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A Promessa do Vale por Lady Texiana

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Palavras: 4653
Acessos: 153   |  Postado em: 04/08/2026

Capitulo 7 - A Fúria de Chicago

 

A rodovia que conectava a vastidão rural do Vale do Loup ao concreto de Omaha desdobrava-se sob o para-brisa da Ford azul em uma linha monótona de asfalto cinzento e milharais infinitos de ambos os lados da estrada. Jane mantinha as duas mãos firmes ao volante, a velocidade constante e o olhar fixo no horizonte, onde a névoa fria da madrugada gradualmente dava lugar a um céu de chumbo abafado. 

Ao seu lado, no banco do carona, a pasta de couro gasta guardava o envelope pardo com o cheque da Midwest. Aquele papel não era apenas uma quantia em dinheiro; era a prova tangível de que o trabalho pesado, o suor de Hank e dos peões e os novilhos Hereford podiam ser convertidos em tempo - a moeda mais escassa e valiosa na guerra que ela travava contra a liquidação do rancho.

Quando a caminhonete cruzou os limites urbanos em Omaha, o contraste com o silêncio do rancho atingiu Jane como um golpe físico. O tráfego de caminhões pesados, o ruído dos motores a gasolina, o vai e vem de trabalhadores e a arquitetura fria da cidade ressaltavam a distância entre dois mundos que pareciam colidir em um mar de ruídos e poluição. Jane estacionou a Ford a duas quadras do National Bank, em uma vaga que exigia moedas de vinte e cinco centavos para uma hora. Ela desceu, ajeitou o cano das botas por baixo da calça jeans, vestiu o blazer de lã escura que reservara para ocasiões formais e pegou a pasta.

As portas com maçanetas de bronze e vidro temperado da sede do banco eram imponentes, desenhadas para projetar uma ilusão de estabilidade inabalável e tradição financeira. O saguão principal, com chão de mármore polido e colunas neoclássicas, ecoava o som de passos apressados e o murmúrio contínuo dos caixas e clientes que circulavam pelo local esperando o atendimento. 

O ar-condicionado central soprava um vento frio e artificial que fez Jane recordar instantaneamente a atmosfera estéril das firmas de investimento de Chicago - um ambiente construído para despersonalizar o dinheiro e congelar qualquer sentimento humano que alguém pudesse ter.

Ela caminhou até o mezanino executivo, onde as salas dos gerentes de crédito e diretores eram separadas por divisórias de madeira e vidros foscos. O secretário na recepção, um jovem de cabelos engomados e óculos de armação metálica, olhou para as botas de Jane com uma mistura indisfarçável de reserva e condescendência antes de anunciar sua chegada.

- A Srta. Jane Brown para a reunião agendada com o Sr. Richard Smith - declarou ela, mantendo a voz num tom neutro e profissional que não dava margem para delongas.

Após dois minutos, a porta da sala do canto abriu-se. Richard Smith surgiu à porta. Seu rosto carregava a expressão cansada de quem passara a manhã analisando balanços patrimoniais de produtores rurais falidos ou em rota de colisão com a instituição bancária em todo o estado do Nebraska.

- Srta. Brown - disse ele, indicando a cadeira de couro em frente à sua escrivaninha. - Por favor, entre. Não esperava vê-la tão cedo na cidade, depois do nosso último encontro.

Jane sentou-se, mantendo a postura ereta, a pasta sobre os joelhos. Ela observou a mesa de Smith: pilhas de pastas suspensas, relatórios de crédito agrícola e uma xícara de café meio vazia, já fria.

- Bom dia, Sr. Smith. Vim resolver a questão do adiantamento da hipoteca do Vale do Loup antes que os prazos formais se tornem um problema para ambas as partes, como disse que o faria no nosso último econtro.

Smith suspirou, apoiando os antebraços na mesa e juntando as mãos. Seu olhar refletia o peso da crise de crédito que castigava todo o setor agrícola naquele ano de 1980.

- Jane, vou ser muito franco com você. O conselho de crédito deste banco tem sofrido uma pressão imensa nas últimas semanas. A inadimplência no setor de pecuária subiu drasticamente com a alta das taxas de juros federais, e a diretoria está buscando liquidez rápida. Recebemos sondagens formais de grupos investidores interessados em adquirir carteiras de dívidas rurais neste banco, incluindo o título da sua família. Se você não trouxer uma solução substancial para o montante em atraso, a execução judicial ou a cessão do crédito para estas financeiras e especuladores serão inevitáveis ao fim deste mês.

Sem proferir uma palavra, Jane abriu as travas de sua pasta, tirou o envelope pardo e o deslizou sobre a mesa polida de Smith.

- Este é um cheque administrativo emitido pela Midwest Co. no valor exato que cobre oitenta por cento do principal vencido e dos juros acumulados da hipoteca dos Brown - disse ela, mantendo os olhos fixos nos do gerente. - O gado Hereford do Vale do Loup já foi entregue e inspecionado. O dinheiro é bom, o cheque é sacável imediatamente neste mesmo banco e liquida a maior parte do débito em aberto.

Smith pegou o envelope, tirou o documento de compensação bancária e examinou a assinatura com o cuidado minucioso de quem buscava qualquer falha técnica. Ao constatar a autenticidade do valor impresso, sua sobrancelha ergueu-se ligeiramente.

- Oitenta por cento... - murmurou ele, recalculando mentalmente a posição do contrato. - Isso é um aporte significativo, Jane. Admito que não esperava que você conseguisse levantar essa liquidez em dinheiro vivo tão rapidamente.

- O trabalho no rancho continua funcional e ocorre de forma acelerada, Sr. Smith - retrucou Jane, mantendo o tom firme. - Exijo a emissão imediata do recibo de quitação parcial e o registro formal de abatimento no livro de hipotecas do banco. Quanto aos vinte por cento restantes, o saldo residual será coberto assim que a Midwest Co. processar o balanço final de rendimento das cabeças, dentro do prazo operacional do contrato de venda que firmamos.

Smith ajeitou os óculos e recostou-se na cadeira, demonstrando uma visível divisão entre a responsabilidade burocrática e o pragmatismo financeiro.

- Jane, este abatimento reduz o risco do banco a um nível administrável, sem dúvida. No entanto, formalmente, a dívida ainda possui um saldo em aberto. A política da instituição, sob as diretrizes de contenção impostas este mês pelo conselho de administração, nos obriga a manter a hipoteca na lista de observação especial até que o último centavo seja liquidado. Se um terceiro fizer uma oferta de compra pela totalidade da carteira inadimplente ou do saldo da dívida remanescente...

- Se o banco aceitar vender uma dívida que acabou de receber oitenta por cento de amortização em dinheiro limpo, estará agindo com má-fé contratual e favorecendo o assédio predatório sobre produtores locais - cortou Jane indignada, a voz impregnada da clareza técnica de quem conhecia as brechas da legislação bancária. - O pagamento parcial demonstra viabilidade operacional. O National Bank não tem amparo legal para executar uma propriedade cujos juros e o principal foram majoritariamente quitados dentro do prazo acordado.

Smith encarou Jane por alguns segundos em silêncio. A firmeza daquela mulher, associada ao conhecimento profundo que ela demonstrava das rotinas financeiras, deixava claro que ela não era uma fazendeira vulnerável que pedia favores por caridade.

- Vou emitir o recibo oficial de amortização dos oitenta por cento, Srta. Brown - cedeu Smith, puxando o carimbo e a folha de registro de caixa. - O valor será creditado na conta de liquidação da hipoteca ainda hoje. Mas deixo claro: o saldo remanescente continua sob o prazo estipulado. Se não houver liquidação integral, a pressão da diretoria continuará existindo e ai então eu não poderei fazer nada quanto a isso.

Enquanto Smith datilografava a autenticação e assinava as vias do recibo de pagamento, Jane sentiu um alívio frio e contido atravessar-lhe o peito. Não era a vitória definitiva, mas era a demarcação de uma trincheira avançada no campo de batalha. O dinheiro do esforço do trabalho no Vale do Loup acabara de comprar a primeira batalha contra os números frios e calculistas dos balancetes financeiros da instituição bancária.

Ao sair da sala de Smith com as vias assinadas e carimbadas guardadas em sua pasta, Jane começou a descer o pequeno lance de escadas de mármore em direção ao saguão térreo, que dava para a porta de entrada. Foi nesse momento que uma figura idosa, vestida com um terno de corte impecável em tom xadrez, colete ajustado e uma bengala de madeira com cabo de prata, emergiu vindo do corredor da diretoria executiva.

O homem parou no patamar da escada, os olhos astutos por trás das lentes bifocais observando a jovem que descia com passos decididos.

- Jane? Jane Catherine Brown? - a voz grave, profunda e ligeiramente rouca ecoou pelo saguão, sobrepondo-se ao ruído ambiente.

Jane parou no meio dos degraus e olhou para trás. Levou dois segundos para reconhecer as feições marcadas pelas rugas da idade, mas inconfundíveis, do homem que acompanhara a trajetória de seu pai durante décadas.

- Sr. Barns? - respondeu ela, surpresa, subindo os dois degraus de volta para cumprimentá-lo.

Peter Barns era um dos membros mais antigos e influentes do conselho de administração do National Bank of Omaha. Amigo pessoal de Frederick Brown desde os tempos em que o vale dependia de cooperativas regionais de crédito, Barns representava a velha guarda da elite financeira do Centro-Oeste - homens que ainda valorizavam a palavra dada, o conhecimento das famílias locais e a integridade da terra sobre as especulações rápidas e danosas do mercado de ações.

- Minha nossa, menina - disse Barns, segurando a mão de Jane com um aperto caloroso e firme, apoiando-se na bengala. - Quando disseram na mesa do conselho que a filha de Frederick estava na cidade cuidando dos negócios do Vale do Loup, quase não acreditei. Você tem os mesmos olhos decididos do seu pai. Como você está? E como estão as coisas no rancho?

Jane esboçou um sorriso sincero, o primeiro em muitos dias de tensão ininterrupta.

- Estou resistindo, Sr. Barns. E o rancho continua de pé, embora haja quem queira derrubar as nossas cercas.

Barns indicou com a bengala uma sala reservada no fundo do mezanino, destinada às reuniões do conselho.

- Venha comigo, Jane. Beba uma xícara de chá ou café. Preciso saber a verdade sobre o que está acontecendo no Vale do Loup. Ouvi rumores desagradáveis nas últimas sessões do comitê de crédito agrícola.

Eles entraram na sala de reuniões revestida de painéis de madeira escura, onde quadros a óleo retratavam os fundadores do estado. Jane sentou-se à mesa de conferências enquanto Barns pedia a um funcionário que trouxesse duas xícaras de café quente.

- Sr. Barns - começou Jane, colocando a pasta de couro sobre a mesa -, acabo de entregar a Richard Smith um cheque administrativo cobrindo oitenta por cento de todo o montante pendente da nossa hipoteca. O gado que tínhamos foi entregue à Midwest Co. Ontem à tarde, porém, recebemos a visita de dois advogados de Chicago no rancho. Representantes da White & Sovereign Land Holdings.

A expressão de Thomas Barns mudou instantaneamente. As rugas ao redor de seus olhos se contraíram, e ele apoiou as duas mãos sobre o castão de prata da bengala.

- White & Sovereign... - repetiu o velho diretor, a voz carregada de um desdém contido. - Conheço a fama dessa firma e dos conglomerados que orbitam ao redor dela em Chicago. Eles estão comprando dívidas rurais com desconto abusivo em todo o distrito, usando holdings para consolidar propriedades de grande porte ao longo das bacias hidrográficas do estado. O intuito, é claro, é a apropriação da agua para sufocar os ranchos resistentes.

- Eles tentaram me chantagear, Sr. Barns - explicou Jane, sem alterar o tom sereno, mas deixando transparecer a gravidade dos fatos. - Apresentaram uma oferta de compra vinte por cento abaixo da avaliação fiscal e deixaram claro que já moveram peças para sufocar o curso de água do rancho, aproveitando-se de terras que adquiriram a montante, na encosta norte, exatamente como o senhor imagina. Disseram com todas as letras que, se eu recusasse a proposta, eles usariam sua influência junto a este banco para adquirir o título da hipoteca vencida e executar a propriedade no dia primeiro, expulsando-nos de lá como invasores das nossas próprias terras.

Barns ouviu cada palavra em silêncio absoluto. Seus olhos cinzentos faiscaram de indignação. Ele deu um golpe seco com a ponta da bengala contra o chão de madeira, fazendo o som ecoar na sala limpa.

- Arrogantes - vociferou o velho bancário. - Eles acham que este estado é um tabuleiro de Banco Imobiliário onde podem jogar papéis e comprar a história dos homens que construíram este estado. Frederick Brown foi um dos fundadores da cooperativa que deu origem às linhas de crédito agrícola deste próprio banco. O sangue e o trabalho da sua família estão na fundação desta instituição.

- Eu não vim aqui pedir favores ou caridade, Sr. Barns - disse Jane. - Eu amortizei oitenta por cento do débito com dinheiro legítimo da nossa produção. Preciso apenas do tempo necessário para que a liquidação dos vinte por cento restantes seja processada no balanço final da venda. No entanto, Smith deixou claro que o conselho pode ser pressionado a ceder o título caso a liquidez total não seja apresentada imediatamente.

Peter Barns levantou-se, caminhando até a janela que dava para a rua movimentada de Omaha. Ele permaneceu de costas por alguns instantes, observando o tráfego antes de se virar para Jane com uma expressão de absoluta determinação.

- Escute-me bem, Jane Catherine - disse ele, a voz firme e inquestionável de quem exercia autoridade real e inquestionável dentro daquele prédio. - Enquanto eu ocupar uma cadeira no conselho de administração do National Bank, nenhum especulador de Chicago colocará as mãos na hipoteca do Vale do Loup. O aporte de oitenta por cento que você fez hoje é mais do que suficiente para demonstrar a solvência e a boa-fé do rancho e da sua administração.

Ele retornou à mesa, apoiando as mãos sobre o tampo de madeira de lei e olhando nos olhos de Jane, afirmou com um aceno brusco.

- Eu pessoalmente levarei este caso à pauta da reunião extraordinária da diretoria amanhã de manhã. Vou conseguir aprovar uma prorrogação formal de noventa dias para a quitação do saldo residual de vinte por cento. Além disso, emitirei uma cláusula de restrição de cessão: o título da dívida dos Brown não será vendido, cedido ou negociado com qualquer terceira parte ou holding externa sob nenhuma hipótese antes dos noventa dias. A dívida permanece sob a custódia exclusiva deste banco até a sua liquidação final.

Jane sentiu a tensão que acumulava nas costas desde a visita dos advogados no dia anterior começar a se dissolver. A proteção de Barns não era apenas um alívio financeiro; era a garantia de que as regras do jogo seriam mantidas dentro da legalidade e da ética regional que sempre fizera parte dos acordos.

- Eu nem sei como agradecer, Sr. Barns - disse ela, com a voz embargada por uma emoção contida.

- Não me agradeça, Jane - respondeu o velho, sorrindo com um olhar paternal. - Agradeça à memória do seu pai e à sua própria coragem de não ter se curvado diante daqueles sujeitos engravatados. Apenas garanta que o Vale do Loup continue produzindo o melhor gado deste estado. E quando aquele saldo residual for liquidado, venha almoçar comigo.

- Estarei aqui, Sr. Barns. Eu garanto.

Com as garantias verbais e o compromisso formal do membro sênior do conselho, Jane despediu-se de Peter Barns. Ela desceu as escadas do banco com um passo perceptivelmente mais leve, segurando a pasta que agora continha a prova documental da resistência e o legado de sua família.

Ao retornar para a caminhonete Ford azul, Jane sentou-se ao volante e olhou para o recibo emitido por Smith. Pela primeira vez em semanas, o peso esmagador da incerteza deu lugar a uma sensação clara de controle. Ela ligou o motor V8, ajustou o espelho retrovisor e iniciou a viagem de volta para o rancho. O Vale do Loup ainda enfrentava desafios imensos e a ameaça de seca que se vislumbrava na encosta norte, pelo aprisionamento das aguas pela holding, continuava pendente, mas a tentativa de golpe rápido através da hipoteca bancária fora frustrada. A vitória em Omaha trazia o oxigênio necessário para planejar os próximos passos.

Enquanto a Ford azul de Jane cortava as estradas de Nebraska de volta ao rancho, a setecentos quilômetros dali, no trigésimo andar de uma das torres de vidro e aço mais exclusivas do Loop financeiro de Chicago, o clima era de absoluta tempestade.

A sede corporativa da White & Sovereign Land Holdings exalava opulência e poder. As paredes de mármore importado, as obras de arte abstrata de valores astronômicos e a vista panorâmica do Lago Michigan serviam de cenário para o centro de comando de Stephanie White.

Stephanie não chegara ao topo do mundo financeiro por ser tolerante com fracassos. Como filha de uma linhagem de industriais e investidores imobiliários, ela transformara a WS em uma máquina impiedosa que esmagava pequenos proprietários por toda a parte. Para ela, a terra não tinha alma, cor ou história; era apenas um fator de produção, uma linha em um balanço patrimonial que devia gerar rentabilidade máxima para os acionistas que ela representava.

Naquela tarde de terça-feira, o ar-condicionado do andar da diretoria parecia incapaz de resfriar a sala de reuniões principal. Stephanie estava de pé junto à imensa mesa de madeira polida, vestindo um terno sob medida em tom creme, impecavelmente cortado, com botões de pérola e uma blusa de seda escura. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque rigoroso, e seus olhos azuis gelados encaravam os dois homens sentados do outro lado da mesa como se fossem subordinados incompetentes, o que para ela, eles realmente eram.

Marcus Vance e Arthur Pendelton pareciam ter encolhido dentro de seus ternos amassados. A poeira do Vale do Loup ainda parecia impregnada nas dobras de suas roupas, e a viagem de volta no voo comercial de Omaha fora marcada por um silêncio tenso e opressivo de quem sabia que ainda teriam que enfrentar a fera.

- Deixem-me ver se compreendi perfeitamente a incapacidade profissional de vocês dois - a voz de Stephanie saiu baixa, fria e cortante como uma lâmina de aço, percorrendo a sala em um silêncio sepulcral. - Eu enviei o meu advogado sênior e o meu principal analista agrícola até um rancho decadente no interior do Nebraska, munidos de uma oferta financeira irrecusável para uma rancheira falida e de uma estratégia de pressão sobre o curso de água que abastece a propriedade e vocês voltaram para Chicago com as mãos vazias e enxotados por uma mulher usando botas de montaria e um capataz idoso com uma chave de fenda?

- Srta. White, por favor, permita-me contextualizar a situação - tentou intervir Marcus Vance, enxugando o suor que brotava em sua testa com um lenço de linho. - Jane Brown não reagiu como uma produtora rural típica. Ela compreendeu imediatamente as nossas intenções, que desenhamos para a encosta norte, no corte do fluxo de agua para a propriedade. Além disso, ela foi extremamente agressiva. Apresentou o comprovante do recebimento de um adiantamento de oitenta por cento da dívida que ela tem com o banco referente à venda do gado para a Midwest Co. Ela não estava em desespero financeiro imediato, como os relatórios do nosso departamento de análise previam e isso nos pegou desprevenidos. Ficamos sem margem para agir.

Stephanie deu dois passos lentos até a mesa, apoiando as duas mãos sobre o tampo de madeira e inclinando o corpo na direção de Vance. O olhar de fúria contida era intimidante, mesmo para dois homens acostumados com a pressão do mercado financeiro.

- Eu não pago executivos para me trazerem justificativas sobre a atitude de caipiras sem eira nem beira, Vance! - esbravejou ela, aumentando o tom de voz até que o som ecoasse pelas paredes da sala. - Eu pago vocês para fechar acordos! A consolidação do Vale do Loup é a peça central do projeto de irrigação e confinamento intensivo da WS Agribusiness para aquele setor do estado. Nós já investimos milhões comprando as terras periféricas e a nascente do tio daquela mulher! Se não obtivermos a posse da propriedade central, todo o plano hídrico do vale fica paralisado e as nossas despesas de capital vão disparar!

Pendelton ajeitou os óculos com as mãos trêmulas, tentando se defender com dados técnicos.

- Srta. White, o plano original previa a execução da hipoteca junto ao National Bank of Omaha no dia trinta. Com os vinte por cento restantes pendentes e sem a concordância dela para a venda direta, nós ainda temos a opção de adquirir o título da dívida junto ao conselho do banco e forçar a liquidação judicial. O banco está pressionado por falta de liquidez...

Stephanie endireitou o corpo, soltando uma risada sarcástica e desprovida de qualquer humor.

- E vocês acham que aquela mulher vai sentar e esperar vocês agirem? Se ela conseguiu levantar oitenta por cento do valor do débito em dinheiro em menos de uma semana, ela já deve estar na porta daquele banco em Omaha neste exato momento!

Ela virou-se bruscamente para o telefone de mesa de linha direta e apertou o botão da secretaria executiva.

- Helen! Consiga-me o gerente geral de crédito do National Bank of Omaha, na linha um. Agora!

Durante os três minutos seguintes, a sala de reuniões permaneceu em um silêncio sufocante. Vance e Pendelton mal ousavam respirar, enquanto Stephanie caminhava de um lado para o outro diante das janelas panorâmicas, observando o horizonte de Chicago com os braços cruzados sobre o peito. A fúria que a consumia não era apenas o produto do atraso em um negócio multimilionário; era a afronta de perceber que uma operação planejada em cada detalhe técnico fora frustrada pela resistência de uma mulher que se recusava a aceitar os ditames do mercado.

O sinal sonoro do telefone tocou duas vezes. Stephanie avançou sobre o aparelho e pegou o gancho com força.

- Com quem falo? Sr. Smith, aqui é Stephanie White, diretora executiva da White & Sovereign Land Holdings de Chicago.

A voz de Richard Smith veio do outro lado da linha, soando hesitante e visivelmente desconfortável com a ligação direta da alta cúpula de uma das maiores holdings do Centro-Oeste.

- Boa tarde, Srta. White. Em que posso ajudá-la?

- Vamos direto ao ponto, Smith - disse Stephanie, sem qualquer preâmbulo diplomático ou tentativa de parecer amigável. - Meus representantes legais estiveram no Nebraska. Nós estamos prontos para apresentar uma proposta de aquisição imediata, em dinheiro vivo e sem deságio, para a carteira de crédito e o título da hipoteca do rancho do Vale do Loup, pertencente à família Brown. Queremos assinar a transferência da cessão do crédito para nossa carteira até o final desta semana.

Houve uma pausa desconfortável do outro lado da linha antes de Smith responder, pigarreando ligeiramente.

- Srta. White... temo que essa operação não seja mais viável neste momento.

A sobrancelha de Stephanie franziu-se bruscamente, seus dedos apertando o fone com tanta força que as juntas de sua mão ficaram brancas.

- Como não é viável? O contrato de hipoteca está em atraso e o banco tem autorização regulatória para ceder dívidas sob risco de crédito!

- A situação mudou esta manhã, Srta. White - explicou Smith, tentando manter o tom profissional. - A Srta. Jane Catherine Brown esteve pessoalmente em minha sala. Ela efetuou o pagamento e a quitação formal de oitenta por cento de todo o montante pendente do principal e dos juros da hipoteca, através de um cheque administrativo emitido pela Midwest Co.

- Oitenta por cento não é a totalidade da dívida, Smith! - cortou Stephanie, a voz subindo de tom. - Há um saldo residual de vinte por cento. A holding compra esse saldo residual e exige o direito de execução sobre a garantia total!

- Não será possível, Srta. White - continuou o gerente, a voz demonstrando que a decisão não estava mais sob sua alçada individual. - O caso foi levado diretamente ao conselho de administração da instituição esta manhã por intervenção do nosso diretor mais antigo Peter Barns. A diretoria aprovou ad hoc da reunião do conselho, uma prorrogação de prazo de noventa dias para a liquidação do saldo remanescente, além de emitir uma cláusula de restrição absoluta de cessão do título, que será discutida com mais calma em reunião posterior. O banco não venderá, não cederá e não negociará a hipoteca do Vale do Loup com nenhuma instituição externa. O contrato permanece sob nossa custódia exclusiva até o encerramento do prazo.

Stephanie sentiu o sangue ferver em suas veias. O nome de Peter Barns era bem conhecido nos círculos financeiros como um obstáculo às investidas de grupos de fora sobre as propriedades locais no Nebraska.

- Vocês estão protegendo uma propriedade falida em detrimento do interesse dos seus acionistas, Smith! - disse ela, a voz tremendo de raiva. - A White & Sovereign tem recursos para congelar as operações do seu banco em praças regionais!

- A decisão foi tomada pela diretoria de administração com base na liquidação majoritária do débito e na demonstrada solvência do tomador, Srta. White - respondeu Smith, mantendo a postura institucional. - Tenho uma reunião em instantes. Tenha uma boa tarde.

A linha foi desligada na cara de Stephanie.

Ela permaneceu por três segundos com o fone na mão, o rosto pálido de absoluta indignação. Em seguida, bateu com força o telefone sobre a mesa, causando um estalo seco que reverberou pela sala.

Vance e Pendelton sobressaltaram-se nas cadeiras.

- Desgraçada! - vociferou Stephanie, os olhos inflamados de raiva, o peito subindo e descendo aceleradamente enquanto caminhava em direção a janela. - Ela achou um velho protetor no conselho do banco para ganhar tempo! Ela acha que pode jogar as regras de um rancho falido contra a capacidade de fogo da White & Sovereign!

Ela virou-se para os dois executivos, apontando o dedo indicador de forma acusatória.

- Vocês dois são uma vergonha para esta empresa! Permitiram que uma rancheira sem um tostão e um punhado de caipiras do interior fizessem a nossa holding de palhaça diante do sistema financeiro de Omaha!

- Srta. White... o que vamos fazer agora em relação ao projeto de consolidação hídrica? - perguntou Pendelton, a voz sumida pelo medo.

Stephanie ajeitou o blazer com um movimento ríspido, recuperando o controle glacial sobre sua voz, embora a fúria em seus olhos continuasse ardendo de forma perigosa.

- O que vamos fazer? - disse ela, o tom baixando para um murmúrio venenoso. - Nós não, Pendelton. Eu vou.  Vou parar de enviar intermediários incompetentes para fazer o trabalho necessário.

Virou-se, pegando novamente o telefone, discando o ramal da secretária.

- Cancele toda a minha agenda para o restante da semana. Mande preparar o avião executivo da empresa no aeroporto para amanhã de manhã.

Vance olhou para ela, surpreso.

- A senhora vai pessoalmente ao Nebraska?

- Eu vou ao Vale do Loup - declarou Stephanie, os lábios curvados em uma linha ríspida e implacável. - Quero ver de perto essa terra que esta mulher julga ser intocável. Vou olhar nos olhos dela e mostrar a ela o que acontece quando alguém decide atrapalhar os negócios da White & Sovereign. Se ela quer uma guerra, ela vai ter. E eu garanto que, antes que o prazo do banco termine, ela mesma estará implorando para assinar a transferência daquela propriedade na minha frente.

Stephanie caminhou até a janela panorâmica, olhando para o horizonte de Chicago. A batalha legal e financeira nos escritórios bancários havia falhado, mas a pressão direta, no solo e sem intermediários, estava apenas começando. O Vale do Loup deixara de ser uma mera oportunidade de investimento; tornara-se uma questão de honra e poder para a mulher que comandava o império que era a White & Sovereign.

 

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