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Palavras: 2711
Acessos: 72   |  Postado em: 21/08/2026

Capitulo 9 - Senhora Diretora

Marcela

 

 

Fecho a porta da minha sala um pouco mais forte do que o necessário. Não porque estou irritada, ou, pelo menos, é isso que repito para mim mesma enquanto caminho até minha mesa. Deixo a bolsa sobre a cadeira e organizo uma pilha de originais que já estava perfeitamente organizada.

O problema é que eu não consigo fingir que a noite de ontem foi apenas uma noite qualquer.

A lembrança do restaurante insiste em voltar: as minhas amigas, as provocações, o pedido ridículo “Então beija ela.” e, principalmente, o selinho.

Foi só um selinho, curto, sem intenção, sem significado. Então, por que diabos eu ainda consigo lembrar exatamente da expressão de surpresa da Victoria?

Balanço a cabeça, não vou alimentar esse pensamento.

Pego o notebook e começo a responder e-mails.

Às nove e quinze, a porta é aberta depois de duas batidas discretas.

— Pode entrar — respondo ao ouvir o som.

Victoria aparece segurando uma pasta azul, está usando uma calça preta, camiseta de algodão branca e um tênis branco. Como alguém pode ficar tão bem com uma roupa “simples”?

Ela sorri daquele jeito cuidadoso, sinal de que não quer me irritar ou me ofender. Isso já é um bom começo.

— Bom dia — me cumprimenta.

— Bom dia — respondo um pouco sem vontade.

— Preciso da sua assinatura nesses contratos — tira os papéis de dentro da pasta e estende em minha direção.

Pego a caneta, assino e entrego de volta. Ela continua parada, sem dizer nada, apenas me encarando.

Espero, ergo uma sobrancelha. O que deu nessa mulher?

— Mais alguma coisa? — A questiono.

— Não — responde, sem graça.

         Depois disso, o silêncio reina na sala novamente.

Ela abre a boca, fecha, olha para mim, depois para o teto, em seguida para a pasta. Seu pé direito bate no chão, denunciando sua ansiedade.

— Então... — Tenta falar novamente.

Mas ela para de novo, enquanto isso, eu espero. Cinco segundos. Seis. Sete.

— Era só isso — sua voz sai baixa.

— Certo.

Ela faz um biquinho quase imperceptível antes de sair, mas eu percebo. Assim que a porta fecha, sorrio sozinha, ela claramente queria falar outra coisa.

Não vou facilitar, ela sabe que cometeu um deslize comigo e precisa de coragem se quiser falar sobre ontem.

Dez minutos depois, ouço outra batida.

— Entre — falo e desvio minha atenção do computador em direção à porta.

Victoria entra novamente, agora com um bloco de notas e com a cara mais deslavada possível.

— Esqueci de perguntar se prefere a reunião de quarta às dez ou às onze.

— Dez — sou direta.

— Ah! — Exclama.

 

Ela finge anotar e, depois disso, ela continua parada. Olha discretamente para mim, mas ela não tem coragem de me encarar diretamente.

— Mais alguma coisa? — Pergunto.

— Não. — Mais cinco segundos sem dizer nada.

— Tem certeza? — Insisto.

— Tenho.

Ela suspira e se vira em direção à porta, me deixando sozinha novamente. Volto a me concentrar nas coisas que preciso fazer.

Onze horas, outra batida. Nem levanto os olhos, já sabendo quem entrará.

— Pode entrar.

— Chegou uma encomenda. — Ela fala com uma caixa nas mãos.

— Deixe na mesa — continuo olhando para o computador.

Ela deixa na mesa como eu pedi. Ouço um coçar de garganta, posso ver pela minha visão periférica que ela está me encarando. 

Respiro fundo e olho em sua direção, tentando manter toda a calma do mundo, calma essa que eu não tenho.

— Você não vai abrir? — Pergunta parecendo uma criança na manhã de Natal.

— Eu abro depois — respondo, simples.

Permanece ali, como se procurasse mais uma desculpa para ficar. Respiro fundo.

— Victoria.

— Hm? — Posso ver esperança em seu olhar.

— Você pretende criar raízes na minha sala?

— Nossa, tão feia assim? Prefiro outros lugares.

Quase rio. Quase. É tão engraçado vê-la nessa situação.

— Tem mais alguma coisa? — Pergunto pela milésima vez.

Ela coça a nuca, abre a boca novamente, mas nada diz.

— Não.

— Então pode voltar ao trabalho — aponto para a porta.

— Sim, senhora. 

Ela sai, dessa vez batendo o pé mais forte no chão. Quem vê uma mulher desse tamanho não imagina o quanto ela pode se parecer com a filha de sete anos quando é contrariada.

Onze e quarenta, novas batidas. Não acredito que ela vai entrar aqui de novo.

Ela nem espera meu comando para entrar, até porque eu já estou a ponto de não autorizar. Ela aparece segurando uma xícara.

— Café — Sorri.

— Eu não pedi café.

— Eu sei — ela coloca na minha mesa. — Achei que você podia querer.

Olho para a xícara, depois para ela. Nos anos em que trabalhamos juntas, ela nunca me ofereceu café de livre e espontânea vontade.

— Obrigada.

— De nada — coloca a xícara sobre a mesa.

Silêncio, mas dessa vez ela pigarreia. A olho e aguardo o que ela tem a dizer.

— Marcela.

Olho em seus olhos, ela prende a respiração. Por um segundo, acho que finalmente vai falar sobre ontem ou sobre o que quer que seja que ela está querendo dizer. 

— Nada — seus ombros caem.

Fecho os olhos por um instante, eu não entendo essa mulher, e vou ficar louca tentando entender.

— Você veio até aqui para dizer “nada”? — Digo, sarcástica.

— Basicamente — solta um sorriso sem graça.

— Impressionante — volto minha atenção para meu computador.

— Você já me tratou melhor. — Diz, chateada.

— Também já tratei pior — minha voz sai mais impaciente do que o esperado — e estou me controlando para não fazer isso.

Ela franze o nariz, abre a boca em um perfeito O, mas não me retruca.

— Tá bom.

Sai outra vez e, assim que fecha a porta, ri baixo. Ela está ficando desesperada.

Pouco depois do almoço. Nova batida, nem respondo, ela entra assim mesmo. Cruza os braços e permanece em pé diante da minha mesa.

Espero, ela espera também. Ficamos quase um minuto em silêncio, até que ela perde a paciência.

— Tá — bufa e coloca as duas mãos na cintura.

— Tá o quê? — Levanto os olhos lentamente.

— Agora vai ser assim? — questiona.

— Assim como? — Inclino a cabeça.

— Você fingindo que eu não existo — diz, como se fosse óbvio.

— Não estou fingindo — me recosto em minha cadeira para encará-la melhor.

— Está sim.

— Não.

— Está!

— Victoria, eu assinei oito contratos, respondi a quarenta e dois e-mails e aprovei duas capas hoje. Me parece que reconheci muito bem a sua existência quando você entrou aqui quatro vezes sem motivo.

Ela abre a boca e fecha, ela faz muito isso quando está pensando no que falar.

— Foram cinco. — Aponta um dedo para mim.

— Ah, perdão — digo, irônica.

— Você contou? — Se anima.

— Difícil não contar quando minha secretária resolve transformar minha sala em ponto turístico.

— Você está impossível — revira os olhos.

— Estou trabalhando.

— Está me ignorando — me acusa mais uma vez.

— Sabe o que eu acho engraçado?

— O quê? — Me desafia.

— Achei que era exatamente isso que você queria.

 

— Como assim? — Ela franze a testa.

— Foi você quem disse que nosso contato deveria ser apenas profissional. — Ela desvia o olhar, mas eu continuo. — Foi você quem disse que qualquer assunto entre nós deveria ser relacionado ao contrato.

— Marcela...

— Estou apenas respeitando seu pedido — a interrompo.

— Você sabe que não foi isso. — Tenta se defender.

— Não, eu não sei — perco completamente a paciência. — Você falou isso com todas as letras, fez questão de deixar bem claro, então seja mulher e admita o que você mesma falou.

— Você está distorcendo — começa a andar de um lado para o outro.

— Estou distorcendo? — Me levanto e dou a volta na mesa, me escorando nela e ficando de frente para a Victória. — Então me explique o que você quis dizer, já que entendi errado.

— Você é insuportável — Bufa.

— Já ouvi isso antes — Cruzo os braços — Agora quero que você fale em que entendi errado, ou se eu deveria agir normal depois do que me falou e depois de insinuar que ninguém gostaria de ser minha amiga.

— Conviver com você vai me enlouquecer — passa as mãos pelos cabelos, desesperada.

— E mesmo assim você continua entrando na minha sala.

— Eu te pedi desculpas, eu sei que fui uma babaca. — Solta o ar, se rendendo.

— Tudo bem, está desculpada. — Digo.

— Você não parece estar me desculpando de verdade — insiste. — Você não falou comigo a manhã toda!

— Estamos falando agora — digo, seca.

— Brigando — revira os olhos mais uma vez.

— Ainda é comunicação.

— Meu Deus — ela passa a mão no rosto. — O que você quer que eu faça para me redimir? Eu sei que fui babaca, mas me ignorar não é a solução.

— Já passou, você só falou o que pensa, eu nem deveria me importar.

— Você ainda está brava por causa da brincadeira — Não é uma pergunta.

— Quem disse?

 

— Sua cara.

— Minha cara é essa desde que nasci.

— Você é uma criança — volta a colocar as mãos na cintura e me encarar.

— Diz a mulher que entrou cinco vezes na minha sala, inventando desculpas.

— Eu estava tentando conversar — se explica.

— Sobre?

— Sobre a brincadeira, te pedir desculpas corretamente, e sobre...

Ela trava, fica em silêncio, olha para a janela, depois para mim. Tenta encontrar uma forma de falar o que realmente quer dizer.

— Você sabe — encarou seus pés.

Ah! Então era isso. O beijo, ela realmente queria tocar no assunto. Sinto meu coração acelerar um pouquinho, mas mantenho a postura.

— Não sei — Me faço de desentendida.

— Claro que sabe — fala impaciente.

— Explique.

— Esquece — revira os olhos.

— Com prazer. — Volto a me direcionar para minha cadeira, mas não me sento.

— Você é muito orgulhosa — ela me encara como se quisesse me jogar pela janela.

— E você, muito covarde — A acuso, e minha voz volta a se elevar.

— Covarde? — Ela arregala os olhos.

— Você entra aqui cinco vezes tentando falar alguma coisa e foge todas.

— Porque você fica com essa cara de quem quer me demitir! — Ela abre os braços.

— Dramática.

— Insuportável — ela caminha em minha direção e percebo que estou fazendo o mesmo.

— Sensível — Debocho.

— Mandona — um passo mais perto.

— Teimosa — também dou um passo a mais.

— Controladora.

— Irritante.

Quando me dou conta, estamos frente a frente, muito perto. Victoria desce o olhar para a minha boca no exato momento em que eu umedeço meus lábios com a língua.

Ela aproxima ainda mais seu rosto do meu e eu sei o que está prestes a acontecer e não tenho intenção nenhuma de impedir.

Até que a porta abre, sem autorização. Victoria se afasta tão rápido que isso entrega que estávamos fazendo algo, mas as pessoas já estão sabendo que estamos namorando. Inclusive, foi a maior surpresa. 

— Chefinha! — Solta um sorriso quando vê minha secretária. — Oi, Vic.

Minha cabeça gira automaticamente.

Beatriz.

Marketing.

Sorriso largo demais.

Confiança demais.

Liberdade demais.

Ela entra segurando algumas folhas.

— Você precisa esperar eu autorizar sua entrada.

— Eu bati, mas vocês estavam conversando e...

Passo por ela antes que termine a frase e caminho até a porta.

— Volte — minha voz sai fria. Muito fria.

— Oi? — Ela pisca, confusa.

— Para fora.

Repito, ainda possessa de raiva, vejo Victoria prender a respiração e Beatriz rir sem graça.

 

— Ah! Eu só...

— Para fora — aponto a saída.

Ela obedece, fica parada do lado de fora com um olhar de raiva, mas, se ela acha que me intimida, está muito enganada. Sustento seu olhar.

— Agora tente novamente — ergo uma sobrancelha.

Ela parece completamente perdida, mas faz o que eu mando. Bate duas vezes.

— Posso entrar?

— Agora sim — respiro fundo.

Ela entra bem mais cautelosa, me encarando como se estivesse esperando qualquer movimento meu. Volto para a minha mesa e me sento.

— Primeiramente, eu nunca lhe dei liberdade para entrar na minha sala sem autorização. — Começo, com a voz um pouco mais calma, porém ainda fria.

— Desculpa — ela baixa a cabeça.

— Em segundo lugar — levanto dois dedos enumerando as explicações — Eu também nunca lhe dei intimidade para me chamar de “chefinha”.

O rosto dela perde completamente a cor, percebo ela quase perder as forças em minha frente e, por um instante, acho que ela irá desmaiar.

— Eu... — Tenta se explicar.

— Meu nome aqui é senhora Marcela ou senhora diretora. Dependendo do contexto, apenas “Marcela” em reuniões internas. “Chefinha” não faz parte de nenhuma dessas opções.

— Entendido — ela fica envergonhada — desculpa.

— Da próxima vez, aguarde autorização antes de entrar.

— Sim.

— Algum assunto urgente?

— Aprovação da campanha do lançamento — ela estende as folhas rapidamente.

Pego, assino sem sequer olhar muito e entrego de volta.

— Mais alguma coisa? — A encaro.

— Não.

— Pode ir.

Ela praticamente foge da sala. Assim que a porta fecha, o silêncio toma conta novamente. Olho para Victoria e vejo que ela está tentando esconder um sorriso.

— O quê? — Questiono.

— Nada — ela balança a cabeça.

— Fale.

— Você ficou brava.

 

— Fiquei — solto o ar que nem percebi que tinha prendido.

— Bastante.

— Sim — bufo. — Ela é uma atrevida. Se ela quer me desafiar, vai precisar ter peito para aguentar.

— Achei fofo — ela morde o lábio para não rir.

Ergo uma sobrancelha, não é possível que ela me ache fofa sentindo raiva. Minutos atrás, a raiva era direcionada a ela e não parecia que estava achando fofa.

— Fofo? — Pergunto, incrédula.

— Você defendendo seu espaço.

— Foi falta de educação — me explico.

— Claro — ela sorri daquele jeito impossível.

— Está insinuando alguma coisa?

— Não — faz uma pausa — Só achei curioso que você nunca gostou muito da Beatriz.

— Tenho meus motivos. — Inclino a cabeça.

— Ah!

— O que foi? — Insisto.

— Nada.

— Victoria — respiro fundo e volto a me levantar — Não me faça ficar com raiva de você de novo.

— Não precisa descontar em mim — ela sorri ainda mais.

Dou dois passos em sua direção, ela recua um. Nunca vi alguém tão covarde como essa mulher, e isso começa a me divertir um pouco.

— Está sorrindo por quê?

— Por quê? — Ela morde o lábio novamente. — Você sempre pareceu... um pouquinho...

— Um pouquinho o quê?

— Enciumada.

— Não seja ridícula — solto uma risada curta.

— Claro — prende o riso mais uma vez.

— Não senti ciúmes.

— Uhum — ela segue debochando de mim.

— Nem um pouco.

— Acredito em você. — Ela não acredita - Afinal, estamos bem? Não quero ficar arranjando mil motivos para entrar aqui, eu sei que errei, mas você não precisa me punir eternamente.

— Estamos bem — confesso. — Da próxima vez, é só pedir desculpas, não precisa ficar dando rodeios.

— Combinado — diz, bem mais calma.

Ela dá meia-volta antes que eu consiga responder. Já na porta, olha por cima do ombro, pensa um pouco antes de falar.

— Até mais... senhora diretora.

E vai embora, sem me deixar falar nada. Fico encarando a porta fechada por alguns segundos e depois olho para o café que ela trouxe de manhã.

Está frio, mas o sentimento que sinto ao saber que ela “se preocupou” deixa meu coração quentinho. De uma forma assustadoramente boa.

Fim do capítulo

Notas finais:

Oi, gente...

Espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia!


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