Capitulo 22
Por narrador
O sol do meio-dia já castigava o vilarejo quando Lena finalmente deixava a confeitaria. O ar estava pesado, carregado com o aroma doce dos biscoitos que ela e Miu, haviam acabado de assar para serem embalados para entrega como combinado com a cliente, mas conforme caminhava em direção ao seu carro, o silêncio da rua parecia subitamente elétrico.
Ela estava a poucos passos da porta do motorista quando uma voz, conhecida e ainda carregada de um timbre que outrora significou o seu mundo inteiro, cortou o ar:
— Lena?
O corpo de Lena tensionou instantaneamente. Ela parou no lugar, a mão suspensa no ar antes de tocar a maçaneta. O coração não apenas disparou; ele pareceu saltar no peito, uma batida dolorosa que reverberou em seus ouvidos. Em questão de milésimos de segundo, flashes de um passado que ela tentou enterrar a sete chaves invadiram sua mente: risadas compartilhadas em um apartamento na cidade, promessas ditas à meia-luz e, finalmente, a imagem fria e paralisante do dia em que o castelo de cartas desabou.
Ela respirou fundo, tentando conter o tremor nas mãos, e girou sobre os calcanhares. Seus olhos então encontraram os de Thai. A ex-namorada, impecável como sempre, estava parada a poucos metros. O olhar de Thai varreu a rua vazia, certificando-se de que a muralha de proteção composta pelas primas e pela irmã de Lena não estava por perto. Ao perceber a costa limpa, Thai sustentou o olhar de Lena, sentindo-se, finalmente, confiante para encurtar a distância entre elas.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo zumbido dos insetos e pelo bater descompassado de seus corações. Nenhuma das duas moveu um músculo, travando uma batalha silenciosa de memórias. Por fim, foi Thai quem tomou a iniciativa e quebrou a barreira:
— Eu vi você entrando na confeitaria mais cedo. Desde então estou aqui esperando por você. — A voz de Thai era suave, quase um sussurro. Ela deu um passo hesitante, mas decidido. — Lena, por favor... podemos conversar?
Lena vacilou. Suas pernas pareciam pesadas, presas ao chão por uma mistura de mágoa e um desejo incontrolável de entender aquilo que para ela era um absurdo cortante.
— Eu pensei… — Lena começou, a voz saindo firme, embora o interior estivesse em frangalhos. — que tudo o que tínhamos para ser dito já tinha acontecido há um ano atrás. Exatamente no dia em que eu descobri o que você fez. Naquele dia, não sobraram palavras, Thai. Só restou o silêncio da sua traição.
Thai suspirou, um som carregado de um peso que ela não conseguia esconder. Por um momento, ela desviou o olhar, encarando o chão, como se as pedras do vilarejo pudessem lhe dar a coragem necessária para encarar a verdade dolorosa que ela mesma havia provocado.
— Eu sei... — Thai respondeu, voltando a olhar para Lena. — Eu sei que errei terrivelmente com você. Também errei ao não ter procurado você para tentar me explicar e concertar as coisas, errei pelo meu silêncio, errei por tudo, Lena. Mas, por favor, só me dê uma chance agora. Deixe-me explicar o que aconteceu.
Thai avançou o espaço restante e, num gesto ousado e desesperado, tocou a mão de Lena. O toque foi como um choque elétrico.
— Lena, eu preciso que você me escute.
Lena retirou a mão bruscamente, embora não tenha recuado. O olhar que ela lançou a Thai não era de raiva, mas de uma exaustão absoluta.
— Não existe explicação para uma traição, Thai — Ela disse, com uma frieza que doeu em ambas. — A lógica falhou no momento em que você escolheu quebrar o que tínhamos. Como é possível explicar algo assim?
Mas Thai não desistiu. Ela deu mais um passo, forçando Lena a recuar um passo atrás, colando o próprio corpo no carro. Thai estava decidida a enfrentar a resistência da escritora, e insistir com a urgência de quem sabe que aquele era o seu último suspiro de esperança.
— Mesmo que você ache que não existe explicação, — insistiu Thai, os olhos marejados de uma súplica insistente. — você precisa me ouvir. Só uma conversa. Pelo nosso passado, Lena. Me deixe falar. Você não pode negar que também tivemos momentos bons, não é?
O toque de Thai na mão da Lalina ainda queimava como uma lembrança incômoda revelando que ela ainda sabia exatamente onde encontrar suas fraquezas. Ela não estava apenas pedindo uma conversa; ela estava usando o início do namoro das duas, como uma arma poderosa, apelando para a memória que ela sabia que Lena Lalina ainda tinha guardada. Sim, a memória daquela mulher por quem ela havia se apaixonado e amado antes de tudo começar desmoronar. E ela sabia que Lena não poderia negar a verdade de que o início de das duas tinha sido, sem sombra de dúvida, uma das épocas mais felizes da vida da escritora.
Lena olhou para ela e, por um segundo, viu através da máscara atual. A escritora lembrou da Thai de anos atrás. Lembrou de como ela tinha sido determinada em conquistá-la, e quando finalmente o fez, se mostrava ser uma namorada atenciosa, cuidadosa, o tipo de pessoa que decorava o café preferido da namorada, e de como Thai costumava respeitá-la a cima de tudo. Tudo bem que a influencer sempre teve como característica algumas diferenças marcantes entre ela e a escritora, como por exemplo, sua ambição por fama e desagrado com aquilo que considerasse “pobre”. Contudo, ainda assim, Thai costumava ser sim uma boa namorada para Lalina, talvez por isso durante todo esse tempo tão difícil para Lena acreditar que seu coração havia errado em se apaixonar por ela. Para Lena, Thai tinha sido a sua alma gêmea por algum tempo, a pessoa que a olhava com uma admiração que a fazia sentir preenchida por bons sentimentos. Naquela época, ela era tudo o que a Lalina buscava… Na sua mente, a compatibilidade era natural, quase assustadora de tão “perfeita”. Ela não havia precisado de muito tempo para conquista-lá, porque ela “era” exatamente o que o seu coração precisava encontrar.
Mas o tempo, esse juiz silencioso, começou a corroer as lacunas entre as duas mulheres, e então as diferenças, a rotina, as ambições… Aparentemente tudo passou a ser motivos para discórdia entre as duas, revelando uma incompatibilidade palpar e mostrando que o tempo é um dos senhores dos sentimentos, tendo como principal função se encarregar de revelar aquilo um coração apaixonado se nega a ver.
Enquanto Lena observava o rosto da sua ex namorada, ela se perguntava se estava novamente delirando ao constatar que agora o mesmo estava marcado por uma amargura que ela tentava disfarçar com a pose da mulher bem sucedida que havia se tornado. A mente da escritora traçou a imaginação, e como se fosse possível, ela refez o caminho que Thai havia seguido… O brilho da fama, que quando aconteceu veio fácil demais, o desejo febril de ser "alguém" em um mundo de aparências, os anseios por conquistas matérias que começaram consumir a Thai que ela havia conhecido… A mente de Lena viajou um pouco mais, e logo chegou em um ponto sensível para si mesma, onde também se culpava por tudo o que havia acontecido, ou seja, o trabalho! Naquela época, quanto mais Lena mergulhava na intensidade do próprio trabalho, mais Thai se sentia deixada para trás, especialmente quando Lena insistia em tornar a intimidade da vida a dois em algo privado, o que ia contra os anseios da influencer. O sucesso de Thai exigia uma vitrine que Lena não queria, e não sabia como compartilhar.
Thai mudou. A atenção do início do namoro deu lugar a uma cobrança velada. O respeito no relacionamento, deu lugar à uma competição onde só uma competia. A mulher que costumava apoiar o trabalho de Lena, passou a ser a primeira a criticar as horas que ela passava isolada para escrever. Thai queria ganhar as mídias, Lena queria se ocultar. E embora os desejos de ambas fossem esses, as coisas ainda eram viradas do avesso, ou seja, quanto mais Lena fugia da mídia, mas o sucesso e fama ia ao seu encontro, enquanto Thai precisava lutar por tudo aquilo que Lena Lalina rejeitava.
— Você fala do "nosso passado" como se ele ainda existisse. — Lema disse, quebrando o silêncio com a voz carregando o peso de quem finalmente compreendeu a tragédia que havia sido sua história de amor. — Mas a verdade é que a Thai de quem eu guardei memórias lindas, morreu muito antes da sua traição, não foi? Ela se perdeu no momento em que a ambição falou mais alto do que a nossa parceria.
Thai pareceu vacilar. O olhar dela, por um instante, perdeu a confiança, como se as palavras da escritora tivessem atingido o núcleo daquela transformação.
— Eu mudei, Lena. Eu sei que errei… — Ela começou, a voz falhando. — Mas eu ainda sou a mesma pessoa que te amou daquela forma intensa quando te conheceu.
— Não, você não é. — Lena a cortou dando mais um passo atrás, sentindo o ar do vilarejo finalmente correr livre por seus pulmões. — E é por isso que essa conversa não vai te dar o que você quer. Você quer explicar a sua mudança, ou quer apenas que eu valide a pessoa que você se tornou às custas de nós duas?
Ela ficou paralisada, presa na teia da própria insistência. Ela sabia, tanto quanto Lena, que a arma que ela tentou usar — a história antiga entre as duas — já não tinha tanto poder de fogo contra a mulher que estava na sua frente. Algo em Lena havia mudado, e embora ela não soubesse o quê, sentia que sua ex namorada tinha se tornado ali, naquele vilarejo, uma mulher ainda mais interessante que antes. O problema é que mesmo desejando, agora mais que nunca, reconquistar Lena, ela temia que o passado embora fosse uma memória respeitável, mas não fosse mais a casa da outra.
Olhando para uma Lena tão decidida, Thai sentiu o coração apertar de um jeito estranho e desconhecido. Ela sentiu saudades de como Lena a olhava antes dela se perder de si mesma, e foi essa saudades que a fez tentar mais uma vez.
A insistência de Thai não era mais um ataque; havia se transformado em uma súplica, uma melancolia que parecia pesar mais do que a própria raiva. Thai baixou a guarda, e seus olhos, antes firmes, carregaram-se de um arrependimento que parecia genuíno — ou, ao menos, bem ensaiado.
— Lena, por favor… — Ela sussurrou, a voz falhando de forma quase imperceptível. — Nós fizemos uma promessa. Lembra? Naquela primeira viagem, quando comemoramos nosso terceiro mês de namoro nós juramos que se um dia o destino nos separássemos, nunca terminaríamos sem nos dar uma oportunidade de última conversa. Uma conversa sincera, sem defesas. Você prometeu que me daria essa chance. Vai mesmo quebrar a sua palavra?
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do vento soprando entre os comércios do vilarejo. A memória veio como um relâmpago que atingiu Lena em cheio: a promessa de jovens apaixonadas que acreditavam que o amor era invencível. Lena fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso daquela promessa antiga. Era uma armadilha emocional, mas era uma armadilha que ela mesma tinha ajudado a construir anos atrás.
Ela suspirou, o olhar perdendo a dureza de segundos antes.
— Está bem! — Lena cedeu, a voz carregada de uma resignação cansada. — Eu aceito conversar. Mas não se engane, Thai. Eu estou cumprindo uma promessa, não reabrindo uma porta. Eu sei, melhor do que ninguém, que não existe absolutamente nada que possa restaurar a confiança que você quebrou. Nada!
O rosto de Thai iluminou-se com um alívio desmedido, um sorriso que, por um instante, lembrou a mulher que Lena um dia amou.
— Só em ter essa oportunidade... Você não sabe o quanto isso significa para mim. — Thai respondeu, dando um passo à frente, dominada pelo impulso.
Ela inclinou-se rapidamente, tentando depositar um beijo suave no rosto de Lena, um gesto carregado de uma intimidade que já não pertencia mais a elas. Lena, porém, reagiu por puro instinto, esquivando-se e recuando um passo, o corpo rígido como se tivesse levado um choque. Foi nesse exato instante, com a distância estabelecida e o desconforto pairando no ar, que o sino da confeitaria soou atrás delas.
Lena girou a cabeça, o coração disparando novamente, mas desta vez por um motivo muito diferente. A porta da confeitaria acabara de ser fechada. Miu estava parada ali, a mão ainda sobre a maçaneta, o olhar fixo na cena que acabará de presenciar. A expressão de Miu era ilegível, um misto de surpresa e um algo a mais silencioso que pareceu congelar o tempo.
O silêncio entre as três tornou-se absoluto, pesado demais para ser suportado, enquanto o capítulo se encerrava no meio do abismo que se abria entre o passado que retornava e o presente que antes mesmo de começar anunciava que o futuro começava a rachar.
…
O restaurante escolhido por Thai era uma pequena casa de paredes de tijolos aparentes e luzes quentes penduradas em treliças, um recanto que exalava o aroma familiar de temperos locais e madeira velha. Lena atravessou a porta surpresa, afinal de contas, aquele nem de longe era como os ambientes luxuosos que Thai costumava ostentar na cidade. Na verdade era o completo oposto, tratando-se de um lugar de raízes, onde o tempo parecia correr mais devagar.
Logo na entrada, o Sr. Anan, o proprietário e cozinheiro que Lena conhecia desde que mal alcançava o balcão, veio ao seu encontro com um sorriso que iluminou seu rosto enrugado.
— Lena! Que alegria ver você por aqui, menina. — Ele disse, com a voz carregada de carinho, antes de olhar para Thai e completar com um brilho divertido nos olhos: — E vejo que trouxe companhia. Meus parabéns, minha filha, você tem uma namorada muito bonita!
Lena sentiu o rosto esquentar instantaneamente. O silêncio que se seguiu foi preenchido pela sensação de contentamento de Thai e pela urgência de Lena em esclarecer o mal-entendido, respeitando a bondade do senhor, mas protegendo a verdade.
— Sr. Anan, agradeço a gentileza e o carinho de sempre. — Lena respondeu com um sorriso educado e respeitoso. — Mas a Thai não é minha namorada. Nós somos apenas... antigas conhecidas.
O homem, percebendo o erro, pediu desculpas prontamente, recuando com uma reverência gentil, embora não tivesse evitado um comentário final: "Pois perdoe o velho aqui. De qualquer forma, seriam um casal muito bonito".
Lado a lado, as duas seguiram para a mesa indicado pelo o Sr. simpático que as tinha recebido. Thai puxou a cadeira para que Lena pudesse se acomodar, gesto que não passou despercebido pela escritora. Lena se perguntava desde quando Thai tinha voltado a ser aquela pessoa gentil de quem ela se lembrava.
O clima à mesa, após se sentarem, era inicialmente denso, quase cortante. O tilintar dos talheres no prato parecia o único som permitido. No entanto, Thai, com a habilidade de quem conhecia cada pequena preferência de Lena, começou a conduzir a noite. Ela havia pedido, ponto a ponto, os pratos favoritos que costumavam compartilhar nos primeiros anos de namoro.
Aos poucos, a nostalgia imposta por Thai, começou a dissolver a rigidez de Lena. Thai relembrou uma tarde específica, anos atrás, em que tentaram cozinhar um prato típico e terminaram com a cozinha inteira tomada por cheiro de peixe, enquanto as duas riam até perder o fôlego no chão da casa da influencer. A narrativa foi tão detalhada e envolvente que Lena, sem perceber, relaxou os ombros, deixando um sorriso involuntário escapar. O conforto daquelas memórias era uma armadilha, mas era também um bálsamo difícil de ignorar.
Quando o garçom retirou os pratos e serviu o chá, Lena suspirou, trazendo o momento de volta para a realidade necessária. Ela pousou a xícara, fixando o olhar em Thai com seriedade.
— Foi um gesto gentil pedir esses pratos, Thai. E admito que foi bom relembrar algumas coisas. — Ela disse, a voz ganhando firmeza. — Mas não podemos ignorar o motivo de estarmos aqui. O que de fato você quer conversar? A promessa que fizemos foi cumprida quando nos sentamos para esse jantar; já conversamos o suficiente lá fora. O que resta dizer que ainda não foi dito?
Thai deslizou a mão sobre a mesa, cobrindo a de Lena com um toque firme, porém hesitante. Lena seguiu o movimento com o olhar, sentindo a temperatura da pele da ex-namorada, e desta vez, não recuou. Ela precisava sentir o próprio coração diante daquele contato prolongado.
O ambiente familiar do restaurante, que antes parecia um refúgio, agora se tornava pequeno demais para a confissão que pairava no ar. O rosto de Thai transformou-se. A máscara de sucesso e segurança deu lugar a uma expressão de desamparo, um semblante marcado pela melancolia de quem vivia o vazio da ausência da escritora em sua vida.
— Eu tentei seguir em frente, Lena. Tentei muito! — Thai começou, a voz baixa, quase um lamento. — Mas, no fim, eu só conseguia ver o seu vazio em todos os lugares. Passei esse último mês acompanhando as notícias que saíram sobre você, assim como também o seu silêncio nas redes sociais... Eu sabia. Sabia que você não teria escolhido outro lugar a não ser este vilarejo para se curar. Eu vim até aqui porque não consigo mais viver sendo apenas um reflexo do que perdemos.
Lena sentiu o peito subir e descer rapidamente, a confusão nublando seus olhos.
— Por que fazer isso agora, Thai? Depois de tanto tempo?
— Porque eu quero reconquistar você. — Thai respondeu de imediato e sem desviar o olhar. — Eu só preciso de uma chance para consertar o irreparável.
Ela respirou fundo, os dedos de Thai apertando levemente a mão de Lena enquanto ela finalmente encarava o abismo dos próprios erros.
— Eu sei o que fiz. A traição foi o ato de uma pessoa pequena. Lena, mas eu não sou assim. Eu não quero ser assim. Eu me deixei devorar pela ganância, pela sede de uma fama que, na verdade, agora eu vejo que eu nem sei como sustentar. E agora eu entendo o que você queria dizer quando tentava me fazer enxergar que existe um peso muito grande em ser conhecida. A exposição, a falta de liberdade… Agora eu realmente entendo. Mas naquela época, eu sentia uma inveja corrosiva, Lena... Você conquistava tudo com uma naturalidade que me matava. Parecia injusto que você, com tanto talento, desprezasse a atenção que eu daria tudo para ter. Naquela época, eu me sentia inferior, incapaz de ser o par à altura da "escritora brilhante". E foi nessa fraqueza que conheci a mulher com quem você me encontrou.
– Você vai responsabilizá-la por uma escolha que você fez? – O soar da voz de Lena foi cortante.
– Não! A culpa foi inteiramente minha. Eu era sua namorada. Era eu quem te devia respeito. – Thai sustentou o olhar de Lena. – O que estou querendo dizer, é que minhas inseguranças e anseios foi o que me levou a fraqueza. Sua ausência também me fazia ver as coisas por ângulo muito errado. Eu achava que se eu não fosse vista como alguém de sucesso, o público jamais me aceitaria ao seu lado. Mas eu estava errada. Tão errada... Eu não deveria ter deixado nada, nem a mídia, nem o meu ego, destruir o que tínhamos.
Uma lágrima solitária escapou do olho de Lena, traçando um caminho lento e brilhante pelo seu rosto. O peso daquelas palavras era palpável, mas uma memória recente e cortante a fez reagir.
— É curioso... — Lena murmurou, a voz trêmula de mágoa. — É fascinante você dizer tudo isso, Thai, como se fosse uma revelação divina de alguém arrependida, quando há tão pouco tempo você estava assumindo para todos, nas colunas de fofocas, o relacionamento com a mesma pessoa que foi o motivo da nossa separação. Como eu deveria acreditar que isso não é apenas mais uma das suas encenações?
Thai soltou um suspiro pesado, os ombros caindo como se ela estivesse carregando uma carga insuportável. Ela balançou a cabeça negativamente, quase desesperada.
— É sobre isso que me refiro quando digo que agora entendo o peso por trás da fama. Acho que encontrei alguém tão ambiciosa quanto eu. Aquele relacionamento nunca foi real, Lena. Eu nunca quis assumir aquilo. Foi tudo planejado por ela. Foi uma narrativa imposta para manter uma imagem pública que eu nem queria mais. Eu não tive forças para recusar na época, mas antes de vir atrás de você, eu já terminei tudo. Cortei todos os laços com ela. Eu estou aqui, sozinha, justamente para te mostrar que o único lugar onde eu quero estar é onde você estiver. Me perdoa, Lena. Por favor, me dê uma chance para provar que mudei.
O silêncio que se seguiu após a confissão de Thai, foi preenchido apenas pelo som suave dos utensílios nas mesas vizinhas. Por um breve instante, Lena sentiu uma pontada de compaixão; era impossível ficar imune à dor daquela mulher que, por tanto tempo, foi o centro do seu universo. A sinceridade no olhar de Thai parecia quase palpável, uma tentativa desesperada de resgatar algo que o tempo já tinha transformado em cinzas, mas ainda assim a razão fazia com que Lena se rendesse a pontadas de desconfiança.
Lena observou as mãos de Thai sobre as suas e, lentamente, começou a traçar o caminho dessa percepção em sua própria mente. Ela pensou nos ensinamentos de seu avô, nas palavras que ecoavam em sua memória como uma bússola moral: “Perdoar é, essencialmente, esquecer, Lena. É permitir que a ferida se feche e que o nome do culpado não doa mais ao ser pronunciado. Enquanto isso não acontecer, você não está de fato perdoando quem te fez mal.”
Ela suspirou, sentindo uma clareza gelada tomar conta de seu ser.
— Eu ouvi cada palavra sua, Thai. — Disse Lena, com uma voz calma e desprovida de qualquer raiva, o que talvez fosse mais doloroso para a outra do que enfrentar um confronto direto. — Mas, sendo muito honesta com você e comigo mesma, não sei se sou capaz de te perdoar agora. Talvez um dia isso aconteça, mas nesse momento não me sinto pronta para te responder. Meu avô sempre dizia que o perdão exige o esquecimento, e eu ainda estou presa em todas as memórias do que você me fez. Não estou pronta para apagar isso.
Thai abriu a boca para argumentar, mas Lena a deteve com um gesto gentil, porém firme.
— Eu sempre fui muito honesta e sincera com você, e sinto que não posso ser diferente agora. A única coisa que tenho absoluta certeza nesse momento... — Continuou a escritora com segurança. — é que não existe mais espaço para nós duas. Enquanto minhas mãos estão junto as suas, e enquanto eu olho para você, eu busco desesperadamente por qualquer faísca do que senti no passado. E não encontro nada. Meu coração não dispara. Meu corpo não reage. O que tínhamos morreu naquele dia, e eu não consigo forçar o renascimento de algo que já se transformou em outra coisa.
Lena retirou as mãos do contato de Thai, o gesto sendo feito com uma elegância serena que não admitia réplica.
— Você fala de mudança e de arrependimento, mas a verdade é que palavras são apenas ecos, Thai. Elas são fáceis, flutuam no ar e se dissipam. Para que alguém como eu, que vive de observar as profundezas da alma humana, pudesse acreditar em uma mudança dessa magnitude, seriam necessários ações, não minutos de confissões em um jantar ensaiado.
Ela se levantou, a postura impecável e respeitosa, mantendo a dignidade que sempre fora sua marca registrada.
— Eu te agradeço por ter vindo, por ter tentado esclarecer o seu lado. Eu realmente precisava de algo assim para ter certeza que nunca fui culpada do que aconteceu nem por um momento. Mas este é o fim da nossa conversa. Você tem o seu caminho, e eu, finalmente, encontrei o meu. Por favor, entenda que não há mais o que restaurar aqui.
Lena se foi sem olhar para trás. Deixando Thai completamente arrasada ao perceber que talvez tenha sido tarde mais. Não seria fácil reconquistar um coração decidido. Pior, seria impossível reconquistar um coração que já não a pertencia.
Fim do capítulo
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