Capitulo 6 - Acordando em território inimigo.
Marcela
Eu acordo sem saber onde estou, não é aquele susto cinematográfico em que a pessoa se senta na cama assustada, é quase pior, é uma confusão mental. Meu cérebro desperta antes do corpo e começa a procurar algo que me faça lembrar de onde estou: teto branco, ventilador antigo girando devagar, parede sem quadros caros, cortina clara deixando passar luz demais para ser o meu quarto.
O colchão é confortável, mas não é o meu, o lençol tem cheiro de sabão simples, não do amaciante específico que a minha governanta usa há anos. Há um silêncio diferente aqui, não é o silêncio costumeiro da minha casa grande demais, e nem ouço os passinhos de Rodolfo.
Sinto um cheiro suave de café tomar conta do quarto e isso me desperta um pouco mais. E, como se alguém apertasse um botão, as lembranças da noite anterior voltam em sequência desconfortável. A mesa de jantar longa demais, a voz da minha mãe carregada de desprezo, o nome de Lúcio sendo jogado como se fosse um prêmio perdido, o olhar firme de Victoria respondendo por mim, defendendo uma história que não existia.
Eu me sento devagar na cama. Casa da Victoria. Eu dormi na casa da Victoria.
Olho para o relógio no criado-mudo improvisado, um modelo simples, com números grandes. Patético, quem usa relógios sem ser digital?
7:30, domingo. Meu corpo estranha acordar tão cedo sem um despertador, estranha ainda mais acordar em um lugar que não foi planejado, não costumo dormir fora, muito menos aceitar convites impulsivos.
Mas ontem eu aceitei, porque a ideia de ficar sozinha na minha própria casa parecia insuportável. Passo a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. O quarto é pequeno, mas arrumado. Há um guarda-roupa simples, uma estante com livros e alguns brinquedos organizados em caixas coloridas, provavelmente da Heloísa.
Há uma fotografia na parede de Victoria mais nova, com a filha no colo, ambas rindo. É uma imagem despretensiosa, mas carrega algo que eu não estou acostumada a ver nas fotos da minha própria casa.
Eu me levanto devagar e só então percebo a roupa que estou usando, uma camiseta larga, preta, com estampa de uma banda de rock que eu nunca ouvi falar e um short confortável demais para ser meu.
Eu fico parada por alguns segundos, estou vestindo roupas da Victoria, isso deveria ser constrangedor, mas estranhamente, me faz sorrir.
Há algo profundamente fora do meu padrão nessa cena. Eu, CEO de uma editora tradicional, dormindo com uma camiseta larga emprestada da minha assistente, em uma casa simples, após uma briga feia com a minha mãe. Se alguém me contasse isso há um mês, eu teria rido.
Caminho até o pequeno banheiro do quarto, escovo os dentes com uma escova nova que Victoria deixou separada para mim, detalhe que eu não tinha notado na noite anterior, ocupada demais tentando não desmoronar. Lavo o rosto, prendo o cabelo em um coque despretensioso e me encaro no espelho.
Sem maquiagem, sem salto, sem postura impecável. Só eu. E, pela primeira vez, não odeio completamente o que vejo.
Saio do quarto guiada pelo cheiro de café, logo chego na cozinha pequena, integrada à sala, mas organizada. Não há luxo, nem há mármore. Victoria está de costas para mim, mexendo algo no fogão, usa uma camiseta branca simples e uma calça de moletom, o cabelo de qualquer jeito. Ela parece... confortável em seu próprio espaço. Ela percebe minha presença antes de eu falar.
— Bom dia — diz um pouco séria demais para uma manhã.
— Bom dia — Minha voz ainda está rouca de sono.
— Dormiu bem? — Ela se vira, me observa rapidamente, provavelmente avaliando se eu sobrevivi à noite.
— Sim.
— Sei que não é tão confortável como a suíte do prédio ou de uma casa enorme, como você deve morar, mas dá para dormir.
— Eu... — Eu hesito. — Dormi bem.
Ela aceita a resposta com um leve movimento de cabeça. Há pão sendo aquecido, café passado na hora, ovos mexidos simples em uma frigideira pequena. Nada muito elaborado, mas o cheiro está absurdo.
— Você acorda sempre às sete e meia no domingo? — Tento puxar algum assunto.
— Mais cedo — ela responde. — Hoje eu quis deixar você dormir.
Eu levanto uma sobrancelha com sua declaração. Se ela pensa que vou ficar agradecendo por ela fazer o mínimo, está muito enganada. Sabia que não deveria ter dormido aqui.
— Isso é consideração ou estratégia? — Arqueio minha sobrancelha.
— Nem todos são como você, madame — Ela se senta e faz sinal com a mão para que eu faça o mesmo — Nem todos têm uma intenção por trás de cada ação.
— Isso é uma grande mentira. — Me sinto ofendida. — Toda ação há uma intenção, mesmo que seja pequena.
— Que seja — dá de ombros.
Eu me sento à pequena mesa de madeira, o silêncio entre nós é um pouco constrangedor. Vou tomar meu café rápido e dar o pé daqui.
— E Heloísa? — pergunto.
— Domingo, ela dorme até mais tarde, milagre semanal.
Eu assinto, Victoria coloca uma xícara de café na minha frente.
— Forte, do jeito que você gosta — diz, encarando meus olhos.
— Como você sabe? — Me sinto confusa, nunca tomamos café juntas.
— Você reclama quando é fraco. — Ela dá de ombros.
Certo, eu realmente faço isso. Vejo-a começar seu desjejum e resolvo fazer o mesmo. Seguro a xícara entre as mãos, o calor é reconfortante.
Por alguns minutos, apenas comemos em silêncio. O som do garfo batendo levemente no prato, o vapor subindo do café, a luz entrando pela janela, é simples, é quase irritantemente simples. E, ainda assim, me sinto mais tranquila do que na maior parte das manhãs na minha própria casa.
— Eu não tinha noção — Victoria diz, de repente.
— Do quê? — Volto a encará-la.
— De como a sua família te pressiona. — Ela espera qualquer reação minha e eu não sei muito bem como agir.
— Eles não pressionam — Eu respiro fundo — Eles... direcionam, ou seja, se você não fizer o que mandam, você se torna carta fora do baralho.
Ela me olha de um jeito que deixa claro que não acredita nessa escolha de palavras. Acho que seu mal era fome, pois agora ela está mais tranquila.
— Eles tratam você como um projeto — Sua voz sai carregada.
Eu não respondo de imediato, porque ela não está errada. Porém, entrar nesse assunto com ela é sinal de me abrir, e isso eu não faço.
— Pois é — Tento encerrar o assunto e voltar a comer.
— Por que você aceita isso? — Insiste.
— Olha, Victória — penso antes de continuar, mesmo sabendo que qualquer palavra que eu use vá irritá-la — Não acho que seja apropriado falarmos disso, não estou como sua amiga, estou aqui por conta de um acordo.
— Não — É incisiva — O acordo era eu ir naquele jantar e depois cada uma seguir seu rumo para a casa, mas veja bem, você está sentada na minha cozinha, tomando meu café.
— Eu posso ir embora agora mesmo. — Minha voz sai mais cortante do que nunca. — Sei que devo lhe agradecer por ter me deixado dormir aqui, mas não use isso para me jogar na cara.
— Não estou fazendo isso, estou apenas sendo educada e me importando com você. — Sua expressão suaviza novamente — Se queremos que isso dê certo, a gente precisa se conhecer melhor, caso contrário, qualquer pessoa vai nos pegar mentindo.
Ela está certa, as pessoas não vão acreditar nesse namoro se nos tratarmos como duas completas estranhas. Tudo que sabemos uma da outra é sobre nosso lado profissional, e isso não vai interessar a ninguém, todos já estão carecas de saber quão boa eu sou.
— Eu sempre fui a filha exemplar — digo, finalmente. — A que tirava as melhores notas, que assumiu a editora quando minha mãe começou a cansar e aceitou o noivado perfeito com o homem perfeito.
— Lúcio. — Ela cospe o nome dele.
— Lúcio era conveniente. — O nome pesa, mas não dói mais.
— Você gostava dele? — Pergunta receosa.
— Eu gostava da ideia dele me dar paz com minha família.
Victoria mastiga devagar, esperando. Decido que vou contar tudo de uma vez, não tenho o porquê de esconder dela que não gosto de homens.
— Terminar o noivado foi a primeira decisão que tomei só por mim — continuo. — Foi libertador, mesmo com a traição.
Ela me observa com atenção verdadeira agora, não curiosidade superficial, parece estar atenta a tudo que eu falo.
— Quando eu descobri que ele estava me traindo, eu não fiquei só com raiva — digo, encarando a xícara. — Eu fiquei aliviada.
— Aliviada? — Franze o cenho.
— Sim, porque aquilo me deu uma saída, um motivo aceitável para romper — Eu inspiro fundo. — E naquela semana, eu fiz algo que nunca tinha feito.
Victoria inclina levemente a cabeça, esperando que eu confesse um crime imperdoável, sei que é isso que ela espera de mim, que todos esperam, que eu seja a patricinha mimada mais cruel do Rio de Janeiro.
— Eu voltei a ficar com mulheres.
Ela não reage, só escuta. Sinto que não a decepcionei por não ser um crime hediondo que eu tenha cometido.
— Sempre foi assim — eu continuo. — Desde adolescente, eu olhava para elas, mas sempre fingia que não, pois sabia que minha família nunca aceitaria, e eu sempre me encaixava dentro do que era aceitável.
Minha garganta aperta, mas eu sigo, já que comecei, vou terminar.
— Eu já havia ficado com mulheres antes, mas sempre em segredo e casualmente. Quando as pessoas descobriam quem eu era, me subornavam para não contarem para a mídia, então me fechei para isso também. Depois da traição, eu parei de fingir, saí sozinha uma noite, entrei em um bar, conversei com uma mulher. Nada aconteceu de fato..., mas eu senti.
— O quê?
— Que eu nunca tinha sido tão honesta comigo mesma.
Victoria mantém os olhos fixos nos meus, esperando-me terminar minha história de riquinha que não pode ser quem se é de verdade.
— Eu sou lésbica — digo, finalmente, sem desviar — e não estou mais a fim de esconder isso de ninguém.
As palavras não explodem, não ecoam, apenas saem da minha boca e, estranhamente, eu me sinto leve. Victoria respira fundo.
— Deve ter sido difícil admitir isso para você — se pronuncia — Isso exige coragem.
— Foi, e sei que o pior ainda está por vir.
— Mas não parece que você se arrepende.
— Não me arrependo.
— Então não deixa ninguém transformar isso em erro — Ela apoia os cotovelos na mesa.
— Você fala como se fosse simples. — Eu quase ri.
— Não é — Seus olhos estão tão fixos no meu — Mas é quem você é.
Não há provocação em sua fala, não há disputa pela razão, apenas há algo novo, talvez um reconhecimento. Mas o som de passos arrastados interrompe o momento.
— Mãeeee — Heloísa surge no corredor, cabelo bagunçado, olhos inchados de sono.
Ela me vê sentada à mesa e para com uma carinha confusa.
— Você está aqui. — Não é uma pergunta.
— Estou, eu dormi aqui.
— Que bom — Ela sorri.
Victoria se levanta para servir um prato para a filha, enquanto a pequena se senta ao meu lado.
— Você ronca? — Heloísa pergunta para mim, muito séria.
Eu me engasgo com o café, que tipo de pergunta é essa?
— Não que eu saiba — respondo, com vergonha.
— Minha mãe ronca quando está cansada, melhor você se acostumar — diz, com a naturalidade de uma criança de sete anos.
— Heloísa! — Victoria a repreende e eu rio da sua cara.
Ela dá de ombros, mas se junta a nós na mesa novamente. A conversa fica mais leve e mais caótica. Heloísa fala sobre a escola, sobre a prova de matemática, sobre um colega que come cola. Foi um momento descontraído, mas chegou minha hora de ir.
— Bom, o café estava ótimo e a conversa também, porém preciso ir para casa.
— Já? — Helô faz uma carinha triste — Você pode ficar com a gente, é domingo.
— Eu sei, mas preciso passear com o Rodolfo.
— Quem é Rodolfo? — As duas perguntam juntas.
— Meu cachorro — comento — Todos fazem essa mesma cara quando falo o nome dele.
Os olhos da pequena brilham, como se eu tivesse acabado de dizer que a levaria à Disney.
— É sério que você tem um cachorro? — Fala, encantada.
— Sério — Sorrio.
— Grande? — Sua curiosidade continua.
— Médio.
— Ele é fofo?
— Muito.
— Posso conhecer? — Dá pequenos pulinhos na cadeira, e um apelido nunca fez tanto sentido para uma pessoinha.
Olho para Victoria, ela me encara de volta. Há um segundo de avaliação silenciosa, para ver se estou falando a verdade.
— O que vocês vão fazer hoje? — pergunto, como se fosse uma pergunta casual.
Victoria dá de ombros, não percebendo minha real intenção.
— Nada planejado — responde, simples.
— Vocês podem ir lá em casa, assim conhecem o Rodolfo.
Ela arqueia uma sobrancelha.
— Na sua casa?
— Sim.
— Aquela casa?
— Aquela casa.
Heloísa já está animada.
— Tem piscina?
— Tem.
— Posso entrar?
— Se sua mãe deixar.
Victoria me observa por alguns segundos longos demais, mas vejo que ela está desconfortável com a ideia. Posso imaginar que ela não queira uma proximidade tão grande.
— Acabei de lembrar que temos um compromisso, marquei com uma amiga para passearmos.
— Que amiga? — Heloisa pergunta.
Eu sustento o olhar de Victória, que está preso ao meu. Travamos uma batalha, vendo quem vai ceder primeiro. Percebo que ela não irá mudar de opinião e continuará com a desculpa de que já tem compromisso.
— Tudo bem — digo, sem saber muito bem como responder — agora preciso ir.
Sigo para o quarto para trocar minha roupa e pegar minha bolsa. O olhar de Victoria preso ao meu não sai da minha mente, foi nítido que ela inventou a primeira desculpa para me dispensar.
Idiota eu, de achar que poderíamos ter um domingo de distração. Porque, pela primeira vez, eu quero que elas entrem.
Não no acordo.
Na minha vida.
E isso me assusta mais do que qualquer jantar na mansão dos Tavares. Mas entendo de uma vez por todas que ela não quer proximidade, então não teremos.
Fim do capítulo
Como prometido, segue mais um capítulo.
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