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Mais que benefícios por Paloma Matias e

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Palavras: 2833
Acessos: 313   |  Postado em: 10/08/2026

Capitulo 5 - Jantar com a verdadeira megera

Victoria

 

 

Eu não me reconheço, essa é a primeira coisa que me atravessa quando me olho no espelho do banheiro da casa da Chica. Não é só a roupa, embora ela seja parte do problema, a camiseta preta lisa, ajustada demais para o meu conforto, a calça social slim que marca minhas pernas de um jeito estranho, o cinto, o mocassim marrom que parece ter sido comprado para outra pessoa.

 É a sensação de estar vestindo uma versão de mim que não existe, uma versão criada para caber no mundo de Marcela, e eu odeio isso quase tanto quanto odeio admitir que aceitei esse acordo.

Fico alguns segundos encarando meu reflexo, esperando que a imagem mude com um piscar de olhos, mas não muda. Sou eu mesma, só que deslocada, organizada demais, contida demais, uma Victoria que não pertence nem a mim.

Chica surge atrás de mim, apoiada no batente da porta, com aquele sorriso que mistura diversão e preocupação.

— Olha só você... — diz, devagar. — Se eu não soubesse, juraria que estava indo para um tribunal ou uma reunião de negócios.

— Para — digo sem jeito.

— Vic, você só usa calça social em enterro — solta uma gargalhada.

— Eu estou indo para um quase-enterro social — Bufo.

— Tá estranha — Me analisa novamente.

— Eu sei — Concordo.

— Mas tá bonita — pisca um olho.

— Não exagera.

— Não estou exagerando, estou chocada.

— Promete que, se eu não voltar, você cria a Heloísa? — Me viro em sua direção a ela.

— Para de ser dramática — revira os olhos.

— Não é drama, é planejamento — A encaro, ainda séria — Me promete?

— Prometo, sua doida.

Voltamos para a sala e Heloísa olha para mim do sofá, com os olhos atentos e abraçada com seu ursinho.

— Mãe, você vai jantar com a Marcela? — Se senta e sorri em minha direção.

— Vou. — Não demonstro animação.

— Tipo namoro? — Seu sorriso aumenta de tamanho.

— Tipo... namoro.

Ela franze a testa, como se pensasse se quer mesmo fazer uma pergunta ou não. Eu sempre fui muito sincera com minha filha, claro que às vezes preciso saber como falar as coisas, mas nunca escondo nada dela, mesmo sendo uma criança.

— Você gosta da Marcela? — Sua voz sai baixa.

— Eu... — Abro a boca, fecho, abro de novo — Respeito a Marcela.

Chica morde o lábio para não rir, e nesse mesmo momento ouvimos o interfone tocar. Meu estômago revira, não sei se estou pronta para enfrentar a família dela, e muito menos fingir amar alguém de quem não gosto.

— Chegou — Chica avisa.

Beijo minha filha, pego a bolsa e sigo para fora com a sensação de que estou caminhando para um tribunal onde já fui considerada culpada.

Quando vejo Marcela encostada no carro, sinto um impacto físico, deve ser o nervosismo, ou o fato de ela estar mais linda do que nunca.

Vestido verde, até acima do joelho, colado. Elegante demais. Bonita demais. E ela calça um salto alto, como sempre, vestida para pisar em qualquer um. Ela me olha com atenção quando percebe que me aproximo.

— Você... — Me olha mais uma vez. — Está adequada.

— Uau. Que declaração apaixonada, namorada — solto um sorriso.

— Não se acostuma — ri, enquanto dá a volta no carro para entrar no lugar do motorista.

Entramos no carro e o silêncio se instala imediatamente, não sei o que falar, ou como agir, só sei que pareço um animal indo para o abate.

— Nervosa? — Ela pergunta.

— Não — Respondo rápido.

— Não é o que está parecendo. — Ela desvia a atenção da estrada por alguns segundos para me olhar. — Desembucha.

— Ok, estou muito nervosa. — Puxo o ar com um pouco mais de força, tentando me controlar.

— Eu também — Ela suspira.

Aquilo me surpreende mais do que deveria, como alguém pode ficar nervosa indo na casa dos próprios pais? E Marcela sabe negociar, o que quer dizer que ela é boa em mentir.

Quando chegamos à mansão, tenho vontade de pedir para ir embora, pular do carro em movimento, ou qualquer coisa que me faça desistir. Mas não peço e nem faço nada, é momento de encarar a realidade.

Marcela segura minha mão antes de descermos, e percebo que sua mão está gelada.

— Não deixa ninguém te diminuir, ok? — Diz, olhando fixamente nos meus olhos.

— Incluindo você? — Minha voz sai mais rude do que eu queria.

— Não é comigo que você precisa se preocupar, mas minha família vai fazer de tudo para você se sentir mal. — Avisa.

— Eles não estão felizes de você estar namorando uma mulher como eu, não é?

— O problema não é você, o problema é eu estar namorando alguém que não foram eles quem escolheram.

Faço um sinal de positivo com a cabeça, tentando absorver essas palavras. Tomamos coragem e saímos do carro, à espera de caminharmos juntas, mas não me atrevo a demonstrar carinho nenhum. 

Marcela abre a porta e seguimos para uma enorme sala, os olhares são avaliativos, frios, clínicos. Há um casal mais velho, que supostamente acredito que sejam os pais dela, e um casal mais novo, que não sei quem são.

A mãe de Marcela mal esboça um sorriso, e minha suposta namorada cumprimenta todos com um beijo no rosto, o que é perceptivelmente um ato forçado, até que os olhos caem sobre mim.

— Então você é a Victoria. — Saboreia meu nome.

— Sou — A encaro, por mais que eu esteja nervosa, não quero demonstrar.

Ela me observa da cabeça aos pés, e sei que minha batalha vai começar agora. Coloco as mãos nos bolsos para controlar o nervosismo.

— Esperava algo... diferente — solta seu veneno.

— Imagino, mas é o que temos para hoje — Tento não me afetar pelo que ela falou.

— Já que ninguém nos apresenta — O rapaz que está presente fala — Eu sou Jorge, o irmão da Marcela, mas pode me chamar de Jorginho e essa é minha noiva, Larissa.

Aperto sua mão quando ela é estendida em minha direção, por essa eu não esperava, não sabia que Marcela tem um irmão, nunca vi notícia nenhuma sobre ele.

— Olá, maninha — Ele se aproxima da loira — Resolveu brincar de casinha novamente e trazer mais uma pessoa para a gente conhecer, quando sabemos que você não é capaz de amar ninguém?

— Alguém já te mandou ir à merd* hoje, maninho? — Ele fecha o sorriso falso que estava em seu rosto — Se é por falta de mandar, estou te mandando agora.

— Viu, mamãe? — Ele vai para perto da mãe. — Essa é a educação dada a ela? E você ainda acha que ela é melhor do que eu para comandar a empresa?

— Marcela, não seja mal-educada com seu irmão — repreende a filha. — E você, Jorginho, deixe sua irmã em paz.

Depois disso, cumprimento a noiva de Jorge e o pai, o senhor Tavares sempre foi um homem de poucas palavras, desde quando aparecia com mais frequência na editora.

Uma empregada aparece e avisa que o jantar está pronto para ser servido. Caminhamos para a sala de jantar e me desespero ao ver a mesa posta, com todos os talheres e pratos que manda a etiqueta. Encaro Marcela, ela sabe que eu não tenho classe nenhuma para saber comer com essas coisas, mas ela apenas me puxa para se sentar ao lado dela. O jantar começa tenso e piora rapidamente, depois de terminarmos de comer, o veneno da mais velha volta a escorrer.

— Você trabalha onde mesmo? — A mãe pergunta.

— Na editora — respondo, simples.

— Como assistente da Marcela? — Ou ela está caduca ou se fazendo de burra, pois ela já me viu várias vezes na empresa.

— Sim, como a senhora pode ter notado todas as vezes que foi até lá e eu lhe atendi.

— Que conveniente.

— Não entendo o que a senhora está querendo dizer. — Nossos olhares se cruzam e eu não desvio.

O irmão de Marcela sorri com deboche, e toda a atenção da mesa é voltada para ele.

— E você sempre gostou de mulher? — Ele resolve entrar no interrogatório.

— Sempre — Sinto meu corpo ficar tenso.

— E homem? — Seu sorrisinho volta a estampar sua cara.

— Não tenho mau gosto, Jorginho — Arqueio uma sobrancelha — Homens são quase inúteis.

— Então você é só sapatão.

— Não, eu sou livre. 

— Está querendo conquistar a Victoria?  — Marcela pergunta e depois toma um gole de seu suco que foi servido. — Quer furar meu olho, maninho?

Ele encara a irmã com cara de poucos amigos e percebo que ela conseguiu afetar a masculinidade frágil dele.

— Não seja tola — ele resmunga — Você sabe que eu gosto de mulher de verdade.

— E Victoria é uma mulher de mentira? — Ela o questiona novamente — Que eu saiba, é uma mulher de carne e osso que está sentada ao meu lado.

Silêncio, ele fica sem palavras e, se olhar pudesse matar, Marcela e eu estaríamos sendo fuziladas. A senhora Tavares resolve voltar ao controle da situação e pergunta, olhando diretamente para Marcela.

— Como vocês se aproximaram?

Sinto o corpo dela enrijecer ao meu lado, vejo que ela não tinha se preparado para essa pergunta, eu também, mas acho que sou melhor no improviso do que ela. Antes que ela fale qualquer coisa, eu falo.

— A gente se aproximou no trabalho, mas não foi nada romântico no começo — Tento criar uma história convincente.

— Continue — A mãe ergue uma sobrancelha.

— A Marcela estava passando por um momento muito difícil, ela tinha acabado de descobrir que o ex-noivo, o Lúcio, estava traindo-a.

A mãe arregala os olhos, eu sabia que ofender o queridinho dela ia deixá-la possessa, mas não vou permitir que ela me trate mal e aquele canalha saia por uma boa pessoa.

— Isso é mentira — A velha retruca.

Marcela me encara, surpresa, mas não me demoro em seu olhar, senão eu vou perder o foco e eles vão descobrir que não passamos de uma farsa.

— Não é — eu continuo. — Ela estava desconfiada, perdida, sem saber se estava ficando paranoica ou se era real. Começou a desabafar comigo porque a gente passava muito tempo juntas na editora e eu ouvi, só isso, sem julgamento.

— E isso virou um romance? — O pai pigarreia ao perguntar.

— Não de uma hora para outra, primeiro virou cuidado, companhia, confiança. Um dia, ela percebeu que se sentia mais segura comigo do que com qualquer outra pessoa, e foi aí que decidimos dar uma chance para o que estava nascendo para as duas.

— Então, vocês começaram a se envolver quando ela ainda era comprometida? — Sua mãe faz uma cara de incrédula.

— Jamais — Minha voz sai mais alta do que gostaria — Marcela não se igualou ao cretino do Lúcio, ela nunca me deu abertura enquanto era comprometida, e eu também não mostrei meu interesse, pois somos duas pessoas corretas, que respeitam uma a outra e se nosso namoro começasse de forma errada, nunca daria certo.

Silêncio absoluto, Marcela está me olhando como se eu tivesse arrancado algo de dentro dela sem pedir permissão. A mãe coloca o guardanapo na mesa, tentando passar uma calma evidentemente falsa.

— Então você trocou um homem como o Lúcio por isso? — Sua pergunta volta a ser direcionada para a loira.

— Mãe... — Marcela começa, mas é interrompida.

— Por uma garota pobre, que se veste como um homem? — Ela continua. — Isso é inadmissível.

Eu sinto o sangue ferver, mas Marcela fala primeiro, e pelo jeito resolve colocar tudo para fora.

— Chega — Se levanta — Vocês são desprezíveis, em nenhum momento quiseram conhecer a Victoria de verdade, saber se estou feliz e sendo respeitada agora, tudo que importa é esse showzinho de ofensas e falsos interesses. 

A mãe se levanta também, e nós quatro ficamos no meio de uma guerra declarada.

— Eu te dei tudo, educação, nome, status, e até o meu cargo na editora, para quê? Para você jogar fora por um capricho.

— Não é capricho, é a minha vida e você me deu o cargo porque sabe que sou a única capaz de levar aquela editora para frente.

— Isso é uma vergonha.

— Vergonha é você achar que pode escolher quem eu amo — Marcela não controla mais o tom.

— Amar? Isso é uma fase ridícula.

Ela sai em direção à sala, Marcela vai atrás e nós também, pois essa briga parece longe de acabar.

— Não, ridículo é você ser incapaz de respeitar a sua própria filha.

— Você destruiu sua vida, quer que eu te respeite como?

— Não destruí nada, eu finalmente estou vivendo a minha. — Marcela ri, sem humor.

Ela olha para todos à sua volta, desacreditada das coisas que está ouvindo e tendo que se defender. Nos defender. Quando seus olhos caem sobre mim, ela diz. 

— Vamos embora — Pega sua bolsa e sai em disparada em direção à porta.

Quando chegamos ao carro, percebo o quanto ela está tremendo, o quanto sua mandíbula está travada. Nunca a vi desse jeito, tão abalada, tão vulnerável, nem mesmo enfrentando grandes nomes da literatura mundial.

— Você tem carteira de motorista? — Me pergunta.

— Tenho — respondo confusa.

— Você pode dirigir de volta? Não acho que estou em condições e quero sair daqui o mais rápido possível.

— Claro.

Pego a chave de sua mão e destravo o carro para entrarmos. No caminho, Marcela fica em silêncio por alguns minutos, até que as lágrimas começam a cair.

Ela não faz som, não faz alarde, até nisso ela é contida. Eu não digo nada, não quero e nem posso interromper seu momento. E, pela primeira vez, eu não vejo a executiva fria, vejo uma mulher cansada.

Quando passamos para buscar Heloísa, antes de descer do carro, me vem uma ideia na cabeça, bem arriscada, mas resolvo falar assim mesmo, o máximo que posso ganhar é um não em letras garrafais.

— Dorme lá em casa — digo o que está em minha mente.

Marcela me olha como se tivesse misteriosamente nascido mais duas cabeças em meu pescoço e eu começo a me arrepender do que falei.

— Olha — Tento me explicar — Você não está em condições de dirigir e eu não posso te levar até sua casa e voltar de Uber com a Heloísa dormindo, vai me complicar bastante.

— Não precisa — Resiste.

— Precisa sim — insisto — Não quero te deixar sozinha nesse estado, foi uma noite estressante para as duas.

Ela me encara, decidindo se sou confiável a esse ponto ou não. Eu também não quero misturar as coisas, mas não posso deixá-la sozinha depois de tudo que presenciei nessa noite.

— Você não é obrigada, isso não faz parte do contrato.

— Eu sei — respondo, olhando para o volante — Mas eu não sou um ser humano medíocre, eu não consigo te deixar ir embora assim.

Silêncio, posso ouvir as engrenagens da sua cabeça trabalhando sem parar, só falta sair fumaça de seus ouvidos.

— Tá, mas você vai dormir no sofá.

Solto uma risada, por fim, a verdadeira Marcela está de volta e eu agradeço por isso, não consigo lidar muito bem com a outra Marcela, a vulnerável.

Subo para pegar Heloísa que dorme como uma pedra, agradeço a Chica por cuidar dela e prometo que em outro momento conto tudo do que aconteceu no jantar.

Volto para o carro e seguimos para minha casa. Quando entramos, eu sigo para o quarto da minha filha e a coloco na cama ainda adormecida, beijo sua testa e verifico se está tudo bem.

Ao sair, chamo Marcela para o meu quarto, escolho uma roupa para ela poder dormir e ela me fuzila com os olhos quando vê que é uma camiseta velha e larga e um short de algodão.

Antes de dormir, faço chá para nós duas e levo uma caneca para ela. Minha chefe está deitada em minha cama, e agora ela parece menor, acuada, com receio, mesmo assim me chama antes de sair.

— Obrigada por hoje — ela diz.

— Pelo quê? — Volto a encará-la

— Por não me deixar sozinha naquela mesa ou naquela casa.

— Faz parte do acordo — Dou de ombros.

— Não, não fazia. — Diz, antes de voltar sua atenção para a xícara e tomar seu chá.

E, eu entendo que, mesmo não gostando uma da outra... a gente começou a se escolher.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Olá, pessoas!!!

Sei que estou em débito com vocês, falei que voltaria logo e demorei mais do que o previsto. Porém, contudo, todavia..... está aqui mais um capitulo.

Querem descobrir o que houve depois do jantar?  Se o capitulo tiver bastante comentários eu volto amanhã (ou ainda hoje, dependendo do horário) com mais um para matar a curiosidade de vocês.

Não esqueçam de me contarem o que estão achando da história! e quem ainda não me segue nas redes sociais, segue lá o perfil paloma.autora.

Espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia. Até breve.

 


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Comentários para 5 - Capitulo 5 - Jantar com a verdadeira megera:
marianaaleao
marianaaleao

Em: 10/08/2026

Não vejo a hora dessas armaduras serem tiradas kkkkk.


Paloma Matias

Paloma Matias Em: 11/08/2026 Autora da história
Confesso que eu também kkk


Responder

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Duduka
Duduka

Em: 10/08/2026

Acho que agora a Marcela vai começar a enxergar Vic com outros olhos..


Paloma Matias

Paloma Matias Em: 11/08/2026 Autora da história
Será?


Responder

[Faça o login para poder comentar]

RENATA32
RENATA32

Em: 10/08/2026

Oiê, tá ficando interessante essa história. Que jantar estressante.

Vou gostar muito quando a pequena Heloísa conquistar o coração da Marcela.


Paloma Matias

Paloma Matias Em: 11/08/2026 Autora da história
Ainda tem muita coisa para rolar hahahaha


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