Capitulo 8 - Quem precisa de inimigas quando se tem amigas assim?
Victória
Nunca pensei que escolher uma roupa pudesse parecer mais difícil do que assinar um contrato de namoro falso.
Estou parada em frente ao guarda-roupa há, no mínimo, vinte minutos. Talvez trinta. Enquanto isso, eu continuo encarando um amontoado de tecidos como se, por algum milagre, uma resposta fosse saltar dali.
Spoiler: não salta.
— Você já enfrentou reunião de pais, contas atrasadas e criança de sete anos com virose ou fazendo birra — murmuro para mim mesma — Mas um jantar consegue te deixar nervosa.
O problema não é exatamente o jantar, é quem vai estar nele: as amigas de Marcela.
Mulheres que, na minha cabeça, nasceram usando salto alto e taça de vinho na mão. Dessas que sabem a diferença entre cinco tipos de queijo apenas olhando. Que viajam para Paris como quem pega um ônibus.
E eu... Bem, eu cresci aprendendo que qualquer coisa que estiver em seu prato não deve ser desperdiçada.
Olho novamente para o guarda-roupa, ainda estranho quando abro as portas e encontro blazers, calças de alfaiataria e camisas de tecidos que eu nem sei pronunciar o nome ou camisas sociais.
Marcela comprou praticamente tudo.
Na época, ela disse que fazia parte da nossa imagem como casal.
"Você não precisa mudar quem é", ela falou.
"Mas algumas ocasiões exigem determinadas roupas."
Fácil falar quando se parece com a própria definição de elegância. Ela veste qualquer camisa branca e, de algum jeito, parece capa de revista. Eu visto uma camisa branca e pareço alguém prestes a vender algo desnecessário de porta em porta.
No fundo do armário, encontro uma calça preta de corte reto e uma camiseta de algodão verde-escura. Simples. Elegante sem parecer que estou fantasiada de outra pessoa.
— Melhor.
Levo as peças para a cama, mas ainda assim, hesito. Será que está simples demais? Será que simples demais significa pobre? Será que rica consegue identificar roupa cara só de olhar? Bom, essas roupas são realmente caras. Será que...
— Para de pensar, Victoria.
Ninguém vai fazer prova de etiqueta, é só um jantar entre amigas.
Respiro fundo, tomo um banho demorado e lavo o cabelo.
Quando saio do banheiro, o vapor ainda cobre metade do espelho. Passo a toalha na superfície e encontro uma mulher que ainda não parece muito convencida da própria imagem. Apenas passo seco meu cabelo com a toalha e deixo eles secarem naturalmente.
Também nunca gostei de gastar duas horas me arrumando. Apenas desodorante, perfume e cremes para as mãos. Cinco minutos depois, estou praticamente pronta. Fim.
Calço um tênis branco. Olho novamente meu reflexo, continuo parecendo eu, só uma versão um pouco mais... arrumada.
Isso basta, ou pelo menos espero que baste.
Heloísa aparece na porta do quarto segurando um desenho.
— Uau! — Ela exclama ao me ver.
— Isso foi um "uau" de verdade ou um "uau" porque você é minha filha e precisa ser legal comigo? — Abro os braços dramaticamente.
— De verdade. — Solta uma risadinha.
— Tem certeza?
— Você está bonita. — Ela balança a cabeça.
— Obrigada.
Agacho na frente dela.
— Você vai ficar bem com a dona Florinda?
Ela faz que sim com entusiasmo. A vizinha aceitou ficar algumas horas com ela enquanto estamos fora. Heloísa gosta dela, e a dona Florinda gosta de fazer bolo. É uma amizade baseada em interesses mútuos.
— E nada de dormir tarde. — Alerto.
— Tá bom.
— Escovar os dentes. — Aviso.
— Tá bom. — Ela revira os olhinhos.
— Não comer só bolo. — Advirto.
Ela pensa por dois segundos e me encara com uma carinha de criança que vai aprontar e eu não duvido nada disso.
— Essa parte eu vou tentar.
— Já é um começo. — Solto uma gargalhada.
Ela me abraça pelo pescoço e eu me sinto a pessoa mais sortuda desse mundo por ter uma filha tão carinhosa e maravilhosa.
— Você vai voltar feliz — Ela fala do mais absoluto nada.
— Como sabe? — Franzo a testa.
— Porque quando você gosta de alguém, sempre volta sorrindo, e isso sempre acontece quando você está com a Marcela.
Meu coração acelera, beijo sua testa rapidamente antes que ela perceba minha reação.
— Vai desenhar, espiãzinha.
Ela sai correndo pelo corredor, fico alguns segundos olhando para a porta, crianças realmente enxergam coisas que os adultos fingem não ver.
Quando finalmente a casa fica em silêncio, olho para o relógio. Faltam quinze minutos. Sento no sofá, depois me levanto, volto para a cozinha, bebo água, retorno para o sofá, pego o celular, abro uma conversa, fecho.
Cinco minutos, levanto de novo. Dou uma volta pela sala como se estivesse esperando o resultado de uma entrevista de emprego.
Ridículo.
É só um jantar.
Só isso.
Ou pelo menos tento convencer meu cérebro.
Porque, no fundo, sei que não é apenas um jantar. É a primeira vez que vou conhecer pessoas que fazem parte da vida de Marcela. Pessoas que conhecem a Marcela de verdade. Não a chefe. Não a mulher séria da editora. A Marcela que quase ninguém vê.
E, por algum motivo, a ideia de conviver com pessoas que já conheciam essa versão dela antes de mim me deixa estranhamente insegura.
Será que elas vão perceber que tudo começou com um contrato? Será que vão notar que, às vezes, ainda tropeçamos uma na outra?
Antes que eu consiga continuar esse pensamento perigoso, ouço uma batida na porta. Meu coração acelera automaticamente.
Respiro fundo.
Uma vez.
Duas.
Abro a porta.
Marcela ainda está com a roupa do trabalho.
Os cabelos loiros presos em um coque que claramente já foi mais organizado ao longo do dia.
Ela segura a bolsa em um ombro e o celular na outra mão, terminando uma mensagem.
Quando levanta os olhos e me vê, fica completamente imóvel.
Por um instante, nenhuma de nós diz absolutamente nada.
Marcela
A primeira coisa que penso quando Victoria abre a porta é que estou ferrada. Não de um jeito metafórico. Ferrada mesmo.
Porque, aparentemente, a mulher decidiu que hoje seria um ótimo dia para acabar com a minha capacidade de raciocinar.
Ela está parada na minha frente usando uma das roupas que compramos juntas, e eu já tinha me esquecido o quanto elas ficavam boas nela. Mas ao vê-la, percebo o quanto ela fica perfeita com elas.
Eu odeio isso. Odeio o fato de perceber e odeio mais ainda o fato de continuar olhando.
— Oi — ela diz.
— Oi. — Pisco, tentando disfarçar.
— Você está bem? — Victória inclina a cabeça.
— Estou.
— Tem certeza? — Insiste de uma forma abusada.
— Tenho.
Ela olha para mim por mais alguns segundos. Eu conheço esse olhar, é o mesmo olhar que ela usa quando sabe que estou mentindo, mas ainda não decidiu se vai me confrontar.
— Você está me olhando estranho. — Confessa.
— Não estou.
— Está.
— Victoria. — Respiro fundo, começando a perder a paciência — Nós estamos atrasadas.
— Claro.
Passa por mim e fecha a porta. O perfume dela chega antes do resto e é mais um detalhe que não passa despercebido por mim.
Ótimo.
Perfeito.
Era exatamente o que eu precisava para completar a noite.
No caminho até o carro, tento me convencer de que o problema é simplesmente o meu mau humor. Ainda estou irritada com ela. Muito.
A brincadeira que fez continua me incomodando, principalmente porque Victoria parece ter a capacidade irritante de agir como se nada tivesse acontecido cinco minutos depois de me provocar até quase arrancar minha paciência pela raiz.
Eu não tenho esse talento.
Eu guardo rancor.
Sou excelente nisso.
Quando entramos no carro, Victoria coloca o cinto e olha para mim.
— Então...
— Hum. — Apenas emito um som para que ela continue.
— Você está muito bonita hoje. — Solta do nada.
Desvio meus olhos da estrada para encará-la por um segundo e me certificar de que não é mais uma de suas brincadeiras de mau gosto, mas percebo que ela não está com cara de quem está aprontando algo.
— Obrigada.
Silêncio, e eu fico constrangida. Ela nunca me elogiou assim tão diretamente como agora.
— Só isso? — Me olha indignada.
— O que você quer que eu diga? — Pergunto, confusa.
— Sei lá: “Você também está bonita, Victoria.”
— Você já sabe que está bonita. — Só me dou conta do que falei depois que as palavras saem da minha boca.
— Isso foi quase um elogio. — Ela abre um sorriso pequeno.
— Não se acostume.
Victoria liga o rádio e começa a procurar alguma música boa, até que encontra uma que a agrada.
— Você está mesmo brava comigo — volta a falar.
— Não estou. — Tento encerrar o assunto.
Ela solta uma risadinha, e isso tem o dom de me irritar muito. Ela tem o costume de rir em momentos inapropriados, como se debochasse de tudo que falo. Eu aperto o volante, com raiva.
— Não ri — Bufo.
— Eu não estou rindo — tenta esconder o sorrisinho.
— Está — Reviro os olhos.
— É que você fica muito engraçada quando está irritada.
Viro lentamente o rosto na direção dela, acredito que ela percebe em meus olhos que não estou para brincadeiras e não estou achando nada engraçado.
— Você quer mesmo continuar? — Minha voz sai mais ríspida do que o esperado.
— Não.
— Ótimo.
Ela fica quieta por uns dez segundos, mas não se aguenta mais do que isso.
— Suas amigas são legais? — Volta a puxar assunto.
— São. — Digo a verdade.
— Todas?
— Sim.
— Alguma delas é insuportável? — Volta a sorrir.
— Às vezes.
— Qual? — Pergunta curiosa.
— Você.
Victoria abre a boca, indignada. Minha vontade é soltar uma gargalhada com a cara que ela faz, mas me contenho, isso faria eu perder minha pose de quem não se importa.
— Eu nem conheço suas amigas! — Diz chateada.
— Foi uma pergunta genérica.
— Você acabou de me chamar de insuportável.
— Você é insuportável.
— E ainda assim estamos namorando.
Meus dedos apertam o volante mais uma vez. Aquilo deveria soar como uma provocação qualquer, mas, por algum motivo, a frase me pega em um lugar estranho.
Estamos namorando. Falso. É claro. Falso.
— É um contrato — digo, seca.
— Eu sei.
— Então, não esquece.
— Eu não esqueço. — O sorriso dela desaparece por um instante.
A resposta vem baixa e, pela primeira vez naquela noite, nenhuma de nós tenta continuar a conversa.
O restaurante está cheio quando chegamos. Minhas amigas escolheram um lugar que combina perfeitamente com elas: bonito demais, caro demais e com garçons que provavelmente sabem o nome do vinho de cada cliente antes mesmo de ele abrir a boca.
Assim que entramos, reconheço as quatro sentadas em uma mesa mais ao fundo.
Helena é a primeira a nos ver. E, infelizmente, Helena tem olhos muito atentos.
— Finalmente! — ela exclama.
As outras três se viram, Luísa levanta a mão para nos cumprimentar com um leve tchauzinho.
— Achei que você ia cancelar. — Fala depois de tomar um gole de sua bebida.
— Eu disse que viria. — Me irrito com o drama desnecessário.
— Você também disse que ia aparecer no aniversário da minha irmã e...
— Não vamos falar sobre isso — A interrompo.
— Justo.
Marina se levanta para me abraçar, depois abraça Victoria.
— Você deve ser a famosa Victoria — diz, empolgada, até demais.
Victoria olha para mim, eu fecho os olhos por meio segundo. Famosa? Quem precisa de inimigas quando se tem amigas como essas?
— Famosa? — Ela repete.
— Marcela fala de você. — Quem fala é Sabrina.
— Não falo — digo imediatamente.
Helena cruza os braços, me encarando com uma cara desconfiada.
— Fala, sim.
— Não falo — Repito.
— Fala.
— Helena — a repreendo.
— Bastante, inclusive — Sabrina volta a me entregar.
Victoria olha para mim com um sorriso que eu conheço bem demais.
— Interessante — Diz.
— Não começa — Reviro os olhos.
— Eu não falei nada — tenta se justificar.
— Mas pensou — Acuso.
— Você me conhece tão bem.
— Infelizmente.
As quatro ficam em silêncio. Olham para mim, depois para Victoria, depois uma para a outra. Eu conheço aquele olhar, é o olhar coletivo de mulheres que acabaram de encontrar uma informação muito mais interessante do que qualquer coisa que estava planejada para aquela noite.
Helena se senta devagar.
— Vocês brigaram? — Solta a pergunta.
— Não — respondemos ao mesmo tempo.
Pior resposta possível, está ficando constrangedor para a gente. Luísa arregala os olhos.
— Ah — exclama, como se estivesse nos estudando.
— Não estamos brigadas — explico.
— Eu fiz uma brincadeira no carro e ela não gostou — Victoria tenta me ajudar a explicar.
— Que tipo de brincadeira? — Marina questiona, feliz.
— Uma brincadeira normal — Victoria responde.
— Não foi normal — digo.
— Foi uma brincadeira de casal.
Helena coloca imediatamente a mão no peito, como se tivesse feito a maior descoberta do mundo.
— Meu Deus. Vocês brigam como um casal de verdade.
— Porque somos um casal — Victoria lembra.
Eu olho para ela, ela me olha de volta. Por um segundo, a mesa inteira parece desaparecer, então eu desvio os olhos.
— Vamos sentar? — Digo.
— Claro — Helena diz, ainda sorrindo como uma criminosa.
Sentamos, e eu deveria saber que acabou ali qualquer possibilidade de uma noite tranquila. Nos primeiros quinze minutos, elas fazem perguntas sobre trabalho, sobre Victoria, sobre Heloísa, sobre como está sendo nossa rotina. Até que Sabrina coloca os cotovelos sobre a mesa.
— Tá. Eu tenho uma pergunta — só falta bater palmas com as mãos de tão animada.
— Não — respondo.
— Você nem sabe qual é — diz, emburrada.
— Conheço você — Justifico.
— Como vocês se conheceram?
Victoria olha para mim, eu olho para ela. Esse é um dos problemas da nossa mentira, não combinamos uma história detalhada. Temos apenas pedaços, uma versão básica. E agora quatro mulheres inteligentes estão prestes a desmontar tudo.
— Foi no trabalho — digo.
— Você conheceu a Victoria no trabalho? — Luísa pergunta.
— Sim.
— Como?
— Ela trabalha comigo — Volto a explicar.
— Isso não explica nada.
— Explica o suficiente — corto o assunto.
Helena aponta para mim com o garfo, elas já tinham pedido algumas entradas antes de chegarmos.
— Você sabe que está sendo péssima nisso, não sabe? — Me acusa.
— Eu não sou obrigada a prestar depoimento.
Victoria tenta esconder uma risada atrás da taça, eu piso no pé dela por baixo da mesa. Ela arregala os olhos.
— Ai! — Reclama, enquanto todas a olham.
— O que foi? — Luísa pergunta.
— Nada — responde rápido demais.
Victoria me encara, eu sorrio. Um sorriso muito falso, por sinal.
— Coisas de casal — digo.
— Eu amo vocês. — Helena bate com as mãos na mesa, chamando a atenção de todas.
— Você nem conhece a gente como casal — A encaro.
— Justamente! E já está ótimo. — Comenta, vitoriosa.
Victoria começa a rir, eu não. Não estou achando graça dessa palhaçada. Elas nunca ficaram tão interessadas sobre meu relacionamento com alguém, eu só aceitei esse jantar porque achei que seria apenas mais um encontro rápido.
— Então — Luísa continua — quem se apaixonou primeiro?
— Ninguém — respondo.
— Vocês estão namorando — diz, impaciente.
— Eu sei.
— Então alguém se apaixonou — Constata o obvio.
— Eu me apaixonei primeiro — Victória entra no assunto — Não tinha como isso não acontecer.
— Tá, então quem pediu quem em namoro?
— Ela — digo.
— Ela — Victoria diz ao mesmo tempo.
Nós duas paramos, Helena abre a boca, Luísa começa a rir, Sabrina parece confusa e Marina nos avalia,
— Vocês são péssimas mentindo — Marina nos adverte.
— Não estamos mentindo — Victoria responde.
— Gente — Helena interrompe — eu estou começando a achar que deveria ter trazido pipoca.
— Você não deveria ter trazido nada — A encaro com um olhar mortal.
As quatro explodem em risadas e eu considero seriamente levantar e ir embora. Victoria se aproxima um pouco de mim.
— Respira. — Sussurra.
— Não fala comigo — tento afastá-la.
— Você está sendo dramática.
— E você está me irritando — nossos olhares se conectam.
— Eu sei. — Ela diz isso tão baixo que apenas eu escuto.
Não desvio o olhar, Victoria está sorrindo. Maldita.
A conversa continua, agora com uma sucessão de perguntas cada vez mais absurdas. Qual foi o primeiro encontro? Quem é mais ciumenta? Quem manda mais mensagens. Quem dorme primeiro.
— Tá. Agora eu quero saber uma coisa — Helena fala e, pelo tom, sei que não vem coisa boa.
— Não — Tento interrompê-la mais uma vez.
— Você nem sabe — fala com desdém.
— Não importa.
— Vocês têm química? — Ela aponta para nós duas.
Eu quase engasgo, Victoria pisca mais rápido do que se pode dizer que é possível para um ser humano.
— O quê? — Pergunto para ter certeza se entendi direito.
— Química.
— Helena, nós estamos jantando.
— Justamente. É um jantar científico — Semicerra os olhos.
— Você não sabe o significado de científico.
— Sei o suficiente.
Luísa já está rindo, Marina parece genuinamente interessada.
— Eu acho que elas têm. — Sabrina é quem fala.
— Como você sabe? — Helena pergunta.
— Olha para elas.
— Não olhe para mim — digo, meu estômago já revirando.
— Beijem-se — Luísa nos desafia.
Eu quase levanto da cadeira e saio correndo. De onde ela tirou isso?
— Não — A resposta sai tão rápida que todas começam a rir.
— Por quê? — Helena pergunta.
— Porque não — digo, seca.
— Isso não é uma resposta — Sabrina se intromete.
— É a única que você vai ter.
— Qual é o problema? — Helena cruza os braços.
— Nenhum.
— Então beija — Insistem.
— Não.
— É só um beijo.
— Nós não somos um casal que gosta de exposição — digo a primeira coisa que vem em minha cabeça.
As quatro ficam em silêncio, Victoria vira lentamente o rosto para mim. Eu percebo o erro tarde demais, Luísa sorri.
— Exposição? — Arqueia a sobrancelha.
— Sim.
— Aqui? — Olha ao nosso redor.
— Sim.
— Entre quatro amigas? — Não parece nada convencida.
— Sim.
— Você está dizendo que não quer beijar sua namorada na frente das suas quatro melhores amigas porque isso é exposição?
— Exatamente.
— Isso é a desculpa mais suspeita que você já deu na vida.
— Não é desculpa — Tento soar convincente.
— Então, beija.
— Não.
— Beija.
— Vocês têm cinco anos?
— Beija.
— Meu Deus! — Jogo as mãos para o alto.
Victoria está rindo agora, olho para ela, e então acontece uma coisa muito inconveniente. Victoria, para de rir. Ela olha para mim, não para as minhas amigas, para mim.
O sorriso diminui até desaparecer completamente e, de repente, eu me dou conta de que ela também está nervosa. Isso deveria me tranquilizar, mas não tranquiliza.
— É só um selinho — Marina insiste.
— Exatamente — Victoria diz.
— Você quer fazer isso? — A pergunta sai mais séria do que deveria.
— Você quer? — Sustenta meu olhar.
Não.
Sim.
Não.
Definitivamente não.
Provavelmente.
— Isso é ridículo — murmuro.
— Então, pronto — diz. — Beija logo e acaba com isso.
— Um selinho — Respiro fundo.
— Um selinho — Victoria concorda.
Ela se aproxima e eu imediatamente percebo que um selinho não deveria exigir preparação emocional. É só um beijo. Um encostar de lábios. Uma coisa absolutamente simples. Falsa. Nós fazemos isso por causa do contrato. Por causa das minhas amigas. Por causa da mentira. Nada além disso.
Victoria para a poucos centímetros de mim, meu coração acelera. Ridículo. Ela olha para minha boca e eu deveria olhar para os olhos dela, mas não olho. E então nossos lábios se encostam.
Só isso.
Por um segundo.
Dois.
Eu deveria me afastar, mas não me afasto e Victoria também não. O beijo fica um pouco mais demorado, não chega a ser um beijo de verdade, mas também não é mais exatamente um selinho.
Sinto a respiração dela contra a minha, sinto meus dedos apertando o tecido da minha própria roupa. E, por um instante absurdamente curto, esqueço completamente que existem quatro pessoas sentadas à nossa frente.
Quando finalmente nos afastamos, continuo perto demais. Perto o suficiente para perceber que Victoria está respirando diferente, perto o suficiente para ver os olhos dela.
E é aí que eu vejo a mesma coisa que provavelmente está estampada nos meus: confusão, surpresa, uma espécie de susto. Como se nenhuma das duas tivesse esperado que aquilo fosse... alguma coisa.
Meu coração bate uma vez, forte, depois outra. Victoria pisca, eu também.
— Uau — Sabrina diz.
Nós duas nos afastamos imediatamente, sem saber muito como agir ou reagir.
— Pronto — falo.
Minha voz sai estranhamente rouca, Helena está com um sorriso satisfeito, e não sei se isso me irrita ou me conforta.
— Eu sabia.
— Sabia o quê?
— Que vocês tinham química.
Victoria abaixa o rosto para esconder o sorriso, eu piso mais uma vez em seu pé debaixo da mesa.
— Ai!
— Foi mal.
Ela me olha, e por algum motivo, isso piora tudo, porque agora existe alguma coisa diferente naquele olhar. Alguma coisa que não estava ali quando entramos, ou talvez estivesse e eu só não quisesse enxergar.
Victoria pega o cardápio e finge ler, eu faço o mesmo, afinal, tudo isso já aconteceu e a gente nem pediu nossa comida ainda. Nenhuma de nós fala.
— Então — Helena começa.
— Não — dizemos juntas.
— Eu não falei nada! — Ela levanta as mãos.
— Mas ia.
— Eu ia perguntar se vocês querem sobremesa.
— Quero — Victoria responde.
— Eu não.
— Você sempre quer sobremesa — Victoria rebate.
— Como você sabe? — Olho para ela.
Victoria cobre a boca com a mão, escondendo um sorrisinho, e eu percebo, com uma clareza quase dolorosa, que estou começando a gostar disso.
Do barulho, da provocação, dela sentada ao meu lado, do jeito como Victoria parece já conhecer pequenas coisas sobre mim que não deveria conhecer.
E principalmente do jeito como, quando ninguém está olhando, ela encosta o joelho no meu por baixo da mesa. Eu paro de respirar por um instante, olho para ela. Victoria não olha de volta, continua fingindo ler o cardápio, mas o canto da boca dela se curva e eu entendo: ela fez de propósito.
A raiva que eu sentia quando fui buscá-la parece muito distante agora, e isso, mais do que qualquer pergunta das minhas amigas, é o verdadeiro problema.
Porque o beijo foi fácil de explicar, a brincadeira também, até a nossa química, se alguém perguntar, pode ser atribuída ao fato de sermos boas atrizes.
Mas aquele sorriso? O toque do joelho dela no meu? A maneira como meu coração ainda está acelerado?
Isso eu não sei explicar. E, pela primeira vez desde que inventamos esse namoro, começo a suspeitar que talvez o contrato não seja a única coisa que está mantendo Victoria ao meu lado. O pior é que começo a suspeitar que talvez não seja o único motivo que está me fazendo ficar
Fim do capítulo
Oi pessoal!!!
Estou sendo bem boazinha com vocês e não demorando nadinha de nada para voltar, então acho que o capitulo merece bastante comentários. É muito importante para que eu saiba como a história está chegando para você e também para o wattpad entregar a história para o máximo de pessoas possíveis.
Como vocês acham que vai ser esse pós beijo? façam suas apostas, quero ver quem vai acertar.
Desejo um ótimo fim de semana.
E espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia. Até breve!
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Duduka
Em: 15/08/2026
Eu acho que ainda não vai rolar o tão esperado beijo, mas acredito que as duas vão continuar com provocações e até algumas picuinhas...
Paloma Matias
Em: 17/08/2026
Autora da história
a sorte foi lançada, veremos se você acertou hahaha
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Eva Bahia
Em: 15/08/2026
Que bom. Que vc está aparecendo mais vezes..
Eu acho que vai rolar um super beijo no carro no fim dessa noite... Elas são pura doideira juntas. Já estão apaixonadas e não se deram conta ainda...
Que venham os próx capítulos
Paloma Matias
Em: 17/08/2026
Autora da história
muito obrigada por acompanhar, tentarei voltar mais vezes ainda.
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RENATA32
Em: 15/08/2026
Ah! Bem que poderia alongar um pouquinho mais os capítulos, pfvr.
Aposto que o pós beijo vai conectar elas e vai acontecer outro beijo, dessa vez na editora. E tem a Heloísa que vai querer conhecer o Rodolfinho e passar o final de semana todas juntas. A criança vai aquecer até o coração da mãe da Marcela.
Paloma Matias
Em: 17/08/2026
Autora da história
é uma boa hipótese hahahahah
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Paloma Matias Em: 17/08/2026 Autora da história
kkkkkkkkk calma, logo logo tem o proximo