Capitulo 11 - Memórias e Primeiras Faíscas de Paixão
O ar entre as duas parecia prestes a entrar em combustão. Os dedos de Stephanie permaneciam suspensos a milímetros da pele de Jane, emanando um calor quase palpável, enquanto o olhar da executiva devorava a hesitação estampada no rosto da rancheira. O ritmo desordenado da respiração de Jane traía a armadura de frieza que ela tentava a todo custo manter.
- Boa noite, senhoras.
A voz engomada do garçom cortou a penumbra do nicho reservado como uma lâmina.
Instintivamente, como se tivesse sido atingida por um choque elétrico, Jane recolheu a mão de cima da mesa e descansou-a sobre o joelho, apertando o tecido brim da calça. Stephanie, sem perder um átimo da elegância e do domínio da situação, retraiu os dedos com uma lentidão estudada, usando o movimento para erguer delicadamente a taça de Cabernet Sauvignon e levar aos lábios. Um sorriso imperceptível e vitorioso curvou o canto de sua boca ao notar a respiração entrecortada da mulher à sua frente.
- Já escolheram os pratos principais ou gostariam de mais alguns minutos com o menu? - perguntou o garçom, mantendo a postura ereta e a caderneta em riste, completamente alheio ao redemoinho de sensações que acabara de interromper.
Stephanie acomodou-se contra o encosto da cadeira de couro, sustentando o olhar sobre Jane por cima da borda do cristal.
- Acredito que minha acompanhante precise de um momento para digerir a atmosfera - disse Stephanie, a voz aveludada carregada de uma ironia deliciosa. - O que você sugere para esta noite, Jane? Algo substancial que combine com a sua obstinação, ou vamos deixar que o restaurante decida por nós?
Jane engoliu em seco, sentindo a garganta ardendo, mais pela proximidade do rosto de Stephanie do que pela necessidade de água. Ela piscou duas vezes, recuperando a firmeza do tom, embora um leve tom rubro ainda queimasse a parte superior de suas bochechas.
- Eu sei exatamente o que quero - respondeu Jane, encarando o garçom com a objetividade de quem precisava desesperadamente de um ponto de ancoragem na realidade. - O bife de tira, malpassado. Acompanhado de batatas assadas no alho e a salada da casa.
Stephanie baixou a taça, os olhos brilhando com divertimento puro perante a escolha direta e sem floreios da rancheira.
- Uma escolha clássica. Direta e sem concessões - comentou Stephanie, voltando-se para o funcionário. - Para mim, o medalhão de filé com molho de pimenta-verde e aspargos grelhados. E pode trazer mais uma garrafa do mesmo vinho, por favor.
O garçom fez uma breve mesura e retirou-se em silêncio, deixando novamente o nicho imerso na luz bruxuleante da vela central.
O silêncio que se seguiu não era mais feito de hostilidade fria, mas de uma expectativa densa. Jane ajeitou o chapéu de feltro sobre as pernas, buscando no peso familiar do acessório o equilíbrio necessário para não se perder naqueles olhos azuis que continuavam a medi-la sem qualquer pudor.
- Você joga muito bem com as palavras, Stephanie - quebrou Jane o silêncio, cruzando os braços e apoiando o corpo contra a cadeira, tentando recuperar o controle da narrativa. - Mas interromper conversas no momento certo e fazer elogios calculados não muda o fato de que você está a quarenta quilômetros da minha casa tentando destruir o trabalho de uma vida inteira.
Stephanie inclinou a cabeça, o brinco de pérola refletindo a chama do castiçal.
- Trabalho de uma vida inteira? - repetiu a executiva, suavemente. - Jane, você esteve em Chicago. Você viu como o mundo se move lá fora. O mercado global não é movido pelo afeto que você nutre, pelo apego sentimental às suas terras. A White & Sovereign não quer destruir nada. Nós queremos otimizar. Transformar uma operação artesanal e à beira da falência em um polo de distribuição de grãos e carnes altamente eficiente. Você receberia um cheque com valores que a maioria das pessoas deste estado jamais verá na vida inteira. Podia voltar para Chicago, abrir uma consultoria, comprar um apartamento... Viver como uma mulher da sua inteligência merece, em vez de passar os dias suando sob o sol do Nebraska, limpando canais de irrigação e negociando sacos de ração com velhos teimosos.
Jane soltou uma risada curta, sem um pingo de humor, balançando a cabeça devagar.
- Você realmente não entende nada, não é? Para você, tudo se resume a um saldo bancário, um título de propriedade e a conveniência de um apartamento luxuoso. Você olha para o Vale do Loup e vê apenas hectares, metros cúbicos de água e capacidade de produção por acre.
- E o que mais haveria para ver, Jane? - provocou Stephanie, desfrutando da paixão implacável que acendia os olhos castanhos de Jane. A timidez da rancheira evaporava no segundo em que a terra entrava em pauta, dando lugar a uma força bruta e fascinante. - Uma extensão de terra seca que exige do seu corpo mais do que ele pode dar? Uma dívida hipotecária que tira o seu sono? Ou será que o que te prende lá é a vaidade de fingir que é imparável?
- É o sangue - disse Jane, a voz descendo de tom, tornando-se grave, quase solene. - É a história. Algo que o dinheiro da sua holding não pode fabricar, por mais zeros que você coloque naquele cheque de compra.
O garçom retornou com os pratos fumegantes, dispondo-os com precisão de mestre sobre a mesa de carvalho. O vapor temperado das carnes e o aroma dos aspargos preencheram o ar, oferecendo uma breve trégua sensorial. Stephanie serviu mais vinho em ambas as taças, aguardando que o funcionário saísse novamente para continuar a investida.
- Sangue e história - murmurou Stephanie, cortando delicadamente um pedaço do medalhão e levando-o à boca com graciosidade impecável. Ela mastigou devagar, mantendo o olhar cravado em Jane. - Todos os fazendeiros que eu expropriei ou comprei ao longo dos últimos dez anos diziam a mesma coisa, Jane. "É o legado do meu pai", "É a terra do meu avô". No final, quando as parcelas vencem e os bancos executam a dívida, todos eles descobrem que o legado não paga a conta de luz nem compra óleo para os tratores. O que torna o seu legado tão diferente do deles? O que te faz pensar que você é especial?
Jane cortou um pedaço generoso do bife, a precisão de seus movimentos refletindo a força de suas mãos acostumadas ao trabalho pesado. Ela comeu em silêncio por alguns instantes, organizando os pensamentos. O jogo de provocação de Stephanie era afiado, desenhado para atingir o orgulho, mas Jane sentiu que, sob a carcaça da executiva implacável de Chicago, havia uma curiosidade genuína, uma fresta na armadura de Stephanie que podia ser explorada.
- O meu rancho não foi fundado por um homem de negócios com apoio de bancos ou por um soldado que recebeu ou comprou terras do governo após as guerras - disse Jane, fixando os olhos castanhos nos de Stephanie. - O Vale do Loup foi levantado do zero por duas mulheres, há mais de cem anos.
Stephanie congelou por uma fração de segundo com o garfo no meio do caminho. Ela apoiou os talheres na borda do prato, a surpresa cruzando suas feições perfeitas antes que pudesse mascará-la.
- Duas mulheres? - indagou Stephanie, a sobrancelha erguida. - No Nebraska dos anos 1870?
- Judith Brown e Jane Catherine - afirmou a rancheira, o tom carregado de um orgulho ancestral que parecia ressoar pelas paredes de madeira do restaurante. - Judith era minha trisavó. Ela veio do leste e enfrentou uma nevasca em uma carroça coberta apenas por uma lona, solteira, sem um tostão no bolso e com a promessa de uma herança de terra que ninguém queria porque era considerada inóspita. Jane Catherine, a Kitty, era uma mulher rude, batedora experiente e guia lendária, que largou uma vida errante para se juntar a ela no meio do nada.
Stephanie recostou-se na cadeira, a surpresa inicial dando lugar a um interesse magnético. O tom de deboche que ela mantivera ao longo de toda a noite começou a dissipar-se, substituído por um silêncio atento.
- Duas mulheres sozinhas nestas terras... há mais de 100 anos - murmurou Stephanie, girando a taça entre os dedos. - Como elas sobreviveram aos invernos, à especulação, bandoleiros e aos vizinhos? Naquela época, mulheres nem sequer podiam assinar contratos de propriedade sem a tutela de um homem.
- Elas não apenas sobreviveram, elas prosperaram - respondeu Jane, um sorriso sutil e saudosista surgindo em seus lábios pela primeira vez naquela noite. - Elas consertaram uma velha cabana e o celeiro e depois ergueram as fundações para o rancho, que permanece até hoje no local, com as próprias mãos. Enfrentaram os invernos rigorosos do Nebraska, a seca, os incêndios na pradaria e a ganância dos criadores de gado locais que tentaram expulsá-las à força porque não aceitavam que duas mulheres tivessem uma concessão de terra que se tornara produtiva. Judith Brown usou seu conhecimento adquirido na parte jurídica e contábil para proteger a propriedade dos especuladores, enquanto Jane cuidava do rebanho e do plantio e de manter intrusos afastados sob a mira do seu rifle. Elas transformaram aquele pedaço de terra seca no rancho que você está tentando comprar hoje.
Stephanie observou a luz da vela refletida nos olhos de Jane. A paixão com que a rancheira falava daquelas duas pioneiras era palpável, despida de qualquer artifício ou interesse comercial. Havia ali uma raiz profunda, uma conexão sentimental que ia muito além da mera lógica financeira que Stephanie estava habituada a manipular.
- E como elas mantiveram essa parceria por tanto tempo? - perguntou Stephanie, a voz descendo para uma nota mais intimista, quase curiosa. - Em uma época em que a sociedade exigia que elas se casassem com homens para ter alguma segurança?
Jane olhou diretamente nos olhos azuis de Stephanie, a timidez retornando por um breve segundo antes de ser atropelada pela verdade da história que carregava.
- Elas nunca se casaram, é claro - disse Jane, a voz suave, mas firme. - Mas elas viveram juntas naquela casa por toda a vida. Não eram apenas parceiras de negócios, Stephanie. Elas construíram uma vida inteira juntas. Enfrentaram o preconceito da cidade, o isolamento e o julgamento moral de uma época que condenava a existência de duas mulheres que escolhiam amar uma à outra e construir um império próprio longe das regras dos homens. Adotaram uma menininha... a minha bisavó, Ruth. Ela também manteve o legado, ampliando ainda mais o rancho e tornou-se uma criadora muito respeitada.
Um silêncio absoluto instalou-se na mesa.
Stephanie sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A revelação atingiu-a de uma forma totalmente inesperada. A narrativa que seus analistas de Chicago haviam montado sobre o rancho - uma propriedade familiar comum enfrentando dificuldades de sucessão - ruía por completo. Por trás de cada hectare do Vale do Loup, não havia apenas terra e gado; havia uma história secreta e corajosa de resistência feminina, de amor clandestino e de um legado construído contra todas as probabilidades sociais do século XIX.
A executiva olhou para Jane de uma maneira diferente. O desejo prévio de dobrá-la por puro capricho ou por uma atração física avassaladora ganhou uma camada de complexidade desconcertante. Stephanie, que sempre se orgulhara de ser uma mulher forte e inabalável no mundo corporativo dominado por homens em Chicago, percebeu que a mulher sentada à sua frente era a herdeira direta de uma linhagem de pioneiras que haviam desbravado aquele mesmo mundo muito antes de qualquer holding existir.
- Judith e Jane Catherine... - sussurrou Stephanie, testando os nomes na língua. A voz da executiva perdera a acidez provocativa; havia agora um respeito contido e uma ponta de perturbação que ela lutava para esconder. - Você tem o nome de uma delas.
- As duas fazem parte da minha história desde sempre - confirmou Jane, tomando um gole de vinho. - Eu cresci ouvindo as histórias de como elas defendiam aquela terra com espingardas durante a noite e com livros de lei durante o dia. Quando eu piso no pátio do rancho, Stephanie, eu não estou pisando em um 'ativo operacional'. Estou pisando no chão onde duas mulheres sangraram, amaram e lutaram para que eu pudesse estar aqui hoje. É por isso que eu não vou vender. É por isso que nenhum cheque da White & Sovereign, por mais polpudo que seja, vai me fazer assinar a entrega do meu rancho.
Stephanie baixou os olhos para o prato, incapaz por um segundo de sustentar o olhar intenso de Jane. A lógica fria dos negócios parecia subitamente superficial, quase grosseira diante da profundidade do argumento de Jane. Uma sensação incômoda de conflito interno começou a germinar no peito de Stephanie - um choque entre sua ambição implacável e uma empatia visceral, quase dolorosa, pela história daquelas duas mulheres e pela determinação da rancheira.
Tentando recuperar o controle de suas emoções e não demonstrar qualquer fraqueza, Stephanie pegou o garfo e fingiu concentrar-se na refeição.
- É uma história tocante, Jane - disse Stephanie, embora a firmeza de sua voz estivesse perceptivelmente alterada, mais grave e menos cortante. - Um romance pioneiro digno dos livros de história. Mas os credores não aceitam poemas ou memórias de pioneiras como garantia de crédito. O mundo mudou. A poesia não impede que o National Bank execute sua hipoteca daqui a oitenta dias.
Jane sorriu de canto, notando a mudança na postura de Stephanie. A armadura da executiva apresentava suas primeiras fissuras.
- Pode não impedir o banco - rebateu Jane, o tom calmo e sereno. - Mas me dá a força necessária para não me dobrar a pessoas como você. E é isso que te assusta, não é, Stephanie? Saber que encontrou algo que o seu dinheiro não pode comprar e que a sua beleza não pode manipular.
Stephanie ergueu os olhos rapidamente, a faísca de desafio reacendendo em suas íris azuis. A menção à sua beleza fez um calor familiar retornar à sua pele.
- A minha beleza não é um instrumento de manipulação, Jane - murmurou Stephanie, inclinando-se novamente para a frente, o tom aveludado e perigoso retornando com força total. - É apenas um fato. E o fato de você estar tão consciente dela mostra que a história das suas ancestrais não é a única coisa que está acelerando o seu pulso nesta mesa.
Jane sentiu o rosto queimar novamente, a timidez voltando a fustigá-la diante do flerte direto e descarado da executiva. Ela preferiu focar no prato, comendo em silêncio enquanto a tensão sexual entre as duas se adensava a cada segundo, rivalizando com o peso da história que acabara de ser revelada.
O jantar prosseguiu sob essa dinâmica complexa e sufocante: o jogo de gato e rato continuava, mas os papéis pareciam ter se sutilmente alterado. Stephanie alternava entre perguntas calculadas sobre a estrutura operacional do rancho, agora claramente buscando entender a alma do negócio e não apenas suas vulnerabilidades, e investidas de um flerte ousado que deixavam Jane visivelmente sem jeito, recorrendo a goles rápidos de água ou vinho para se recompor.
Quando terminaram a refeição e o garçom recolheu os pratos, Stephanie recusou a sobremesa, pedindo apenas a conta. Ela pagou com um maço de notas de alto valor extraído de sua bolsa de couro, sem sequer conferir o troco.
- Vamos? - disse Stephanie, erguendo-se da cadeira com a elegância natural que parecia acompanhar cada um de seus movimentos.
Jane levantou-se logo em seguida, recolocando o chapéu de feltro na cabeça e ajustando a camisa xadrez verde sobre o corpo. A proximidade física no espaço reduzido do restaurante voltou a fazer seu coração martelar contra o peito.
As duas deixaram o First Hotel e saíram para a noite fria e límpida de Grand Island. O ar da rua, soprado direto dos pastos abertos do vale, estava fresco e carregado do cheiro de terra seca e feno. As luzes dos postes de ferro lançavam sombras longas sobre os paralelepípedos da calçada, criando um cenário de quietude quase irreal para o centro da cidade.
Caminharam lado a lado em direção ao prédio da Locus Street, onde a picape Ford de Jane permanecia estacionada sob a luz amarelada de um poste.
O silêncio entre elas durante o trajeto de dois quarteirões era pesado, denso de tudo o que fora dito e, principalmente, do que fora calado durante o jantar. Os passos firmes dos saltos de Stephanie ecoavam de forma ritmada contra o ruído abafado das botas de couro de Jane.
À medida que se aproximavam do veículo, a névoa de empatia e respeito que se formara durante a história das pioneiras começou a dissipar-se, engolida pela realidade inevitável do conflito de interesses que as separava. Stephanie sentia a frustração crescer dentro de si. A história de Judith e Jane Catherine mexera com suas estruturas, sim, mas a recusa irredutível de Jane em aceitar uma saída negociada acendia na executiva uma raiva fria e incontrolável. Ela não estava acostumada a perder; não sabia como lidar com uma mulher que a encarava de igual para igual e rejeitava suas ofertas sem piscar.
Pararam junto à lateral da picape Ford, coberta pela poeira clara do caminho de cascalho do rancho.
Jane virou-se para Stephanie, apoiando a mão na maçaneta de metal da porta do motorista.
- Obrigada pelo jantar, Stephanie - disse Jane, o tom seco e formal, tentando encerrar a noite antes que a tensão acumulada transbordasse. - Mas amanhã o dia começa cedo no Vale do Loup. E nada do que conversamos aqui muda a nossa posição. Mantenha seus auditores longe das minhas terras.
Stephanie parou a um passo de Jane, a expressão facial mudando drasticamente. A serenidade sedutora do restaurante evaporou, dando lugar a uma fúria incandescente. O orgulho ferido da executiva de Chicago, misturado à atração física quente e densa que a sufocara a noite inteira, fez seu autocontrole ruir por completo.
- Você é uma boba orgulhosa, Jane! - disparou Stephanie, a voz elevando-se na calçada deserta, os olhos azuis faiscando de raiva sob a iluminação do poste. - Você acha que essa sua atitude romântica de heroína do interior vai salvar o seu rancho? Você está caminhando direto para um abismo financeiro! A White & Sovereign vai esmagar você e o rancho até o final do trimestre, e você vai ficar sem a terra das suas ancestrais, sem o seu rebanho e sem um centavo no bolso por pura teimosia!
Jane deu um passo à frente, peito com peito com a executiva, a fúria correspondendo à altura.
- Então me esmague, Stephanie! - rugiu Jane, a voz vibrando de indignação. - Tente! Venha com tudo o que o seu dinheiro pode comprar! Mas não venha me dar lição de moral na rua depois de tentar me chantagear em um jantar! Eu prefiro perder tudo lutando do que entregar o meu legado para uma vampira como você!
- Vampira?! - repetiu Stephanie, a voz embargada por uma mistura de raiva desmedida e desejo incontrolável. - É assim que você me vê?! Eu tentei te dar uma saída honrosa! Eu tentei te ajudar!
- Você tentou se satisfazer! - rebateu Jane, os rostos a centímetros de distância, as respirações desordenadas entrecortando o ar fresco da noite. - Você não se importa com a terra, não se importa com a história, só se importa com o seu próprio ego e com a sua necessidade doentia de controlar tudo e todos ao seu redor por dinheiro!
- Eu não quero controlar a terra, Jane... - sibilou Stephanie, perdendo completamente a cabeça, a razão completamente obliterada pela tempestade de sensações que a consumia. - Eu quero controlar você!
Antes que Jane pudesse reagir ou processar a declaração, Stephanie avançou com a velocidade de uma pantera.
A executiva projetou o corpo contra o de Jane, empurrando a rancheira com força contra a lataria fria da picape Ford. A mão direita de Stephanie cravou-se no colarinho da camisa xadrez verde de Jane, puxando o tecido com violência para baixo, enquanto a outra mão envolveu a nuca da rancheira, dedos afundando nos cabelos castanhos, exatamente como tinha imaginado fazê-lo em seus devaneios desde que a conhecera.
Stephanie colou seus lábios nos de Jane em um beijo, brutal e faminto.
Foi um choque colossal. A boca de Stephanie, quente e com o gosto persistente do Cabernet Sauvignon, invadiu a de Jane sem pedir licença, esmagando qualquer resistência inicial em uma explosão de desejo contido. O terno azul-marinho de Stephanie pressionava contra a calça de brim e a camisa de Jane, anulando qualquer espaço entre os dois corpos.
Jane soltou um arfar abafado contra a boca de Stephanie. A surpresa inicial durou apenas uma fração de segundo. O calor da pele de Stephanie, o cheiro inebriante de seu perfume amadeirado e a violência daquele contato físico quebraram a última barreira de controle que Jane sustentava.
Tomada por um impulso selvagem e correspondendo ao beijo com a mesma fúria, Jane envolveu a cintura de Stephanie com os braços. Suas mãos subiram pelas costas dela, sentindo a musculatura macia da executiva, antes de descerem com urgência para as quadris.
O beijo intensificou-se, tornando-se mais profundo, úmido e desesperado. Stephanie soltou um gemido baixo na garganta ao sentir as mãos firmes de Jane puxarem seu corpo com força contra o seu. A rancheira, completamente entregue à tempestade sensual que tomara conta da calçada, deslizou as mãos para baixo, subindo a saia lápis do terno de Stephanie.
Os dedos de Jane tatearam a pele quente e macia das coxas da executiva, subindo pela seda das meias até alcançarem a curva firme de suas pernas e a bunda de Stephanie, apertando o tecido fino da lingerie sob a saia erguida. Stephanie arquejou, arqueando o corpo contra o de Jane, afundando as unhas nos ombros da camisa dela, entregando-se sem reservas ao toque bruto e faminto da rancheira.
A lataria da picape estalou sob o peso dos dois corpos prensados, o som metálico ecoando na rua silenciosa junto com o ruído de respirações entrecortadas e sussurros sufocados. Por alguns segundos eternos, não havia mais White & Sovereign, não havia mais hipoteca, não havia mais disputa por terras, havia apenas o fogo avassalador que consumia duas mulheres entregues a um desejo visceral no meio da noite de Grand Island em plena via pública.
Então, o barulho distante de um motor de carro virando a esquina dois quarteirões acima, cortou o ar, projetando um facho de luz rápida sobre a fachada do prédio.
A luz repentina agiu como um balde de água fria sobre a consciência de Jane.
A rancheira caiu em si. A percepção do que estava fazendo ali, na calçada pública, agarrada à mulher que tentava destruir sua família, com as mãos sob a saia da executiva, atingiu-a como um golpe no estômago.
Em um movimento brusco e desesperado de autocontrole, Jane cessou o beijo e empurrou Stephanie pelos ombros.
Stephanie cambaleou dois passos para trás sobre os saltos altos, o ar faltando em seus pulmões, a saia lápis desalinhada e parcialmente erguida sobre as coxas, os cabelos loiros desalinhados do coque perfeito e os lábios vermelhos, inchados e entreabertos pelo beijo avassalador. Os olhos azuis da executiva estavam dilatados, brilhando com uma mistura de choque, desejo desmedido e confusão absoluta.
Jane não disse uma única palavra.
Ela nem sequer olhou nos olhos de Stephanie. Mantendo a cabeça baixa, o peito subindo e descendo ritmicamente na luta para recuperar o fôlego, Jane puxou a porta da picape Ford, saltou para dentro da cabine e bateu a porta de metal com um estrondo seco.
O motor roncou imediatamente, a chave girada com fúria na ignição. Jane engatou a primeira marcha sem olhar pelo retrovisor, pisou fundo no acelerador e arrancou com violência. As rodas traseiras cantaram no asfalto, levantando uma pequena nuvem de poeira e fumaça que se espalhou pela rua.
A picape afastou-se em alta velocidade, dobrando a esquina e desaparecendo na escuridão da rodovia em direção ao Vale do Loup, deixando apenas o som do motor sumindo na distância.
Sozinha no estacionamento deserto, iluminada apenas pela luz amarelada e fria do poste de iluminação, Stephanie White permaneceu imóvel.
Seu corpo inteiro queimava de desejo, a pele das coxas ainda formigando onde as mãos de Jane haviam tocado. Ela alisou a saia de terno com mãos trêmulas, tentando reorganizar as roupas e a respiração, enquanto seus olhos fixavam o ponto na esquina onde a picape desaparecera.
A grande executiva de Chicago, a mulher que costumava controlar cada variável do mercado e cada emoção ao seu redor, estava ali parada, completamente confusa, devastada pela paixão e perdida em uma tempestade de sentimentos que jamais imaginara ser capaz de sentir.
Fim do capítulo
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