Capitulo 9 - Senhora Diretora
Marcela
Fecho a porta da minha sala um pouco mais forte do que o necessário. Não porque estou irritada, ou, pelo menos, é isso que repito para mim mesma enquanto caminho até minha mesa. Deixo a bolsa sobre a cadeira e organizo uma pilha de originais que já estava perfeitamente organizada.
O problema é que eu não consigo fingir que a noite de ontem foi apenas uma noite qualquer.
A lembrança do restaurante insiste em voltar: as minhas amigas, as provocações, o pedido ridículo “Então beija ela.” e, principalmente, o selinho.
Foi só um selinho, curto, sem intenção, sem significado. Então, por que diabos eu ainda consigo lembrar exatamente da expressão de surpresa da Victoria?
Balanço a cabeça, não vou alimentar esse pensamento.
Pego o notebook e começo a responder e-mails.
Às nove e quinze, a porta é aberta depois de duas batidas discretas.
— Pode entrar — respondo ao ouvir o som.
Victoria aparece segurando uma pasta azul, está usando uma calça preta, camiseta de algodão branca e um tênis branco. Como alguém pode ficar tão bem com uma roupa “simples”?
Ela sorri daquele jeito cuidadoso, sinal de que não quer me irritar ou me ofender. Isso já é um bom começo.
— Bom dia — me cumprimenta.
— Bom dia — respondo um pouco sem vontade.
— Preciso da sua assinatura nesses contratos — tira os papéis de dentro da pasta e estende em minha direção.
Pego a caneta, assino e entrego de volta. Ela continua parada, sem dizer nada, apenas me encarando.
Espero, ergo uma sobrancelha. O que deu nessa mulher?
— Mais alguma coisa? — A questiono.
— Não — responde, sem graça.
Depois disso, o silêncio reina na sala novamente.
Ela abre a boca, fecha, olha para mim, depois para o teto, em seguida para a pasta. Seu pé direito bate no chão, denunciando sua ansiedade.
— Então... — Tenta falar novamente.
Mas ela para de novo, enquanto isso, eu espero. Cinco segundos. Seis. Sete.
— Era só isso — sua voz sai baixa.
— Certo.
Ela faz um biquinho quase imperceptível antes de sair, mas eu percebo. Assim que a porta fecha, sorrio sozinha, ela claramente queria falar outra coisa.
Não vou facilitar, ela sabe que cometeu um deslize comigo e precisa de coragem se quiser falar sobre ontem.
Dez minutos depois, ouço outra batida.
— Entre — falo e desvio minha atenção do computador em direção à porta.
Victoria entra novamente, agora com um bloco de notas e com a cara mais deslavada possível.
— Esqueci de perguntar se prefere a reunião de quarta às dez ou às onze.
— Dez — sou direta.
— Ah! — Exclama.
Ela finge anotar e, depois disso, ela continua parada. Olha discretamente para mim, mas ela não tem coragem de me encarar diretamente.
— Mais alguma coisa? — Pergunto.
— Não. — Mais cinco segundos sem dizer nada.
— Tem certeza? — Insisto.
— Tenho.
Ela suspira e se vira em direção à porta, me deixando sozinha novamente. Volto a me concentrar nas coisas que preciso fazer.
Onze horas, outra batida. Nem levanto os olhos, já sabendo quem entrará.
— Pode entrar.
— Chegou uma encomenda. — Ela fala com uma caixa nas mãos.
— Deixe na mesa — continuo olhando para o computador.
Ela deixa na mesa como eu pedi. Ouço um coçar de garganta, posso ver pela minha visão periférica que ela está me encarando.
Respiro fundo e olho em sua direção, tentando manter toda a calma do mundo, calma essa que eu não tenho.
— Você não vai abrir? — Pergunta parecendo uma criança na manhã de Natal.
— Eu abro depois — respondo, simples.
Permanece ali, como se procurasse mais uma desculpa para ficar. Respiro fundo.
— Victoria.
— Hm? — Posso ver esperança em seu olhar.
— Você pretende criar raízes na minha sala?
— Nossa, tão feia assim? Prefiro outros lugares.
Quase rio. Quase. É tão engraçado vê-la nessa situação.
— Tem mais alguma coisa? — Pergunto pela milésima vez.
Ela coça a nuca, abre a boca novamente, mas nada diz.
— Não.
— Então pode voltar ao trabalho — aponto para a porta.
— Sim, senhora.
Ela sai, dessa vez batendo o pé mais forte no chão. Quem vê uma mulher desse tamanho não imagina o quanto ela pode se parecer com a filha de sete anos quando é contrariada.
Onze e quarenta, novas batidas. Não acredito que ela vai entrar aqui de novo.
Ela nem espera meu comando para entrar, até porque eu já estou a ponto de não autorizar. Ela aparece segurando uma xícara.
— Café — Sorri.
— Eu não pedi café.
— Eu sei — ela coloca na minha mesa. — Achei que você podia querer.
Olho para a xícara, depois para ela. Nos anos em que trabalhamos juntas, ela nunca me ofereceu café de livre e espontânea vontade.
— Obrigada.
— De nada — coloca a xícara sobre a mesa.
Silêncio, mas dessa vez ela pigarreia. A olho e aguardo o que ela tem a dizer.
— Marcela.
Olho em seus olhos, ela prende a respiração. Por um segundo, acho que finalmente vai falar sobre ontem ou sobre o que quer que seja que ela está querendo dizer.
— Nada — seus ombros caem.
Fecho os olhos por um instante, eu não entendo essa mulher, e vou ficar louca tentando entender.
— Você veio até aqui para dizer “nada”? — Digo, sarcástica.
— Basicamente — solta um sorriso sem graça.
— Impressionante — volto minha atenção para meu computador.
— Você já me tratou melhor. — Diz, chateada.
— Também já tratei pior — minha voz sai mais impaciente do que o esperado — e estou me controlando para não fazer isso.
Ela franze o nariz, abre a boca em um perfeito O, mas não me retruca.
— Tá bom.
Sai outra vez e, assim que fecha a porta, ri baixo. Ela está ficando desesperada.
Pouco depois do almoço. Nova batida, nem respondo, ela entra assim mesmo. Cruza os braços e permanece em pé diante da minha mesa.
Espero, ela espera também. Ficamos quase um minuto em silêncio, até que ela perde a paciência.
— Tá — bufa e coloca as duas mãos na cintura.
— Tá o quê? — Levanto os olhos lentamente.
— Agora vai ser assim? — questiona.
— Assim como? — Inclino a cabeça.
— Você fingindo que eu não existo — diz, como se fosse óbvio.
— Não estou fingindo — me recosto em minha cadeira para encará-la melhor.
— Está sim.
— Não.
— Está!
— Victoria, eu assinei oito contratos, respondi a quarenta e dois e-mails e aprovei duas capas hoje. Me parece que reconheci muito bem a sua existência quando você entrou aqui quatro vezes sem motivo.
Ela abre a boca e fecha, ela faz muito isso quando está pensando no que falar.
— Foram cinco. — Aponta um dedo para mim.
— Ah, perdão — digo, irônica.
— Você contou? — Se anima.
— Difícil não contar quando minha secretária resolve transformar minha sala em ponto turístico.
— Você está impossível — revira os olhos.
— Estou trabalhando.
— Está me ignorando — me acusa mais uma vez.
— Sabe o que eu acho engraçado?
— O quê? — Me desafia.
— Achei que era exatamente isso que você queria.
— Como assim? — Ela franze a testa.
— Foi você quem disse que nosso contato deveria ser apenas profissional. — Ela desvia o olhar, mas eu continuo. — Foi você quem disse que qualquer assunto entre nós deveria ser relacionado ao contrato.
— Marcela...
— Estou apenas respeitando seu pedido — a interrompo.
— Você sabe que não foi isso. — Tenta se defender.
— Não, eu não sei — perco completamente a paciência. — Você falou isso com todas as letras, fez questão de deixar bem claro, então seja mulher e admita o que você mesma falou.
— Você está distorcendo — começa a andar de um lado para o outro.
— Estou distorcendo? — Me levanto e dou a volta na mesa, me escorando nela e ficando de frente para a Victória. — Então me explique o que você quis dizer, já que entendi errado.
— Você é insuportável — Bufa.
— Já ouvi isso antes — Cruzo os braços — Agora quero que você fale em que entendi errado, ou se eu deveria agir normal depois do que me falou e depois de insinuar que ninguém gostaria de ser minha amiga.
— Conviver com você vai me enlouquecer — passa as mãos pelos cabelos, desesperada.
— E mesmo assim você continua entrando na minha sala.
— Eu te pedi desculpas, eu sei que fui uma babaca. — Solta o ar, se rendendo.
— Tudo bem, está desculpada. — Digo.
— Você não parece estar me desculpando de verdade — insiste. — Você não falou comigo a manhã toda!
— Estamos falando agora — digo, seca.
— Brigando — revira os olhos mais uma vez.
— Ainda é comunicação.
— Meu Deus — ela passa a mão no rosto. — O que você quer que eu faça para me redimir? Eu sei que fui babaca, mas me ignorar não é a solução.
— Já passou, você só falou o que pensa, eu nem deveria me importar.
— Você ainda está brava por causa da brincadeira — Não é uma pergunta.
— Quem disse?
— Sua cara.
— Minha cara é essa desde que nasci.
— Você é uma criança — volta a colocar as mãos na cintura e me encarar.
— Diz a mulher que entrou cinco vezes na minha sala, inventando desculpas.
— Eu estava tentando conversar — se explica.
— Sobre?
— Sobre a brincadeira, te pedir desculpas corretamente, e sobre...
Ela trava, fica em silêncio, olha para a janela, depois para mim. Tenta encontrar uma forma de falar o que realmente quer dizer.
— Você sabe — encarou seus pés.
Ah! Então era isso. O beijo, ela realmente queria tocar no assunto. Sinto meu coração acelerar um pouquinho, mas mantenho a postura.
— Não sei — Me faço de desentendida.
— Claro que sabe — fala impaciente.
— Explique.
— Esquece — revira os olhos.
— Com prazer. — Volto a me direcionar para minha cadeira, mas não me sento.
— Você é muito orgulhosa — ela me encara como se quisesse me jogar pela janela.
— E você, muito covarde — A acuso, e minha voz volta a se elevar.
— Covarde? — Ela arregala os olhos.
— Você entra aqui cinco vezes tentando falar alguma coisa e foge todas.
— Porque você fica com essa cara de quem quer me demitir! — Ela abre os braços.
— Dramática.
— Insuportável — ela caminha em minha direção e percebo que estou fazendo o mesmo.
— Sensível — Debocho.
— Mandona — um passo mais perto.
— Teimosa — também dou um passo a mais.
— Controladora.
— Irritante.
Quando me dou conta, estamos frente a frente, muito perto. Victoria desce o olhar para a minha boca no exato momento em que eu umedeço meus lábios com a língua.
Ela aproxima ainda mais seu rosto do meu e eu sei o que está prestes a acontecer e não tenho intenção nenhuma de impedir.
Até que a porta abre, sem autorização. Victoria se afasta tão rápido que isso entrega que estávamos fazendo algo, mas as pessoas já estão sabendo que estamos namorando. Inclusive, foi a maior surpresa.
— Chefinha! — Solta um sorriso quando vê minha secretária. — Oi, Vic.
Minha cabeça gira automaticamente.
Beatriz.
Marketing.
Sorriso largo demais.
Confiança demais.
Liberdade demais.
Ela entra segurando algumas folhas.
— Você precisa esperar eu autorizar sua entrada.
— Eu bati, mas vocês estavam conversando e...
Passo por ela antes que termine a frase e caminho até a porta.
— Volte — minha voz sai fria. Muito fria.
— Oi? — Ela pisca, confusa.
— Para fora.
Repito, ainda possessa de raiva, vejo Victoria prender a respiração e Beatriz rir sem graça.
— Ah! Eu só...
— Para fora — aponto a saída.
Ela obedece, fica parada do lado de fora com um olhar de raiva, mas, se ela acha que me intimida, está muito enganada. Sustento seu olhar.
— Agora tente novamente — ergo uma sobrancelha.
Ela parece completamente perdida, mas faz o que eu mando. Bate duas vezes.
— Posso entrar?
— Agora sim — respiro fundo.
Ela entra bem mais cautelosa, me encarando como se estivesse esperando qualquer movimento meu. Volto para a minha mesa e me sento.
— Primeiramente, eu nunca lhe dei liberdade para entrar na minha sala sem autorização. — Começo, com a voz um pouco mais calma, porém ainda fria.
— Desculpa — ela baixa a cabeça.
— Em segundo lugar — levanto dois dedos enumerando as explicações — Eu também nunca lhe dei intimidade para me chamar de “chefinha”.
O rosto dela perde completamente a cor, percebo ela quase perder as forças em minha frente e, por um instante, acho que ela irá desmaiar.
— Eu... — Tenta se explicar.
— Meu nome aqui é senhora Marcela ou senhora diretora. Dependendo do contexto, apenas “Marcela” em reuniões internas. “Chefinha” não faz parte de nenhuma dessas opções.
— Entendido — ela fica envergonhada — desculpa.
— Da próxima vez, aguarde autorização antes de entrar.
— Sim.
— Algum assunto urgente?
— Aprovação da campanha do lançamento — ela estende as folhas rapidamente.
Pego, assino sem sequer olhar muito e entrego de volta.
— Mais alguma coisa? — A encaro.
— Não.
— Pode ir.
Ela praticamente foge da sala. Assim que a porta fecha, o silêncio toma conta novamente. Olho para Victoria e vejo que ela está tentando esconder um sorriso.
— O quê? — Questiono.
— Nada — ela balança a cabeça.
— Fale.
— Você ficou brava.
— Fiquei — solto o ar que nem percebi que tinha prendido.
— Bastante.
— Sim — bufo. — Ela é uma atrevida. Se ela quer me desafiar, vai precisar ter peito para aguentar.
— Achei fofo — ela morde o lábio para não rir.
Ergo uma sobrancelha, não é possível que ela me ache fofa sentindo raiva. Minutos atrás, a raiva era direcionada a ela e não parecia que estava achando fofa.
— Fofo? — Pergunto, incrédula.
— Você defendendo seu espaço.
— Foi falta de educação — me explico.
— Claro — ela sorri daquele jeito impossível.
— Está insinuando alguma coisa?
— Não — faz uma pausa — Só achei curioso que você nunca gostou muito da Beatriz.
— Tenho meus motivos. — Inclino a cabeça.
— Ah!
— O que foi? — Insisto.
— Nada.
— Victoria — respiro fundo e volto a me levantar — Não me faça ficar com raiva de você de novo.
— Não precisa descontar em mim — ela sorri ainda mais.
Dou dois passos em sua direção, ela recua um. Nunca vi alguém tão covarde como essa mulher, e isso começa a me divertir um pouco.
— Está sorrindo por quê?
— Por quê? — Ela morde o lábio novamente. — Você sempre pareceu... um pouquinho...
— Um pouquinho o quê?
— Enciumada.
— Não seja ridícula — solto uma risada curta.
— Claro — prende o riso mais uma vez.
— Não senti ciúmes.
— Uhum — ela segue debochando de mim.
— Nem um pouco.
— Acredito em você. — Ela não acredita - Afinal, estamos bem? Não quero ficar arranjando mil motivos para entrar aqui, eu sei que errei, mas você não precisa me punir eternamente.
— Estamos bem — confesso. — Da próxima vez, é só pedir desculpas, não precisa ficar dando rodeios.
— Combinado — diz, bem mais calma.
Ela dá meia-volta antes que eu consiga responder. Já na porta, olha por cima do ombro, pensa um pouco antes de falar.
— Até mais... senhora diretora.
E vai embora, sem me deixar falar nada. Fico encarando a porta fechada por alguns segundos e depois olho para o café que ela trouxe de manhã.
Está frio, mas o sentimento que sinto ao saber que ela “se preocupou” deixa meu coração quentinho. De uma forma assustadoramente boa.
Fim do capítulo
Oi, gente...
Espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia!
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