Capitulo 4 - Primeira tarefa como namorada.
Marcela
Eu estou oficialmente exausta, esgotada e impaciente. Não é um cansaço comum, desses que um banho quente resolve, é um cansaço que se instala na alma, que pesa nos ombros, que deixa até respirar parecer uma atividade opcional.
O dia foi longo, cheio de reuniões inúteis, decisões que só eu posso tomar e pessoas que acham que sabem mais do que realmente sabem. Nada fora do normal e, se eu for honesta, o problema é que agora existe um fator novo na minha vida: uma assistente que, tecnicamente, é minha namorada.
Finjo ler alguns e-mails no computador, mas não absorvo nada, minha mente está presa em uma única lembrança, a ligação da minha mãe na noite anterior. A voz afiada, carregada daquele tom de desaprovação que ela sempre usou ao longo dos anos.
“Você está namorando uma mulher agora?”
Não houve choque, não houve curiosidade, muito menos acolhimento, só julgamento. Ela não gritou, na verdade, minha mãe nunca grita, ela faz pior, fala baixo, controlada, como se estivesse analisando um erro grave que cometi e tentando decidir se ainda vale a pena me consertar.
E, quando viu que não mudaria minha opinião na nossa última discussão, soltou a bomba:
“Quero conhecer essa tal de... Como é mesmo o nome dela? Ou dele, pelo jeito que se veste. Traga para jantar aqui.”
Um convite que parece muito mais com uma armadilha, e eu tenho certeza de que é. Fecho os olhos por um segundo. Minha mãe nunca faz nada sem segundas intenções, eu cresci nesse campo minado emocional, sei reconhecer quando algo vem disfarçado de gentileza. Esse jantar não é sobre aproximação ou sobre conhecer Victoria, é sobre testar a garota, provocar, e acima de tudo, sobre tentar fazer Victoria se sentir tão deslocada que desista sozinha.
O problema é que agora eu tenho um acordo, e, gostando ou não, preciso cumprir minha parte.
Olho para o relógio, dezoito e cinquenta e sete, Victoria deve estar guardando as coisas para ir embora. Ela sempre sai correndo para pegar o ônibus, como se cada minuto fosse contado, e provavelmente é. Suspiro antes de discar seu ramal do interfone.
— Victoria, passa na minha sala antes de ir — digo antes que ela invente alguma desculpa.
Alguns segundos depois, a porta se abre, ela já está com a bolsa no ombro, o cabelo com alguns fios na frente do seu rosto, claramente pronta para fugir.
— Fala rápido, Marcela, eu vou perder o ônibus. — É direta, sem cerimônia e sem medo.
Cruzo os braços, espantada com sua ousadia, ela está gostando de ser assim nos últimos dias, daqui a pouco precisarei pôr um fim nessa língua afiada.
— Sente-se — Aponto a cadeira.
— Não dá. — Ela está inquieta.
— Dá sim — Retruco.
— Eu vou chegar em casa meia-noite se perder o próximo ônibus. — Tenta explicar.
— Eu te levo. — Dou de ombros e vejo-a franzir a testa.
— O quê? — Quase grita.
— Eu te levo em casa — Repito.
— Desde quando você virou motorista de aplicativo?
— Desde agora. Sente-se.
Ela me encara como se estivesse avaliando se vale a pena comprar aquela briga, acredito que chegou à conclusão de que não vale. Ela suspira e se rende, sentando-se à minha frente.
Batalha vencida, um a zero para mim.
— O que foi? — Ela pergunta.
— Minha mãe quer te conhecer. — Vou direto ao ponto.
— Sua mãe? — Ela pisca, tentando associar o que acabou de ouvir.
— Sim — respondo, simples.
— Conhecer tipo... conhecer? — Começa a se apavorar.
— Jantar na casa dos meus pais — Largo a bomba.
— Mas eles já me conheceram aqui no escritório. — Tenta achar um motivo para fugir.
O silêncio que se instala é quase palpável, fico encarando-a e começando a achar que isso pode dar mais errado do que eu achava que daria.
— Você está brincando — Passa as mãos pelo seu rosto e depois pelo cabelo.
— Eu queria estar.
— Marcela, isso não estava no acordo — Me acusa, desesperada.
— Está implícito — Tento não perder a paciência.
— Não, não está.
Inclino o corpo para frente, solto o ar que nem sabia que estava preso. Não sei se conseguirei não perder a calma com esse chilique dela.
— Você vai ser minha namorada falsa, minha família faz parte do pacote — digo o óbvio.
— Quando? — Fala, mais calma.
— Próxima semana.
— Próxima semana? — Ela repete, num misto de alívio e pânico.
— Sim.
— Tá, eu sobrevivo — Ela solta o ar.
— Mas antes disso... — eu continuo.
Ela fecha os olhos, sabendo que não irá gostar mais uma vez do que está por vir.
— O que mais?
— Amanhã a gente começa os preparativos.
— Preparativos para quê? — Agora ela está confusa.
— Para você virar alguém minimamente apresentável no meu mundo — explico, esperando que ela não se ofenda.
Ela me olha, me analisa, esperando eu dizer que não passa de uma brincadeira, mas seu rosto se fecha quando ela percebe que é verdade.
— Eu sou apresentável — diz com o maxilar travado.
— No seu mundo.
— Qual é o problema com o meu mundo?
— Nenhum, mas ele não combina com o meu. — Olho para sua camiseta preta já desbotada.
Ela se levanta e começa a andar de um lado para o outro na minha frente. Me encosto em minha cadeira e cruzo minhas pernas, pronta para sua nova explosão.
— Marcela, eu já aceitei fingir ser sua namorada, não aceitei virar outra pessoa. — Para de frente para mim, com as mãos na cintura.
Por um momento, analiso sua postura, há algo nela que me chama a atenção. Talvez seja sua determinação em não deixar ninguém mudar, ou quem sabe é a força com que aparenta em suas mãos ao se apoiar em seu próprio corpo. Interessante.
— Não seja dramática. — Tento manter a concentração no que realmente importa.
— Eu não sou dramática, eu sou pobre — Aponta para si mesma — Não tenho dinheiro para comprar roupas toda semana, então faço bom uso das minhas roupas.
Engulo uma risada, sei que isso é verdade, mas não deixa de ser engraçado o seu jeito de falar, porém acredito que não seja a escolha mais sensata rir nesse memento.
— Amanhã é sábado — Mudo de assunto.
— Exatamente, dia de ficar com a minha filha — Cruza os braços.
— Não vamos passar o dia inteiro juntas. — Tento aliviar a situação.
— Eu preciso que me avise com antecedência quando tiver compromisso, lembra da regra? — Arqueia a sobrancelha — Não consigo alguém a tempo para ficar com a Helô.
— Isso não é um compromisso, é preparação, é uma das regras do contrato que eu arque com a vestimenta — Me levanto, rodeio minha mesa e me escoro nela, ficando mais perto de Victoria — Não vejo problemas de sua filha nos acompanhar.
— Marcela — Sua voz sai como um resmungo.
— Victoria.
Nos encaramos, travando mais uma batalha visual.
— Vamos só fazer compras.
— Eu não tenho dinheiro para isso. — Sua postura enrijece novamente.
— Eu tenho.
— Eu não gosto de dever favor — continua resistente.
— Não é favor, é parte do acordo. — Não consigo me segurar em provocá-la. — Precisa que eu leia o que você fez questão de escrever? Tenho uma cópia na minha gaveta.
— Eu não quero ser um projeto de transformação — diz, mais calma.
— Você não é — Tento deixar isso bem claro.
— Então, por que eu preciso de roupas novas? — Ela já não está mais na defensiva, está apenas tentando entender a situação.
— Porque você vai jantar na casa da minha mãe — Abro um meio sorriso.
— Eu te odeio — Ela fecha os olhos.
— Mentira — Acuso.
— Eu te tolero — Vejo sua boca se curvar em um sorriso simples.
— Já é um começo — Retribuo o sorriso.
— Que horas você pretende ir? — Ela pergunta, derrotada.
— Às dez. — Volto para a minha cadeira e começo a organizar minhas coisas para ir embora.
— Você é cruel.
— Eu sou eficiente.
— Você vai me levar mesmo? — Pergunta enquanto pega sua bolsa.
— Vou. — Desligo meu computador e pego minhas coisas.
— Se você tentar puxar assunto, eu pulo do carro — avisa ao sair da minha sala.
— Dramática — Acuso.
Ela revira os olhos e vai em direção ao elevador, sem me esperar.
O bairro onde Victoria mora não é ruim, é uma boa localização para alguém que não tem uma renda muito grande, e não é um bairro perigoso do Rio de Janeiro. Fico mais tranquila de não precisar me enfiar em um local perigoso.
É um daqueles lugares esquecidos entre o centro e as zonas mais valorizadas. O bairro Santa Tereza possui casas simples, prédios baixos, comércio pequeno, gente sentada na calçada conversando. Tudo muito... vivo, muito diferente da bolha onde eu cresci.
Estaciono em frente a uma casa antiga, de fachada amarela descascada, que fica entre dois prédios pequenos da mesma coloração.
— É aqui — avisa quando tira o cinto.
— Você tem certeza? — Ainda encaro o local um pouco desacreditada.
— Não, eu te trouxe no endereço errado de propósito — diz sarcástica.
Desço do carro antes que ela termine de sair, olho tudo à minha volta, gravando bem o lugar onde ela mora, isso pode ser útil quando tivermos que mentir que eu frequento bastante esse lugar.
— Você não precisa entrar — Ouço sua voz.
— Eu sei — continuo analisando o bairro.
Ela fica parada, indecisa, sem saber como agir e, quando percebo que ela não entrou, a encaro com um ponto de interrogação enorme em meu rosto.
— Quer... entrar? — Sua pergunta sai meio indecisa.
— Por quê? — Ergo uma sobrancelha.
— Uma hora você vai precisar conhecer a Heloísa.
— Agora? — Meu estômago dá um leve nó.
— Se você quiser. — Faz um movimento com os ombros em sinal de que não se importa — Acho que a conhecer amanhã no shopping vai ser mais complicado, ela vai estar agitada.
— Você vai me apresentar como o quê? — Mordo meu lábio, ansiosa por sua resposta.
Ela me encara, pensando um pouco e escolhendo as palavras corretas.
— Minha namorada — suspira — Heloísa é criança e pode dar com a língua nos dentes a qualquer momento.
Ótimo, era exatamente isso que eu queria ouvir.
— Ok, só vou fechar meu carro. — Informo.
Ela destrava a porta e entramos, a casa é pequena, mas organizada. Há um pouco de cheiro de mofo e brinquedos espalhados pela sala, tudo o que uma casa simples e com criança possui.
— Mãe? — Uma voz infantil vem do corredor.
— Aqui, pulguinha — Victoria muda completamente sua postura.
Uma menina pequena surge, cabelo arrumado em duas tranças tortas, olhos curiosos. Ela para em seco quando vê que há mais alguém na sala, me olha, me avalia.
— Oi — digo, sem saber o que falar.
Ela não responde, se aproxima da mãe e a abraça pela cintura, levando a unha do dedão até a boca, um ato de nervosismo. Victoria se agacha para falar com a criança que ainda me encara.
— Helô, essa é a Marcela. — Sua voz é suave — minha namorada.
Silêncio absoluto, a criança arregala os olhos como se tivesse ouvido o maior absurdo da vida.
— Você tem namorada? — Se espanta — Você sempre diz que nunca mais vai namorar.
— Tenho, e isso mudou quando eu conheci a Marcela. — Vejo que ela está desconfortável em mentir para a filha.
— Tipo... de verdade? — Ainda não acredita.
— Tipo de verdade.
A menina me olha como se eu fosse um personagem de desenho animado, mais precisamente, algum desenho que envolva dragões que cospem fogo.
— Você é bonita — ela fala, encarando seus pés, envergonhada.
Engasgo, eu esperava qualquer tipo de reação negativa e não um elogio desse. Vejo Victoria se levanta e permanece ao lado da filha, fazendo um leve carinho em suas costas, e percebo o quanto ela muda perto da menina.
— Obrigada — Minha voz sai um pouco mais alto que um sussurro.
— Você nunca me chama de bonita. — Victoria arregala os olhos enquanto olha a baixinha.
— Eu penso, só não falo — Sorri travessa.
— Mentirosa.
A criança ri por ser pega em sua mentira, mais um ponto para mim. Me agacho devagar, ficando na altura dela.
— Você é a Heloísa? — Puxo assunto.
Ela assente, agora olhando em meus olhos, entretanto ainda com vergonha.
— Pulguinha — fala, ainda roendo o cantinho da unha — É o meu apelido.
— Por quê? De onde saiu esse apelido para uma menina tão linda?
— Porque eu pulo quando estou feliz, e quando estou empolgada ou correndo.
— Faz sentido. — Concordo, sorrindo para ela.
Ela me encara novamente, e percebo que ela é feliz com o apelido e fez questão de me contar como uma coisa preciosa. Guardarei essa informação.
— Você gosta da minha mãe? — Ela pergunta mais séria.
Olho para Victoria, ela parece tão tensa quanto eu, sabemos que terei que mentir. Não que eu não goste da minha assistente, mas não posso dizer que aprecio essa pessoa de língua afiada e tão audaciosa.
— Gosto — Sinto um gosto estranho ao ter que mentir para alguém tão inocente.
— Você vai tratá-la bem? — Continua o interrogatório.
— Vou.
— Se você fizer ela chorar, eu mordo — me ameaça.
— Combinado — Abro um sorriso genuíno.
Victoria me observa como se estivesse vendo um alienígena, não sei se ela pensou que eu seria capaz de tratar mal uma criança, e se pensou isso, ela não conhece nada sobre mim, mesmo trabalhando para mim há quatro anos.
— Você gosta de criança? — Ela pergunta depois, quando sua filha foi brincar pela sala e parecia estar distraída o suficiente.
— Eu não odeio — sou sincera.
— Isso é muito bom.
Ficamos ali alguns minutos, Heloísa se aproxima aos poucos, me mostra um desenho, depois outro. Quando percebo, ela está sentada ao meu lado.
E, pela primeira vez desde que esse acordo maluco começou, algo dentro de mim não parece completamente errado. Talvez essa farsa seja mais perigosa do que imaginei.
Porque começa exatamente assim, com pequenas verdades no meio de grandes mentiras.
******
Eu me arrependo da minha existência no exato segundo em que estaciono em frente à casa de Victoria. Não por ela, muito menos pela filha dela, mas pela brilhante ideia que tive de marcar isso para um sábado de manhã.
Sábado é um conceito sagrado, é o único dia em que eu deveria estar dormindo até tarde, renovando minha beleza com um sono tranquilo, tomando café na cama e fingindo que não tenho responsabilidades, e principalmente, aproveitando um tempo com o Rodolfinho. Em vez disso, estou dentro do meu carro, de óculos escuros, com um copo de café térmico na mão, prestes a iniciar a primeira missão oficial do meu falso relacionamento.
Comprar roupas, teoricamente, é uma tarefa simples, mas sei que preciso ter paciência para passar mais tempo do que já passo com Victoria, e não sei se estou preparada para estragar meu fim de semana.
Pego o celular e mando uma mensagem: Estou aqui.
Menos de um minuto depois, vejo Victoria saindo com Heloísa ao lado. A criança praticamente pula cada degrau da pequena escada que há na frente da casa.
Quando elas se aproximam, Heloísa arregala os olhos, olhando para o carro e depois para a mãe, e faz isso por alguns minutos.
— Mãe, esse é o carro bonito? — Tenta sussurrar, mas eu a ouço.
Victoria olha para o meu carro como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez, e noto que ela não sabe muito o que responder. Elas não percebem que estou ouvindo a conversa ou vendo-as, pois o vidro do carro é escuro.
— É — Não deixa a filha sem resposta.
— Muito bonito — a pequena reforça, impressionada.
Abro a porta e desço, e assim elas percebem minha presença. Me aproximo delas, pronta para o que me espera nas próximas horas.
— Bom dia — as cumprimento.
— Bom dia — Victoria responde, já com aquela cara de poucos amigos.
Heloísa caminha em volta do carro, analisando cada detalhe, enquanto sua mãe faz o mesmo com o meu corpo. Provavelmente espantada por eu não estar com minhas roupas sociais de costume. Hoje optei por uma calça jeans de lavagem clara e colada ao meu corpo, uma regata de seda branca e saltos altos.
— Ele é grande — A pequena interrompe a análise da sua mãe.
— Ele anda rápido. — Resolvo focar na menina.
— Ele brilha — dá alguns pulinhos. — Ele tem cheiro de rico?
Tampo a boca para não rir, Heloísa é uma criança curiosa e isso me alegra em seu jeitinho, pois ela não é inconveniente, apenas curiosa.
— Não sei sobre o cheiro, mas ele anda bem. É a informação que posso dar.
— Posso me sentar na frente? — Pergunta esperançosa, Victoria responde antes de mim.
— Não. — É firme.
— Por que não?
— Porque criança se senta atrás.
— Mas eu já tenho sete anos! — Fala como uma verdadeira adulta.
— Continua sendo criança. — Dá de ombros.
— A Marcela deixa? — Heloísa cruza os braços.
Olho para Victoria, ela me lança um olhar mortal, então eu entendo que se eu disser sim para a miniatura dela, terei um grande problema, e não quero me estressar antecipadamente.
— Hoje, atrás — digo.
— Você é chata — Heloísa resmunga para a mãe.
— Não seja malcriada.
Entramos no carro, cada uma em seus devidos lugares, e assim que ligo o motor, Heloísa grita:
— UAU!
— É só o carro ligando — Victoria fala.
— É mágico, eu nunca andei em um carro assim.
— Você nunca andou em carro nenhum — a mais velha retruca.
Eu sorrio sozinha, talvez eu goste mais dessa criança do que deveria, e com certeza gosto mais dela do que da mãe.
O shopping está relativamente cheio, mas nada caótico. Entramos, e eu já sei que essa missão vai ser mais difícil do que previ. Victoria olha todas as vitrines como se estivesse entrando em território inimigo.
— Eu não vou usar vestido — Avisa.
— Eu não falei em vestido. — Digo, olhando-a de cima a baixo.
— Nem saia — retruca novamente.
— Eu também não falei em saia.
— Nem salto.
— Calma, caminhoneira — digo impaciente — só um cego não percebe que você não usa nada dessas coisas, não vamos trocar seu estilo, só aperfeiçoar.
— Vocês brigam igual a um casal. — Heloísa segura a mão da mãe.
— A gente é um casal — nós duas falamos juntas.
— Tá bom. — Heloísa revira os olhos e balança os pequenos braços.
— Vamos começar pelo básico. — Informo.
Entro em uma loja de roupas sociais e, quando percebo que Victoria não nos acompanha, me viro e a encontro estancada na porta.
— Não — diz, olhando séria para mim.
— Sim — Insisto.
— Marcela — fala meu nome pela milésima vez.
— Camisas sociais, calças sociais e sapatos decentes — vou listando. Depois vamos a outra loja para comprar alguns jeans.
— Eu já tenho roupa decente. — Coloca as mãos na cintura e percebo que essa postura tem chamado minha atenção mais do que o necessário.
— Para ir ao mercado. — Digo, olhando minhas unhas, como se fizesse pouco caso.
— Eu não vou virar uma patricinha.
— Ainda bem, eu não gosto de patricinhas — deixo escapar.
— Então, por que está tentando me transformar numa?
— Não estou, estou tentando te deixar apresentável.
— Eu sou apresentável.
— Para o seu bairro. — Sou incisiva.
— Você é insuportável e está me ofendendo — Ela fecha a cara.
— E você assinou um contrato comigo, não posso te apresentar como minha namorada nesse estado. — Aponto para suas roupas — Não tem nada de errado com você, mas no meio social que convivo, exige um pouco mais de classe.
— Mãe, prove essa. — Heloísa puxa a camiseta da mãe.
Ela percebe a resistência da mais velha e acho que tenta me ajudar, então pega uma camisa azul-clara. Victoria olha como se fosse uma ofensa pessoal.
— Eu odeio azul — Resmunga.
— Você não odeia azul, você odeia mudanças — digo. — Essas roupas não vão mudar quem você é, caráter vai além do vestuário.
— Eu odeio você — repete o que me falou ontem.
— Mentira.
— Eu te tolero.
— Estamos evoluindo.
Ela começa a olhar algumas peças e escolhe algumas para provar. Eu ajudo na escolha das cores, e até que conseguimos nos entender nessa parte. Ela segue para o provador e eu fico do lado de fora, me sento em um puff com Heloísa.
— Sua mãe é sempre assim? — Reviro os olhos.
— Sim — Esconde um sorrisinho com as duas mãos.
— E você? — Cutuco a barriguinha dela.
— Eu sou legal.
— Concordo — dando uma piscadinha cumplice.
Victoria sai do provador, com a camisa azul-clara, calça preta social slime um mocassim. E, infelizmente para a minha sanidade, fica muito bem. A camisa marca os braços, braços definidos, fortes, meu cérebro falha por meio segundo. Calor. Muito calor.
— E aí? — Ela pergunta.
Demoro um pouco mais do que deveria para responder, e sinto que se eu abrir a boca nesse momento, vou gaguejar. Espero mais um instante até me recompor e falo.
— Serve — Faço pouco caso.
— Só isso? — Diz, indignada.
— Serve.
— Você parece alguém importante — Heloísa bate palminha.
— Isso é bom ou ruim? — Encara a filha.
— É chique.
Victoria revira os olhos, mas volta para trocar. Segunda roupa, camisa branca, calça cinza, mesma situação. A terceira é camisa preta, e eu começo a perceber um padrão perigoso, muito perigoso. O padrão de que Victoria fica bem em tudo.
E eu não deveria estar reparando nisso, nem no seu corpo ou em como seu cabelo combina tanto com ela.
— Você está estranha — ela diz.
— Você que está lenta — Tento disfarçar.
— Você que está me encarando.
— Estou avaliando o caimento — Ela percebeu meus olhares.
— Do tecido ou do meu corpo? — Solta um risinho safado.
— Óbvio que do tecido — Vejo o quanto ela está próxima.
— Mentira — me desafia, se aproximando ainda mais.
— Vocês vão se beijar? — Heloísa gargalha.
— NÃO — gritamos juntas e a criança gargalha ainda mais.
— Vocês são engraçadas.
Compro cinco camisas sociais, quatro calças e três pares de sapatos. Pago tudo e depois vamos para uma loja mais casual. Jeans, regatas simples, camisetas básicas.
Menos sofrimento, ainda assim, ela reclama. Chego à conclusão de que ela sempre vai reclamar de tudo.
— Essa camiseta é sem graça — Aponta para a camiseta preta que está em minha mão.
— É básica — Explico.
— Eu não sou básica.
— Hoje você é.
Ela me mostra uma regata cinza e uma vermelha, mais braço, mais problemas.
— Essa — digo rápido, antes que meu cérebro derreta.
Compramos mais algumas peças, para que ela possa permanecer no seu estilo, porém mais sofisticada. Saímos da loja e começamos a caminhar pelo shopping. No meio do caminho, passamos em frente a uma loja de perfumes.
Heloísa diminui o passo, olha fixamente para um frasco rosa com princesas e eu percebo sua ação. Eu volto alguns passos e me abaixo ao seu lado.
— Você quer? — Pergunto.
— Não — Ela arregala os olhos.
— Quer sim, pode ser sincera — A incentivo.
— Não quero gastar dinheiro. — Encara seus pezinhos.
— Você está se comportando muito bem hoje. — Faço um carinho em suas costas. — Está merecendo comprar algo para você.
— Tô? — Diz animada.
— Está — Concordo.
— Mas é caro — Ela morde o lábio.
— Eu posso comprar.
Ela olha para Victoria, pedindo permissão com o olhar. Victoria parece surpresa, mas não me recrimina. Então sigo em frente.
— Você merece um presente.
Me levanto e pego na mãozinha dela, Heloísa sorri pequeno. Entramos na loja e comprei o perfume. Depois, em outra loja, uma roupa nova para ela, um vestido rosa escolhido por ela. Victoria me observa como se eu tivesse três cabeças.
— O quê? — pergunto.
— Nada — Disfarça.
— Fala — Incentivo.
— Você é... diferente do que pensei.
— Isso foi um elogio? — Me surpreendo.
— Não se acostume. — Diz, me deixando sem graça.
Ela sorri de canto e, contra a minha vontade, eu retribuo.
Isso é um problema, um grande problema, porque desejo não fazia parte do contrato. E eu sinto que estou quebrando a regra número dez, antes mesmo do primeiro jantar.
Fim do capítulo
Olá pessoal.
segue mais um capitulo quentinho...
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Espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia. Até breve.
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