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A Promessa do Vale por Lady Texiana

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Palavras: 4931
Acessos: 159   |  Postado em: 12/08/2026

Capitulo 9 - Trincheiras Delimitadas; Desejos Ocultos

 

O silêncio do sexto andar do hotel executivo em Omaha era denso, interrompido apenas pelo sopro contínuo e abafado do sistema central de ar-condicionado. Na penumbra do quarto, iluminado apenas pelos faróis dos carros que cortavam a efervescência urbana da rua lá embaixo, Stephanie White permanecia em pé junto à janela.

Ela segurava um copo de cristal pesado com duas pedras de gelo e três dedos de uísque escocês. O líquido dourado capturava os reflexos avermelhados dos letreiros luminosos da cidade, projetando sombras sinuosas sobre os punhos dobrados de sua camisa de seda escura. A jaqueta do terno bege-areia fora lançada sem cuidado sobre o encosto da poltrona de couro ao lado da cama, desfazendo a armadura impecável com que enfrentara a diretoria do National Bank of Omaha horas antes.

Stephanie não estava acostumada à derrota, nem mesmo às pausas e recuos táticos. Em Chicago, o poder se media pela velocidade com que as assinaturas se convertiam em dinheiro líquido e os obstáculos judiciais eram soterrados por montanhas de petições, prazos e garantias bancárias. 

Mas no interior do Nebraska, confrontada pela rigidez estoica de Peter Barns e, acima de tudo, pela resistência feroz de Jane Catherine Brown, o dinheiro do mundo em que ela vivia, parecia ter encontrado um atrito inesperado - um solo duro, poeirento e inflexível que recusava o ritmo do mercado financeiro.

Ela deu um gole lento no uísque, sentindo a bebida queimar suavemente no fundo da garganta. Em seguida, caminhou até a escrivaninha de madeira polida onde repousava o aparelho telefônico de disco preto, pesado e robusto, conectado à linha direta da suíte.

Stephanie tirou o fone do gancho e discou o número do escritório central da White & Sovereign Land Holdings em Chicago.

A ligação interurbana estalou com uma série de cliques metálicos e um chiado característico antes de começar a chamar. No terceiro toque, a voz impecável, pausada e absolutamente profissional de Helen Floyd - sua secretária executiva de confiança há mais de seis anos - atendeu a chamada.

- Escritório da Srta. White, boa noite.

- Helen, sou eu - disse Stephanie, a voz descendo para aquele tom grave e firme que a secretária reconhecia como o sinal de início de uma operação de guerra sem precedentes.

- Boa noite, Srta. White. O Sr. Vance ligou há uma hora perguntando se a reunião com o conselho do banco em Omaha havia sido finalizada. Ele parecia apreensivo com os prazos de liquidação do contrato com o grupo que fará o aporte principal no empreendimento.

- Ignore o Vance por enquanto - cortou Stephanie, caminhando até a borda da mesa e apoiando a mão livre no tampo de madeira. - O conselho regional rejeitou a proposta de cessão de crédito das dívidas daquelas terras. O conselheiro sênior Peter Barns invocou uma cláusula de restrição de cessão e decidiu segurar a hipoteca do rancho dos Brown pelos noventa dias de prorrogação. Eles não vão ceder na mesa de negociação, não importa o que possamos oferecer ou ameaçar.

Houve uma fração de segundo de silêncio do outro lado da linha. Helen era treinada para não demonstrar surpresa, mas conhecia os valores envolvidos no projeto de expansão agrícola e redirecionamento da captação hídrica no vale do rio Loup, vital para o projeto em curso e para os bolsos dos acionistas.

- Entendido - respondeu Helen, o tom calibrado, pronto para anotar as instruções. - Devemos acionar a equipe jurídica em Chicago para protocolar uma ação de contestação de prioridade de uso hídrico contra o espólio da família Brown no tribunal?

- Não - disse Stephanie, os olhos azuis fixos na escuridão da suíte. - Uma ação judicial em tribunal federal leva meses para ser pautada e nos mantém dependentes de burocratas judiciais. Eu não vou gerenciar esta aquisição à distância, Helen. Não mais. Se nós queremos drenar a resistência daquele rancho e sufocar a capacidade de amortização da dívida antes do vencimento dos noventa dias, nossa base de operações precisa estar ao lado deles.

- Onde a senhora deseja instalar a base, Srta. White?

- Na cidadezinha mais próxima da propriedade dos Brown - instruiu Stephanie, o tom frio e cirúrgico. - Grand Island fica a menos de uma hora do rancho. É lá que o tribunal de comarca funciona e onde o registro de imóveis da região está depositado. Quero que você providencie a locação imediata de um prédio comercial no centro de Grand Island. Algo discreto, mas funcional, com linhas telefônicas, telex e estrutura para trabalharmos sem depender da infraestrutura precária do interior.

- Farei o levantamento das imobiliárias locais logo na primeira hora da manhã, Srta. White. E quanto à equipe?

- Mobilize os analistas de crédito agrícola e dois assistentes operacionais do setor de auditoria - continuou Stephanie. - Quero levantamentos diários sobre cada contrato de fornecimento, cada lote de gado e cada nota de venda que saia do Vale do Loup. Se o rancho dos Brown tentar vender um único bezerro ou negociar uma saca de milho com os armazéns da região, eu quero saber antes que o contrato seja assinado e a trans*ção realizada. Quero uma barreira de contenção ao redor daquele vale. Nada pode ser negociado, entrar ou sair sem que eu esteja informada, fui clara?

- Considerarei a operação em Grand Island como prioridade absoluta - disse Helen, o som de suas anotações no bloco de papel audível pelo fone. - Enviarei o material e os assistentes no voo comercial de amanhã à tarde para Omaha, e de lá eles seguirão de carro até o local. A senhora permanecerá no hotel até a chegada deles?

- Não. Eu vou de carro para Grand Island logo ao amanhecer. Quero escolher o prédio pessoalmente e garantir que a estrutura esteja operacional antes do fim do dia. Me ligue no hotel central de Grand Island assim que confirmar as opções de locação.

- Entendido, Srta. White. Tenha uma boa noite.

Stephanie desligou o fone recolocando-o no gancho com um estalido seco.

A sala voltou ao silêncio absoluto. Ela deu mais um gole no uísque, mas a bebida já não surtia o efeito anestésico desejado. Sua mente recusava-se a focar apenas nos números da auditoria ou na estratégia de bloqueio comercial.

Toda vez que fechava os olhos ou encarava a vidraça escura da janela, a imagem de Jane Catherine Brown emergia com uma nitidez perturbadora.

Stephanie caminhou até o banheiro da suíte, acendeu as luzes embutidas sobre o espelho e encarou o próprio reflexo. A maquiagem perfeita e o penteado rigoroso ainda disfarçavam o cansaço do dia, mas o brilho em seus olhos azuis trazia uma inquietação que ela não reconhecia em si mesma.

Ela lembrou do som do salto de seus sapatos estalando contra o cascalho seco do pátio do rancho. Lembrou do calor asfixiante do meio-dia no vale do Loup e da forma como a poeira clara flutuava no ar, acumulando-se na barra de sua saia de linho. Mas, acima de tudo, lembrou da sensação física de parar a um metro de distância de Jane.

Aquela mulher não era mais uma executiva refinada das salas de reunião de Chicago, nem uma herdeira aristocrática habituada à diplomacia das festas de gala. Jane era uma figura concreta, esculpida pela terra e pelo esforço do trabalho manual - os ombros firmes sob a camisa xadrez verde, a pele bronzeada pelo sol forte do verão, a linha firme da mandíbula e aqueles olhos castanhos que sustentavam o olhar de Stephanie sem piscar, sem recuar um único milímetro.

Stephanie sentiu a respiração acelerar ao recordar o detalhe que a paralisara por uma fração de segundo durante o confronto: o suor brotando na têmpora de Jane, escorrendo suavemente pela curva do pescoço bronzeado e desaparecendo na abertura do colarinho desabotoado da camisa. Havia uma beleza crua e indisciplinada naquela rancheira, uma presença física tão violenta e autêntica que fizera o estômago de Stephanie se contrair em uma reação visceral.

A aversão e o orgulho que alimentavam o desejo de Stephanie de esmagar a resistência daquela rancheira haviam se mesclado, no instante do confronto, a uma onda de atração sexual avassaladora e perigosa. Stephanie sempre mantivera sua vida pessoal sob um controle absoluto, separando o prazer da ambição com uma barreira de frieza calculada. Mas a lembrança dos lábios de Jane, ligeiramente entreabertos pelo esforço e pela respiração acelerada durante a discussão, despertara em Stephanie um impulso quase incontrolável de quebrar aquela altivez na força, de puxar Jane pelo colarinho daquela camisa de trabalho e tomar sua boca ali mesmo, sob a poeira e o sol impiedoso do meio-dia.

- Um absurdo - murmurou Stephanie para o espelho, a voz saindo em um sussurro tenso. - Uma fraqueza absurda.

Ela abriu a torneira de bronze, lavou o rosto com água fria e enxugou-se ríspida com uma toalha felpuda. No entanto, o calor em sua pele não diminuiu. A perspectiva de ir para Grand Island e montar um QG a poucos quilômetros da propriedade de Jane não era mais apenas uma decisão de estratégia financeira. Tornara-se uma necessidade pessoal, a urgência de manter aquela mulher sob seu campo de visão, de testar seus limites e de ver até onde a firmeza daquela rancheira resistiria antes de ruir sob a pressão que ela pretendia impor.

***

A quinta-feira amanheceu com o céu coberto por uma névoa baixa e acinzentada que pairava sobre a vegetação rasteira das planícies centrais do Nebraska. O sol de verão demorava a romper a camada densa de umidade, mantendo o ar abafado e pesado desde as primeiras horas do dia.

Stephanie deixou Omaha antes das sete da manhã ao volante do Cadillac Eldorado conversível de cor verde. A capota de pano estava levantada para proteger o interior do carro contra a poeira fina que subia das margens da rodovia estadual, e o motor roncava macio e poderoso enquanto o veículo cortava o trecho interminável de asfalto que serpenteava em direção ao oeste.

A paisagem ao redor era de uma monotonia severa: campos infinitos de milho alto e verde-escuro, cercas de arame farpado delimitando propriedades seculares, silos de grãos em chapa galvanizada brilhando timidamente sob a névoa e, ocasionalmente, pequenos moinhos de vento girando devagar com a brisa estagnada do vale.

Às nove e meia da manhã, o Cadillac cruzou o limite urbano de Grand Island.

A cidade era o centro comercial e administrativo daquela região do estado - um núcleo urbano de médio porte construído ao redor dos entroncamentos ferroviários da Union Pacific, - a mesma via pela qual Judith Brown chegou do leste a mais de um século antes -  e das vias de escoamento agrícola da região. As ruas centrais eram largas, ladeadas por edifícios de tijolos vermelhos de dois e três andares, prédios de fachadas neoclássicas com colunas de pedra e muitas lojas de suprimentos rurais, tratores e selaria.

Stephanie estacionou o conversível verde em frente ao First Hotel, uma construção imponente do final do século XIX, restaurada para atender executivos do setor agroindustrial e comerciantes de gado.

Após fazer o check-in e deixar suas malas na suíte principal do segundo andar, ela desceu imediatamente para o saguão e encontrou o corretor imobiliário local que Helen contatara por telefone no início da manhã.

O homem, um sujeito de meia-idade vestindo um terno xadrez levemente amarrotado e segurando um molho de chaves pesadas, tirou o chapéu com um gesto exagerado de respeito ao ver Stephanie se aproximar.

- Srta. White, é uma honra recebê-la em Grand Island - disse o corretor, a voz rápida de quem percebia a oportunidade de fechar um contrato rentável. - A Srta. Floyd me explicou por telefone a urgência de sua empresa. Tenho duas opções no centro da cidade que atendem às especificações que a senhora exigiu.

- Vamos à melhor delas, Sr. Miller - cortou Stephanie, ajustando os óculos de sol e caminhando em direção à saída sem esperar por conversas corteses. - Não tenho tempo a perder com visitas exploratórias.

A melhor opção revelou-se um edifício de tijolos à vista na Locus Street, a apenas dois blocos do Tribunal de Comarca e do Cartório de Registro de Imóveis da cidade. O imóvel ocupara anteriormente a sede regional de uma empresa de seguros e mantinha um grande salão no andar térreo, com divisórias de madeira e vidro canelado, duas salas privativas nos fundos e uma estrutura de cabeamento telefônico perfeita para a instalação do telex e das linhas diretas de comunicação que a equipe de Chicago usaria.

Stephanie caminhou pelo salão principal, o som de seus saltos ecoando no piso de taco encerado. Ela inspecionou as tomadas de parede, a iluminação das luminárias fluorescentes e a disposição das janelas que davam para a rua movimentada.

- Quanto tempo para a limpeza, pintura rápida da fachada e instalação das mesas de trabalho? - perguntou Stephanie, virando-se para o corretor com as mãos cruzadas sobre a bolsa de couro.

- Bem... em condições normais, levaria cerca de uma semana, Srta. White - gaguejou, ajeitando o colarinho da camisa. - Precisamos contratar a equipe de manutenção e...

- Eu triplico o valor da taxa de ocupação imediata e pago um bônus em dinheiro para os trabalhadores se o prédio estiver limpo, com o contrato assinado e as chaves na minha mão até as quatro horas desta tarde - disse ela, o tom firme e categórico. - A senhora Floyd enviará a autorização de transferência bancária para o seu escritório em trinta minutos. Temos um acordo?

O corretor engoliu em seco, olhando para a mulher elegante e inflexível à sua frente.

- Temos um acordo absoluto, Srta. White. Até as quatro da tarde, este prédio será o seu Quartel-General.

Ao final da tarde, o prédio da Locus Street já não parecia mais uma estrutura comercial abandonada.

Dois caminhões de frete locais haviam descarregado escrivaninhas de carvalho pesadas, cadeiras giratórias de couro preto, arquivos de aço de quatro gavetas e aparelhos telefônicos adicionais fornecidos pela companhia telefônica local após uma ordem de serviço de emergência paga a ouro por Stephanie.

Às cinco da tarde, quando a luz do sol começava a declinar em um tom alaranjado e denso sobre os telhados de Grand Island, o táxi vindo do aeroporto de Omaha parou em frente ao prédio. Dele desembarcaram os três funcionários enviados por Helen de Chicago: Marcus Vance, de volta com sua pasta de documentos sob o braço; Arthur Pendelton, o auditor sênior de fisionomia pálida; e uma jovem assistente técnica responsável pela operação do equipamento de telex.

Vance entrou no salão ajustando o terno, surpreso com a velocidade com que Stephanie transformara aquele espaço em uma extensão operacional da White & Sovereign.

- Srta. White - disse Vance, aproximando-se da sala privativa nos fundos, onde Stephanie revisava um mapa topográfico detalhado da bacia do rio Loup estendido sobre a mesa principal. - O ritmo de instalação é impressionante. Não esperávamos que o escritório já estivesse funcional hoje.

Stephanie ergueu os olhos do mapa, retirando os óculos de leitura e encarando o advogado com um olhar frio.

- O tempo é nosso único recurso escasso nesta operação, Marcus - disse ela. - Enquanto nós conversamos, a Srta. Brown está no Vale do Loup tentando recuperar o fluxo de caixa do rancho e garantir o pagamento da hipoteca. Não viemos a Grand Island para fazer turismo rural.

- O auditor Pendelton já trouxe os registros da primeira etapa da análise de risco - explicou Vance, apontando para a sala ao lado, onde o auditor organizava pastas suspensas nas gavetas de aço. - Nós identificamos três cooperativas locais de armazenamento de grãos e duas corretoras de gado em Grand Island com as quais o rancho dos Brown opera historicamente. Se cortarmos as linhas de adiantamento de penhor agrícola dessas cooperativas, a liquidez de Jane Brown para o próximo mês cai a zero.

- Faça isso com discrição - ordenou Stephanie. - Não quero ações barulhentas que deem a ela o pretexto para alegar coerção ilegal perante o juiz da comarca. Quero uma pressão sufocante, mas estritamente técnica. Cada comprador de gado e cada intermediário de grãos nesta região deve entender que fazer negócios com o rancho dos Brown significa perder o acesso a futuros financiamentos, quando operarmos com carga máxima neste vale.

- Entendido, Srta. White.

- E mantenha uma vigilância contínua no Cartório de Registro de Imóveis e no banco local - acrescentou Stephanie, voltando o olhar para o mapa topográfico, onde a linha azul do riacho cortava as terras do vale. - Qualquer tentativa de hipoteca secundária ou garantia oferecida por fazendeiros vizinhos para socorrer Jane Brown deve ser bloqueada imediatamente.

- Deixe comigo.

Após dispensar a equipe para os ajustes finais nas estações de trabalho, Stephanie permaneceu em sua sala até que as luzes da rua se acendessem. O som ritmado da maquina de telex recebendo relatórios de Chicago ecoava pelo salão externo, criando um ritmo de trabalho que a confortava. Aquela era a sua arena: o controle frio dos recursos, a antecipação dos movimentos do adversário e a aplicação implacável do poder econômico.

No entanto, à medida que a noite avançava, a tensão acumulada ao longo do dia voltou a se concentrar em seus ombros.

Por volta das nove da noite, Stephanie caminhou de volta para o hotel. O ar da noite estava morno, carregado pelo cheiro de poeira e feno seco trazido pelo vento do vale. Ela subiu para a sua suíte, tirou os sapatos de salto e serviu-se de uma taça de vinho tinto encorpado - um Cabernet Sauvignon californiano que trouxera em sua bagagem pessoal.

Ela desabotoou os primeiros botões de sua camisa de seda, soltou os cabelos loiros do coque rigoroso e caminhou até a varanda privativa do quarto, que dava para os fundos do hotel, na direção do horizonte escuro onde o Vale do Loup se estendia na imensidão do Nebraska.

A iluminação fraca da lâmpada da varanda projetava sua sombra contra a parede de tijolos. Stephanie deu um gole no vinho, sentindo o sabor frutado e denso da bebida preencher sua boca, enquanto o vento da noite agitava suavemente as mechas de seu cabelo.

Longe do barulho dos telexes e das instruções operacionais, sua mente voltou a falhar na rigorosa disciplina que impunha a si mesma.

Ela se viu pensando em Jane. Não na fazendeira que ameaçara levar a disputa para os tribunais federais, mas na mulher que a encarara no pátio do rancho sob a luz violenta do meio-dia.

Stephanie lembrou da sensação de estar a poucos centímetros dela. Em sua memória, a imagem de Jane parecia quase palpável: a textura da camisa xadrez verde colada ao peito arfante pela discussão, a firmeza com que as mãos de Jane repousavam na fivela de couro do cinto, a postura ereta que denotava uma força física exercitada no trabalho diário com a terra e o gado.

Um arrepio involuntário percorreu a espinha de Stephanie, fazendo seus dedos apertarem a haste fina da taça de cristal. Ela fechou os olhos, e a lembrança daquele olhar castanho - austero, beligerante, mas atravessado por uma faísca inegável de perturbação física ao sentir a proximidade de Stephanie - fez o sangue correr mais rápido em suas veias.

Stephanie passou a mão livre pelo pescoço, sentindo a pele quente. A ideia de subjugar Jane Brown deixara de ser uma mera conquista patrimonial para se transformar em um desejo carnal sufocante. Ela imaginou como seria romper aquela postura defensiva, desabotoar aquela camisa de trabalho com as próprias mãos, sentir a textura da pele bronzeada e quente de Jane sob seus dedos e arrancar daquela rancheira orgulhosa um suspiro de rendição que não tivesse nada a ver com assinaturas de contratos ou de hipotecas vencidas.

- Você acha que pode resistir a mim, Jane... - murmurou Stephanie para a escuridão do vale, a voz rouca impregnada de uma sensualidade perigosa e confusa. - Você não tem ideia do que está enfrentando.

Ela bebeu o restante do vinho em um gole fundo, a mente queimando com a antecipação do próximo confronto. Ela sabia que a guerra em Grand Island estava apenas começando, e que cada dia que as separava seria apenas a preparação para o momento em que se encontrariam novamente, não na frieza de uma sala de tribunal, mas onde a poeira, o desejo e o poder se cruzavam sem máscaras.

***

Na manhã de sexta-feira, o ar no Vale do Loup amanheceu levemente mais fresco, embora a seca continuasse a estalar sob as patas do gado nos piquetes do setor sul.

No rancho da família Brown, a rotina de trabalho começara antes do amanhecer. Jane estivera na cozinha da casa principal até as sete da manhã, revisando as planilhas de vacinação do rebanho remanescente e calculando os custos da ração suplementar necessária para cobrir a escassez de pastagem causada pelo rebaixamento do riacho.

O dia prometia ser longo. Hank e dois peões temporários estavam no piquete leste tentando reparar o sistema de bombeamento de água de um dos poços artesianos mais antigos da propriedade.

Jane vestia sua tradicional calça de brim e uma camisa de algodão xadrez, com as mangas dobradas até os cotovelos. Seus cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo prático sob o chapéu de feltro. Ela terminou de tomar uma xícara de café preto forte e preparava-se para sair em direção ao celeiro quando o som estridente e metálico do telefone de parede ressoou pela cozinha.

O aparelho tocou uma, duas, três vezes.

Jane caminhou até o telefone, tirou o fone do gancho e o levou ao ouvido.

- Rancho Brown, Jane falando - disse ela, a voz firme e alerta.

A linha estalou com o ruído característico da central telefônica manual do distrito, a voz da telefonista indicando a ligação, seguido pela voz grave, pausada e ligeiramente rouca de Peter Barns.

- Bom dia, Jane minha jovem - disse o velho diretor do National Bank of Omaha. - Espero não estar interrompendo o trabalho na lida do gado.

- De forma alguma, Sr. Barns - respondeu Jane, ajeitando o fone contra a orelha e apoiando a mão livre no batente da porta. - O senhor é sempre bem-vindo. Como estão as coisas na cidade?

Houve uma pausa do outro lado da linha. O som de papéis sendo manuseados pelo velho bancário era audível através do chiado da fiação.

- As coisas estão calmas na superfície, Jane, mas estou ligando porque achei necessário que você estivesse ciente de certos acontecimentos que ocorreram aqui na sede do banco esta semana - disse Barns, o tom de voz descendo meio tom, carregado de uma preocupação paternal.

Jane franziu a testa, seu corpo enrijecendo instintivamente.

- Aconteceu algo com a aprovação da nossa prorrogação de noventa dias?

- A aprovação da prorrogação está mantida e registrada na ata do conselho executivo, Jane. Nada muda em relação aos seus noventa dias de prazo - garantiu Barns. - Mas a Srta. Stephanie White esteve aqui pessoalmente, poucas horas depois de ter saído do seu rancho.

O nome de Stephanie fez o coração de Jane dar uma batida errática no peito. A lembrança do olhar azul gelado da executiva e do perfume caro que pairara no pátio do rancho voltou instantaneamente, fazendo a pele do pescoço de Jane arder com uma sensação de raiva e inquietação sufocante.

- O que aquela mulher queria no banco, Sr. Barns? - perguntou Jane, os dentes cerrados de leve.

- Ela tentou atropelar a decisão da diretoria - explicou o velho bancário. - Entrou na minha sala de reuniões sem agendamento prévio, exalando aquela arrogância típica dos grandes grupos de Chicago, e fez uma proposta formal para comprar a carteira de crédito integral da sua propriedade. Pagamento à vista, com prêmio acima do valor de face, para assumir a hipoteca imediatamente.

Jane prendeu a respiração por um segundo, os dedos apertando o fone com tanta força que as articulações da mão ficaram brancas.

- Foi muito mais do que os empregados dela me ofereceram quando estiveram aqui. E o que o conselho respondeu?

- Nós recusamos, é claro - disse Barns, com um traço de orgulho na voz grave. - Rejeitamos a proposta por unanimidade na sessão extraordinária e ativamos a cláusula de restrição de cessão do título. Enquanto o prazo de noventa dias estiver em vigor, a hipoteca do seu rancho permanece sob custódia absoluta do National Bank of Omaha. Ela não pode comprar o seu título e não pode iniciar nenhum processo de execução judicial contra a sua sede.

Jane soltou o ar devagar, sentindo um alívio momentâneo cruzar seu peito, mas a gravidade no tom de Barns indicava que a conversa não havia terminado.

- O senhor disse que recusaram... mas ela não aceitou isso passivamente, aceitou? - indagou Jane.

- Nem de longe, minha jovem - suspirou Peter Barns. - Aquela mulher não está acostumada a ouvir um 'não' de bancários regionais. Ela fez ameaças veladas de retaliação financeira contra a nossa instituição. Ameaçou retirar os depósitos comerciais e as linhas de crédito cruzado que as subsidiárias da White & Sovereign mantêm no nosso banco se nós não entregarmos a sua propriedade. Ela está disposta a usar todo o peso do capital de Chicago para nos pressionar.

- Sr. Barns, eu não quero que o banco que tão bem serviu ao meu pai seja prejudicado por causa da nossa disputa com a holding - disse Jane, a voz embargada pela responsabilidade.

- Não se preocupe com o banco, Jane - cortou o velho diretor de forma inflexível. - Este banco foi construído por homens que sabiam o valor da palavra e da lealdade aos produtores deste estado. Nós resistimos à Grande Depressão e a todas as crises subsequentes e não seremos intimidados por uma executiva vinda de fora. Mas estou ligando para que você fique em alerta máximo. Stephanie White não é do tipo que desiste quando encontra uma porta fechada.

- O que o senhor quer dizer com isso?

- Meus contatos no setor imobiliário me informaram esta manhã que a Srta. White não voltou para Chicago - revelou Barns. - Ela alugou um prédio comercial inteiro no centro de Grand Island, na Locus Street ontem à tarde, montou toda uma estrutura de comunicação direta e trouxe uma equipe de auditoria e advogados de Chicago. Ela instalou um Quartel-General de operações a menos de quarenta quilômetros da sua casa.

Jane estremeceu interiormente. A imagem de Stephanie estabelecendo uma base de operações tão próxima, cercando o vale como um predador que calcula o momento exato do bote, fez seu sangue ferver.

- Ela está montando uma armadilha ao nosso redor - murmurou Jane, mais para si mesma do que para o fone.

- Exatamente - confirmou Barns. - Ela andou rondando o banco, pressionando a diretoria, e agora vai tentar sufocar as suas linhas de suprimento e comercialização em Grand Island. Fique atenta a qualquer movimento dos armazéns, das corretoras de gado ou dos fornecedores de ração da região. Ela vai tentar isolar o rancho dos Brown antes que o prazo dos noventa dias termine.

- Eu entendo, Sr. Barns - disse Jane, a voz recuperando a rigidez e a determinação austera que a caracterizavam. - Agradeço pelo aviso. Nós não vamos facilitar as coisas para ela em Grand Island. Se ela quer uma guerra, é exatamente isso que ela vai ter.

- Mantenha a cabeça fria, Jane - aconselhou o velho bancário antes de desligar. - Coragem você tem de sobra, igualzinha ao seu pai. Mas contra esse tipo de inimigo, a prudência é tão importante quanto a firmeza. Deus a abençoe.

- Obrigada, Sr. Barns. Tenha um bom dia.

Jane recolocou o pesado fone no gancho. O estalo metálico do aparelho finalizando a chamada ecoou pela cozinha silenciosa.

Ela permaneceu em pé ao lado da mesa, as mãos espalmadas sobre a madeira gasta da bancada, a respiração ritmada e profunda.

Stephanie White não recuara. Pelo contrário: fincara suas garras em Grand Island, desafiara o conselho do banco mais influente do estado e agora posicionava suas peças no tabuleiro para uma ofensiva direta contra o rancho.

Jane caminhou até a janela da cozinha, que dava para o pátio de cascalho onde o Cadillac conversível verde de Stephanie estivera estacionado anteriormente. A névoa da manhã começava a se dissipar sob os primeiros raios quentes do sol, revelando a imensidão amarela e seca dos pastos que se estendiam até a linha do horizonte.

Uma mistura violenta de fúria e ansiedade perturbadora tomou conta do peito de Jane. A certeza de que Stephanie estava tão perto - a menos de uma hora de viagem dali, comandando uma equipe de auditores e advogados voltada exclusivamente para a sua ruína - provocou em Jane um arrepio elétrico e um súbito acesso de raiva.

Ela tentou focar na raiva, no dever de proteger a terra de seus ancestrais e no trabalho braçal que a esperava nos currais com Hank. Mas, no fundo de sua mente, a lembrança daquele rosto oval de feições perfeitas, dos olhos azuis de uma frieza magnética e do tom rouco da voz de Stephanie dizendo o seu nome no pátio continuava a queimar como uma marca em brasa na sua pele.

Jane ajustou o chapéu de feltro na cabeça, cerrou os punhos e caminhou em direção à porta de saída. A batalha pelo Vale do Loup ultrapassara as salas de conferência e os relatórios de crédito. Estava fincada no solo de Grand Island, no controle da água e no confronto iminente entre duas mulheres que sabiam que, naquela disputa, não haveria espaço para tréguas ou rendição.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 9 - Capitulo 9 - Trincheiras Delimitadas; Desejos Ocultos:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 13/08/2026

Bom a Stéphanie já está com as peças montadas para atacar.....curiosa para saber como a Jane vai jogar e na torcida para que ela vença cada batalha 

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