Capitulo 23
Por narrador
A confeitaria estava envolta em um silêncio incomum, pontuado apenas pelo som rítmico da espátula de Miu contra a bancada. Era o dia da grande entrega encomendada pela amiga de Jeff, e faltava apenas os últimos detalhes para que ela pudesse executar a entrega com perfeição. Aquele seria um projeto que, em qualquer outro momento, teria deixado a confeiteira radiante de empolgação. No entanto, naquele dia, Miu parecia apenas uma sombra de si mesma. Seus gestos eram automáticos, seus olhos, perdidos em um horizonte invisível, e uma tristeza persistente parecia pesar em seus ombros, transformando o açúcar em algo amargo.
Ling já havia tentado puxar assunto por três vezes naquele dia. Em cada uma delas, recebeu apenas respostas monossilábicas e um sorriso que não chegava aos olhos. A culpa começou a ser um nó apertado no estômago da atriz, tornando-se insuportável para ela. Foi ela quem aconselhou Lena a seguir o coração e a ceder à conversa com Thai, se aquilo fosse o que ela queria fazer. Embora tivesse aversão a Thai, a proteção em volta da irmã a fez agir contrário suas próprias convicções. Foi ela quem acreditou que o passado precisava de um ponto final definitivo, e dessa vez do jeito “certo”. Mas, vendo o estado de Miu, a lógica de ontem parecia um erro carrasco hoje. Sem pensar duas vezes, Ling telefonou para Engfa, sabendo que de todas elas, Engfa teria a frieza necessária para lidar com a situação de crise.
Engfa chegou à confeitaria minutos depois, a expressão séria de quem foi arrancada de compromissos importantes contra a própria vontade. Ela estudou o cenário e encontrou a prima em um canto, observando Miu com uma angústia evidente.
— Ling, que tipo de urgência é essa para você me fazer largar tudo no meio do dia? — Engfa perguntou, a voz firme. Ao notar o semblante culpado da prima, ela cruzou os braços sobre o peito e estreitou os olhos. — Em que confusão você se meteu dessa vez?
Ling encolheu os ombros, o semblante murcho. Ela sabia que seria duramente repreendida.
— Por favor, não seja severa comigo... Eu só não sei mais como consertar.
A atriz explicou, em um fio de voz, sobre o conselho que dera a Lena na véspera. À medida que falava, sua voz embargava sob o olhar gélido da prima.
— Eu tenho um carinho imenso pela Miu, Engfa. Ver ela assim, sem brilho, quase como se estivesse se apagando enquanto trabalha... isso está me matando por dentro. Eu sinto que a culpa é minha.
Engfa, a personificação da razão e do equilíbrio, não hesitou. Com um movimento ágil, ela desferiu um tapa leve, porém firme, na nuca da prima, fazendo Ling soltar um protesto baixo
— Você é uma cabeça de vento, Ling. — Repreendeu Engfa, o tom cortante. — Como você ousa aconselhar a Lena a ouvir aquela mulher? O que a Thai fez não tem explicação, nem lógica, nem justificativa! Você deu palco para uma ferida que já estava começando a cicatrizar. Retrocedemos pelo menos uma década em um momento sem qualquer importância.
Ling respirou fundo, tentando se justificar, os olhos voltados para a figura solitária de Miu na cozinha que estava alheia a conversa das duas.
— Eu sei disso, Engfa! Você acha que eu não sei? Mas você conhece a minha irmã. A Lena é do tipo que precisa ver as coisas com os próprios olhos para acreditar na verdade. Eu sabia que, enquanto houvesse qualquer respingo de dúvida sobre o passado, ela jamais permitiria que o que ela tem com a Miu fluísse de verdade. Ela precisava confirmar que o passado era apenas lixo para, só então, poder virar a página de vez. Eu só quis acelerar o processo, mesmo sabendo que o caminho seria doloroso.
Engfa suspirou, o olhar suavizando-se ligeiramente ao observar a confeiteira. A razão de Engfa compreendia o argumento de Ling, mas seu senso de proteção, agora, estava totalmente voltado para Miu, que, sem saber, estava sendo o alvo colateral de uma estratégia que, por enquanto, só trouxe sombras.
Engfa ajeitou os cabelos com um movimento nervoso, o sinal claro de que sua mente analítica estava processando todas as variáveis daquela equação caótica. Ela se perguntava o porquê do amor ser tão complexo. Ela jamais saberia lidar com algo assim, ou saberia?
Engfa então suspirou, o semblante irritado transparecendo a contrariedade de ter sido arrancada de suas obrigações por causa de uma confusão emocional que sua prima se fosse tão racional quanto ela, deveria ter evitado. Aquilo inegavelmente, afetava a harmonia do seu círculo mais íntimo, e Engfa odiava a sensação de ver as pessoas com quem ela se importava, vivendo instabilidades prejudiciais.
— O que você vai fazer? — Ling perguntou, observando a prima com uma mistura de ansiedade e esperança.
— Estou pensando, Ling. Não me pressione. — Respondeu Engfa, antes de caminhar decidida em direção ao balcão.
Miu, que até então parecia estar em um transe profundo, sobressaltou-se com a aproximação. A surpresa em seus olhos era evidente; ela claramente não tinha notado a chegada da empresária antes.
— Engfa? O que aconteceu? — Miu perguntou, tentando disfarçar a melancolia em sua voz. — Você está aqui no meio do expediente... aconteceu alguma coisa séria?
Engfa lançou um olhar rápido para Lingling, um brilho de "viu só? Até ela sabe que odeio deixar meus afazeres pendentes" em seus olhos, antes de focar novamente em Miu. Sem rodeios, como era de sua natureza, ela foi direta:
— Eu não largaria o meu trabalho se não fosse por algo importante. Nesse caso, você.
– Eu? – Miu ergueu a sobrancelha sem entender nada. – O que tem eu?
– Eu estou preocupada com você. Na verdade, nós estamos. – Engfa apontou entre si mesma e Lingling que estava ao seu lado. – A aparição repentina da Thai, mexeu com todas nós, e eu sei que mexeu com você ainda mais.
Miu suspirou, o peso do cansaço parecendo curvar seus ombros. Ela olhou para Engfa e, depois, para Ling, que permanecia um pouco atrás, visivelmente inquieta.
— Olha, vocês não precisam ficar assim. Lena conversou comigo ontem... — Miu confessou, mantendo o tom baixo. — Ela me falou sobre a possibilidade de encontrar a ex namorada. Ela foi honesta sobre a necessidade que sentia.
Engfa cruzou os braços, mantendo a postura severa, olhar era atento, e agora ela parecia ainda mais irritada.
— E você permitiu isso, mulher? – A prima de Lena, não conseguiu esconder a indignação.
– E o que você queria que eu fizesse? Eu não podia simplesmente impedi-la.
– Como não? Era só dizer que não se sentia confortável. Ou vó não sente ciúmes? De verdade, como você se sente com isso, Miu?
A confeiteira sorriu, mas o sorriso não alcançava seus olhos tristes.
— Sinto receio, Engfa. Sinto que não faz sentido eu continuar investindo em alguém que ainda tem laços tão fortes com o passado. Eu não quero ser um detalhe no meio de uma história que não tem espaço para mim. Quero ainda menos ser alguém que tenta sozinha. É doloroso e solitário, e eu não vou viver algo assim. Mas não culpo a Lena. Não há uma vilã aqui. As coisas simplesmente são como são, e sentimentos não pedem licença para existir.
Engfa e Ling trocaram um olhar tenso. A empresária, com a cautela de quem manuseia um vidro fino, perguntou:
— Você está desistindo da minha prima, então?
Miu deu uma risada sem brilho e, sem responder nada, pegou seu celular sobre a bancada.
— Vocês não viram as redes sociais hoje, viram?
As duas primas, confusas, negaram com a cabeça. Engfa geralmente era alheia aquele mudo que ela considerava ser superficial, por sua vez, Lingling tentava aproveitar as próprias férias sem deixar o mundo virtual impedi-la de modo algum.
Miu, com os dedos trêmulos, buscou algo rapidamente e girou o aparelho, erguendo a tela para que as duas pudessem ver.
— Quem vocês acham que está desistindo de algo? — Miu perguntou, sua voz falhando levemente.
Engfa e Lingling congelaram. O choque percorreu seus corpos enquanto elas encaravam a tela, os olhos arregalados, incapazes de processar a imagem que brilhava ali, mudando completamente o curso daquela conversa e de tudo o que elas acreditavam saber sobre o que estava acontecendo entre Lena e Thai.
…
A fúria de Engfa não era mais contida; ela era um incêndio que precisava ser direcionado. Ela sempre soube que normalmente ela era o pilar, a estrutura de contenção para as crises problematicas das três primas que tinha como suas irmãs mais novas, mas agora naquele momento ela sentia um desejo quase físico de derrubar a calma que Lena ostentava. O que diabos a escritora tinha na cabeça? Sua prima tinha perdido todo o juízo? A preocupação da mais velha era que Lena não percebesse que sua vida não era um rascunho onde ela pudesse apagar e reescrever cenas conforme sua conveniência sem destruir o que estava ao redor nem a si mesma.
Sem anúncio, Engfa e Ling invadiram o quarto de Lena. A cena que encontraram foi um insulto à seriedade do momento: Lena estava sentada na cama, a postura relaxada, concentrada na tela do notebook como se o mundo lá fora não estivesse em colapso.
Engfa sentiu uma pontada de desdém crescer em seu peito. Como ela podia estar tão serena? Ling, por outro lado, ainda se agarrava a uma esperança tênue de que houvesse uma explicação racional, um mal-entendido que ela pudesse remediar antes que o coração de Miu se despedaçasse de vez.
— Vocês perderam o juízo? — Lena disparou, saltando na cama, o tom de voz indignado ao ver a invasão. — Onde estão os bons modos? O que vocês pensam que estão fazendo aqui?
Engfa não respondeu. Seus lábios estavam cerrados em uma linha dura. Ela caminhou até o centro do quarto, sacou o celular com um movimento brusco e o estendeu na direção de Lena, a tela brilhando com a evidência de uma traição pública.
— Você pode nos explicar isso? — Engfa perguntou, sua voz gélida e cortante como aço.
Se aquilo fosse mesmo real, Engfa jamais poderia concordar com algo assim. Pela primeira vez em sua vida ela não ficaria ao lado da prima.
Lena, ainda franzindo o cenho em desaprovação, pegou o aparelho. No primeiro segundo, sua expressão era de irritação, mas à medida que seus olhos percorreram o título da manchete, sua íris dilatou em choque.
"Reconciliação confirmada: Escritora Lena Lalina e a influencer Thai, são flagradas em jantar íntimo no vilarejo onde família da escritora reside."
Abaixo do título, a foto era inquestionável: as duas, na noite anterior, as mãos entrelaçadas sobre a mesa do restaurante do Sr. Anan, em um ângulo que sugeria uma intimidade que o tempo deveria ter apagado.
A reação de Lena foi imediata. Suas mãos começaram a tremer incontrolavelmente, o celular da prima ameaçando escorregar entre seus dedos. Não era medo o que ela sentia; era algo muito pior, um pânico que crescia no peito, frio e sufocante. Ela rolou a tela, lendo o texto que especulava sobre a retomada do romance, os detalhes que pareciam tão reais, mas que, na sua perspectiva, eram uma distorção perversa da realidade.
O ar no quarto pareceu desaparecer. Lena olhou para as primas, os lábios entreabertos, mas nenhum som saiu. O silêncio era tão denso que ela podia ouvir o próprio coração martelando contra as costelas. O que era para ser um fechamento de ciclo tinha se tornado um nó corrediço, e a prova de um “crime” contra o seu presente com Miu estava ali, gravada em pixels para o mundo inteiro julgar como se fosse uma verdade absoluta.
O nervosismo de Lena era palpável; suas mãos, que ainda seguravam o celular, começaram a transpirar, e ela começou a andar de um lado para o outro no quarto, a respiração curta e entrecortada.
— Isso é um absurdo! — Lena exclamou, a voz subindo uma oitava, tentando se desvencilhar daquela armadilha visual. — Eu não voltei com a Thai! Eu aceitei aquele jantar porque prometemos que teríamos uma última conversa, uma chance de fechar esse ciclo definitivamente, mas nunca, em momento algum, houve qualquer intenção de reconciliação da minha parte. Aquela foto... aquele ângulo, foi mal-intencionado! Ling, você conhece essas coisas, sabe que um ângulo pode mudar a realidade. Nós estávamos apenas conversando, ela segurou minha mão por um segundo enquanto implorava por perdão.
A escritora, agora com os olhos marejados de frustração, detalhou ponto a ponto o que aconteceu no restaurante do Sr. Anan, a conversa sobre o passado, o desabafo de Thai e, finalmente, sua negativa clara e absoluta.
Engfa e Ling se entreolharam. A sinceridade no tom de Lena era inegável; elas conheciam a escritora o suficiente para identificar quando ela estava sendo genuína.
A raiva de Engfa começou então a dar lugar a uma preocupação muito mais profunda e estratégica.
— Tudo bem, Lena. Nós acreditamos em você. — Ling disse, soltando um suspiro de alívio que, contudo, não dissipou a tensão no ar. — Mas existem dois problemas gigantescos aqui que não podemos ignorar.
Engfa deu um passo à frente, ocupando o espaço que Lena percorria, forçando-a a parar.
— Primeiro, a questão da privacidade. — Começou Engfa, o tom analítico como era da sua personalidade. — Você sempre frequentou esse vilarejo, sempre foi uma figura pública, mas nunca, em anos, algum morador aqui invadiu sua vida privada dessa forma. Isso só pode ter vindo de fora. O vilarejo é o seu Porto Seguro, e aqui somos todos amigos e respeitosos uns com os outros. Isso cheira a algo muito mais do que apenas um paparazzi oportunista. Alguém queria que essa foto fosse tirada, Lena.
Lena empalideceu entendendo exatamente o que a prima queria dizer, ou melhor, quem ela queria culpar. Ao processar a ideia de que o jantar pudesse ter sido uma emboscada, Lena começou sentir uma raiva incomum queimar seu peito. Mas Engfa a interrompeu antes que ela pudesse especular:
— E o segundo ponto, que é o mais urgente e perigoso: a Miu. — Engfa foi contundente. — Você acha que a Miu, ao ver essa manchete, vai pensar em "fechamento de ciclo"? Ela viu a foto, aliás, foi ela que nos mostrou isso. Ela viu o contexto que a mídia desenhou, e ela, como qualquer pessoa, tirou a conclusão mais lógica e dolorosa. Ela está se sentindo descartável e enganada, Lena.
Lena sentiu o chão fugir sob seus pés. O medo de ter perdido Miu tornou-se um golpe físico.
— Eu preciso falar com ela. — Lena sussurrou, já se movendo em direção à porta com uma urgência desesperada.
— Você não precisa falar. — Corrigiu Engfa, segurando o braço da prima para que ela a olhasse nos olhos. — Você tem que mostrar com atitudes que ela é o seu presente. Que ela é a única na sua vida. Se você demorar mais um minuto sequer, o dano vai ser irreversível. Vá, Lena. Explique tudo. Se você ainda quer que a sua história com a Miu exista, a hora de lutar por ela não é amanhã. É agora.
…
A urgência que queimava em Lena era uma mistura de desespero e um ódio primitivo, um fogo que consumia sua racionalidade. Enquanto dirigia, sua mente traçava as linhas daquela armadilha: a encenação, o jantar, o toque na mão... tudo milimetricamente planejado por Thai. Ela sabia como o jogo funcionava; na mídia, uma mentira bem arquitetada não precisava de provas, apenas de visibilidade para se tornar verdade absoluta.
Ao frear e estacionar bruscamente em frente à confeitaria, Lena saltou do carro, mas o impacto da frustração a atingiu como um soco: a loja estava de portas fechadas. O silêncio do local era ensurdecedor. Onde ela estaria? Antes que pudesse formular um plano, uma voz familiar disfarçado de suavidade cortou o ar:
— Lena... eu não queria que as coisas saíssem assim.
Ao girar o corpo e cruzar o olhar com o de Thai, a máscara de compostura de Lena caiu. Sua raiva explodiu, crua e violenta:
— Você orquestrou isso! — Lena vociferou, avançando um passo. — Você sabia exatamente o que estava fazendo naquele restaurante. Não venha se fazer de vítima quando você é a arquiteta dessa mentira nojenta!
— Lena, eu juro, eu não chamei ninguém... — Thai tentou se aproximar, com os olhos marejados, mas a escritora ergueu a mão, parando-a no ar.
— Não diga mais uma palavra. Eu não acredito em nada do que sai da sua boca. Se eu pudesse apagar o nosso passado, a única coisa que eu mudaria seria o dia em que te conheci. Você é o meu maior arrependimento.
Thai vacilou, como se tivesse sido atingida fisicamente pelo desprezo da outra, mas não houve tempo para tréplicas. Como abutres atraídos pelo cheiro do caos, repórteres surgiram de trás dos arbustos e esquinas, câmeras e microfones bloqueando qualquer rota de fuga. Aquela era a primeira vez que o vilarejo se transformava em um palco. Era a primeira vez que tinham conseguindo invadir seu único lugar de paz.
— Lena! É verdade que vocês estão vivendo um romance escondido? — Um deles gritou.
— Por que o sumiço das redes sociais? Esse vilarejo é um esconderijo para o casal? — Disparou outro.
— É verdade que a fortuna da sua família é o que mantém esse lugar? Eles estão financiando o silêncio do povo daqui para esconder vocês? — Um terceiro perguntou, invadindo o espaço pessoal de Lena, agora com perguntas sobre sua família. – Soubemos que são as atividades Econômicas da sua família, que faz esse lugar ainda ser uma comunidade saudável para todos.
O mundo começou a girar. O ar faltava, os sons tornavam-se distorcidos, um zumbido agudo invadia seus ouvidos. Lena sentiu o suor frio percorrer sua espinha; a crise de pânico estava a um milímetro de dominá-la. Quando ela estava prestes a desabar, uma mão firme e segura envolveu a sua.
Ela se virou, pronta para repelir qualquer invasor, mas encontrou os olhos de Miu.
Miu não disse uma palavra. Não houve julgamento no seu olhar, apenas uma determinação silenciosa que serviu como uma âncora no meio da tempestade. Com um movimento preciso, Miu retirou as chaves da mão trêmula de Lena, abriu a porta do passageiro e a empurrou para dentro com cuidado. Antes de fechar a porta, ela lançou um olhar cortante para o grupo de repórteres e, finalmente, para Thai.
Thai, que observava a cena paralisada, viu a interação entre a confeiteira que ela já havia visto nas outras vezes em que esteve ali, e a escritora. Ela logo reconheceu aquilo… Ela já havia vivido aquilo, embora com uma intensidade menor. Ela viu a forma como Miu protegia Lena, a forma como a escritora se rendia ao comando daquela mulher, entregando seu controle e sua segurança a ela. Naquele momento, sob os flashes dos fotógrafos e a confusão daquela tarde, Thai finalmente entendeu. Ela viu a natureza daquele vínculo — algo profundo, protetor e inabalável — e compreendeu, com uma clareza dolorosa, porque o coração de Lena jamais voltaria a pertencer a ela. Miu não era apenas alguém por quem Lena tinha carinho; Miu era o refúgio que Thai nunca foi capaz de oferecer.
…
O interior da casa de Miu era um contraste absoluto com a barbárie que acabara de presenciar. O aroma de lavanda e o silêncio sereno do ambiente ajudaram a reduzir, milímetro a milímetro, a frequência cardíaca de Lena. Miu, com aquela precisão que lhe era peculiar, preparou um chá de ervas, entregando a xícara fumegante às mãos trêmulas da escritora.
— Beba devagar. — A confeiteira sussurrou, a voz carregada de uma calma que parecia blindar o local contra o mundo exterior. — Vai passar, Lena. O seu sistema precisa apenas de um instante de paz. Logo você vai tá calma para lidar com a situação.
Lena, ainda sentindo o eco das perguntas agressivas dos repórteres, lamentou em um fio de voz:
— Que caos! Eu nunca quis trazer esse tipo de desordem para cá. Para o povo daqui, para minha família… Tão pouco para sua vida.
Miu sentou-se ao lado dela, observando a tempestade nos olhos da escritora.
— Nenhuma tempestade é eterna, Lena. O céu pode rugir e escurecer, mas o sol sempre surge no novo amanhecer. Sempre!
Sem perder tempo, Miu pegou o celular de Lena e, com a autorização muda da escritora, discou para Engfa. Ela explicou brevemente o incidente em frente à confeitaria, detalhando a agressividade dos repórteres e, principalmente, o interesse intrusivo da mídia sobre a família de Lena e seus negócios. Do outro lado da linha, Engfa foi o pilar de ferro de sempre: garantiu que ela e Ling cuidariam da blindagem legal em torno da família e dos moradores do vilarejo, e que manteria comunicação, pedindo a Miu apenas uma coisa: que cuidasse de Lena.
Ao encerrar a chamada, Miu sentiu o olhar de Lena sobre si. Um olhar carregado de uma gratidão que a deixava sem defesas.
— Obrigada! — Lena murmurou, aproximando-se. — Por tudo. Por estar aqui, por me salvar de novo, por cuidar de mim quando eu nem consigo cuidar de mim mesma.
Lena inclinou-se, buscando o conforto dos lábios de Miu, mas a confeiteira recuou gentilmente, mantendo uma distância que doeu mais do que qualquer grito dos repórteres.
— Não, Lena... espere. Não sei se devemos fazer isso agora.
— Por que não faríamos?
– Você sabe, Lena.
– Miu, tudo isso não passa de um mal-entendido. — Lena se apressou, a angústia subindo novamente. — Você tem que acreditar em mim. Eu não tenho nada com a Thai. Meus sentimentos são exclusivamente seus, são sinceros, são a única verdade que eu tenho hoje. Aquela foto foi tirada em um ângulo sugestivo, eu sei, mas ontem a noite eu deixei claro para Thai, que entre nós jamais voltaria existir algo.
Miu balançou a cabeça, o olhar nublado pela insegurança.
— Se você diz, eu realmente acredito em você. Mas não é apenas sobre o passado, Lena. É sobre o presente também. Olhe as redes sociais... os fãs, as páginas de entretenimento, eles estão celebrando aquela foto, estão criando uma narrativa de apoio ao "retorno" de vocês. Eu não quero ser o motivo de uma nova crise na sua carreira, não quero que você sofra represálias por escolher alguém como eu em vez de manter uma imagem que o público insiste em querer ver.
Lena sentiu uma chama de indignação se acender. Ela não suportava a ideia de que Miu se visse como um estorvo ou como alguém que precisava ser sacrificada em nome de uma carreira.
— Eu sou muito grata a todos os meus fãs, pois se cheguei onde estou hoje, foi porque eles acreditaram no meu trabalho. Mas quem decide o que eu sinto, o que eu vivo, e com quem eu durmo, sou apenas eu, Miu. — Lena disse, a voz subitamente firme, desprovida de qualquer hesitação. — Nem os fãs, nem a editora, nem o mundo inteiro tem qualquer autoridade sobre o meu coração. A minha carreira é compartilhada, mas a minha felicidade... a minha felicidade sempre será uma decisão minha. E eu já decidi.
Antes que Miu pudesse encontrar qualquer outro argumento, Lena fechou a distância entre elas. Desta vez, não houve recuo. O beijo que Lena depositou nos lábios de Miu, carregava não apenas desejo, mas uma declaração de guerra contra qualquer obstáculo que tentasse mantê-las separadas. Foi um beijo urgente, profundo e absoluto, deixando claro, sem qualquer margem para erro, onde o coração da escritora finalmente havia feito morada.
A resistência de Miu dissolveu-se como açúcar em água quente. O beijo, inicialmente carregado de urgência e defesa, tornou-se profundo, lento e faminto, uma entrega mútua que finalmente silenciou as incertezas que pairavam sobre o ambiente. As mãos de Lena, antes trêmulas pela raiva, agora moviam-se com uma confiança absoluta, deslizando pela cintura de Miu, subindo pela bainha de sua blusa até encontrar a pele macia que a escritora tanto ansiara tocar.
O ar entre elas tornou-se denso, saturado pelo calor de um desejo que não podia mais ser contido. Miu ofegava, as mãos cravadas nos ombros de Lena, tentando manter-se conectada à realidade enquanto o mundo lá fora parecia desabar. De repente, Miu interrompeu o beijo. Ela se afastou apenas o suficiente para que seus olhares se cruzassem, os lábios inchados, a respiração errática e o brilho nos olhos denunciando o turbilhão interno.
— Lena... — Ela sussurrou, a voz carregada de uma cautela que beirava a agonia. — Olhe para mim. Você tem certeza? Porque, se continuarmos, eu não vou conseguir parar. Não há mais caminho de volta para a prudência.
Lena não hesitou. Seu olhar era de uma honestidade devastadora, fixo nas íris castanhas de Miu. Sem desviar a atenção nem por um segundo, ela levou as mãos à própria blusa, desabotoando-a com calma, revelando sua vulnerabilidade absoluta. A peça de roupa caiu no chão, descartada como o passado que tentavam deixar para trás.
Ela se aproximou novamente, colando seu corpo ao de Miu, e selou seus lábios com uma convicção que não deixava espaço para dúvidas.
O resto da tarde tornou-se um borrão de sensações. A cena de amor entre elas não foi apenas um encontro de corpos, mas um ritual de cura. Cada toque de Lena era uma reafirmação de que Miu era o seu porto seguro, o único lugar onde ela podia ser ela mesma sem o peso da fama ou de mentiras. Miu, por sua vez, entregou-se com uma doçura romântica, um abandono que era, ao mesmo tempo, uma oração e um pedido.
Em meio à penumbra que começava a invadir o quarto para onde ela levava Lena, o som das respirações ritmadas e o toque suave da pele revelavam uma conexão profunda, quase sagrada. Ali, naquele refúgio, não existiam repórteres, não existiam manchetes falsas e não existiam fantasmas. Havia apenas a entrega total: a escritora que finalmente encontrara a paz na doçura da confeiteira, e a mulher que, através daquele beijo, compreendeu que o amor, quando verdadeiro, é o único pilar que realmente importa em meio ao caos.
Foi um momento de paixão pura, onde o tempo parou, permitindo que as duas se perdessem e, finalmente, se encontrassem uma na outra.
Fim do capítulo
Estamos a 7 capítulos para chegarmos ao final da jornada de Lena e Miu. Mas não vamos desanimar, pq "Os quatro compassos do amor: A frequência do destino" também vai aquecer o coração de vocês.
Bjus!
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