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Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço por priskelly

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Palavras: 2109
Acessos: 73   |  Postado em: 17/08/2026

Capitulo 19

Por Miu

O sol mal havia pintado o horizonte de laranja quando fui obrigada sair da minha cama para ver quem era o desesperado que estava a bater na minha porta como se o mundo estivesse prestes a acabar.

 Olhei pela janela da sala e logo reconheci o carro familiar que estava estacionado em frente à minha casa. Senti a empolgação que logo aqueceu meu coração fazendo um contraste intrigante com a preguiça que eu sentia naquele momento. Era como se Lena fosse capaz de me fazer sentir várias emoções ao mesmo tempo. E de fato ela era!

Quando abri a porta, lá estava ela, vestida de forma despojada, com um sorriso de quem estava tramando algo. Estranhei, porque, pelo meu relógio, ainda faltava muito para o horário em que costumávamos nos encontrar na confeitaria.

— Preparada para a maratona? — Ela perguntou, vitoriosa. 

Olhei para meu próprio corpo que ainda estava vestido com o pijama de dormir. 

– O que você acha? – Disse em um tom preguiçoso. – Lena, eu nem sabia que tínhamos uma maratona essa manhã. Mas eu ficaria feliz se eu pudesse dormir mais dez minutos.

— De jeito nenhum! O estoque da confeitaria está pedindo socorro, e eu decidi que hoje vamos fazer isso juntas, logo cedo, antes que a cidade acorde de vez.

Não consegui conter o riso. A Lena que antes mal tinha animação, agora estava ali, disposta a enfrentar o movimento da feira comigo, ainda ao amanhecer.

Não precisou de muito esforço para que eu me deixasse ser convencida pela doçura de Lena. Até porque não seria uma tarefa fácil, considerando que a escritora estava decidida a fazer aquilo acontecer.

O trajeto até a feira foi uma extensão do que havíamos vivido na noite anterior. O clima no carro era leve, como se tivéssemos deixado todas as nossas bagagens pesadas para trás. Ao chegarmos, a feira já fervilhava. Entre caixas de frutas frescas e o cheiro de temperos locais, nós éramos um borrão de energia.

— Se você pegar mais uma caixa de limão siciliano, vamos precisar de um caminhão, e não do seu carro. — Brinquei, tentando desviar de um feirante apressado.

— São para aquele doce que você criou para o festival, lembra? Ele fez muito sucesso entre nossos clientes. — Ela rebateu, com um brilho travesso nos olhos, aproximando-se de mim enquanto conferia uma lista organizada por ela mesma. — E se eu não exagerar, não tenho desculpa para passar mais tempo com você aqui, no meio dessa bagunça.

– Você não precisa de desculpa para passar um tempo comigo. 

Nos perdemos no olhar uma da outra quando à atmosfera deu lugar a um clima envolvente. Eu ri, aproveitando para segurar a mão dela por um momento entre uma banca e outra, ignorando os olhares curiosos dos feirantes locais que certamente conhecia Lena desde que ela ainda era uma criança arteira junto com as primas.

Enquanto seguíamos com a programação, fazíamos piadas sobre os tipos mais excêntricos de produtos e ela até tentou me convencer a comprar um chapéu de palha gigante que, segundo ela, seria a "última moda" na alta confeitaria. O clima era de uma intimidade tão palpável que, por vezes, eu esquecia que estávamos em público.

No entanto, após cruzarmos a feira pela terceira vez para garantir que não faltasse nada, parei perto do carro, apoiando as mãos nos joelhos e fingindo um drama exagerado.

— Lena, você é uma tirana! — Reclamei, lançando um olhar provocativo e sedutor por baixo dos cílios enquanto tentava recuperar o fôlego. — Mal o dia começou, o sol ainda nem aqueceu direito e você já me fez andar quilômetros entre bancadas. Estou exausta, minhas pernas pedem socorro. O que você pretende fazer para compensar esse esforço todo de uma confeiteira trabalhadora?

Lena se aproximou, e a distância entre nós diminuiu drasticamente. Ela ajeitou uma mecha do meu cabelo que tinha saído do lugar, seu olhar fixo nos meus lábios por um segundo antes de subir para os meus olhos com uma promessa silenciosa.

— Eu já tinha previsto que você reclamaria. — Ela murmurou, com um meio-sorriso que me fez esquecer completamente o cansaço. — O estoque está garantido, mas o meu estoque de cafeína e de momentos a sós está zerado. Conheço um lugar aqui perto que serve o melhor café da manhã. Vamos?

— Só se você prometer que não vai me fazer correr nenhuma maratona até lá. — Respondi, sentindo o calor subir ao sentir a mão dela tocar minha cintura para me guiar até o carro.

Ela riu, uma risada livre e genuína, e me puxou para perto.

— Prometo que o único exercício que você vai fazer hoje, é provar o melhor café da manhã de toda Tailândia que você já comeu. Depois, o resto é por minha conta.

Gentilmente ela abriu a porta para mim. Entrei no carro sentindo que aquele dia, apesar de ter começado cedo e com muito trabalho, era, de longe, o melhor começo de rotina que eu já tinha tido na vida.

 

Pouco tempo depois

 

O café da manhã era um verdadeiro banquete de cores e aromas: arroz jasmim fumegante, jok bem temperado e o contraste do café tailandês com leite condensado. Estávamos sentadas em uma mesa de madeira rústica, sob a sombra de um flamboyant, enquanto a agitação da feira ficava para trás, substituída pelo som suave de pássaros e conversas distantes.

Conversamos sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Eram assuntos que variavam desde a excentricidade dos clientes que pediam bolos decorados com temas inusitados até a cor das cortinas da nova sala da mãe de Lena. Mas, enquanto ela cortava um pedaço de pão, seu rosto mudou, ganhando um brilho de empolgação contida.

— Miu, eu tenho uma novidade. Recebi um e-mail ontem à noite. — Ela começou, os dedos entrelaçando-se na mesa. — O Yen finalmente respondeu. O piloto que escrevi, aquele que você leu... ele foi aprovado. Aparentemente a editora adorou o rumo que a história vai seguir.

Senti um orgulho imediato, um calor que emanou do peito e iluminou meu rosto. Estendi a mão sobre a mesa, cobrindo a dela em um toque sútil, mas que transbordava de sentimentos.

— Eu sabia! Eu nunca tive dúvidas, Lena. Você precisava apenas de um pouco de silêncio e de si mesma para encontrar a voz que estava escondida. Estou tão feliz por você.

Lena sorriu! Era um sorriso que parecia mais leve, sem o peso da auto-cobrança que carregou nos últimos tempos.

— Obrigada por ter sido a âncora que me permitiu escrever isso. Mas... agora vem a parte do trabalho duro. Vou precisar mergulhar fundo na escrita nos próximos dias. Isso significa que vou me ausentar da rotina da confeitaria.

Eu assenti prontamente. Eu entendia o processo de criação dela; sabia que a escrita exigia uma entrega absoluta e que Lena jamais entregaria menos que isso.

— Eu compreendo perfeitamente, Lena. A confeitaria está em boas mãos, não se preocupe com nada lá.

Lena me olhou com uma seriedade doce, seus olhos castanhos fixos nos meus.

— Eu sei que está. E é engraçado, sabe? Quando cheguei e descobri o rumo das coisas, eu sentia que jamais deixaria que alguma desconhecida assumisse o comando daquela cozinha com tanta tranquilidade. Mas agora, eu confio plenamente em você.

Fiquei um momento em silêncio, processando aquela afirmação. Havia uma distância gigante entre a Lena perfeccionista que contava suas inúmeras histórias no início, e a mulher que agora me entregava as chaves do negócio da família sem nenhuma exigência ou hesitação.

— O que mudou? — perguntei, curiosa e um tanto tocada. — Por que essa confiança de repente?

Ela suspirou, um som suave que pareceu carregar toda a sua nova perspectiva de vida. Ela não desviou o olhar do meu.

— O que mudou não foi você, Miu. Foi a forma como eu enxergo as coisas agora. Eu costumava achar que, se eu não estivesse segurando cada detalhe da minha vida como foi planejado, tudo desmoronaria sem chance para recomeços. Eu via o controle como uma forma de proteção. Mas quando conheci você e passei a conviver com essa sua calma, seu excesso de confiança que no fim tudo termina bem… Eu não sei dizer exatamente o memento que mudei. Hoje eu entendo a decisão do papai, e vejo que você não tentou assumir nada à força. Você apenas se tornou parte da estrutura, parte da rotina, e parte de nós. – Seus olhos brilharam.

Ela deu um gole no seu café antes de continuar.

— Eu percebi que, quando você administra a confeitaria, você não está apenas cuidando de um negócio da minha família. Você está cuidando da minha casa, da nossa história que está segue sendo construída, porém sob outra perspectiva, e que não tem nada de errado nisso. E, honestamente? Eu descobri que não quero mais ter o controle de tudo seguindo um planejamento como se a vida não proporcionasse surpresas.

Aquelas palavras me deixaram sem fôlego. Eu não precisei de mais nada; nem do café, nem do barulho do vilarejo. Naquela pequena mesa de café da manhã, Lena tinha me dado algo muito mais valioso do que a gestão de uma cozinha marcada por memórias que ela viveu ao lado do seu avô: ela tinha me dado a confiança do seu próprio coração.

O ambiente da confeitaria estava aquecido pelo cheiro reconfortante de baunilha e farinha. Organizar o estoque era uma tarefa que, antes de Lena chegar ao vilarejo, eu teria executado em um silêncio absoluto, mantendo cada pote milimetricamente alinhado. Hoje, no entanto, havia música suave tocando ao fundo e a presença de Lena, que mesmo mergulhada em seus pensamentos sobre o novo livro, não deixava de trocar olhares ou piadas comigo entre uma caixa e outra.

Enquanto empilhava os sacos de farinha premium que havíamos acabado de comprar, uma lembrança me veio à mente.

— Lena, falando em agenda cheia... — Comecei, limpando as mãos no avental. — Também vou estar com os dias bastante corridos. Recebi uma encomenda bem grande de biscoitos decorados para o aniversário de uma cliente muito antiga do seu pai. É um pedido especial, então vendedoras vão cuidar de tudo no salão, enquanto eu vou precisar manter foco total na cozinha pelos próximos dias.

Lena parou o que estava fazendo e me encarou com uma expressão de preocupação genuína onde à escritora dava lugar à parceira protetora.

— Uma remessa grande sozinha? Miu, você se sente confiante para dar conta de tudo isso sem ajuda? — Ela se aproximou, tocando o balcão entre nós. — Se você sentir que o tempo está ficando apertado, não hesite em pedir ajuda ao meu pai. Ele tem reclamado menos das dores. Além disso, ele conhece bem a cozinha e adora ser útil. Não quero que você se sobrecarregue só porque eu vou estar focada no meu manuscrito.

Sorri, sentindo uma pontada de carinho pela sua preocupação constante. Caminhei até ela, retirando uma pequena mancha de farinha que havia ficado em sua bochecha.

— Ei, pode parar com essa ansiedade. — Disse, com a voz baixa e tranquila. — Eu sei exatamente o que estou fazendo. A cozinha é o meu lugar, é onde eu me sinto mais calma, mesmo sob pressão. Vai dar tudo certo, eu garanto. Você cuida das suas palavras e deixa que eu cuido dos meus doces.

Lena relaxou os ombros, o sorriso dela se tornando mais suave, quase cúmplice. O silêncio que se instalou na confeitaria não era mais de trabalho, mas de uma eletricidade crescente. O movimento frenético do mercado matinal parecia ter ficado do lado de fora daquelas portas.

Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância que ainda nos separava. Seus olhos castanhos, tão atentos, percorreram meu rosto com uma intensidade que fazia meu coração bater no ritmo de um tambor. Não havia mais nada a ser dito sobre estoques, encomendas ou prazos. Naquele momento, o mundo se resumia ao modo como ela me olhava… Era como se eu fosse a coisa mais valiosa que ela já tivesse descoberto em seu próprio vilarejo.

Ficamos ali, paradas entre os sacos de farinha e os utensílios, trocando um olhar que carregava todo o romance que pouco a pouco começávamos a construir. Enquanto parecia se perder nos próprios pensamentos, Lena estendeu a mão, acariciando meu rosto com uma delicadeza que me fez esquecer onde estávamos.

Enquanto nossos olhares se cruzavam, tive a certeza absoluta de que, não importa o quanto trabalhássemos nos próximos dias, o melhor momento seria sempre aquele em que o dia terminasse e pudéssemos, finalmente, nos encontrar.

Fim do capítulo


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