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A Promessa do Vale por Lady Texiana

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Palavras: 4502
Acessos: 131   |  Postado em: 09/08/2026

Capitulo 8 - O Primeiro Encontro - Faíscas

 

A quarta-feira amanheceu com a atmosfera abafada, típica do meio de verão no Loup. O ar parecia estagnado sobre as ondulações suavemente inclinadas do vale, onde a grama quase seca e a vegetação dos piquetes centrais exalavam um odor denso de poeira e feno.

Jane Catherine Brown estava ajoelhada ao lado de um mourão do curral, segurando um martelo e um punhado de grampos de aço. Ela vestia a mesma calça de brim grosso usada nos dias de manejo, agora salpicada de terra seca nos joelhos, e uma camisa de algodão xadrez verde com as mangas dobradas até os antebraços. 

O suor escorria em uma linha tênue por sua têmpora, marcando o canto da testa sob a aba de feltro de seu chapéu. O trabalho de reparo na cerca de contenção do piquete era lento e braçal - um lembrete contínuo de que aquela terra exigia manutenção constante, alheia às intrigas financeiras e às decisões burocráticas tomadas a centenas de quilômetros dali.

Hank aproximou-se pelo caminho de cascalho com um balde de graxa e um pincel de cerdas. Ele parou a poucos passos de Jane, a sombra de seu chapéu ocultando o olhar atento.

- A vazão do riacho baixou mais duas polegadas desde ontem à noite, Jane menina - disse o velho capataz, limpando a garganta com um pigarro seco. - As pedras do leito no trecho que divide a nossa propriedade com as terras que eram do seu tio Tom já estão aparecendo. Se aquele pessoal de Chicago continuar represando a água na encosta norte, os reservatórios do setor sul vão virar pura lama em menos de dez dias.

Jane bateu o martelo contra o grampo de aço com um golpe seco e preciso, enterrando o metal profundo na madeira de carvalho escuro.

- Nós temos o direito de uso prioritário por registro histórico, Hank - respondeu ela, sem erguer a cabeça de imediato. - Se eles tentarem fechar o fluxo completamente, entro com uma liminar de emergência no tribunal da comarca em Grand Island antes do fim da semana. Eles sabem disso. Estão apenas tentando ver até onde vai a nossa capacidade de resistir.

- O problema com gente que tem rios de dinheiro, menina, é que eles usam a lei como quem usa um chicote no manejo do gado - murmurou Hank, olhando em direção à entrada do rancho. - E eles não têm pressa.

O som de pneus pesados rodando sobre o cascalho da estrada vicinal interrompeu a conversa. Não era o Chevrolet Suburban preto usado por Vance e Pendelton dois dias antes, mas um Cadillac Eldorado conversível de cor verde. O veículo avançava em velocidade reduzida, levantando uma cortina baixa e densa de poeira clara que se espalhava suavemente sobre os salgueiros do portão de entrada.

Jane colocou o martelo no chão, levantou-se devagar e limpou as palmas das mãos na parte lateral de sua calça. Ela permaneceu ao lado do curral de madeira, a postura ereta e os ombros firmes, observando o carro desenhar a curva e parar exatamente no centro do pátio principal, a poucos metros da varanda da casa de madeira centenária.

O motor do conversível foi desligado. O silêncio que se seguiu no vale foi quebrado apenas pelo estalo da porta do motorista se abrindo.

Stephanie White desembarcou.

A mulher que comandava o império da White & Sovereign Land Holdings não parecia pertencer àquela paisagem rural poeirenta. Stephanie vestia um terno feminino de corte impecável em tom bege-areia. A jaqueta ajustada destacava a linha reta de seus ombros, e a blusa interna de seda escura trazia um decote discreto, mas marcante. Seus cabelos loiros e densos estavam presos em um coque rigoroso no alto da cabeça, sem que um único fio parecesse fora de lugar. Óculos de sol de armação escura e lentes grandes cobriam seus olhos, mas não ocultavam o ângulo rígido de sua mandíbula.

Stephanie retirou os óculos com um movimento lento e calculado de sua mão direita, onde um anel de ouro branco com uma pedra de safira capturava a luz intensa do sol. Seus olhos azuis, de uma tonalidade fria e penetrante, percorreram o pátio, a estrutura do celeiro de madeira desgastada pelo tempo e a fachada da casa principal antes de encontrarem a figura de Jane.

A distância entre as duas mulheres era de cerca de dez passos.

Por alguns segundos, nenhuma das duas proferiu uma palavra. O mormaço do início da tarde parecia ter congelado o ar seco entre o curral de manejo e o pátio de cascalho.

Jane observou Stephanie com uma atenção redobrada. Ela reconhecia aquele tipo de presença: era a encarnação perfeita da elite corporativa de Chicago que dominava as salas das grandes corporações - fria, elegante, acostumada ao comando absoluto e totalmente desprovida de qualquer vínculo empático com o solo onde pisava. 

No entanto, havia algo na postura de Stephanie que transcendia a arrogância burocrática dos advogados enviados anteriormente. A mulher emanava uma força física crua, uma determinação predatória que não se escondia atrás de relatórios ou intermediários mandados para fazer o trabalho sujo.

Stephanie, por sua vez, manteve o olhar fixo em Jane. Esperava encontrar uma fazendeira desolada, acuada pelas dívidas e exausta pelo trabalho manual. Em vez disso, viu uma mulher jovem de ombros largos e postura firme, cujo rosto trazias feições angulares marcadas pela exposição ao sol e cujos olhos castanhos brilhavam com uma beligerância desafiadora e austera. 

O suor que brilhava no pescoço de Jane, a camisa de trabalho ajustada ao corpo pelo esforço físico e o contraste entre sua figura rústica e a dignidade serena de seus movimentos atingiram Stephanie de uma forma totalmente inesperada.

Não era apenas a presença de uma rival operacional. Era um golpe direto e súbito que fez o peito de Stephanie contrair-se em uma reação física súbita. Uma onda de calor repentina, estranha ao ambiente e desvinculada da temperatura daquele início de tarde, percorreu sua espinha. 

A aversão imediata que sentia pela resistência daquela mulher misturou-se de forma violenta a um impulso de atração física crua, urgente e profundamente perturbadora, algo que ela havia enterrado no fundo da sua mente, muitos anos antes.

Jane sentiu o mesmo choque elétrico. A visão de Stephanie - a pele alva em contraste com os cabelos loiros, o perfume caro de notas amadeiradas e florais que o vento fraco trazia até o curral, a segurança quase violenta com que ela ocupava aquele espaço rural - provocou em Jane um arrepio gélido e confuso. A repulsa instintiva diante da corporação que tentava destruir o legado de sua família chocou-se de frente com uma percepção aguda da beleza quase agressiva da mulher à sua frente.

- Você deve ser Jane Catherine Brown - disse Stephanie. A voz saiu profunda, levemente rouca, carregada de uma autoridade natural que não precisava ser elevada para ser ouvida com clareza. - Sou Stephanie White.

Jane deu dois passos à frente, saindo de perto do curral e parando na borda do pátio cascalhado, as mãos repousando sobre as fivelas de seu cinto de couro.

- Então você deve ser a mulher que paga os salários daqueles dois idiotas que enviou aqui no início da semana - respondeu Jane. A voz era limpa, cortante e sem qualquer traço de hesitação.

Um sorriso tênue, frio e sem qualquer traço de simpatia surgiu nos lábios de Stephanie. Ela deu dois passos na direção de Jane, os saltos de seus sapatos de couro importado estalando contra o cascalho seco.

- Eu não costumo deixar que subordinados resolvam problemas que exigem capacidade de decisão real, Srta. Brown - disse Stephanie, parando a pouco mais de um metro de distância. A proximidade permitia que ambas sentissem o calor emanado pelo corpo uma da outra sob o sol intenso. - Marcus Vance e Arthur Pendelton são técnicos eficientes para lidar com papelada em Chicago, mas não têm a percepção necessária para entender quando uma disputa deixa de ser puramente financeira e se torna pessoal.

- Esta disputa nunca foi pessoal para mim, Srta. White - retrucou Jane, mantendo os olhos cravados nos de Stephanie. - Trata-se de uma propriedade privada, de cento e dez anos de história de uma família e que acabou de pagar oitenta por cento do seu débito com o banco. Se a sua empresa acha que pode usar a escassez de crédito para arrancar esta terra das minhas mãos por uma fração do valor real, você veio ao lugar errado.

Stephanie deu mais um meio passo à frente. A distância entre elas era agora tão reduzida que Jane pôde ver as pequenas fagulhas douradas na íris azul dos olhos da executiva. O aroma do perfume caro de Stephanie contrastou de forma quase violenta com o cheiro de feno, suor de trabalho honesto e terra seca que vinha de Jane.

- Você é muito inteligente, Jane - disse Stephanie, usando o primeiro nome de Jane com uma entonação perigosamente íntima e calculada. - Reconheço o seu tipo. Analisei sua ficha. Analista de mercado em Chicago, com diploma na estante, tentando bancar a herdeira heroica no interior do Nebraska. Mas o mundo real não funciona à base de sentimentalismo de fronteira. Você conseguiu amortizar oitenta por cento da dívida vendendo o seu rebanho principal para a Midwest Co. É um movimento inteligente para ganhar tempo. Mas você continua com vinte por cento em aberto, e a terra ao norte, onde fica a nascente que nutre o seu riacho, pertence agora à minha holding.

- A água tem uso registrado por prioridade de ocupação, Stephanie - respondeu Jane, sustentando a proximidade física com uma rigidez que disfarçava o sobressalto interno provocado pelo toque do olhar da outra. - Se a sua empresa tentar bloquear o fluxo hídrico para nos forçar a uma venda sob coerção, eu levo a White & Sovereign aos tribunais federais antes que o seu projeto de irrigação saia do papel.

Stephanie soltou uma risada curta, baixa e carregada de uma condescendência sensual que fez a mandíbula de Jane se contrair.

- Tribunais federais levam anos, Jane - murmurou Stephanie, a voz descendo meio tom, quase confidencial. - E durante todo esse tempo, os custos de manutenção desta casa centenária, dos peões e da infraestrutura vão continuar caindo sobre os seus ombros. Você vai queimar o restante do capital que receberá da venda do rebanho apenas para pagar advogados locais em Grand Island. No final, quando a poeira baixar, você estará exausta, sem caixa e sem rebanho.

- E você estará com o seu projeto bilionário empacado por causa de uma disputa judicial de fronteira que os seus acionistas em Chicago não vão gostar de ver detalhada no relatório trimestral - rebateu Jane, dando mais um passo firme na direção de Stephanie, reduzindo o espaço restante a poucos centímetros. - Eu conheço o mercado corporativo tão bem quanto você. Eu sei o quanto o tempo de capital parado custa para uma holding do porte da sua. Você não pode esperar anos por esta terra, Stephanie. Você precisa dela agora. E é por isso que você está aqui, pisando no meu terreno e tentando me intimidar pessoalmente.

Stephanie piscou lentamente. O impacto da resposta de Jane, a lógica precisa, fria e cirúrgica, atingiu a executiva de forma direta. A admiração involuntária pela lucidez de Jane misturou-se a uma raiva ardente e a um desejo visceral de dobrar aquela mulher, de fazê-la ceder não apenas no contrato, mas na postura e na altivez com que a encarava. E que Deus a perdoasse, mas no corpo também.

Os olhos de Stephanie desceram involuntariamente por uma fração de segundo para os lábios de Jane, que permaneciam entreabertos pela respiração ligeiramente acelerada por causa do confronto, antes de retornarem para o olhar castanho da rancheira.

- Você tem coragem, Jane Brown - disse Stephanie, a voz rouca impregnada de uma tensão palpável. - Uma coragem tola, mas impressionante. No entanto, coragem não paga juros bancários. O seu amigo no conselho de administração do National Bank of Omaha, o velho Peter Barns, deu a você uma prorrogação de noventa dias. Ele acha que está protegendo a memória da sua família. Mas homens velhos e saudosos não duram para sempre nos conselhos de bancos regionais quando as pressões das grandes carteiras de investimento começam a apertar o cerco e reduzir investimentos.

- Não tente ameaçar o banco ou os homens que construíram este estado, Stephanie - disse Jane, a voz baixa e carregada de um aviso perigoso. - O Vale do Loup não está à venda. Nem hoje, nem daqui a noventa dias. Agora, se você já disse o que veio dizer, sugiro que entre no seu carro e saia da minha propriedade antes que o meu capataz traga o material necessário para limpar o pátio.

Hank deu dois passos à frente a partir da sombra do curral, a chave de ferro pesada descansando em sua mão direita, o olhar severo e inflexível fixado em Stephanie.

Stephanie olhou para o capataz por um instante e depois voltou a encarar Jane. A chama de ódio e atração entre as duas parecia ter consumido todo o oxigênio ao redor. Nenhuma das duas recuava. O silêncio era tão denso que o som da respiração ritmada de ambas parecia audível sob o calor do meio-dia.

- Esta terra vai ser minha, Jane - disse Stephanie, em um tom que era ao mesmo tempo uma promessa profissional e um desafio pessoal carregado de intenções ocultas. - E quando eu assumir a posse desta sede, farei questão de que você esteja aqui para ver a entrega definitiva das chaves.

- Tente vir buscar, Stephanie - respondeu Jane, os olhos brilhando com uma firmeza feroz. - Vamos ver quem vencerá.

Stephanie sustentou o olhar de Jane por mais três segundos, como se gravasse cada detalhe daquele rosto em sua memória. Em seguida, virou-se com um movimento fluido, a saia do terno ajustada acompanhando o giro de seu corpo, e caminhou em direção ao Cadillac verde. Ela abriu a porta, entrou com elegância e ligou o motor, que roncou forte no pátio silencioso.

Sem olhar para trás, Stephanie manobrou o conversível de forma rápida, jogando pedras de cascalho contra a cerca do curral, e acelerou em direção ao portão principal, desaparecendo na estrada vicinal em meio a uma nuvem de poeira sufocante.

Jane permaneceu imóvel na borda do pátio até que o som do motor do carro de Stephanie se perdesse completamente na distância. Suas mãos estavam cerradas em punhos ao lado do corpo, e seus nós dos dedos estavam brancos pela força da contração.

O coração de Jane batia com uma frequência desordenada e violenta no peito. A fúria diante da audácia daquela mulher - a forma como ela invadira a privacidade do rancho, a ameaça aberta de destruição financeira e a condescendência com que tratava a história do Vale do Loup - fazia o sangue de Jane ferver. Mas, junto com a raiva cega, havia um sentimento profundamente perturbador que ela tentava, em vão, sufocar dentro de si.

O toque daquele olhar azul, a proximidade do corpo de Stephanie, a fragrância de seu perfume caro e a autoridade sensual e perigosa que a executiva exalava haviam deixado em Jane uma marca inegável. Era uma atração visceral, indesejada e assustadora que a revoltava. Como podia sentir um impulso sufocante de desejo por uma pessoa que viera com a intenção explícita de despojá-la de tudo o que restava da herança de sua família?

Jane levou a mão à testa, enxugando o suor com a manga da camisa xadrez, a respiração ainda desajeitada.

Hank aproximou-se devagar, parando ao lado dela.

- Aquela mulher é pior do que os dois advogados, Jane menina - disse o velho capataz, o tom de voz grave e carregado de uma constatação sombria. - Os outros eram apenas cães de caça que vão na frente. Ela é a líder da alcateia. E ela não veio aqui só por causa da água ou da terra. Ela veio por orgulho.

- Eu sei, Hank - respondeu Jane, a voz saindo mais rouca do que o normal. - Ela acha que o dinheiro compra tudo e todos. Mas ela vai descobrir que aqui o solo é duro demais para ela.

- O que nós vamos fazer com o riacho?

Jane virou-se na direção da casa principal, o olhar perdido por um instante na linha do horizonte onde a poeira do carro de Stephanie ainda flutuava no ar abafado.

- Vamos continuar o trabalho nos currais e manter a manutenção dos lotes de retenção - disse Jane, tentando reorganizar os pensamentos e afastar a imagem do rosto de Stephanie de sua mente. - E eu vou manter os olhos bem abertos. Essa mulher não vai parar por aqui.

Enquanto Jane tentava conter a tempestade emocional que a visita de Stephanie provocara no rancho, o Cadillac verde cortava a rodovia estadual em direção a Omaha em alta velocidade.

Stephanie mantinha as duas mãos firmes ao volante de couro do conversível, o olhar fixo no asfalto cinzento que se estendia pelas planícies. O vento entrava pela capota abaixada do carro, mas ela sentia a pele da nuca e do pescoço queimando com uma sensação de calor que não tinha relação com o clima de Nebraska.

A imagem de Jane Catherine Brown - em pé na poeira do pátio, com a camisa suja de trabalho, as botas gastas e aquele olhar castanho cravado no seu com uma mistura de ódio puro e inteligência desafiadora - recusava-se a abandonar a mente de Stephanie.

Durante toda a sua trajetória corporativa em Chicago, Stephanie aprendera a dominar homens e mulheres através da intimidação financeira, da frieza técnica e do uso calculado de sua própria beleza e status. Ninguém ousava encará-la daquela forma. Ninguém se aproximava dela com aquela altivez crua e desprovida de medo. E, no entanto, aquela rancheira do interior, cercada por dívidas e com a propriedade ameaçada, olhara no fundo de seus olhos e respondera a cada provocação com uma precisão que desarmara suas defesas.

Stephanie soltou uma praga em tom baixo, golpeando o volante com a palma da mão direita. A fúria que sentia pela resistência de Jane era alimentada por uma constatação ainda mais enfurecedora: ela desejava aquela mulher. O pulso acelerado, o arrepio que percorrera sua pele durante aqueles minutos no pátio e o impulso quase incontrolável de segurar o rosto de Jane e tomar seus lábios à força sob o sol do meio-dia eram reações que Stephanie jamais experimentara em sua vida profissional. A vida pessoal menos ainda, posto que trazia seus sentimentos muito bem controlados sob uma camada de frieza emocional.

Era uma fraqueza inaceitável. Uma complicação pessoal que ameaçava desviar o foco da operação financeira em curso. E Stephanie White não permitia que emoções interferissem em seus negócios.

Por volta das três horas da tarde, o Cadillac de Stephanie estacionou na garagem subterrânea do prédio onde funcionava a sede do National Bank of Omaha. Ela subiu pelo elevador executivo em silêncio absoluto, a expressão rígida e os olhos azuis ocultos novamente por trás dos óculos escuros.

Ao chegar ao mezanino da diretoria, ela passou pela recepção sem pedir licença ou esperar anúncio. O secretário de Richard Smith tentou levantar-se para contê-la, mas a presença intimidadora de Stephanie fez o jovem congelar atrás da mesa.

Stephanie empurrou a porta de madeira da sala de reuniões do conselho de administração.

Dentro da sala iluminada por lustres de cristal e revestida de painéis de imbuia escura, três membros do comitê executivo estavam reunidos ao redor da mesa de conferências. No centro da cabeceira, apoiando os braços sobre a mesa e segurando sua bengala de cabo de prata, estava Peter Barns.

O velho diretor ergueu os olhos bifocais devagar ao ver a porta se abrir bruscamente. Ele observou a mulher de terno bege entrar com passos firmes, exalando uma aura de fúria contida e determinação implacável.

- Srta. White - disse Peter Barns, sem se levantar ou alterar a entonação grave de sua voz. - Acredito que a senhorita não tenha uma reunião agendada com esta diretoria para esta tarde.

Stephanie retirou os óculos de sol com um movimento ríspido e parou na ponta da mesa de conferências, encarando os membros do conselho.

- Eu não preciso de agendamento quando se trata de proteger os investimentos da White & Sovereign, Sr. Barns - declarou ela, a voz fria e carregada de autoridade. - Estive pessoalmente no Vale do Loup . O rancho dos Brown é uma operação inviável, sufocada por custos operacionais e sem capacidade de manter a liquidez do saldo remanescente da dívida. A concessão de uma prorrogação de noventa dias por este conselho é um ato de irresponsabilidade fiduciária com os acionistas deste banco.

Peter Barns recostou-se em sua cadeira de couro alto, cruzando as mãos sobre o castão de prata da bengala. Seu rosto marcado pelas rugas permaneceu calmo, mas seus olhos cinzentos faiscaram com a mesma firmeza que demonstrara diante de Jane na manhã anterior.

- A Srta. White parece confundir a gestão deste banco regional com as práticas predatórias dos fundos de investimento de Chicago - disse Barns, o tom controlado e cortante. - O National Bank of Omaha opera sob as leis do estado de Nebraska e sob princípios de crédito regulamentados. A família Brown efetuou o pagamento de oitenta por cento de sua obrigação financeira em dinheiro. Isso demonstra não apenas viabilidade, mas boa-fé absoluta.

- Oitenta por cento não é a liquidação integral, Sr. Barns! - rebateu Stephanie, dando um passo à frente e apoiando as mãos sobre a borda da mesa de imbuia. - Os vinte por cento restantes continuam vencidos. A White & Sovereign reitera a proposta de compra integral da carteira de crédito daquele rancho, com pagamento à vista e prêmio sobre o valor total. Nós assumimos o risco do saldo residual e liberamos o balanço deste banco imediatamente.

- A proposta da sua holding foi analisada e rejeitada por unanimidade por este comitê na sessão extraordinária que realizamos, Srta. White - explicou Barns, apontando com a bengala para a pasta de atas sobre a mesa. - Foi aprovada uma cláusula de restrição de cessão do título. A hipoteca dos Brown permanecerá sob custódia exclusiva desta instituição durante todo o período da prorrogação de noventa dias. Não haverá venda, cessão ou transferência de crédito para terceiros.

Stephanie sentiu a mandíbula se contrair. A serenidade e a inflexibilidade daquele velho bancário eram como uma parede de pedra contra a qual seus milhões de dólares não surtiam efeito imediato.

- O senhor está arriscando a reputação deste banco por uma questão de sentimentalismo regional, Sr. Barns - disse Stephanie, a voz descendo para um tom baixo e ameaçador. - A White & Sovereign possui linhas de crédito em mais de seis instituições no Centro-Oeste. Nós podemos transferir as nossas contas operacionais e os depósitos de nossas subsidiárias agrícolas para outros bancos de Nebraska até o final deste mês. O impacto de liquidez na sua instituição será muito maior do que o saldo residual daquela hipoteca.

Peter Barns sorriu - um sorriso curto, triste e profundamente desgostoso.

- A senhorita é jovem, Srta. White, e parece acreditar que o dinheiro pode comprar o respeito das pessoas e a história das terras onde este país foi fundado - disse o velho diretor, levantando-se devagar com o auxílio de sua bengala. - Este banco sobreviveu à Grande Depressão e a dezenas de crises agrícolas protegendo os produtores locais que mantêm este estado funcionando. Se a sua holding deseja retirar seus depósitos comerciais para tentar nos chantagear, a porta da rua está aberta. Mas o título do Vale do Loup não será vendido para a White & Sovereign.

Stephanie encarou Barns em silêncio por cinco longos segundos. A sala de reuniões parecia congelada sob a tensão entre o poder financeiro das metrópoles e a resistência tradicional do interior.

- Vocês vão se arrepender dessa decisão, Sr. Barns - disse Stephanie, a voz fria e cortante como gelo. - Quando os noventa dias terminarem e aquela mulher não tiver o dinheiro para quitar o saldo restante, eu estarei aqui para comprar não apenas a hipoteca dela, mas a carteira de crédito podre de metade dos clientes que este banco insiste em proteger.

Ela colocou os óculos de sol de volta no rosto, virou-se bruscamente e saiu da sala de reuniões, fazendo a porta de madeira bater com força contra o batente.

***

A noite caiu sobre o Vale do Loup com uma escuridão densa, sem lua, iluminada apenas pelas estrelas brilhantes no céu limpo de Nebraska. O ar gélido da madrugada começava a baixar sobre os pastos, trazendo um alívio momentâneo após o calor sufocante do dia.

Jane estava sentada na varanda da casa principal, em uma cadeira de balanço de madeira antiga que pertencera à sua avó. Ela segurava uma caneca de esmalte com chá preto morno, os braços cruzados sobre o peito para se proteger do vento frio que subia do leito do riacho.

A calmaria do vale era quase absoluta, interrompida apenas pelo cricrilar dos grilos e pelo ruído suave do vento nas folhas dos salgueiros. Mas a mente de Jane continuava em turbulência.

Ela fechava os olhos e a imagem de Stephanie White reaparecia com uma clareza angustiante: o brilho frio dos olhos azuis, a pele clara sob o sol, o tom rouco da voz dizendo o seu nome com aquela entonação provocante, a firmeza e a elegância com que ela ocupara o pátio do rancho.

Jane sentia uma raiva profunda de si mesma. Como podia permitir que a mulher que tentava destruir a sua vida e arrancar a terra de seus ancestrais ocupasse seus pensamentos daquela forma? Era uma traição à memória de seu pai, ao esforço de Hank e dos peões e a tudo o que ela representava ali.

"Ela é uma inimiga", repetiu Jane para si mesma em um murmúrio baixo, apertando os dedos ao redor da caneca. "Uma predadora de Chicago que acha que pode comprar tudo com um cheque ou um olhar intimidante."

Mas no fundo de sua consciência, naquela zona obscura onde a razão não conseguia impor controle absoluto, Jane sabia a verdade. A faísca que se acendera no pátio do rancho sob o sol do meio-dia não era apenas ódio. Era o início de uma guerra pessoal entre duas mulheres de vontades inabaláveis - uma guerra em que os limites entre a repulsa e a atração, a fúria e o desejo, haviam se tornado perigosamente tênues, facilmente cruzáveis.

Jane bebeu o último gole do chá, levantou-se da cadeira de balanço e caminhou em direção à porta de entrada. A batalha pelo Vale do Loup estava longe de terminar, e ela sabia que, quando Stephanie White retornasse - e ela retornaria, tinha certeza disso -, o embate não seria travado apenas em papéis, bancos ou tribunais. Seria travado no solo, na água e na intimidade de duas almas que haviam se reconhecido e se atraído durante a tempestade.

 

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