piano.

Depois voltou os olhos para Rebeca.

— É todo seu.

Rebeca levantou-se devagar.

Atravessou a sala.

Parou diante do instrumento.

Passou delicadamente os dedos sobre a madeira escura da tampa.

Respirou fundo.

Sentou-se.

As mãos pousaram sobre as teclas.

Mas permaneceram imóveis.

Ela olhou por alguns instantes para o teclado.

Então virou-se para Helba.

— Como eu começo?

Helba sorriu.

Balançou a cabeça de leve.

— Não sei.

Rebeca franziu a testa.

— Foi você quem aprontou.

A menina baixou os olhos.

Helba continuou:

— A única forma de tornar esse pedido de desculpas verdadeiro é abrindo o seu coração.

Fez uma pequena pausa.

— O resto... a música resolve.

A sala mergulhou em silêncio.

Nem mesmo Janis disse alguma coisa.

Mozart levantou a cabeça por um instante.

Depois voltou a deitá-la sobre o colo da menina.

Rebeca respirou profundamente.

Fechou os olhos.

Quando tornou a abri-los, deixou que os dedos encontrassem as primeiras notas.

Uma.

Depois outra.

Elas surgiam devagar.

Como se ainda estivessem procurando coragem para existir.

Às vezes a melodia seguia adiante.

Às vezes voltava.

Rebeca repetia um trecho.

Mudava uma nota.

Experimentava outra.

Fazia uma pausa.

Recomeçava.

Helba não interferiu.

Levantou-se discretamente.

Foi até uma das estantes.

Retirou um caderno de pauta musical ainda em branco.

Sentou-se novamente.

Enquanto a melodia nascia, seu lápis percorria o papel.

Desenhou a clave.

Marcou o compasso.

Registrou cada nota.

Cada pausa.

Cada mudança de andamento.

Às vezes Rebeca interrompia a execução.

Pensava por alguns segundos.

Voltava exatamente ao ponto onde havia parado.

Helba apenas corrigia uma figura rítmica.

Acrescentava um silêncio.

Ligava duas notas por meio de uma ligadura.

Nenhuma das duas dizia uma palavra.

O piano falava por uma.

O lápis respondia pela outra.

Janis observava em silêncio.

Pela primeira vez, compreendeu que uma música podia nascer daquele jeito.

Não de uma inspiração repentina.

Mas de pequenos sentimentos que, pouco a pouco, encontravam o caminho até as teclas.

A melodia terminou poucos minutos antes do celular de Rebeca vibrar sobre a mesa.

Ela olhou para a tela.

Sorriu.

— É a tia Miriam.

Atendeu rapidamente.

— Oi...

Ouviu durante alguns segundos.

— Tá bom.

Desligou.

— Ela está chegando.

Helba fechou cuidadosamente o caderno de partitura.

Ainda segurava o lápis entre os dedos.

Depois estendeu o caderno para Rebeca.

— Janis e eu vamos organizar seus livros.

Sorriu.

— Enquanto isso...

Entregou-lhe a partitura.

— Pratique um pouco.

Rebeca recebeu o caderno como se fosse um tesouro.

Sentou-se novamente diante do piano.

Passou os olhos pela partitura recém-escrita.

Respirou fundo.

Começou a tocar outra vez.

A campainha tocou alguns minutos depois.

Helba caminhou até a porta.

Antes de abri-la, pegou um pacote de biscoitos caninos sobre um aparador.

O simples barulho da embalagem foi suficiente.

Beethoven, Chopin e Mozart surgiram imediatamente.

— Venham comigo.

Os três acompanharam Helba corredor adentro.

Entraram alegremente na biblioteca.

Ela distribuiu um biscoito para cada um.

Esperou que estivessem distraídos.

Então fechou a porta com delicadeza.

— Desculpem, rapazes. Hoje vocês vão precisar colaborar.

Enquanto isso, Janis equilibrava uma pilha de livros nos braços.

Assim que Miriam estacionou, ela atravessou o jardim quase correndo.

Abriu o porta-malas.

Começou a acomodar os primeiros volumes.

Miriam olhou para a quantidade de livros.

Depois para Janis.

Depois novamente para o carro.

Arqueou uma sobrancelha.

— Meu Deus...

Fez uma pequena pausa.

— Isso é um saque?

Janis continuou empilhando os livros.

— Vai ser quando encontrarmos o cofre.

Miriam riu.

Pegou outra pilha.

As duas passaram alguns minutos organizando tudo.

Foi então que Helba apareceu trazendo mais livros.

Miriam olhou para a nova pilha.

Depois para Janis.

— Tem mais?

Helba sorriu.

— O suficiente.

As três riram.

Depois de acomodar os últimos volumes, Helba fechou delicadamente o porta-malas.

Olhou para Miriam.

— Obrigada por compartilhar as meninas comigo.

Fez uma pequena pausa.

— Foi uma tarde muito especial.

Miriam sorriu.

Sabia exatamente do que ela estava falando.

— Eu sei que sim.

Helba voltou o olhar para a casa.

Por trás da porta entreaberta, o piano ainda podia ser ouvido.

— A Rebeca está praticando.

Olhou novamente para Miriam.

— Pode ir encontrá-la.

Fez um gesto discreto em direção à sala.

— Janis e eu esperamos aqui.

Miriam hesitou apenas um instante.

Depois entrou.

A música conduziu seus passos.

Ela atravessou o corredor lentamente.

Quando chegou à porta da sala, Rebeca levantou os olhos.

As mãos pararam sobre o teclado.

As duas se olharam por alguns segundos.

Sem dizer uma única palavra.

Então Rebeca respirou fundo.

E recomeçou.

Miriam permaneceu onde estava.

Escutando.

A melodia era delicada.

Cheia de pausas.

Como se ainda procurasse coragem para dizer alguma coisa.

Aos poucos, Miriam voltou a caminhar.

Parou ao lado do piano.

Esperou a última nota desaparecer.

Rebeca permaneceu alguns segundos olhando para as teclas.

Depois deslizou um pouco para o lado.

Abrindo espaço no banco.

Miriam sentou-se ao seu lado.

Ainda havia silêncio.

Foi ela quem o quebrou.

— É linda.

Rebeca sorriu timidamente.

Os dedos passeavam distraídos sobre algumas teclas, sem formar melodia.

— Eu fiz pra senhora.

Miriam voltou-se para ela.

Surpresa.

— Sério?

Rebeca assentiu.

Os olhos continuavam baixos.

Miriam respirou fundo.

Sentiu um nó discreto na garganta.

Estendeu a mão e segurou delicadamente a da menina.

Sorriu.

— Foi o presente mais bonito que alguém já me deu.

O silêncio permaneceu entre as duas por alguns instantes.

Rebeca mantinha os olhos baixos.

Os dedos passeavam distraidamente sobre uma das teclas, sem chegar a formar nenhuma melodia.

Respirou fundo.

Então perguntou baixinho:

— A gente... ainda é amiga?

Miriam voltou-se completamente para ela.

Havia surpresa em seu olhar.

Mas, acima de tudo, ternura.

Sorriu.

— É claro que sim.

Passou o braço ao redor dos ombros da menina.

Aproximou-a devagar.

Abraçou-a com cuidado.

Como quem queria que ela sentisse a resposta antes mesmo de ouvi-la.

Depois beijou de leve seus cabelos.

— Não importa o que aconteça...

Fez uma pequena pausa.

— Você sempre pode contar comigo.

Rebeca fechou os olhos.

Pela primeira vez desde a aventura da bicicleta...

Seu coração ficou em paz.

 

 

 

 

 

 

Fim do capítulo

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