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Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço por priskelly

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Palavras: 3635
Acessos: 31   |  Postado em: 25/08/2026

Capitulo 24

Por narrador

 

A luz da manhã infiltrou-se pelas frestas da cortina do quarto de Miu, desenhando padrões dourados sobre o lençol branco. Diferente dos últimos dias, onde o despertar era acompanhado por um aperto no peito e o peso das incertezas, hoje Lena abriu os olhos sentindo uma leveza absoluta. A noite anterior, vivida entre suspiros, entregas e a paz de ter finalmente se alinhado com a mulher que estava aprendendo amar, parecia ter dissolvido todos os fantasmas.

Lena lembrava da breve ligação feita para Engfa na noite passada, pedindo que a prima não se desse ao trabalho de ir buscá-la, afinal de contas, ela sabia que não sairia dali. Agora, ao espreguiçar-se, o sorriso surgiu quase como um reflexo involuntário. Ela não queria mais adiar, não queria mais meias verdades ou silêncios estratégicos. O sentimento por Miu já não era algo que ela precisava entender, era algo que ela já aceitava como sua nova realidade.

Ao sair do quarto, vestindo apenas uma das camisas brancas de algodão de Miu, larga demais em seu corpo e carregando o perfume inconfundível da confeiteira, Lena caminhou descalça pelo corredor. O aroma de café fresco, ovos e pão assado guiou-a até a cozinha. Ao entrar, parou por um segundo, encantada: a mesa estava posta com um cuidado que só Miu tinha, uma pequena celebração de vida e ternura naquele início de dia.

Miu estava de costas, terminando de arrumar a mesa, quando Lena se aproximou silenciosamente e envolveu sua cintura, colando o corpo ao dela antes de depositar um beijo apaixonado na curva do seu pescoço, subindo depois para os lábios da confeiteira.

Miu retribuiu o gesto com uma felicidade que transbordava, seus olhos brilhando ao encontrar os de Lena. Ela se virou, abraçando a escritora com força, aninhando-se contra o seu peito.

— Bom dia! — Miu sussurrou, acariciando os cabelos desarrumados de Lena. — Dormiu bem?

— Eu nem me lembro de quando foi a última vez que dormi tão bem assim. — Lena respondeu, enterrando o rosto no pescoço de Miu, sentindo-se, finalmente, em casa. — Acho que passei anos tentando encontrar esse sono.

Miu sorriu, um riso leve e contagiante, mas logo sua expressão mudou para um alerta divertido.

— Fico feliz, de verdade. Mas, se você não quer que a Lingling, a Engfa e a Lookmhee cheguem aqui e comecem a zombar da nossa cara, eu sugiro que você corra para se vestir. A Ling me ligou há pouco... elas estão a caminho, e pelo o tempo da ligação acredito que devem chegar em poucos minutos.

Lena arregalou os olhos. A imagem de Lingling, sempre atenta e perspicaz, observando-a usando a camisa de Miu, foi o bastante para disparar sua adrenalina.

— Elas estão vindo? Agora? Eu queria saber desde quando Engfa gosta de acordar cedo. — Lena riu, dando um beijo rápido e estalado nos lábios de Miu antes de se soltar do abraço. — Você tem razão. Elas não vão me deixar em paz se me virem assim!

Com uma energia renovada, Lena correu de volta para o quarto, os pés batendo contra o chão de madeira, pronta para enfrentar o dia, e as provocações das outras, com a segurança de quem, pela primeira vez em muito tempo, não tinha nada a esconder.

 

…

 

Por Lena

O clima na sala era de uma descontração que, por um momento, me fez esquecer completamente o turbilhão da véspera. Quando retornei do quarto, já devidamente vestida, encontrei Engfa imersa da narração de um relato sério e preciso sobre a operação de guerra que ela e Ling precisaram montar para dispersar os repórteres que rondavam sua propriedade. Enquanto Lookmhee pontuava que tio Tawan tinha sido mais direto, por assim dizer, sem deixar espaço para que qualquer um deles voltassem rodear as terras da propriedade onde pai e filha viviam. Conhecendo o pai de Mhee, eu já imaginava o que aquilo significava. Dos três irmãos, tio Tawan era o único que demonstrava ter uma característica mais propícia a usar a força se necessário. Não que ele fosse um homem rude, ou melhor, ele era sim, mas apenas quando necessário.

Ao colocar os pés no recinto e ter minha presença notada, percebi que a seriedade não duraria muito. Lookmhee e Lingling trocaram aquele olhar cúmplice, o tipo de contato visual que sempre me dava calafrios quando as duas se uniam no mesmo objetivo. 

— Olha só para a Lena. — Mhee começou, com um sorriso de canto que denunciava a provocação. — Tem algo diferente nela hoje. A pele está mais radiante, não acham?

Ling não perdeu o ritmo:

— Ah, Mhee, você é tão ingênua. Esse efeito tem nome e sobrenome: Miu.

Senti meu rosto ferver instantaneamente, um calor que subiu da nuca até as orelhas. Engfa, embora mantivesse a postura de quem tinha uma seriedade impecável, não conseguiu conter aquele sorriso debochado e astuto que deixava suas covinhas a mostra, embora tenha desviado o olhar discretamente. Engfa que era naturalmente sedutora, sempre tentava esconder-se sobre assuntos mais íntimos, digamos assim. Eu sempre a achei a mais tímida de nós quatro. Pelo menos quando assuntos como aqueles surgiam assim na frente de outras pessoas, ou seja, naquele momento a presença de Miu, certamente era o motivo da timidez. Ela certamente iria repreender Ling e Mhee depois por serem tão atrevidas. 

Eu não pude evitar; fui até as duas e dei um leve tapa na testa de cada uma, tentando esconder meu próprio sorriso.

— Vocês não têm jeito! Que falta de educação, meninas. A Miu deve estar achando que fomos criadas na selva.

Mhee, a mais atrevida do trio, riu descaradamente.

— Relaxa, Lena. É bom que a Miu já vá se acostumando com a família em que está se metendo. Aliás, falando em família... Miu, eu sou uma ótima prima. Se você quiser ajuda para expulsar aquela Thai do vilarejo a pontapés, é só  chamar. Faremos isso com um sorriso no rosto.

Miu, contida e educada, apenas deu um sorriso tímido, um pouco constrangida.

— Eu só espero que ela não tente se aproximar novamente. — Ela disse baixo.

A atmosfera, antes leve, pesou quando Ling assumiu seu tom de preocupação genuína.

— Agora, falando sério, Lena. O que você está pensando em fazer com sobre esses boatos? O lançamento do seu livro está em cima. A editora é conservadora e, se eles sentirem cheiro de escândalo, podem querer boicotar a sua divulgação.

Engfa, como sempre, foi a voz da razão pragmática.

— A Lena não pode ser refém dessa editora que sequer defendem seus contratados. A vida dela pertence a ela, não aos números de vendas. Mas... — Ela parou por um segundo, os olhos brilhando com aquela centelha de estratégia. — Eu pensei em algo. Se os repórteres querem a vida da Lena, vamos dar a eles o que querem, mas sob os nossos termos. Vamos fazer do limão uma limonada.

Todos na sala silenciaram, aguardando a genialidade da Engfa.

— Lena, eles não vão embora daqui enquanto você não falar com eles. Então, querendo ou não, você vai precisar conceder uma entrevista exclusiva. — Ela explicou, firme. — Você vai falar sobre a sua vida aqui no vilarejo, exaltando as belezas, a cultura e as riquezas que este lugar tem a oferecer. Vamos transformar a curiosidade deles em promoção turística. Você traz visibilidade, ajuda a comunidade a crescer economicamente e, o povo vai gostar de terem sido notados. Quando o assunto inevitavelmente cair na Thai, você faz o óbvio… nega! Com classe e clareza, você deixa bem claro que não existe nada entre vocês.

Olhei para Engfa, surpresa com a perspicácia. Ela tinha razão. Aquilo não era apenas uma estratégia de defesa; era uma forma de retomar o controle da minha narrativa e, de quebra, fazer algo de positivo pelo vilarejo que sempre acolheu nossa família. Miu sustentou meu olhar, e logo compreendi que ela era de acordo com a ideia.

 

Mais tarde

 

Enquanto Ling e Engfa se moviam pela sala como generais em um campo de batalha, orquestrando cada detalhe da negociação com os repórteres para que eu concedesse aquela entrevista, eu me refugiei em um canto mais silencioso da casa de Miu. Era hora de encarar a realidade profissional.

Disquei para Yen, meu editor. Minhas mãos ainda suavam um pouco, mas a convicção estava ali, firme como uma rocha.

— Yen? Precisamos falar sobre o que está acontecendo aqui. — Comecei, sem rodeios. — O vilarejo está infestado de repórteres. Eles tem cercado não só a mim, mas minha família também, e você sabe o quanto eu preservo a privacidade deles, por isso tomei uma decisão, eu vou dar uma entrevista exclusiva para esclarecer que não existe absolutamente nada entre mim e a Thai.

Houve uma pausa do outro lado da linha, um silêncio que durou segundos demais.

— Lena... Eu sinto muito. Sei o quanto garantir o bem estar da sua família é importante. — A voz de Yen soou cauteloso, quase um sussurro profissional. — Quanto a história com a Thai… Bem, a direção tem acompanhado de perto os rumores. Sinceramente? Eles estão adorando a visibilidade que a mídia está dando para esse "suposto" romance. As leitoras estão shippando vocês e o engajamento para o lançamento do seu livro disparou. Nem parece que até pouco tempo elas estavam boicotando qualquer investimento publicitário que fazíamos. A diretoria começou a cogitar que, talvez... talvez uma confirmação oficial, mesmo que sutil, fosse o empurrão que precisamos para...

Meu sangue gelou. A insinuação estava ali, cristalina e revoltante. Eles queriam vender livros à custa da minha integridade. Queriam que eu me vendesse como uma marionete de um romance fictício e tóxico.

— Nem mais uma palavra, Yen. — Interrompi, minha voz cortante como lâmina. — Independentemente do que a diretoria pensa, ou do que eles almejam para o lucro desse livro, eu não sou um produto à venda. Não existe nenhuma cláusula no meu contrato que me obrigue a mentir, ainda mais sobre algo tão sério. O que eu faço da minha vida ou com quem me relaciono é problema meu. Eu vou negar qualquer envolvimento com a Thai, e se a editora não estiver pronta para apoiar a verdade, então não temos mais nada sobre o que conversar.

Antes que ele pudesse tentar argumentar ou usar qualquer lábia corporativa, encerrei a chamada. O silêncio após o “bip” final foi o som da minha liberdade.

Lookmhee, que observava a cena da porta da sala, caminhou rapidamente até mim, a expressão preocupada.

— Prima? O que aconteceu? Você está pálida.

Contei a ela, cada detalhe. A ganância da editora, o plano de me transformar em uma fachada para marketing. Ao terminar, a vulnerabilidade que eu tentava esconder veio à tona. Me sentei em um banco, sentindo o peso da decisão.

— Mhee, eu estou apavorada. — Confessei, sentindo um nó na garganta. — Eu amo escrever! Esse livro é tudo para mim... mas e se eles decidirem me boicotar? E se a minha carreira profissional acabar aqui, por causa de uma posição ética? Eu não sei se estou pronta para perder tudo o que construí por causa de algo tão egoista.

Mhee se aproximou e segurou minhas mãos, seu olhar firme e protetor.

— Lena, olha para mim… — Ela disse, com uma seriedade que raramente usava. — O seu talento não depende da sua editora, nem de fofocas de tabloides. Se você ceder agora sobre algo tão absurdo assim, eles nunca vão parar de te controlar. Você vai passar o resto da sua carreira sendo a "Lena da Thai", a "Lena da polêmica", e vai esquecer quem a Lena escritora realmente é. O medo é um péssimo conselheiro. Se você quer ser respeitada pelo que escreve, precisa ser respeitada pelo que vive. A gente vai dar um jeito, ok? A Engfa vai te ajudar, e se a editora não estiver à sua altura, bom... talvez esteja na hora de você procurar alguém que valorize não só o seu lucro, mas o seu caráter. Não sacrifique a sua paz por uma carreira que não te deixa dormir à noite.

 

…

 

O microfone diante de mim parecia pesar toneladas, mas, ao olhar para Engfa, Ling, Mhee e Miu, eu conseguia me sentir preenchida. Elas me davam sinais de encorajamento, e isso me fazia sentir a firmeza retornar ao meu corpo. Centenas de câmeras estavam focadas em mim, mas, desta vez, eu não era a presa exposta por uma foto tirada em um ângulo sugestivo. Eu era a dona da narrativa.

— Lena, você sumiu por quase um mês, ignorou completamente a polêmica do vazamento do seu último capítulo e escolheu este vilarejo como um refúgio. Por que se esconder assim é um lugar tão distante? — Um repórter disparou, o tom ácido denunciando a busca pelo sensacionalismo.

Respirei fundo, mantendo a postura serena que meu avô me ensinou a ter.

— Eu não me escondi. — Respondi, minha voz ecoando clara pelo espaço. — Eu apenas precisei de silêncio para ouvir a mim mesma e lidar com o meu coração. Quanto ao vazamento do capítulo, isso é uma violação grave de propriedade intelectual. Deixei o caso inteiramente nas mãos da minha editora e da minha equipe jurídica para identificar o responsável. O foco agora é o respeito ao meu trabalho.

Fiz uma pausa, permitindo que a pequena plateia formada por moradores locais, absorvesse a seriedade do tom.

— Escolhi este lugar porque é onde minhas raízes estão fincadas. Cresci aqui com minhas primas, entre estes pomares e estas ruas. Este vilarejo não é um esconderijo; é o meu lugar de cura e também a minha casa. O povo daqui são parte da minha família. 

— Lena… — Outra voz se destacou, mais curiosa. — Você nunca falou sobre sua família. Suas leitoras têm sede de conhecer a mulher por trás dos livros. Por que esse mistério?

Olhei diretamente para a lente da câmera principal.

— Eu escolhi a vida pública, minha família não. O amor que sinto por eles passa, acima de tudo, pelo respeito à sua privacidade. Eles não são obrigados a carregar o fardo da minha exposição. Se minhas leitoras são fãs de verdade, elas entendem que existem limites sagrados, e que proteger quem amamos é a forma mais pura de manter nossa humanidade intacta.

Aproveitei a brecha para desviar o foco da minha vida pessoal para a beleza que nos cercava. Comecei a descrever o vilarejo — a hospitalidade das famílias locais, a riqueza cultural que nos encanta, a paz que a natureza em volta sempre preservada proporciona para todos nós. "Ficaria muito mais feliz", concluí, "se este lugar atraísse pessoas pela sua beleza genuína e pelo seu valor histórico, e não pelo burburinho que circula ao meu redor hoje."

Mas, como eu sabia que aconteceria, o assunto inevitável surgiu.

— E o romance com a Thai, Lena? Aquela foto na noite passada... — Uma repórter insistiu. – Afinal de contas, vocês estão se reconciliando? 

— Tudo não passa de um enorme equívoco. — Respondi, mantendo o tom firme. — Thai e eu tivemos uma história, é verdade, mas isso pertence ao passado. A foto em questão não simboliza reconciliação alguma. Foi apenas um encontro para resolver assuntos pendentes, como duas pessoas adultas fazem quando precisam encerrar um ciclo.

— Mas Lena… — Um repórter interrompeu, com um sorriso irônico. — Uma parte significativa das suas fãs está torcendo pela reconciliação. O que você diria para essas pessoas que ainda esperam ver vocês juntas? Elas acreditam no amor que você descreve. Demonstrar que esse amor não existe na vida real, não iria contra aquilo que você faz elas acreditarem?

Sorri, lembrando-me de Miu e da paz que encontrei ao aceitar que o amor não é uma linha reta, mas uma maré que muda de direção.

— Não acho que ser sincera sobre o que eu sinto e vivo, vá decepcioná-las ou desmotivá-las acreditar no amor. Eu diria para elas que o amor, em sua essência mais profunda, é como as estações do ano. Nós temos a tendência de querer que o verão dure para sempre, mas ao longo do ano, passamos por quatro estações. Assim como no universo musical existe o ritmo, a frequência, a melodia e a sintonia. O que eu quero dizer é que: a vida exige que as folhas caiam e que os compassos mudem. Um rio nunca é o mesmo ao atravessar uma pedra pela segunda vez, pois tanto o rio quanto a pedra foram transformados pelo tempo. Acreditar que o amor precisa ser sempre da mesma forma é o que nos impede de descobrir que ele apenas mudou de curso, buscando novas margens para transbordar. E, hoje, o meu curso é outro.

De repente um burburinho começou surgir entre eles que logo ficaram afoitos aparecendo ter o faro para novas manchetes.

– O que você está querendo nos dizer com isso? Por acaso existe outra pessoa em seu coração? – Um deles perguntou.

– É por isso que você não quer mais dar uma chance para sua história com Thai?

Eu poderia dizer com todas as letras que sim, que meu coração – antes machucado – agora batia em um novo ritmo de pura felicidade. Mas por que seria necessário fazer isso? Por que era necessário alimentar aquela narrativa imposta por eles? Não bastava a mim e a Miu, nos amar e viver? 

Meu olhar sustentou o de Miu e então entendi… Não ela me  compreendia, ela não vivia sob a perspectiva de ser exposta, ela não cobrava e nem almejava fama. Nós duas nós bastava. 

– Senhores, acho que por hora é só isso. Lena tem trabalho a fazer. Agradecemos a todos, mas damos por encerrada a entrevista. – Ling interviu, parecendo compreender o que aquele silêncio entre Miu e eu, significava. 

 

No outro dia

Por narrador

 

Thai estava olhando para tudo em volta daquele vilarejo e se perguntava o porquê de antes não ter dado uma chance para conhecer aquele lugar que era tão bonito e transmitia tanta paz. Ela também se recordava do dia anterior… Ela não teve sua presença notada, mas escondida nas sombras de uma das ruelas laterais da praça, ela havia observado a entrevista de Lena como quem assiste a um filme sobre a própria derrota. O vento trazia a voz da escritora com uma clareza que doía. Quando Lena soltou a metáfora sobre as quatros estações, os quatro compassos, e sobre o rio e as pedras, Thai sentiu o peso da verdade cair sobre seus ombros como uma sentença definitiva.

A cena, porém, não se encerrou na resposta da escritora. De onde estava, Thai via Miu. A confeiteira que estava ao lado da irmã e das primas de Lena, demonstrando ter uma aprovação palpável, se mantinha apenas poucos metros de distância da escritora, e era tão discreta quanto Thai jamais foi. 

No entanto, o que despertou ainda mais sua inquietação, foi assistir o exato momento em que Lena  buscou instintivamente o olhar de Miu. A troca de olhares entre as duas foi rápida, quase imperceptível para o restante da multidão, mas para Thai foi como um clarão: era uma conexão pura, doce, desprovida da ambição e do barulho que sempre marcaram sua própria trajetória ao lado de Lena.

Thai recolheu-se, o peito apertado por uma constatação tardia e cruel. Ela se perguntou, com a alma em frangalhos, se algum dia Lena a olhou com aquela mesma luz. A resposta, honesta e devastadora, surgiu no silêncio da sua mente: Lena a amou, sim, mas aquele amor de agora — sólido, calmo e profundo — nunca existira entre elas. O que ela e Lena tiveram foi o fogo que consome; o que Lena sentia por Miu era o solo onde se constrói uma vida.

O arrependimento, que antes era uma sombra, agora transformou-se em um peso insuportável. Ela amava Lena, a amava com uma intensidade que só agora, na iminência da perda total, ela tinha a coragem de admitir. E era justamente por esse amor, e pela necessidade de se redimir de tanta ganância, que ela não podia mais permitir que as coisas continuassem daquela maneira.

Enquanto caminhava de volta para o hotel, seu celular vibrou freneticamente. As redes sociais estavam em polvorosa; o público, manipulado pela ideia de um romance épico, pressionava Lena a ceder. Thai sabia, por fontes internas, que a editora estava preparando o bote final: um ultimato para que Lena encenasse um relacionamento com ela, sob a ameaça velada de sabotar o lançamento do livro e manchar sua carreira. Eles queriam transformar o amor de Lena em um produto barato.

Thai parou diante da janela, observando os moradores do vilarejo. Ela finalmente entendeu. A sua redenção não viria através de uma tentativa de conquista, mas através do sacrifício. Se ela queria, pela primeira vez, honrar o que sentia por Lena, ela precisaria ser o escudo da escritora, não o seu algoz.

Ela respirou fundo, a decisão cristalizando-se em sua mente. Ela não permitiria que a ambição da editora destruísse a integridade de Lena. Ela mesma colocaria um ponto final naquela história, e faria isso de uma forma que ninguém, nem mesmo a editora mais poderosa, pudesse reverter. Ela se tornaria o elo que se romperia para que a corrente de mentiras fosse desfeita, custasse o que custasse à sua própria imagem.

Ali mesmo no quarto da pousada aconchegante do vilarejo, Thai não precisou de repórteres. Ela mesma cuidou para que tudo saísse como planejado. Com o olhar fixo na tela do celular que cuidadosamente ela clicou para iniciar aquela live, Thai já atraia e contava com a presença de milhares de seguidores. Aquele seria o seu fim? Ela não sabia, mas iria fazer a coisa certa dessa vez.

Fim do capítulo


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