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Mais que benefícios por Paloma Matias e

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Palavras: 2590
Acessos: 311   |  Postado em: 13/08/2026

Capitulo 7 - Odeio segundas-feiras

Victória

 

Segundas-feiras deveriam vir com um pedido oficial de desculpas, ou nem existir. Eu odeio segundas-feiras, com todas as minhas forças.

Entro na editora às oito da manhã com um café na mão, uma bolsa escorregando do ombro e uma falsa esperança de que o dia de ontem não tenha significado nada, e que o olhar de Marcela decepcionada não assombre mais meus pensamentos.

Não demoro muito para ver que o dia não será nada fácil, basta sair do elevador para perceber. Marcela já está na sala dela, a porta entreaberta, digitando em uma velocidade quase agressiva, como se o teclado tivesse culpa de seu mau humor. Nem levanta a cabeça quando bato duas vezes na madeira.

— Bom dia, Marcela — cumprimento com uma calma que não faz muito o meu estilo.

— Bom dia — diz, sem esboçar reação nenhuma.

Pronto. Sem "Victoria", nem "Vic", nem aquele sorriso discreto que ela insiste em esconder de todo mundo. Só um bom dia sem emoção, pronunciado como se fosse o de uma fornecedora atrasada.

Sinal de alerta ligado.

— Sua reunião das nove foi confirmada. — Aviso

— Obrigada. — Não desvia os olhos do computador.

— O autor da Horizonte ligou. — Tento mais uma vez.

— Depois eu retorno.

— E...

— Mais alguma coisa? — Ela não me deixa terminar.

Levanto os olhos, ela continua olhando para a tela, nem um segundo para mim. Cruzo os braços, perdendo a paciência que já não tenho.

— Não. — Finalizo.

— Então, pode fechar a porta quando sair.

Faço exatamente o que ela manda. Fecho, com um pouco mais de força do que o necessário, e nem ao menos isso faz com que ela fale algo a mais.

Ótimo.

Ela está magoada, eu também estou irritada por ela estar magoada. Porque, sinceramente, eu não fiz nada demais. Ou fiz?

Sacudo a cabeça para espantar qualquer pensamento sobre isso. Eu não me importo, se ela quer agir dessa forma, como uma criança mimada, não serei eu quem dará importância.

Às dez da manhã, a editora parece um formigueiro: telefone toca, entregador chega, autora quer mudar a capa de um livro que vai para impressão em três horas, o setor financeiro quer uma assinatura urgente, o marketing pede aprovação de uma campanha, a impressora resolve entrar em greve.

E, para completar, minha chefe continua trancada em sua torre intocável. 

Ao longo da manhã, entro na sala de Marcela seis vezes. Às seis, ela fala apenas o necessário.

— Assina aqui. — Estendo o documento para ela.

Ela assina.

— Preciso da aprovação — Mostro o catálogo.

Ela aprova.

— O contrato chegou.

Ela o pega e começa a ler. Nem um "como você está?", ou um olhar demorado. Nada.

É ridículo o quanto isso começa a me incomodar. No sétimo documento, resolvo provocar.

— Dormiu bem? — Pergunto com cautela.

Ela levanta finalmente os olhos, mas não demora muito a desviar o olhar e focar novamente no que estava fazendo.

— Dormi. — Sua voz é fria.

Silêncio, espero que ela devolva a pergunta, mas ela não devolve.

Que mulher insuportável!

Perto do almoço, Fernanda encosta na minha mesa, como quem não quer nada.

— Vocês brigaram? — Solta a bomba e quase engasgo com a água.

— Quem? — Me faço de desentendida.

Ela arqueia uma sobrancelha, esperando que eu não a faça falar em voz alta, mas eu visto a minha maior cara de quem não está entendendo do que ela está falando e ela revira os olhos.

— Você e a chefe. — bufa.

— Não — solto um sorriso sem graça.

— Então, por que ela está distribuindo patadas em todo mundo? Ultimamente, ela estava um amorzinho, e ela não para de olhar para a sua mesa com um olhar de quem quer te matar.

Olho discretamente para a sala de vidro, Marcela realmente parece uma nuvem carregada, pronta para soltar um raio na minha cabeça.

— Deve ser segunda-feira — Falo a primeira coisa que me vem à mente.

Fernanda sorri, como quem diz: você acha que me engana?

— Ou você fez alguma coisa — estreita os olhos, me encarando com acusação.

— Eu? Nunca — Ela está me deixando sem saída.

— Victoria... — Ela saboreia o meu nome.

— O quê?

— Você está usando aquela cara de quem fez besteira e está esperando a outra pessoa pedir desculpas.

Abro a boca. Fecho. Porque... Droga. Talvez ela tenha um ponto.

À tarde, a tensão só aumenta, Marcela pede alterações em um documento.

Entro em sua sala para entregar o papel com tudo que ela pediu. Ela o analisa, olha para minha cara, volta a encarar a folha e me devolve.

Ela devolve.

— Ainda não está como pedi. — Seu veneno quase escorre pelos cantos da boca.

Respiro fundo, juntando tudo que ainda resta de paciência dentro de mim.

— Está exatamente como pediu — Tento controlar minha voz.

— Não está — Arqueia a sobrancelha.

Dou dois passos até a mesa dela, aponto para a tela, mas minha vontade é esfregar a cara dela nesse computador.

— Aqui — Indico.

Ela observa. Silêncio.

— Ah — Levanta o queixo — Mesmo assim, prefiro da outra forma.

Fecho os olhos por um segundo. Se controle, Victoria, você precisa desse emprego e desse acordo.

— Você acabou de dizer que estava errado.

— Agora estou dizendo que quero diferente.

Que vontade de jogar esse notebook pela janela, e com ele a minha chefe.

 

Quando saio da sala, Cássia está me esperando na minha mesa. Ela me encara e tenta espiar por cima do meu ombro.

— Sobreviveu? — Sussurra.

— Por enquanto. — Sussurro de volta.

— Você não sobreviverá por muito tempo — Sua voz continua no mesmo tom.

— Por que estamos sussurrando? 

— Ela está impossível — Cassia volta a falar normalmente — E eu não quero que ela veja que a gente está falando dela.

— Eu percebi.

— Você fez alguma coisa?

Todo mundo resolveu abrir uma investigação hoje? Como se a madame precisasse de algum motivo para me tratar assim e estar insuportável.

— Não.

— Mentiu mal — dá dois tapinhas no meu ombro antes de sair.

Cinco da tarde. Estou cansada. Ela também.

E isso fica evidente quando um autor liga pela terceira vez exigindo falar com Marcela imediatamente. Entro na sala para tentar convencê-la a falar com ele.

— Ele insiste em falar com você.

— Diz que estou ocupada.

— Eu já disse.

— Então diga de novo.

Cruzo os braços, essa palhaçada precisa acabar, já fomos longe demais com esses joguinhos.

— Você está descontando em mim — Finalmente explodo.

Ela tira finalmente os olhos do computador, me analisa como se fosse a última capa disponível, necessitando de sua atenção.

— Não estou — diz, calma.

— Está, sim. — Acuso.

— Victoria...

— Desde que cheguei hoje, você mal consegue olhar para minha cara. — Nem sei o que estou falando, mas agora ela vai me ouvir.

Ela fecha a tampa do notebook devagar, com a paciência de quem fala com uma criança de cinco anos.

— Quer conversar durante o expediente?

— Quero entender qual é o problema.

Ela se levanta e caminha até a porta que eu tinha deixado entreaberta. Após fechá-la, ela volta a me encarar.

— O problema é que não existe problema.

— Claro — Dou uma risada sem humor. — Como se eu não tivesse percebido que você está assim desde que saiu da minha casa ontem.

— Você inventou uma desculpa ontem para não passar algumas horas comigo — fala calmamente — e está tudo bem.

— Não inventei.

— Inventou.

— Eu tinha coisas para fazer — Me defendo

— Tinha medo — é direta.

Aquilo acerta em cheio, mesmo eu não tendo noção do porquê.Eu não deveria deixar com que suas palavras me afetem, me façam repensar qualquer atitude. Qual é? Eu estou tendo mesmo essa conversa com Marcela Tavares? A megera sem coração.

— Medo?

— Sim. De me deixar chegar perto demais. — Ela não altera o tom de voz.

Meu peito aperta, mas meu orgulho responde primeiro.

— Você está imaginando coisas.

Ela dá um sorriso pequeno, daqueles que machucam mais que um grito. Eu preferiria que ela gritasse, me xingasse. Fosse a Marcela que eu conheço há anos. 

— Estou? — Seu olhar é cortante.

— Está.

Silêncio, o ar parece pesado, ou são os meus pulmões que desaprenderam como respirar.

— Tudo bem — ela diz, ajeitando alguns papéis na mesa. — Você não me deve explicações.

— Ótimo.

— Mas também não espere que eu finja que nada aconteceu — Volta a me acertar em cheio.

— Você está levando isso para o lado pessoal. — Tento fazê-la perceber que está exagerando.

— Engraçado ouvir isso justamente de você — Ela ri sem qualquer graça.

— O quê?

— Você foge sempre que alguém tenta atravessar essa muralha.

— Você não sabe nada sobre mim. — Sinto meu sangue ferver.

— Por que você não deixa ninguém saber?

— E nem quero — Elevo a minha voz.

Ela apenas concorda com a cabeça, sem dizer mais nada, e aquilo dói. Porque ela não está gritando, ela está desistindo. E, por algum motivo, isso parece muito pior.

— Acho melhor a gente estabelecer um limite. — Eu inicio e ela permanece em silêncio. — O único contato que eu quero ter com você é o que estiver previsto no nosso acordo.

Vejo um músculo da mandíbula dela contrair, mas a voz continua calma. Calma demais.

— Certo.

Espero outra reação. Qualquer uma, ou talvez eu esteja esperando a Marcela de semanas atrás, a que faria de tudo para me humilhar e fazer eu pedir desculpas. Ela só pergunta:

— É só isso?

— Você não vai dizer nada? — Franzo a testa.

— Você acabou de definir como quer que nossa relação funcione. — Ela pega uma pasta e volta a sentar. — Vou respeitar.

Meu coração afunda, porque era exatamente isso que eu queria ouvir. Não era? 

Fico parada por alguns segundos, esperando. Ela abre um documento e volta a trabalhar como se eu não estivesse ali, como se a conversa tivesse acabado.

Como se eu... Não importasse.

— Então... boa tarde — engulo em seco.

— Boa tarde, Victoria. — Mais uma vez, ela não levanta os olhos.

Saio da sala tentando manter a postura. Fecho a porta, dou mais três passos em direção à minha mesa e só então percebo que estou prendendo a respiração desde o momento em que ela disse "certo".

Parabéns, Victoria. Você conseguiu exatamente o que pediu. Então, por que parece tanto uma derrota?

No fim das contas, talvez eu tenha razão em odiar segundas-feiras. Ou talvez o problema nunca tenha sido o dia da semana.

Talvez tenha sido descobrir que algumas pessoas conseguem se afastar exatamente da maneira que pedimos... e que isso pode doer muito mais do que qualquer discussão.

 

 

 

 

Marcela

 

Quando termino o que estava fazendo, já é no fim do dia. Hoje o dia foi cansativo e tudo que eu mais quero é chegar em casa e aproveitar meu descanso com o Rodolfinho. Mas há algo que preciso fazer antes disso, algo que não estou com vontade de enfrentar agora, porém é necessário.

Abro a porta e a vejo arrumando suas coisas, faltam poucos minutos para ela ir embora. Respiro fundo e vou até sua mesa.

— Amanhã, depois do expediente, nós temos um compromisso. — Falo tudo em um fôlego só.

         Victoria me encara com um ponto de interrogação enorme estampado em sua cara. 

— Temos? — Pergunta sem entender.

— Minhas amigas marcaram um jantar — explico — Elas querem conhecer minha namorada.

A palavra namorada pesa muito mais do que deveria, tem um gosto amargo. Entretanto, não darei o direito a ela de me desestabilizar. 

Eu não devo me importar com o que ela disse sobre mantermos as coisas apenas no profissional, afinal, ela está mais do que certa. Foi para isso que assinamos um acordo, para fingirmos um namoro, não para brincarmos de melhores amigas.

Por mais que os últimos dias tenham sido isso que eu tenha acreditado que poderíamos ser.

— Espera aí... — Victoria solta um sorriso malandro — Você realmente tem amigas?

Por um instante, a encaro tentando entender se eu realmente ouvi essa pergunta. 

É uma brincadeira, claro que é. Mas vê-la fazer piada ao final de um dia em que mal nos falamos, que sabemos que o pouco de contato que tínhamos foi quebrado... dói, e eu me odeio por isso, por permitir esse sentimento. 

Sua brincadeira soa como se Victoria estivesse dizendo que ninguém suportaria estar perto de mim, que não sou digna de ter amizades.

Mas ela não sabe nada sobre mim, e agora não saberá mesmo. 

— Tenho — solto um sorriso pequeno.

Apenas isso, sem ironia, sem graça, o que faz Victoria perceber imediatamente que passou do ponto.

— Ei! Eu estava brincando — ela se apressa em falar.

         Não consigo responder de imediato, pois a primeira coisa que se passa em minha mente é: não demonstre que isso te afetou, não permita que ela perceba.

— Eu sei – respondo da forma mais natural que consigo.

Mas, infelizmente, não sai tão convincente quanto eu gostaria. Ela respira fundo e sua voz sai calma.

— Marcela... — Ela se levanta.

Ao perceber seu movimento, eu me apresso para mostrar que já estou de saída. Eu sei que se eu ficar mais um tempo conversando com ela, eu serei a Marcela que ela conhece, arrogante, depressível e que não foge de uma briga. Mas, por algum motivo que desconheço, não quero agir assim com ela.

— Não precisa explicar. 

— Eu só quis dizer que... 

— Está tudo bem — a interrompo.

Não está, e nós duas sabemos disso. O olhar de Victória se prende ao meu, como tantas vezes antes, e talvez dessa vez uma conversa silenciosa esteja acontecendo por meio de olhares, mesmo que nossas bocas estejam fechadas.

— Amanhã, às sete, eu passo para te buscar.

Não espero resposta, afinal, não é uma pergunta. Dou meia volta e sigo em direção ao elevador. A ouço suspirar, mas o ato não me faz olhar para trás.

Quando as portas do elevador se abrem, escuto ela me chamando.

— Ei.

Meu corpo se vira automaticamente, mesmo que essa não seja minha vontade, meu cérebro funciona antes que eu o impeça.

— Hm?

— Eu não quis ser babaca — Ela tenta se desculpar mais uma vez.

Por um instante, isso foi tudo que eu quis ouvir e acreditar, mas hoje o dia foi tão pesado que eu estou cansada de tentar adivinhar se Victória está falando sério ou apenas levantando mais um muro entre nós.

De qualquer forma, não quero descobrir isso agora.

— Você não foi — dou mais um sorriso simples.

Mentira. É claro que ela foi uma babaca. Contudo, confessar isso em voz alta é o mesmo que dizer que eu me importo. E isso é algo que ela não saberá. 

Me viro novamente e entro no elevador, sinto o seu olhar ainda em mim. Aberto o botão que me levará até a garagem do prédio.

Após me certificar de que apertei o certo, levanto meu olhar em sua direção.

— Até amanhã, Victoria.

Nosso contato é interrompido pelas portas do elevador se fechando.

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Oi pessoal!!!!

Sei que o capitulo ficou pequeno, mas foi necessário, por isso resolvi lançar ele logo.

não esqueçam de deixar seus comentários!

Espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia. Até breve.

 


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Comentários para 7 - Capitulo 7 - Odeio segundas-feiras:
Eva Bahia
Eva Bahia

Em: 15/08/2026

Eita...elas tão que tão heim... Uhuuu

Responder

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RENATA32
RENATA32

Em: 15/08/2026

Aguardando o próximo capítulo. Criando expectativas para que elas se permitam ceder as barreiras.

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