Capitulo 10 - Confronto na Arena
Jane esperou o sol do meio dia baixar sobre o Vale do Loup. Havia muito trabalho a ser feito, mas o som do clique metálico ao recolocar o fone no gancho naquela manhã ainda ressoava em seus ouvidos como uma sentença de um tribunal. A revelação de Peter Barns de que Stephanie White erguera uma trincheira operacional no coração de Grand Island - a apenas quarenta quilômetros do pátio do rancho - transformou a inquietação contida de Jane em uma combustão efervescente ao longo do dia.
Ás cinco da tarde, ela atravessou o corredor da casa principal com passos largos, as botas de couro batendo contra o assoalho de carvalho, subiu ao quarto, tomou um banho rápido e colocou sua tradicional camisa xadrez verde e uma calça limpa. Ao cruzar a varanda, encontrou Hank junto as cercas do curral, inspecionando os concertos e a graxa das dobradiças.
- Vou a Grand Island, Hank, agora - disse Jane, sem desacelerar o passo em direção ao galpão onde a picape Ford estava estacionada.
O velho capataz ergueu o rosto marcado pelo sol, limpando a graxa das mãos em um pano encardido pelo uso.
- Aconteceu alguma coisa no banco, Jane menina? Alguma emergência? Daqui a pouco escurece...
- O Sr. Barns ligou hoje de manhã. A White tentou comprar a nossa hipoteca à vista em Omaha. Como o conselho barrou a manobra, ela alugou um prédio comercial na Locus Street. Montou um escritório com advogados e auditoria contábil. Está tentando cercar os armazéns e as corretoras de gado para cortar nossa liquidez.
Hank cuspiu no chão poeirento, os olhos estreitando-se sob a aba do chapéu.
- Essa gente de fora acha que a cidade é deles. Você vai falar com alguém da diretoria do banco?
- Não - respondeu Jane, abrindo a porta pesada da picape. - Vou direto ao QG que ela instalou na Locus Street. Me recuso a deixar para amanhã, se posso resolver ainda hoje.
- Jane - advertiu o capataz, dando dois passos à frente e apoiando a mão calejada na lataria da porta. - Aquela mulher não joga como os advogados que vieram aqui. Ela quer fazer você perder a cabeça. Não dê a ela o prazer de ver você fora de si.
- Eu não vou para perder a cabeça, Hank. Vou para mostrar a ela que o chão onde ela resolveu pisar não é tão acolhedor para forasteiros.
O motor da picape roncou alto, soltando uma fumaça densa pelo escapamento antes de Jane engatar a primeira marcha e arrancar pelo caminho de cascalho. A nuvem de poeira levantada pelas rodas traseiras espalhou-se pelos salgueiros do portão de entrada, marcando a saída rápida da rancheira em direção à rodovia estadual.
A viagem até Grand Island durou pouco mais de quarenta minutos, mas para Jane pareceu um exercício de paciência. O asfalto cinzento cortava as planícies secas do Nebraska sob um céu de verão sem nuvens, onde o final de tarde estava soprando uma brisa mais amena em comparação ao mormaço sufocante do meio dia.
À medida que se aproximava do centro urbano, a imagem de Stephanie no pátio do rancho insistia em invadir seus pensamentos. Jane apertava as mãos contra o aro do volante, sentindo a palma suada. Era a fúria pelo cerco financeiro, sem dúvida. Mas havia algo mais - uma sensação incômoda e quente no peito, o eco daquela fragrância amadeirada e floral contrastando com o cheiro de feno e o toque sutil do olhar azul fixado em seus lábios. Jane praguejou em silêncio, pisando mais fundo no acelerador.
A picape Ford estacionou ruidosamente em frente ao prédio de tijolos à vista na Locus Street. O contraste entre o veículo de trabalho, coberto pela poeira do vale, e a fachada recém pintada do imóvel era gritante.
Jane desligou o motor, tirou o chapéu de feltro para sacudir o pó na perna da calça de brim e o recolocou com firmeza. Ajustou a camisa xadrez verde, cujas mangas estavam dobradas até os antebraços, e saltou da cabine.
Ela empurrou a porta de vidro do prédio comercial sem bater.
O sino sobre o batente nem chegou a soar direito antes de Jane avançar pelo salão térreo. O cheiro de cera nova e tinta fresca misturava-se ao som ritmado e metálico da máquina de telex que estalava a um canto. Marcus Vance, que conversava com o auditor Arthur Pendelton junto a um arquivo de aço, paralisou ao ver a figura decidida da rancheira cruzar o piso de taco encerado.
- Srta. Brown? - disse Vance, dando um passo à frente com as mãos erguidas em um gesto instintivo de contenção. - A senhora não pode simplesmente entrar assim... Esta é uma propriedade privada alugada pela...
- Onde ela está? - cortou Jane, a voz baixa, cortante e sem qualquer vestígio de hesitação.
Antes que o advogado pudesse responder, a porta de madeira do escritório privativo nos fundos se abriu.
Stephanie White apareceu no portal.
Ela vestia um conjunto impecável em tom azul-marinho - uma saia lápis de corte rigoroso que acompanhava a linha das pernas e uma jaqueta estruturada sobre uma blusa de seda clara. Os cabelos loiros estavam recolhidos no coque impecável de sempre, e a postura ereta e dominante fazia a iluminação fluida do salão parecer gravitar ao seu redor.
Stephanie manteve a expressão impassível, mas uma fagulha de surpresa brilhou em seus olhos azuis ao ver Jane no meio do salão.
- Está tudo bem, Marcus - disse Stephanie, a voz profunda e rouca ecoando pelo espaço. - Voltem ao trabalho de levantamento dos contratos.
Os dois funcionários hesitaram por um segundo antes de se retirarem para as salas laterais. Stephanie deu dois passos à frente, parando a uma distância segura, os braços cruzados de forma elegante sobre o peito.
- A que devo a honra desta visita sem aviso prévio, Jane? - perguntou Stephanie, enfatizando o primeiro nome com a mesma entonação intimista que usara no rancho. - Achei que seu tempo estivesse ocupado demais com a manutenção das cercas e a falta de água no rancho.
Jane deu três passos firmes na direção da executiva, parando no centro do salão. A proximidade trouxe de volta o aroma denso do perfume caro de Stephanie, cortando o cheiro de papel novo e tinta do escritório.
- Você achou errado, Stephanie - devolveu Jane, os olhos castanhos cravados nos dela. - Eu vim pessoalmente ver até onde vai o seu desespero. Alugar um prédio inteiro na Locus Street, mandar auditores rondarem os armazéns locais e ameaçar a diretoria do National Bank porque não conseguiu comprar a minha hipoteca... Isso não é estratégia corporativa. É a conduta de alguém que percebeu que não pode comprar o Vale do Loup no grito.
Um sorriso tênue, gelado e provocativo surgiu nos lábios de Stephanie. Ela descruzou os braços e deu um passo lento na direção de Jane.
- Desespero? - murmurou Stephanie, soltando uma risada curta e sem humor. - Você confunde eficiência operacional com desespero, Jane. O National Bank é uma instituição provincial gerida por velhos saudosos que preferem o sentimentalismo à liquidez. Peter Barns pode proteger o seu título por noventa dias por pura obstinação, mas ele não pode impedir a White & Sovereign de posicionar toda a sua estrutura nos locais em que tem interesse.
- Você tentou chantagear o banco, Stephanie! - rebateu Jane, elevando ligeiramente o tom, a voz vibrando com uma indignação contida. - Ameaçou retirar os depósitos das suas subsidiárias se eles não te entregassem o contrato. Você atua como uma predadora que não respeita as regras do mercado e nem a lei deste estado.
- As regras do mercado são ditadas por quem tem capacidade de capital para sustentar os ativos no longo prazo - disse Stephanie, parando a pouco menos de um metro de Jane. O calor que emanava do corpo da executiva sob o terno azul-marinho era quase palpável. - O seu rancho é uma operação deficitária, Jane. Você vendeu seu rebanho principal para pagar oitenta por cento de um débito, ficando sem margem operacional para os próximos seis meses. O que você acha que vai acontecer quando os noventa dias terminarem? Você vai pagar os vinte por cento restantes com o quê? Com seus belos olhos?
- Eu vou pagar com o trabalho e o suor na minha terra e com os contratos de grãos que você está tentando bloquear! - disse Jane, dando mais um passo à frente, reduzindo o espaço entre elas a um palmo. A carne de seu peito quase tocava o tecido da jaqueta de Stephanie. - Eu conheço o seu jogo. Você quer isolar o Vale do Loup, amedrontar os compradores locais e me forçar a assinar uma venda sob coerção. Mas você esqueceu um detalhe: eu não sou uma funcionária do seu escritório em Chicago que treme quando você entra na sala. Eu não tenho medo de você, Stephanie White.
Stephanie sustentou a proximidade física com uma imobilidade calculada. Seus olhos azuis percorreram o rosto de Jane - o rubor do rosto, o morder seco de lábios provocado pela fúria, o brilho desafiador e incandescente no olhar castanho. A fúria da rancheira não a irritava; pelo contrário, provocava em Stephanie uma onda súbita e violenta de adrenalina e atração. A audácia de Jane em invadir seu escritório e encará-la sem qualquer fraqueza alimentava um desejo visceral de quebrar aquela resistência.
- Você tem uma língua afiada e uma arrogância fascinante, Jane - disse Stephanie, a voz descendo meio tom, tornando-se rouca e aveludada. - Mas discursos apaixonados não mantêm uma propriedade de pé. E gritar no meio do meu escritório não vai alterar a realidade dos números que meus auditores estão levantando neste exato momento.
- Eu não vim aqui gritar - retrucou Jane, mantendo a voz firme, embora a proximidade da boca de Stephanie e o brilho intenso daquelas íris azuis fizessem seu pulso acelerar contra a sua vontade. - Vim olhar nos seus olhos e dizer que cada passo que você der em Grand Island terá uma resposta. Se você pressionar as cooperativas, eu busco compradores em Lincoln. Se você tentar bloquear a água, eu entro com uma ação cautelar antes que o seu advogado consiga soletrar ação. Você não vai nos sufocar em silêncio.
Stephanie piscou lentamente. O choque elétrico entre a repulsa profissional e o desejo físico voltou a paralisar o ambiente. O silêncio no salão térreo tornou-se tão denso que a respiração ritmada de ambas parecia o único som perceptível acima do estalar distante do telex.
Stephanie olhou para a relógio de pulso em seu braço esquerdo. Eram quase sete horas da noite. As luzes da rua começavam a se acender lá fora, projetando longas sombras pelas janelas de vidro.
Ela voltou o olhar para Jane, a expressão passando de uma rigidez combativa para uma serenidade enigmática e perigosamente sedutora.
- Nós estamos aqui no meio de uma sala comercial, trocando acusações como duas garotas disputando espaço no colégio - disse Stephanie, a voz limpa, mas carregada de uma provocação sutil. - Se você está tão convicta da viabilidade jurídica e financeira da sua posição, Jane... por que não discutimos isso como duas pessoas adultas que entendem o mercado corporativo?
Jane franziu a testa, desconfiada da mudança repentina de tom.
- Não temos nada para discutir fora do que já foi discutido, Stephanie.
- Claro que temos - contrapôs Stephanie, dando meio passo para o lado e indicando a porta de saída com um gesto fluido da mão. - Nós duas sabemos, não vou negar, que o tempo de capital parado custa caro para a minha holding. Mas também sabemos que a falta de liquidez custa a vida do seu rancho. O restaurante do First Hotel é discreto, calmo e fica a dois quarteirões daqui. Convido você para jantar. Vamos colocar os números na mesa sem a presença de advogados ou peões.
Jane encarou a executiva com um misto de perplexidade e desconfiança. A ideia de sentar-se à mesa com a mulher que tentava despojá-la do legado de sua família parecia um absurdo completo, uma armadilha calculada para testar suas defesas.
- Você deve estar brincando - disse Jane, soltando uma risada seca. - Eu não tenho o menor interesse em jantar com você.
- Qual é o problema, Jane? - provocou Stephanie, dando um passo lento na direção da porta, o olhar fixo no de Jane com uma intensidade sensual e desafiadora. - Está com medo de não conseguir sustentar seus argumentos sem a proteção do seu capataz ou do velho Barns ao seu lado? Ou tem medo de descobrir que eu posso ser razoável e... interessante? Um bom papo, sabe? - Acrescentou quase como um deboche.
A provocação atingiu em cheio o orgulho de Jane. O tom desafiador de Stephanie - a forma como ela usava a elegância e a segurança como armas de intimidação - fez a determinação da rancheira vacilar por um instante. Jane sabia que aceitar era dar um passo em um terreno desconhecido e altamente perigoso, mas recusar soaria como uma confissão de fraqueza que ela se recusava a demonstrar.
Jane manteve a cabeça erguida, ajustando o chapéu de feltro sobre a testa.
- Eu não tenho medo de você em lugar nenhum, Stephanie. Nem no pátio do rancho, nem em uma mesa de restaurante.
Stephanie sorriu, um sorriso lento, vitorioso e carregado de uma intenção velada que fez o estômago de Jane estremecer.
- Excelente - disse Stephanie, pegando sua bolsa de couro e os óculos de sol sobre a mesa lateral. - A picape pode ficar estacionada aí na frente. Nós vamos caminhando.
A noite em Grand Island caíra completamente quando as duas mulheres deixaram o escritório da Locus Street. O ar estava mais ameno do que durante o dia, embora a brisa seca vindoura dos pastos mantivesse o cheiro de feno e poeira flutuando sobre os paralelepípedos das ruas centrais.
Caminharam lado a lado em silêncio durante os dois quarteirões que separavam o prédio comercial do First Hotel. O contraste entre as duas continuava marcante: Stephanie, com seu terno azul-marinho de corte impecável e passos firmes sobre os saltos altos; Jane, com suas botas de couro, calça de brim e a camisa xadrez verde com as mangas dobradas, mantendo a postura ereta de quem estava acostumada a dominar a terra.
Ao cruzarem a porta de madeira do First Hotel, o ambiente mudou drasticamente. O saguão do hotel ostentava um luxo sóbrio do final do século XIX: lustres de bronze com cúpulas de vidro que lançavam uma luz suave no ambiente, piso de mármore claro e lambris de madeira de lei cobrindo as paredes.
O maitre do restaurante do hotel - um homem idoso de terno escuro - aproximou-se imediatamente ao reconhecer Stephanie.
- Boa noite, Srta. White - disse ele, inclinando a cabeça com extrema cortesia. - Sua mesa reservada na área privativa dos fundos está pronta.
- Obrigada - respondeu Stephanie. - Hoje para duas pessoas.
O restaurante estava silencioso, ocupado por poucos negociantes de gado em trajes formais e executivos de empresas ferroviárias. O maitre guiou-as até uma mesa redonda de carvalho escuro, disposta em um nicho reservado perto de uma janela de arco iluminada por velas em castiçais de prata.
Jane sentou-se na cadeira de couro alto, mantendo o chapéu de feltro sobre os joelhos sob a mesa. Ela olhou ao redor com uma atenção fria, sentindo-se estranha naquele ambiente de ostentação e polimento, mas recusando-se a demonstrar qualquer desconforto.
Stephanie acomodou-se na cadeira oposta, a pouco mais de um metro de distância. A luz suave das velas refletia em seus cabelos loiros e destacava a tonalidade fria de seus olhos azuis, criando uma atmosfera de intimidade indesejada e perturbadora.
O garçom aproximou-se com a carta de vinhos e os menus em carta vermelha.
- O que deseja para começar, Srta. White? - perguntou o garçom.
- Traga uma garrafa do Cabernet Sauvignon - instruiu Stephanie, sem consultar a lista. Em seguida, olhou para Jane com uma sobrancelha levemente erguida. - Ou você prefere algo mais forte, Jane? Um uísque, talvez?
- Apenas água para começar - disse Jane, a voz limpa e direta. - E o vinho está ótimo.
Stephanie fez um sinal discreto para o garçom, que se retirou rapidamente após anotar os pedidos.
Stephanie apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos finos sob o queixo, e fixou seu olhar em Jane. A iluminação amarelada da vela acentuava a curvatura de seus lábios e a linha elegante de seu pescoço.
- Devo confessar, Jane... - começou Stephanie, o tom de voz descendo para um sussurro aveludado e pausado. - Fiquei impressionada quando você aceitou o convite. Eu esperava que você virasse as costas e voltasse para a sua picape gritando maldições contra mim.
Jane recostou-se na cadeira, mantendo os braços cruzados sobre o peito.
- Eu não fujo de confrontos, Stephanie. E você deixou claro que queria discutir os números. Então coloque as cartas na mesa. Qual é a sua proposta real além das ameaças de bloqueio de crédito e assédio predatório?
Stephanie soltou uma respiração lenta, um sorriso sutil brincando no canto de sua boca. A pressa de Jane em voltar aos negócios parecia diverti-la, mas também acendia nela um desejo súbito de desarmar aquela rancheira, de arrancar aquela armadura rústica que ela usava como escudo.
- Os negócios podem esperar dez minutos, Jane - disse Stephanie, a voz impregnada de uma calma provocante. - Nós passamos os últimos dias trocando farpas e ameaças através de advogados e bancários. Agora estamos aqui. Eu gostaria de saber quem é a mulher por trás da rancheira inflexível que decidiu peitar uma holding bilionária.
Jane franziu a testa, a desconfiança brilhando em seus olhos castanhos.
- Você já analisou a minha ficha, lembra? Sabe que fui analista de mercado em Chicago e sei exatamente como a sua empresa opera. Não precisa fingir interesse pessoal para tentar extrair alguma fraqueza.
O garçom retornou, servindo duas taças do vinho tinto encorpado e colocando uma jarra de água com gelo na mesa. Stephanie esperou que o funcionário se afastasse antes de pegar a sua taça pela haste fina.
Ela girou o líquido rubi devagar, observando os reflexos da vela na parede do copo.
- Analisar uma ficha é muito diferente de olhar para você, Jane - disse Stephanie, erguendo os olhos azuis e fixando-os diretamente nos de Jane, com uma intensidade que fez o ar no nicho parecer subitamente rarefeito. - Os relatórios em Chicago diziam que eu encontraria uma herdeira desesperada, disposta a vender a propriedade ao primeiro sinal de pressão bancária. Mas o que eu encontrei no seu pátio foi uma mulher de uma determinação quase selvagem... e de uma presença física que nenhum relatório conseguiria descrever.
Jane sentiu uma onda de calor subir involuntariamente pelo pescoço, atingindo suas bochechas. A declaração de Stephanie - direta, destituída de qualquer máscara corporativa e carregada de uma intenção sensual explícita - pegou-a completamente desprevenida.
Jane tomou um gole de água para disfarçar a perturbação e ajustou a postura na cadeira.
- Você usa o elogio e a intimidação como ferramentas de negociação, Stephanie. Mas isso não funciona comigo. O solo do Vale do Loup não se rende a conversas bonitas sobre taças de vinho caro. Eu não me rendo.
Stephanie deu um pequeno gole no Cabernet Sauvignon, sem desviar o olhar nem por um segundo, captando os sinais. A percepção da reação de Jane, a rigidez defensiva do corpo, o brilho tímido de perturbação no olhar castanho, o rubor na face, provocou em Stephanie uma sensação de triunfo e um impulso avassalador de avançar naquele jogo perigoso.
Para a surpresa de si mesma, Stephanie percebeu que não estava mais atuando apenas como a presidente da White & Sovereign. A necessidade de seduzir Jane, de ver a rancheira perder o controle e responder ao desejo que fluía entre elas desde o encontro no pátio do rancho, tornara-se mais urgente do que a própria assinatura do contrato de compra da terra.
- Você acha que tudo o que eu faço é uma ferramenta de negociação, Jane? - murmurou Stephanie, inclinando o corpo ligeiramente para a frente sobre a mesa, reduzindo a distância entre os rostos. A luz da vela refletia em fagulhas douradas de suas íris azuis. - Você realmente acredita que a forma como eu olhei para você no pátio do seu rancho... ou a forma como estou olhando para você agora... tem a ver com contratos de irrigação ou prazos de hipoteca? - Disse, direta e explícita quanto as suas intenções.
Jane prendeu a respiração. A voz rouca e aveludada de Stephanie parecia vibrar diretamente contra a sua pele. O perfume amadeirado da executiva preenchia o espaço reduzido entre elas, criando uma névoa invisível que tornava impossível ignorar a atração violenta que as unia.
- Se não tem a ver com os negócios, Stephanie... então você está jogando um jogo muito perigoso - disse Jane, a voz saindo mais rouca do que o pretendido, o olhar castanho caindo por uma fração de segundo para os lábios vermelhos e provocantes de Stephanie, molhados pelo vinho, antes de retornar aos seus olhos.
Stephanie sorriu - um sorriso denso, quente e abertamente sedutor que desfez qualquer vestígio da frieza articulada da grande executiva.
- Eu adoro jogos perigosos, Jane - sussurrou Stephanie, estendendo a mão direita devagar sobre a mesa, os dedos longos e elegantes parando a milímetros da mão de Jane, que repousava junto à taça. - Especialmente quando o meu adversário é alguém tão fascinante... e tão difícil de dobrar quanto você.
Jane encarou a mão de Stephanie por um segundo eterno, sentindo o calor do toque iminente fazer seu coração martelar no peito de forma desordenada. A linha entre o ódio e o desejo rompera-se completamente naquele nicho reservado do restaurante, deixando ambas à mercê de uma tempestade pessoal da qual nenhuma das duas sabia como sair.
Fim do capítulo
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