Capitulo 20
Por Miu
Os últimos dias na confeitaria foram um borrão de farinha, açúcar e um cansaço físico que eu não sentia há muito tempo. Entre a enorme remessa de biscoitos decorados e a administração da loja, meus dias começavam antes do sol nascer e terminavam quando a última luz da cozinha se apagava durante as madrugadas frias. Lena, por sua vez, estava mergulhada em seu próprio universo, trancada em seu quarto, lutando contra o bloqueio que finalmente havia dado lugar a uma enxurrada de palavras fáceis.
Nos víamos pouco, quase nada, mas o celular se tornou nossa ponte. Mensagens rápidas, fotos de um ingrediente novo, um tímido "estou com saudades" escrito no meio da madrugada... Tudo isso mantinha a conexão viva, mesmo que fisicamente estivéssemos distantes.
Eu estava terminando de organizar uma vitrine quando meu celular vibrou sobre o balcão. Era uma mensagem dela. Um sorriso involuntário e idiota surgiu no meu rosto, e eu me peguei rindo sozinha, digitando uma resposta enquanto balançava a cabeça.
— Olha só isso... — A voz de Ling veio de perto. Ela estava encostada no batente da porta, com um sorriso divertido nos lábios. — É oficial. A nossa confeiteira profissional agora vive hipnotizada por uma tela. Você está rindo para o celular por no mínimo a milésima vez só hoje, Miu. É a Lena, não é?
Senti o calor da vergonha subir pelo meu pescoço, mas não consegui conter o sorriso. Guardei o aparelho e me virei para ela, sentindo-me subitamente vulnerável.
— Ela é impossível, Ling. — Admiti, em um sussurro. — Mas, me diga... você que conhece ela melhor que ninguém. Você acha que é cedo demais? Digo, para um pedido mais sério? Um namoro talvez? Eu… Bem, eu tenho comprei algo para ela.
Tirei do bolso uma caixinha branca que sempre carregava comigo nos últimos dias.
Ling levou as mãos até a boca sem esconder a surpresa.
– Você comprou um anel para minha irmã?
– Você acha que me precipitei?
Ling ficou em silêncio por um momento, observando-me com uma seriedade rara, antes de seus olhos se suavizarem. Ela deu de ombros, caminhando até mim e colocando uma mão em meu ombro.
— Miu, o tempo é uma construção de quem tem medo de sentir. A Lena passou a vida toda sendo pautada pelo tempo dos outros, pelo relógio da editora, pelas expectativas da fãs. Se você sente que é o momento, e se o seu coração diz que sim... siga o seu instinto. O destino não costuma pedir licença para acontecer.
Antes que eu pudesse responder, a porta da frente se abriu com um estrondo. Engfa e Lookmhee entraram, mas o que me fez arregalar os olhos foi o rosto da Lookmhee: estava todo pintado com bigodes de coelho e focinho preto, um desastre completo.
Ling não perdeu um segundo. Ela explodiu em uma gargalhada que ecoou pela confeitaria inteira.
— Meu Deus, Mhee! O que aconteceu com você? Você parece que tentou lutar contra uma cartilha de jardim de infância e perdeu a batalha.
Lookmhee revirou os olhos, mas não conseguia esconder a frustração divertida.
— São os meus alunos. — Ela resmungou, tentando limpar um pouco da tinta. — Tivemos uma aula sobre "expressão artística" e, bom... Aparentemente eu fui a tela escolhida. Eles não me deixaram sair da sala até que eu estivesse devidamente caracterizada. Foi um caos completo. Eu sei!
Engfa, encostada no balcão com os braços cruzados, já não conseguia mais conter os risos. Ela apontou para o rosto da prima.
— "Coelhinha do caos", essa é nova! Você é uma professora muito dedicada, Mhee. Seus alunos realmente conseguiram o que queriam.
As duas primas continuaram a zombar da aparência de Lookmhee, o clima de descontração dominando o ambiente. Lookmhee, querendo mudar de foco o mais rápido possível, olhou para mim e estreitou os olhos, percebendo que eu ainda estava com um ar sonhador, provavelmente com o celular ainda em mente.
— E por que não falamos sobre a Miu está com essa cara de boba? — Lookmhee disparou, aproveitando a chance de desviar a atenção de si mesma. — Ela está olhando para o celular com uma cara de quem esqueceu como se fala.
Ling arqueou uma sobrancelha, olhando para mim com um brilho cúmplice com a prima.
— Efeitos colaterais da paixão, Mhee. Nossa confeiteira está perdidamente apaixonada, e o efeito é esse aí: ela fica tímida e sorridente sempre que uma mensagem chega.
Senti meu rosto arder, escondendo-me atrás de uma assadeira. Elas riam, mas aquilo não me incomodava. Eu não me importei com a brincadeira feita pelas primas, especialmente porque existia um fundo de verdade.
Enquanto as três primas começavam uma pequena discórdia entre si sobre algo dito por Mhee, eu fiquei pensativa… O que Ling disse sobre seguir o coração ficou ecoando na minha mente.
O riso das meninas ainda preenchia o ar, mas Engfa, com seu olhar astuto de quem sempre observa mais do que fala, aproximou-se do balcão onde eu terminava de organizar os biscoitos. Ela observou meu silêncio, a forma como eu voltava a olhar para o celular, e baixou o tom de voz, chamando minha atenção.
— Miu, você está com a cabeça em outro lugar, e não é só por causa das mensagens. — Engfa disse, cruzando os braços e me encarando com aquela autoridade serena que só a mais velha das primas possuía. — O que está pesando aí?
Respirei fundo. A verdade é que, no meio daquela família tão barulhenta e unida, não havia como esconder segredos por muito tempo.
— Estou pensando em oficializar. — Confessei, sentindo as bochechas queimarem. — Quero dizer, pedir a Lena em namoro. Mas não sei se é o momento certo ou como fazer isso.
– Ela até comprou um anel, acredita? – Ling se certificou de garantir a fofoca para as outras duas.
Engfa ficou estática por alguns segundos. Ela sempre era a mais contida, a que analisa cada peça do tabuleiro antes de se mover. Ela arqueou uma sobrancelha, o olhar perdido em um ponto fixo, e por um instante, o silêncio da confeitaria pareceu amplificado. Então, lentamente, um sorriso genuíno e satisfeito surgiu em seus lábios.
— Sabe de uma coisa? — Ela disse, com sua voz firme e sem rodeios. — Isso é excelente. Se você for esperar que a Lena tome a atitude, vai esperar uma eternidade. Aquela ali planeja até o modo de respirar, analisa todos os cenários possíveis e, quando ela finalmente decide agir, o momento já passou faz tempo. Ela precisa de alguém que a tire da inércia dos próprios pensamentos.
Lookmhee, que já tinha desistido de limpar o resto da tinta que dava vida a sua pintura de coelho do rosto, pulou na conversa com os olhos brilhando de empolgação.
— Oh, um pedido de namoro! Eu quero ajudar! Miu, vamos fazer algo grandioso? Posso cuidar da decoração, de repente uns balões, luzes, algo bem temático... — Ela começou a gesticular, já em modo de planejamento total.
Ling, que conhecia a prima como a palma da mão, soltou uma risada debochada e balançou a cabeça negativamente.
— Ah, para com isso, Mhee! — Ling provocou, dando um empurrãozinho de leve no ombro da prima. — Você não quer "ajudar" nada. Você só está querendo uma desculpa para estar na primeira fila, espiar cada detalhe do pedido e depois passar o resto do ano zombando da cara da Lena por ter ficado vermelha ou ter chorado.
– Chorado? – Me assustei com a possibilidade.
– Lena é romântica demais. Geralmente ela chora com pedidos de namoros de filmes, quem dirá com o dela mesma. – Engfa fez uma careta estranha como se conseguisse visualizar a cena.
Eu ri, observando a dinâmica entre as três. A tensão de ter medo de errar com a Lena começou a se dissipar. Estar ali, com elas, me fazia sentir que, independentemente de como eu escolhesse fazer o pedido, eu não estaria apenas pedindo a mão da Lena; eu estaria sendo abraçada por todas aquelas loucas.
— Eu só quero que seja especial para ela. — Respondi, sorrindo para a confusão que elas já estavam começando a criar. — E, pelo visto, qualquer coisa que eu fizer, vocês três vão dar um jeito de transformar em um evento, não é?
– Com certeza! – Lingling e Lookmhee responderam juntas.
– Viu? Eu disse que sou sempre aquela que mantém elas longe de confusão.
A porta foi aberta com um leve tilintar do sino, e antes mesmo que eu pudesse olhar, meu coração já sabia quem era. Lena entrou, com aquele andar decidido, mas os olhos suavizando-se assim que me localizaram atrás do balcão. Um sorriso largo e impossível de conter iluminou meu rosto.
– De que confusão você está falando?
— Lena? O que você está fazendo aqui? — Perguntei, sentindo uma felicidade genuína vibrar no peito. — Pensei que você tinha dito que precisava ficar isolada em casa para terminar aquele capítulo.
Ela caminhou até mim, ignorando por um segundo a presença das outras, e parou a poucos centímetros, seus olhos fixos nos meus com uma ternura que me desarmou.
— Eu tentei, de verdade. — Ela confessou, com um meio-sorriso que denunciava o que sentia. — Mas percebi que a minha melhor fonte de inspiração não está no meu quarto, está aqui. Na confeitaria.
O ar entre nós pareceu ficar mais denso, carregado de uma eletricidade que não passava despercebida por ninguém. Lena nem precisou dizer meu nome; o jeito como ela me olhava, como se eu fosse especial e a única pessoa no mundo, dizia tudo.
Um ruído abafado nos trouxe de volta à realidade. Viramos o rosto na direção do balcão e lá estavam Ling, Lookmhee e Engfa, com os rostos colados, observando cada movimento nosso com uma intensidade quase cômica.
Ling e Mhee abriram a boca ao mesmo tempo, prontas para disparar algum comentário sarcástico ou uma provocação audaciosa. No entanto, Engfa foi mais rápida. Com uma agilidade impressionante, ela esticou os braços e tapou a boca das duas simultaneamente, impedindo qualquer barulho.
— Não se importe com elas, Lena. — Engfa disse, com uma calma inabalável, sem nem olhar para as primas que se debatiam sob suas mãos. — São só duas lunáticas emocionadas. Deixe-as no mundo da fantasia delas.
As bochechas de Lena tingiram-se de um vermelho vivo, um contraste adorável com sua expressão de surpresa. Ela ajeitou os óculos, visivelmente sem graça pela cena, mas logo se recompôs, tentando retomar a normalidade ao perceber o olhar curioso de todas nós.
— Certo... — Lena murmurou, limpando a garganta e tentando desviar a atenção do momento constrangedor. — Mas, enfim, sobre o que vocês estavam conversando antes de eu interromper?
Engfa não vacilou um segundo. Com um movimento sutil, ela soltou as primas e apontou com desdém para o rosto da Lookmhee.
— Estávamos justamente discutindo sobre a vida artística da Mhee. — Engfa desconversou, mantendo a voz firme enquanto as primas ainda tentavam se recuperar. — Você já viu esse desastre de "coelho" que ela trouxe para o trabalho hoje? Foi uma aula de artes que, claramente, saiu do controle. Acho que ela precisa de um novo hobby, algo menos... permanente, sabe?
Lena olhou para o rosto pintado de Lookmhee, ainda um pouco atordoada, e soltou uma risada contida. O assunto do pedido de namoro estava seguro, guardado sob o manto das distrações da Engfa, mas o brilho nos olhos da minha escritora me dizia que, logo mais, teríamos muito mais sobre o que conversar.
O tilintar do sino da porta soou como um trovão, quebrando o clima leve que tínhamos acabado de construir. Quando me virei, o ar na confeitaria que antes era mantido por risadas, parecia ter sido sugado para fora, deixando um vácuo frio e denso.
Parada na entrada, estava uma mulher. A elegância dela era cortante, quase agressiva em sua perfeição: roupas impecáveis, um olhar que vasculhava o ambiente com uma superioridade calculada. Mas o que mais me assustou não foi a presença dela; foi o efeito que causou nas primas e irmã de Lena.
Engfa levantou-se num sobressalto, a cadeira arrastando contra o piso com um som áspero. Ling e Lookmhee a seguiram instantaneamente, formando uma linha de frente. A raiva emanava delas como um campo magnético. Olhei para Lena, e senti um aperto no peito; ela parecia ter sido congelada no tempo, seus olhos ficando subitamente úmidos e vermelhos, um esforço sobrenatural para não deixar as lágrimas rolarem.
Engfa caminhou em direção à desconhecida, seus passos firmes, a postura de quem protegia um território sagrado. Sua voz, quando ela finalmente falou, era como uma lâmina fria.
— O que você está fazendo aqui? — Engfa perguntou, cada sílaba cortante.
A mulher manteve a compostura, embora seus olhos tenham vacilado por um segundo ao encarar a fúria da prima mais velha de Lena.
— Eu preciso conversar com a Lena. — Ela respondeu, tentando manter a voz firme, mas visivelmente receosa da barreira humana à sua frente.
— A minha prima não tem nada para falar com você. — Engfa rebateu, sem dar um milímetro de espaço. Ling e Lookmhee, alinhadas aos lados da Engfa, pareciam prontas para qualquer coisa; eram uma muralha absoluta de proteção ao redor da Lena.
— Isso não é você quem decide. — A mulher respondeu, agora com um tom de desafio, tentando ignorar a hostilidade. Ela deu um passo à frente, ignorando o aviso silencioso. — Eu vim em paz. Só quero poder falar com a Lena.
Senti o chão oscilar sob meus pés. O pânico de Lena era tangível, uma sombra que a cercava. Inclinei-me em sua direção, sentindo meu próprio coração acelerar, em uma angústia profunda por vê-la tão fragilizada.
— Lena... — Sussurrei, minha voz mal saindo da garganta. Eu não estava acostumada em ver Engfa reagir tão ríspida, tão pouco estava acostumada em ver Lookmhee e Lingling perderem o sorriso.— Quem é ela?
Lena tremeu, seus ombros afundando em uma derrota momentânea. Ela não olhou para mim, seus olhos fixos na figura na porta, mas senti seu hálito quente contra meu rosto enquanto ela murmurava, com uma voz quebrada:
— É a Thai. Minha ex-namorada.
A afirmação atingiu meu estômago como um peso de chumbo. O nome pairou no ar, carregado de um passado que eu embora não me pertencesse, ainda assim eu o rejeitava com força. Um passado que naquele momento pude ver as feridas em processo de cicatrização serem abertas ali mesmo diante dos meus olhos.
Sem pensar, levei minha mão ao bolso do avental. Meus dedos encontraram o veludo frio da pequena caixinha que eu guardava comigo há dias. Apertei-a com tanta força sentindo que algo pareceu marcar minha pele. O "momento perfeito" que eu tanto estava pensando em planejar parecia ter se transformado em uma névoa distante, e, pela primeira vez desde que cheguei ao vilarejo e conheci Lena, senti que o meu final feliz estava sendo colocado à prova.
Fim do capítulo
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