Capitulo 22
Por Lena
No dia seguinte
A noite que passou foi mais longa do que qualquer insônia que a escrita já me proporcionou. O vilarejo, que antes estava sendo o meu refúgio e o meu cenário de paz, parecia ter encolhido sob o peso daquela sombra que reapareceu na porta da confeitaria dizendo estar determinada em conversar comigo.
Tinha sido uma batalha épica apenas para manter a Engfa sob controle. Eram raras às vezes que eu via minha prima mais velha perder a elegância, mas receio que se dependesse dela, a Thai teria sido escoltada para fora das fronteiras deste lugar na base da intervenção física. Engfa não se preocupava em demonstrar que não se conformava com aquilo que classificou como “ousadia de reaparecer depois de todo estrago que fez”. Para ela, o fato de a Thai ter tido a audácia de cruzar quilômetros para revirar um passado que nós três, chegava a ser doentio. Ela, Ling e Lookmhee, estavam de acordo quando dizia que a presença de Thai não era bem vinda ali, até porque, elas haviam trabalhado para se certificarem de enterrar qualquer coisa que me levasse de encontro a Thai.
Eu via a fúria que transbordava dos olhos da Engfa, e aquele desejo quase selvagem de me proteger, e, embora eu agradecesse por tanto cuidado, naquele momento eu só queria silêncio, por isso quase implorei para que não tornassem aquilo em algo ainda maior.
Percebendo meu estado emocional abalado, Thai foi quem recuou. Ela compreendeu que ali diante das minhas primas e da minha irmã, as coisas certamente não sairiam como planejadas. Que seria mais inteligente deixar a confeitaria naquele momento. Mas ela não fez isso antes de olhar firme em meus olhos e garantir que voltaria me procurar.
Eu me sentia em um campo minado. Sei, com cada fibra do meu ser, que o que a Thai me causou não foi apenas uma ruptura; foi um colapso. A traição dela deixou cicatrizes que eu demorei um longo tempo para entender que estavam lá. Mas a presença dela aqui, agora, me causa uma confusão que me enfurecia. Por que ela voltaria? Por que agora, quando eu finalmente tinha parado de olhar para trás e começado a ver cores onde antes só havia cinza?
Fechei os olhos e o rosto da Miu apareceu. E é exatamente aí que o pânico se misturava com a clareza.
Eu precisava sentir que não havia um átomo em mim que ainda pertença ao meu passado com Thai. Precisava sentir que o que eu começava sentir pela Miu, era forte o suficiente para superar qualquer ondas de incertezas que possivelmente surgissem apenas para confrontar o que eu tinha por certo. Mas de repente pensei… Isso era possível? Miu e eu estávamos começando a nos aproximar de uma maneira mais intimida agora. Havíamos tido tempo suficiente para consolidar algo? Sentimentos dependem mesmo de tempo, ou somente senti-los é suficiente?
Uma coisa eu tinha certeza… Estar com Miu nesses dias, era como acordar de um longo inverno. A calmaria que ela me proporcionava me fazia buscar dentro de mim mesma respostas que me levassem a certeza de que eu queria dividir meus dias, minhas lendas e histórias, minhas criações românticas, meus doces e até o meu silêncio com ela. Eu buscava desesperadamente sentir que a Miu seria o meu presente e, se o destino permitisse, por que não um futuro? Eu não podia ter dúvidas sobre o que o meu coração escolheria. Não agora!
No entanto, a confusão que eu estava sentindo meu coração, a todo tempo contradizia a razão. Não por falta de sentimentos pela Miu, mas por uma incapacidade humana de ignorar a história que parecia ter tido seu ciclo interrompido por uma falha, um erro do destino. Ver a Thai ali onde cresci, era como ver o fantasma de uma versão minha que eu desprezei em meio a uma dor profunda. Eu me pergunto: ela veio por que percebeu o que perdeu? Ela veio por que o sucesso da minha escrita chegou até ela? Ou ela simplesmente não suporta a ideia de que eu finalmente pudesse florescer em um lugar onde ela jurou que eu definharia?
Começou então existir uma briga interna comigo mesma. Parte de me dizia que eu não preciso da Thai. Eu não quero a Thai. Mas outra parte dizia que eu precisava entender o porquê de tudo acontecer como aconteceu, e principalmente, entender o motivo por trás dessa invasão inesperada. Mas e se eu recuasse e cedesse a essa aparição, seria possível ainda blindar o que eu começava a ter com a Miu? Ela seria compreensiva? Ela entenderia que não merecia ser apenas uma nota de rodapé no meio de uma história mal resolvida?
O teto do meu quarto parecia ter se tornado a página em branco mais difícil de preencher da minha vida. Eu estava sentada à beira da cama, com as mãos entrelaçadas, tentando organizar os pensamentos que giravam como um redemoinho. Estava tão absorta na tentativa de encontrar uma lógica para a volta da Thai, que nem ouvi quando a porta girou silenciosamente.
— Você está fazendo aquela cara de novo. — Uma voz suave me tirou do transe.
Virei o rosto e vi a Ling encostada no batente da porta, com um olhar que misturava compreensão e uma leve tristeza. Ela não precisou de mais palavras. Aproximou-se e sentou-se ao meu lado, e sem que eu precisasse pedir por colo e abrigo, ela simplesmente me fez compreender que estava ali para mim. Nós nos deitamos, olhando para o teto, exatamente como fazíamos quando éramos crianças e dividíamos nossos medos.
— Eu sei exatamente o que você está pensando. — Ling disse, quebrando o silêncio com uma maturidade que muitas vezes me surpreendia. — Você está tentando encontrar uma justificativa para ela ter vindo, tentando entender se existe algum resquício de explicação. Mas, Lena, a Thai é o passado. E, honestamente? Ela é um capítulo que você já escreveu, revisou e viu que não foi bom. Não tem por que reler.
Senti um aperto no peito, mas a presença dela ali, ao meu lado, era o meu porto seguro.
— Não é que eu queira voltar, Ling. É que eu não entendo a ousadia. A forma como ela apareceu, como se nada tivesse acontecido... isso me deixa vulnerável de um jeito que eu não queria estar agora.
– Até porque você não é estar mais sozinha nessa situação. Já pensou o que fazer em relação a Miu? Ela não merece menos que sua responsabilidade afetiva. – Ling alertou com preocupação.
– Eu não quero que a Miu se sinta mal com minhas confusões.
Ling suspirou, virando o rosto para me olhar. Seus olhos brilhavam com aquela firmeza que só a minha irmã tinha.
— Escuta o que eu vou te dizer: Resolva isso o quanto antes, e com a certeza que não apenas seu coração esteja em paz, mas que também uma pessoa que não merece, não saia machucada nessa história.
– Você está me dizendo para ouvi-la? – A olhei incrédula.
Era uma verdadeira surpresa que Lingling disse algo como aquilo.
– Ontem eu estava convicta que Engfa tinha razão quando queria chutar aquela mulher para fora da confeitaria. Mas hoje… Eu te conheço Lena. Eu só não quero que coisas mal resolvidas faça seu coração retroceder em um mar de dúvidas e questionamentos que podem magoar quem não merece. Engfa vai me matar por isso, mas se para você virar a página é necessário retroceder, então que assim seja.
– Ela realmente vai te matar por isso. – Garanti já imaginando a fúria de Engfa ao saber daquilo. – De qualquer maneira, eu ainda não sei o que fazer. Não sei o que quero fazer.
– Será mesmo que não sabe? – Meu olhar encontrou o da minha irmã. – De qualquer maneira, você não deve explicações a ninguém além do seu próprio coração. Se você quer paz, lembre-se que paz está em escolher quem você quer ao seu lado quando uma tempestade passar.
Ela tocou minha mão, apertando-a com força.
— Não tente ser a escritora racional agora, Lena. Siga aquilo que traz paz para o seu coração. De qualquer maneira, eu estou apenas te ajuda entender uma situação que eu acho que a escolha, lá no fundo, já foi feita. E você sabe disso tanto quanto eu.
Fiquei em silêncio, deixando as palavras da Ling ecoarem. Ela tinha razão. Por mais que eu relutasse, eu sentia que a escolha já havia sido feita.
…
O sino da porta nem chegou a tocar, pois eu entrei com cuidado, encontrando a confeitaria mergulhada na penumbra e no silêncio, apenas as luzes da cozinha estavam acesas. Miu não me notou. Fiquei ali observando-a trabalhar, mas nem de longe ela parecia com a Miu que eu conhecia. Seus movimentos, geralmente precisos e fluidos, estavam erráticos. O semblante, que carregava uma serenidade quase sagrada, estava nublado por uma irritação visível. Foi quando o cheiro forte de queimado tomou conta do ambiente. Uma fornada inteira de biscoitos estava arruinada. Miu praguejou baixo, um som de impaciência que nunca, em tempo algum, eu a tinha visto emitir.
Puxei um avental de um dos ganchos e caminhei até ela. Miu deu um pulo quando percebi minha presença, seus olhos arregalados, o rosto sujo de uma pequena mancha de farinha.
— Lena? O que você está fazendo aqui? — Ela disparou, a voz trêmula entre a surpresa e uma frustração evidente. — Você não deveria estar em casa trabalhando no seu livro?
— Faz tempo que não visito a sua cozinha. — Respondi, mantendo o tom calmo que ela parecia ter esquecido onde guardou. — E, pelo que vi daqui, a "inspiração" de hoje está precisando de um par de mãos extra.
Miu abriu a boca para responder, talvez para me mandar embora, talvez para desabafar, mas o silêncio se instalou entre nós, denso e revelador. Ela parecia exausta com o peso das próprias emoções talvez. Seria o trabalho árduo pelo o pedido em grande quantidade que havia recebido, ou a presença da Thai do lado de fora dessas paredes, pesando em seus ombros?
Sem dizer uma palavra, estendi a mão e retirei a placa de biscoitos queimados de suas mãos.
Coloquei a assadeira na bancada e, com um gesto simples, iniciei a limpeza da área de trabalho. O movimento pareceu ser o gatilho que ela precisava. Miu não protestou minha ajuda. Ela apenas respirou fundo, fechou os olhos por um segundo e, quando os abriu, aquela aura de irritação começou a evaporar, dando lugar à Miu de sempre.
Começamos a trabalhar juntas. Era uma coreografia silenciosa que eu nem sabia que sentia falta. Enquanto eu abria massa, ela finalizava os cortes. Aos poucos, vi o ritmo dela voltar. A precisão do confeiteiro, o foco no detalhe… Enquanto ela preparava um dos recheios, notei o aroma intenso e inconfundível.
— Chocolate? — Perguntei, curiosa, enquanto ajeitava uma nova leva no forno. — Você raramente usa chocolate escuro nas suas receitas, Miu. Por que a mudança?
Ela parou o batedor por um instante. O olhar dela encontrou o meu, e vi algo ali que me aqueceu mais do que o calor do forno. Um sorriso tímido, quase melancólico, surgiu em seus lábios.
— Escolhi esse recheio hoje porque o aroma do chocolate... Bem, ele me lembra você. — Ela murmurou, desviando o olhar para a tigela, visivelmente envergonhada. — É intenso, reconfortante e, de alguma forma, é a única coisa que me manteve focada hoje. É como se, mesmo quando tudo parece estar desmoronando, ter algo seu por perto me fizesse sentir que tudo vai ficar bem.
Senti um nó na garganta. Fui até ela e, parando atrás do seu corpo, enquanto apoiei meu queixo em seu ombro, cobri suas mãos com as minhas, guiando o movimento do batedor em um ritmo lento. Naquele momento, não importava o passado que tentava bater à porta. Apenas o cheiro de chocolate e a paz de tê-la ali, comigo, pareciam ser o suficiente.
...
O cronômetro do forno parecia ditar um ritmo lento, quase compassado, enquanto partilhávamos um pedaço daquela torta que tinha restado do dia anterior. A luz da cozinha, agora mais amena, criava um refúgio que parecia nos proteger de tudo o que existia do lado de fora daquelas paredes. Eu observava Miu, a forma como ela me olhava com tanta paciência sem que eu pedisse por aquilo, e senti que não havia mais espaço para segredos ou meias verdades.
— Miu… — Comecei, pousando o garfo no prato com um suspiro pesado. A minha voz saiu um pouco mais rouca do que eu esperava. — Preciso conversar com você sobre algo importante.
Ela não hesitou. Pousou sua mão sobre a mesa, estendendo-a na minha direção, um convite silencioso e seguro.
— Estou aqui para te ouvir, Lena. Sempre.
Sustentei o olhar dela, encontrando ali a âncora que eu precisava. A chegada de Thai não tinha trazido apenas o passado de volta; tinha aberto uma caixa de Pandora de questionamentos que eu julgava ter fechado e eu precisava ser honesta com ela em relação a isso.
— Desde que a Thai apareceu... Eu não consegui dormir direito. Pensei em tudo, em cada detalhe do que vivemos e de como as coisas chegaram até aqui. — Fiz uma pausa, buscando as palavras certas. — Foi então que percebi algo importante para mim. Por muito tempo, o que manteve minhas emoções aprisionadas não foi apenas a dor da decepção. Foi a falta de compreensão. Eu nunca entendi o que a levou me trair, porque, no início, eu acreditava de verdade que havia amor entre nós. Ela era outra pessoa, e tenho certeza que não errei quanto isso. Meu coração não pode ter errado tanto, pode? Aquela confusão me perseguiu por todo esse tempo, tá me perseguindo agora novamente. Eu sou o tipo de pessoa que precisa de explicações para tudo, Miu, mesmo quando o mundo não oferece lógica nenhuma. Eu sinto que não consigo fechar esse capítulo sem entender o porquê de tudo ter se desfeito daquela maneira.
O silêncio reinou na cozinha, preenchido apenas pelo som do forno que seguia trabalhando. Miu, com uma maturidade que me tocava profundamente, inclinou levemente a cabeça, seus olhos castanhos brilhando com uma seriedade suave.
— Você está tentando dizer que quer se encontrar com a Thai para ouvir o que ela tem a dizer.
Ela não perguntou, mas cravou a aquela observação. Sua voz mantendo um equilíbrio impecável, sem um pingo de acusação.
Respirei fundo, sentindo o peso da culpa. Não respondi imediatamente. Olhei fixamente para ela, querendo medir o impacto da minha decisão não apenas em mim, mas no que estávamos construindo.
— Como você se sente em relação a isso? — Perguntei, a vulnerabilidade explícita em meu tom.
Miu pensou por um longo momento. Vi sua expressão oscilar entre a insegurança natural e a profundidade de um sentimento que já transcendia o medo. Ela fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e, quando os abriu, sua resposta foi um bálsamo para o meu coração.
— Eu não vou mentir, Lena. Não me sinto confortável com a ideia. — Ela admitiu, com uma honestidade que eu valorizava acima de tudo. — Mas acho que entendo você. Você carrega perguntas que a própria Thai enterrou, e talvez seja esse peso que ainda te prende ao passado. Eu não posso, e não quero, intervir nas suas escolhas. Essa é uma decisão que precisa partir apenas de você, do seu processo de cura. Independentemente do que aconteça, do que você decida... eu estou aqui. Eu compreendo, e estarei aqui para te apoiar.
Aquelas palavras me atingiram com uma força avassaladora. Em um mundo onde eu sempre senti que precisava ter todas as respostas, ter alguém ao meu lado que me permitia buscar as minhas próprias perguntas — mesmo que essas perguntas envolvessem uma sombra do meu passado — era a prova definitiva de que eu não estava mais sozinha.
Eu me inclinei sobre a mesa, segurando a mão dela com firmeza, grata por ter encontrado alguém que não apenas me aceitava, mas que respeitava o tempo e a necessidade da minha própria alma.
Fim do capítulo
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