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A Promessa do Vale por Lady Texiana

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Palavras: 4839
Acessos: 133   |  Postado em: 19/08/2026

Capitulo 12 - Ressentimentos e Poeira

 

O som dos cascos do cavalo contra o solo ressecado ecoava no silêncio da madrugada antes do alvorecer. Jane não havia dormido uma única hora. A noite no rancho transcorrera inquieta, de uma agitação febril, em que o teto de madeira do quarto parecia oprimir-lhe o peito e o colchão se transformara em uma cama de espinhos. Cada vez que fechava os olhos, a mesma imagem retornava com a força de um soco no estômago: a luz amarelada do poste em Grand Island, o cheiro amadeirado de perfume caro entrelaçado ao aroma do Cabernet Sauvignon, a textura inacreditavelmente macia das coxas de Stephanie sob a saia do terno e a violência faminta daquele beijo no escuro.

A dor que queimava na boca de Jane não era física, embora seus lábios ainda estivessem sensíveis e levemente inchados. Era a vergonha. Uma culpa densa e viscosa que se entranhava em seus poros e fazia seu sangue pulsar quente de indignação contra si mesma.

Como eu pude ser tão ingênua?, repetia ela para si mesma em um sussurro rouco, enquanto ajeitava o arreio do cavalo no curral mal iluminado pela lanterna a querosene. Como eu deixei que ela me dobrasse daquele jeito?

Para Jane, a fórmula daquela noite era simples, crua e humilhante. Stephanie White não era uma mulher comum vulnerável a um impulso de paixão; era uma estrategista corporativa fria, treinada nos escritórios de Chicago para identificar o ponto fraco de seus adversários e destruí-los por dentro. O jantar, o tom suave na voz ao ouvir a história de Judith e Jane Catherine, o flerte constante e, por fim, a fúria encenada na calçada... tudo não passava de uma armadilha meticulosamente calculada. Stephanie descobrira que a rancheira durona de armadura inquebrável guardava uma solidão profunda, uma carência não confessada, e usara o próprio corpo como um cavalo de Troia para desarmá-la.

E o pior de tudo: Jane cedera. Não apenas cedera, mas respondera ao beijo com uma selvageria que a horrorizava. Colocara as mãos sob a saia da executiva, apertara sua carne, permitira que o desejo sufocasse cem anos de honra e resistência familiar em questão de segundos.

- Idiota... - praguejou Jane alto, desferindo um soco contra a mureta de madeira do curral, assustando o cavalo, que relinchou em protesto. A dor aguda nos nós dos dedos serviu como uma distração momentânea para a sua raiva. - Imbecil.

Ela não esperou o sol nascer no horizonte para começar o trabalho. Precisava da dor física. Precisava de suor, de poeira e de calos para expurgar o fantasma das mãos de Stephanie de seu corpo.

Quando o céu sobre o rancho finalmente começou a tingir-se com tons de cinza e rosa pálido, Jane já havia limpado três baías de cavalos, carregado sacos de cinquenta quilos de ração de milho e revisado o motor do trator principal. O suor escorria-lhe pela testa, colando a franja de cabelos castanhos à pele e manchando o colarinho da camisa de trabalho gasta.

Os peões e o velho capataz começaram a chegar ao pátio por volta das seis da manhã, surpresos ao encontrar a patroa já em plena atividade, com um olhar sombrio e compenetrado que afastava qualquer tentativa de conversa informal.

- Bom dia, Jane menina - disse Hank, aproximando-se com uma caneca de café fumegante nas mãos calejadas. Ele parou a poucos passos, observando com preocupação a postura rígida da jovem. - Você madrugou hoje. O trator deu algum problema de novo?

- O filtro de ar estava entupido - respondeu Jane sem erguer o olhar, concentrada em apertar uma porca com a chave inglesa até que os músculos de seus braços se contorcessem sob a força sobressalente. - Vou passar o dia no setor sul. As cercas da divisa precisam de manutenção urgente, e o canal secundário de irrigação está acumulando pedras.

Hank franziu o cenho, notando as olheiras profundas sob os olhos castanhos de Jane e o tom avermelhado e seco de seus lábios.

- O setor sul pode esperar até a semana que vem, Jane. Os rapazes podem cuidar das cercas. Você parece que não dorme há três dias. Beba um pouco de café, coma alguma coisa.

- Eu estou ótima, Hank - cortou ela, o tom de voz subindo um tom acima do necessário, ríspido como uma lâmina. Ela percebeu a dureza de sua reação e respirou fundo, tentando amaciar a voz, embora o fogo interno continuasse a queimá-la. - Desculpe. Eu só... preciso deixar tudo pronto. A White & Sovereign não vai parar, e nós também não podemos.

Sem dar margem para mais conselhos por parte de Hank, Jane pegou a caixa de ferramentas, jogou-a na caçamba da Ford e subiu no veículo. O motor roncou no ar frio da manhã, e a picape partiu em disparada rumo aos pastos mais distantes do rancho, deixando para trás uma esteira de poeira clara.

No setor sul, sob um sol que rapidamente começara a castigar a vegetação rasteira, Jane entregou-se a uma rotina punitiva. Ela descarregou mourões pesados de carvalho, cavou buracos na terra dura com uma cavadeira articulada até sentir as palmas das mãos queimarem e esticou metros de arame farpado sob a luz impiedosa do meio-dia. Cada movimento era uma tentativa desesperada de preencher a mente com o cansaço do corpo, para impedir que as memórias da noite anterior retornassem.

Mas as memórias eram como uma ferida que se recusava a cicatrizar, teimosa. A cada pausa para tomar um gole de água morna do cantil, Jane sentia o gosto do vinho Cabernet na boca. A cada vez que o vento morno da pradaria tocava seu pescoço, ela sentia o hálito quente de Stephanie em sua pele.

Ela jogou comigo, pensava Jane, cravando a pá na terra seca com força desmedida. Ela queria me mostrar que pode ter o que quiser neste vale. Quer me transformar em mais uma das suas conquistas corporativas. Mas não vai conseguir. Nunca mais.

A raiva que Jane sentia de Stephanie era proporcional à atração esmagadora que a executiva exercera sobre ela. A rancheira percebera que a fragilidade de sua posição não estava apenas nas dívidas bancárias ou nos canais de água bloqueados; estava na capacidade que aquela mulher de olhos azuis e voz aveludada tinha de desestabilizá-la emocionalmente. E Jane jurou a si mesma, sob o céu imenso do Nebraska, que fecharia aquela brecha para sempre.

***

Enquanto Jane queimava sua raiva sob o sol do rancho, no terceiro andar do prédio comercial alugado pela White & Sovereign no centro de Grand Island, o clima era de apreensão.

Stephanie White atravessara as portas de vidro da recepção às oito e meia da manhã como uma tempestade silenciosa. Ela vestia um terno bege sob medida, impecavelmente cortado, com o cabelo loiro preso em um coque severo que não deixava um único fio fora do lugar. Óculos de sol de armação escura cobriam seus olhos, e sua postura ereta transmitia a habitual autoridade inabalável.

No entanto, por trás da fachada milimetricamente construída, a executiva vivia o seu próprio inferno particular.

A cabeça de Stephanie latej*v* com uma violência pulsante, reflexo da mistura indigesta do vinho, da falta de sono e de uma ressaca moral devastadora. Quando fechava os olhos por um segundo atrás das lentes escuras, a cena da calçada deserta voltava a açoitar seu orgulho: o som da picape Ford arrancando em alta velocidade, o cheiro de fumaça e poeira no ar e a sensação humilhante de ter sido deixada sozinha no asfalto frio, com a saia desalinhada e a respiração entrecortada.

A rejeição. A palavra ecoava na mente de Stephanie como uma sentença ofensiva.

Em toda a sua trajetória profissional e pessoal, Stephanie jamais fora descartada. Em Chicago, homens e mulheres gravitavam ao seu redor, disputando sua atenção, seu favor ou sua aprovação. Ela era a mulher que ditava os termos, que encerrava as reuniões, que decidia quando e como os encontros terminavam. E ontem à noite, uma rancheira do interior, vestindo botas sujas de lama e camisa xadrez, permitira que ela a beijasse com uma paixão avassaladora, tocara seu corpo com mãos famintas e, no momento seguinte, empurrada-a para longe como se Stephanie fosse um pesadelo indesejado, fugindo sem dizer uma única palavra.

Ela me usou para aliviar a tensão e depois me jogou fora, pensava Stephanie, enquanto caminhava a passos largos pelo corredor, o som de seus saltos altos soando como tiros no piso de mármore. Ela me olhou como se eu fosse um erro. Como se tocar em mim fosse uma humilhação para o seu precioso legado.

O ressentimento de Stephanie alimentava-se da incapacidade de admitir a verdade para si mesma: a rejeição doía não apenas porque fustigava seu ego gigantesco, mas porque, pela primeira vez em anos, Stephanie se permitira sentir algo real. A história de Judith e Jane Catherine tocara uma corda sensível em seu peito, e o toque de Jane acendera nela um desejo que ia muito além da atração física trivial. E ver tudo aquilo ser reduzido a uma fuga precipitada na noite fizera com que a executiva se sentisse exposta, vulnerável e infinitamente ridícula.

Ela entrou em sua sala privativa, tirou os óculos de sol com um gesto brusco e jogou-os sobre a mesa de mogno. Sua imagem refletida no vidro da janela mostrava olheiras sutis que a maquiagem cara não conseguira ocultar totalmente e uma expressão de frieza calculada que escondia uma tempestade de raiva.

Ela apertou o botão do intercomunicador.

- Pendleton, na minha sala. Agora. E traga a equipe jurídica e o engenheiro de recursos hídricos.

Três minutos depois, quatro funcionários entraram na sala, carregando pastas de documentos e laptops, com expressões apreensivas. O ar condicionado do escritório parecia ter caído vários graus.

- Bom dia, Srta. White... - começou Pendleton,  mas foi interrompido antes de terminar a frase.

- Poupe-me dos cumprimentos - disse Stephanie, mantendo a voz baixa, fria e absolutamente cortante, enquanto se sentava atrás da escrivaninha sem convidar ninguém a sentar-se. - Eu passei a noite revisando os relatórios de progresso dessa aquisição e fiquei profundamente decepcionada com a lentidão dessa equipe. Nós estamos nesta cidade medíocre há semanas e ainda estamos nos arrastando por trâmites burocráticos secundários.

- Srta. White, a burocracia do condado de Hall é naturalmente lenta - tentou explicar o advogado da equipe, ajeitando o colar da camisa. - Os registros de propriedade do Vale do Loup datam do século XIX, e a análise das cláusulas de hipoteca do National Bank exige um cuidado rigoroso para evitar recursos judiciais por parte da proprietária.

- Eu não pago esta equipe para me dar desculpas sobre a lentidão do condado - rebateu Stephanie, fixando os olhos azuis no advogado com uma intensidade que fez o homem dar um passo involuntário para trás. - Eu quero os processos de execução acelerados. Hoje é sexta-feira. Eu quero que todas as notificações de inadimplência pendentes sejam entregues ao tribunal de Omaha até o final da tarde de segunda-feira. Se o banco precisar de um incentivo financeiro para acelerar a papelada, a nossa holding cobrirá os custos operacionais extraordinários.

- Entendido, Srta. White - assentiu o auditor, anotando rapidamente no bloco de notas.

Stephanie voltou o olhar para o engenheiro hidráulico, um homem de meia-idade que mantinha os braços cruzados, visivelmente desconfortável.

- E quanto ao sistema de irrigação do setor sul do rancho? - perguntou ela, a voz caindo para um tom ainda mais sombrio. - Qual é o status do fluxo de água concedido pela barragem de contenção sob a jurisdição do distrito?

- O fluxo está operando com a redução padrão de vinte por cento que aprovamos na semana passada, conforme a cota de seca temporária - respondeu o engenheiro. - O rancho Scott ainda está recebendo volume suficiente para manter o gado e irrigar as pastagens prioritárias.

Stephanie tamborilou os dedos perfeitamente manicurados sobre a madeira da mesa. O ressentimento por Jane, a memória da humilhação da noite anterior e a necessidade urgente de reestabelecer sua posição de domínio absoluto convergiram em uma única decisão implacável.

- Vinte por cento não é suficiente - declarou Stephanie, sem uma gota de hesitação. - Quero que o fluxo seja reduzido em mais trinta por cento a partir de amanhã de manhã.

O engenheiro arregalou os olhos, surpreso com a ordem.

- Srta. White, uma redução total de cinquenta por cento nesta época do ano vai comprometer gravemente a capacidade de manter o rebanho deles e acelerar a secagem dos canais secundários do rancho. Se a seca continuar, aquele rancho terá dificuldades reais para manter a operação básica nas próximas três semanas. Legalmente, poderemos enfrentar questionamentos se aplicarmos uma restrição tão severa sem um decreto estadual formal de emergência.

- Aqueles ativos, em especial a agua já é financiado em mais de sessenta por cento pelas garantias de crédito da White & Sovereign, engenheiro - respondeu Stephanie, erguendo o queixo com uma altivez congelante. - A justificativa legal será o risco de desabastecimento dos reservatórios urbanos de Grand Island devido à estiagem prolongada. Aloque a água retida para os reservatórios municipais. Se a Srta  Brown quiser questionar a medida, ela que contrate advogados e passe os próximos seis meses em um tribunal. Até lá, a água do vale fluirá para onde a holding decidir.

Um silêncio pesado tomou conta da sala. Todos os presentes perceberam que a decisão não era apenas uma manobra financeira fria; havia um componente de retaliação pessoal na ordem da executiva, algo que tornava o ar da sala ainda mais pesado.

- Mais alguma dúvida? - perguntou Stephanie, olhando para cada um deles. - Ótimo. Quero relatórios diários de progresso na minha mesa às sete da manhã. Podem sair.

Os funcionários recolheram seus papéis e saíram rapidamente, fechando a porta com cuidado.

Assim que ficou sozinha, Stephanie afundou na cadeira de couro. Ela levou as mãos ao rosto, pressionando a fronte com os dedos para tentar aplacar a dor de cabeça excruciante que parecia piorar a cada minuto. O alívio temporário de ter exercido seu poder e desferido um golpe direto contra o rancho de Jane não trouxera a satisfação esperada. Em vez disso, deixara em sua boca um gosto amargo e poeirento.

Ela olhou para a janela, para o horizonte distante onde a vegetação rasteira do Vale do Loup desvanecia sob o sol quente, e murmurou em um tom de voz que ninguém mais podia ouvir:

- Você queria uma guerra, Jane? Agora você tem uma.

Os vinte dias seguintes transformaram o Vale do Loup em um cenário de provação e desgaste extremo.

A estiagem que castigava o estado do Nebraska intensificou-se com uma crueza impiedosa. O sol de final de estação brilhava diariamente em um céu sem nuvens, esbranquiçado pelo calor, queimando a vegetação das pradarias e transformando a terra fértil em uma poeira fina que o vento constante soprava contra as construções do rancho.

No rancho, os efeitos da ordem de Stephanie sentiram-se com uma rapidez devastadora.

Isto porque no quinto dia após o jantar em Grand Island, o nível dos canais secundários de irrigação já haviam despencado drasticamente. A água limpa que antes corria com abundância das nascentes do rio Loup reduziu-se a um fio lamacento, incapaz de alcançar os pastos mais distantes do setor sul. O solo rachou em sulcos profundos, e o capim verde que sustentava o rebanho começou a amarelar e secar sob o calor sufocante.

Jane trabalhou até o limite das forças humanas.

Ela recusou-se a entregar um único centímetro de terra ou a admitir que o rancho estava sendo sufocado. Dormia não mais do que quatro horas por noite, acordando antes da alvorada para coordenar a mudança do gado de um pasto para outro, buscando desesperadamente áreas onde a umidade ainda resistia. Juntamente com o capataz e os peões leais, Jane passou dias inteiros carregando bombas portáteis de água, abrindo poços artesianos temporários com perfuratrizes manuais e transportando caminhões-pipa improvisados para garantir que os animais não morressem de sede.

O desgaste físico de Jane era visível para qualquer um que a olhasse. Suas roupas pareciam mais largas em seu corpo, o rosto perdera o pouco volume que tinha, destacando as maçãs do rosto e as olheiras profundas que se tornaram marcas permanentes em sua pele bronzeada pelo sol. Suas mãos estavam cobertas de pequenos cortes e calos sangrentos, e sua voz tornara-se rouca pela poeira constante.

Mas o desgaste psicológico era ainda mais doloroso.

A solidão de Jane transformara-se em uma prisão. A cada canal seco que encontrava, a cada relatório do banco indicando a aproximação do prazo fatal da hipoteca - agora reduzido a pouco menos de dois meses -, o rosto de Stephanie surgia em sua mente. A certeza de que o jogo de sedução da executiva fora apenas a premissa para aquele ataque impiedoso alimentava o ressentimento de Jane, mas também acendia uma mágoa profunda que ela não conseguia racionalizar.

Por que doía tanto saber que Stephanie a enganara? Por que a memória do toque daquelas mãos macias e do calor daquele beijo no escuro continuava a perseguir Jane durante as poucas horas em que tentava dormir?

Jane odiava Stephanie White com todas as suas forças. Odiava a holding que ela representava, a arrogância com que ela olhava para o vale e a facilidade com que manipulava o destino de famílias inteiras. Mas, nas profundezas de seu ser, no silêncio da casa grande vazia, Jane sabia que o que mais a aterrorizava não era o poder financeiro de Stephanie, mas a constatação de que, por alguns segundos naquela calçada de Grand Island, Jane desejara entregar-se completamente àquela mulher.

Enquanto isso, a vinte milhas dali, em Grand Island, Stephanie vivia sua própria versão de tormento.

A executiva passava os dias trancada no escritório, mergulhada em planilhas, relatórios de auditoria e em telefonemas com a diretoria em Chicago. A pressão do conselho da White & Sovereign aumentara significativamente; os diretores exigiam a liquidação rápida da compra do rancho dos Brown para fechar o balanço do trimestre e dar início às obras finais.

Superficialmente, Stephanie mantinha o controle absoluto. Cobrava eficiência de sua equipe com um rigor implacável, não tolerava falhas e acompanhava com satisfação fria os dados sobre a queda na produtividade do rancho de Jane. Os relatórios de inteligência mostravam que Jane estava gastando seus últimos recursos financeiros para comprar combustível e ração complementar para o gado, acelerando o colapso financeiro da propriedade.

No entanto, à noite, no silêncio luxuoso de sua suíte no First Hotel, a armadura de Stephanie desmoronava.

Ela passava horas na varanda, observando a escuridão que se estendia na direção do Vale do Loup, com uma taça de vinho na mão que frequentemente permanecia intocada. A sensação de vitória parecia vazia, estéril. A fúria que a impulsionara a cortar a água de Jane desvanecera, dando lugar a uma inquietação corrosiva.

Stephanie sabia que Jane estava sofrendo. Sabia que a rancheira estava trabalhando até o esgotamento para salvar a terra das suas ancestrais. E a consciência de que fora a sua própria ordem, motivada por um orgulho ferido e por uma sensação de rejeição, que deflagrara aquele sofrimento implacável, trazia a Stephanie uma culpa que ela nunca experimentara em sua carreira executiva de sucesso.

Ela tentara convencer a si mesma de que Jane era apenas mais uma adversária a ser dobrada, mais um obstáculo em seu caminho para o sucesso. Mas toda vez que fechava os olhos, lembrava-se da paixão nos olhos castanhos de Jane ao falar de Judith e Jane Catherine, da firmeza de seu caráter e da forma desesperada e faminta com que Jane retribuíra o seu beijo antes de empurrá-la.

Ela não me rejeitou porque não me desejava, percebera Stephanie em uma noite de insônia, encarando o teto do quarto. Ela me empurrou porque ficou assustada. Porque sentiu o mesmo fogo que eu senti. E eu respondi como uma monstra, tentando destruí-la só porque meu ego não suportou a espera. - Divagou. No entanto, o orgulho jamais deixaria que ela desse o braço a torcer.

***

A distância dos dias não esfriara a tensão entre as duas; apenas transformara o desejo contido e a raiva em uma ferida aberta que sangrava silenciosamente de ambos os lados.

No final da tarde do trigésimo quinto dia, o sol começava a descer no horizonte do Nebraska, projetando sombras longas e avermelhadas sobre o pátio central do Rancho Scott.

Jane estava ajoelhada ao lado do galpão principal, tentando consertar o motor de uma das bombas de água portáteis que pifara no meio da tarde. Suas calças de brim estavam manchadas de graxa preta e poeira, a camisa de trabalho tinha as mangas dobradas até os cotovelos, revelando braços arranhados pelo arame farpado, e seu rosto estava coberto por uma camada fina de suor e terra seca.

Ela tentava soltar uma válvula emperrada com uma chave de fenda, desferindo golpes frustrados contra o metal que teimava em não ceder.

- Vamos... funciona, sua lata de lixo velho! - Praguejou ela, a voz falhando pela exaustão acumulada.

O som característico de um motor de picape se aproximando pelo caminho de cascalho fez Jane pausar o movimento. Ela enxugou o suor da testa com o antebraço sujo, erguendo os olhos com desconfiança, temendo que fosse mais uma notificação formal da White & Sovereign ou um funcionário da empresa de água trazendo maus avisos.

Uma picape preta, poeirenta, surgiu na curva do caminho e parou no centro do pátio, levantando uma nuvem de terra clara.

A porta do motorista abriu-se e Sarah Lee desceu. Ela vestia calças jeans confortáveis, uma camisa vermelha e trazia os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo prático.

Sarah caminhou pelo pátio, observando o estado do galpão, os canais secos ao fundo e, finalmente, a figura curvada de Jane ajoelhada na poeira. A expressão no rosto da amiga mudou de preocupação para um choque velado.

- Meu Deus, Jane Cat... - disse Sarah, parando a dois passos da amiga e cruzando os braços. - O que diabos aconteceu com você?

Jane suspirou, tentando colocar-se de pé com uma lentidão que denunciava a dor em suas articulações. Ela limpou as mãos sujas de graxa em um pano velho, sem encarar Sarah diretamente.

- A bomba do setor três pifou - respondeu Jane, a voz rouca. - A água do canal baixou de novo e o motor puxou lama até entupir a válvula principal. Preciso fazer isso funcionar antes que escureça, ou o gado do piquete quatro vai passar a noite sem água.

Sarah deu um passo à frente e tirou a chave de fenda das mãos calejadas de Jane com um gesto firme e decidido, jogando a ferramenta sobre a bancada de madeira do galpão.

- Chega, Jane - ordenou Sarah, o tom de voz carregado de uma autoridade afetuosa, mas inflexível. - Olhe para você. Você parece um espantalho. Aposto que não come direito há dias, está magra, coberta de graxa e trabalhando como se estivesse tentando se matar!

- Eu não estou tentando me matar, Sarah - rebateu Jane, tentando recuperar a chave de fenda, mas a amiga colocou-se entre ela e a bancada. - Eu estou tentando salvar o meu rancho! A White & Sovereign cortou metade da nossa cota de água, o banco está pressionando e, se eu parar por duas horas, este lugar desmorona!

- Este lugar não vai desmoronar se você tomar um banho e parar de respirar poeira e graxa por uma noite! - disparou Sarah, segurando Jane pelos ombros e obrigando-a a olhar diretamente em seus olhos. - Eu circulei pela cidade hoje cedo, Jane. Os boatos sobre o que a holding de Chicago está fazendo com o seu fluxo de água já espalharam por toda Grand Island. Todo mundo sabe que eles estão tentando te estrangular financeiramente. Mas você se matar de trabalhar não vai fazer a água voltar para o canal!

Jane tentou soltar-se do aperto da amiga, mas a exaustão física tirou-lhe a força necessária para resistir. Ela baixou a cabeça, o peito subindo e descendo ritmicamente, enquanto a rigidez de sua postura desmoronava ligeiramente sob o olhar preocupado de Sarah.

- Você não entende, Sarah... - murmurou Jane, a voz embargada por uma fraqueza que ela lutara semanas para esconder. - Se eu perder este lugar... se eu deixar aquelas pessoas de Chicago ficarem com essa terra... eu destruo tudo o que Judith e Jane Catherine construíram. Eu não tenho o direito de descansar.

Sarah suavizou a expressão, soltando os ombros de Jane e acariciando-lhe o braço com doçura.

- Você já honrou a memória delas mais do que qualquer pessoa faria, Jane Cat. Mas você é de carne e osso. Se você colapsar por esgotamento, a holding ganha por W.O. sem precisar gastar mais um centavo.

Jane permaneceu em silêncio, encarando o chão batido do pátio. O cansaço acumulado de trinta dias de trabalho ininterrupto, alimentado por noites em claro e por uma culpa corrosiva, pareceu desabar sobre suas costas de uma só vez. A dor muscular era quase insuportável, e a mente de Jane sentia-se entorpecida pela repetição exaustiva daquela rotina punitiva.

Sarah aproveitou a hesitação da amiga para dar o golpe final.

- O Hank e os rapazes podem cuidar da bomba amanhã de manhã - disse Sarah, apontando para a casa grande. - Você vai entrar naquela casa agora, vai tomar um banho quente, tirar essa graxa da pele e vestir roupas limpas. Nós vamos para a cidade.

Jane ergueu os olhos, assustada com a proposta.

- Para a cidade? Sarah, eu não tenho a menor condição de ir a Grand Island...

- Você tem toda a condição, sim - interrompeu Sarah, sem dar margem para discussão. - Nós vamos jantar em um lugar decente, tomar uma cerveja gelada e você vai passar algumas horas conversando sobre coisas que não envolvem dívidas hipotecárias, canais secos ou executivos de Chicago. Você precisa espairecer, Jane. Precisa ver gente, respirar outro ar, antes que esta terra te engula viva.

- Sarah, por favor... - tentou protestar Jane, mas a amiga já estava empurrando-a gentilmente em direção à varanda da casa grande.

- Nem mais uma palavra, Jane Catherine Brown. Eu vou ficar sentada nesta varanda esperando você se arrumar. Se você não sair em vinte minutos, eu entro e te arrasto para debaixo do chuveiro do jeito que você está.

Jane olhou para o galpão silencioso, para as bombas quebradas e para a extensão de terra seca que se estendia sob o céu do crepúsculo. A ideia de ir a Grand Island - a mesma cidade onde Stephanie estava instalada, a mesma cidade onde o beijo desastroso ocorrera - provocava nela um arrepio de apreensão. Mas a insistência firme de Sarah e o esgotamento profundo de seu próprio corpo venceram sua resistência.

- Vinte minutos - cedeu Jane, a voz num sussurro cansado. - Mas nós não vamos demorar. Amanhã eu preciso acordar às cinco.

- Combinado - sorriu Sarah, sentando-se no banco de madeira da varanda e cruzando as pernas. - Agora vá. E use sabão de verdade nessa graxa.

Jane subiu os degraus de madeira da entrada, a porta da frente rangendo suavemente quando ela entrou na penumbra da casa grande. O silêncio do casarão antigo acolheu-a, carregado do cheiro familiar de madeira velha e cera de abelha.

Ela caminhou até o banheiro do andar térreo, acendeu a luz amarela e encarou a si mesma no espelho sobre a pia.

A imagem refletida era a de uma mulher no limite. Olhos fundos, pele manchada de poeira e fuligem, lábios secos e uma expressão de dor contida que parecia enraizada em suas feições. Jane apoiou as mãos na mureta da pia, deixando a cabeça pender para a frente enquanto a água da torneira começava a correr, fria e limpa.

Ela lavou o rosto com força, sentindo a água arrastar parte da poeira acumulada.

Ao erguer os olhos novamente para o espelho, Jane passou os dedos úmidos sobre os lábios. A memória da calçada iluminada, de Stephanie, do cheiro de seu perfume amadeirado e do peso de seu corpo contra a picape Ford retornou com uma clareza assustadora.

Trinta dias, pensou Jane, encarando seu próprio reflexo. Trinta dias tentando apagar aquilo da minha cabeça. E continua aqui.

Ela fechou a torneira, tirou a camisa manchada e caminhou para o chuveiro, disposta a deixar que a água quente fizesse o trabalho que o trabalho pesado não conseguira realizar: queimar os últimos resquícios da presença de Stephanie White de sua mente, antes de enfrentar a noite nas ruas de Grand Island.

O vapor da água quente do chuveiro mal havia começado a dissipar a graxa entranhada na pele de Jane quando ela desligou a torneira. Vestiu calças jeans limpas, uma camisa de flanela azul-escura ligeiramente gasta e calçou as botas de couro batido. No espelho, a figura que a encarava parecia um fantasma do que costumava ser: o rosto magro, as maçãs proeminentes, a pele marcada pelo sol inclemente do Nebraska e os olhos castanhos velados por uma melancolia difícil de ocultar.

 

Fim do capítulo


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