Capítulo 82 – O Futuro...
A televisão continuava ligada.
Mas ninguém realmente prestava atenção nela.
Rebeca ocupava o sofá.
As pernas encolhidas.
O livro que Lara emprestara estava aberto sobre o colo.
Janis permanecia sentada no tapete.
Os desenhos espalhados ao redor.
Ela observava um deles.
Depois outro.
Voltava ao primeiro.
Franzia a testa.
Rabiscava alguma coisa.
Apagava.
Suspirava.
Ester sorriu sem tirar os olhos da televisão.
— Dá para ouvir as engrenagens da sua cabeça trabalhando daqui.
Janis levantou os olhos.
Permaneceu alguns segundos em silêncio.
Então perguntou:
— Mãe...
— Hum?
— A senhora acha que eu tenho talento para fazer Belas Artes?
Ester respondeu imediatamente.
— Não é óbvio?
Janis baixou os olhos outra vez.
— Para mim nunca foi.
Dessa vez...
Ester pegou o controle remoto.
Desligou a televisão.
O silêncio tomou conta da sala.
Rebeca ergueu os olhos do livro.
Sabia que alguma coisa importante vinha aí.
Ester cruzou os braços.
— Certo.
Janis piscou.
— Certo o quê?
— Acabei de descobrir que falhei como mãe.
— Que papo é esse?
Ester balançou a cabeça.
— Janis...
Ela esperou até que a filha a olhasse.
— Você é uma das pessoas mais talentosas que eu conheço.
Fez uma pequena pausa.
— Não acredito que tenha passado dezesseis anos sem perceber isso.
Janis abriu a boca.
— Eu...
— Espera.
Ester levantou um dedo.
— Eu sei que você acha a Rebeca a pessoa mais incrível do universo.
A Rebeca ficou imediatamente vermelha.
— Tia...
— Não estou desmerecendo a Rebeca. Ela toca piano de um jeito extraordinário. Mas teve professoras, orientação. Alguém mostrando o caminho.
Apontou para os desenhos espalhados no chão.
— Você pegou um lápis... E saiu desenhando. Ninguém precisou te ensinar a fazer isso.
Silêncio.
— Eu sempre achei que Belas Artes estivesse nos seus planos.
Janis olhou novamente para os desenhos.
Demorou um pouco para responder.
— Eu...
Ela franziu a testa.
— Eu...
Ester soltou uma risada curta.
Sem humor.
— Excelente. Agora descobri que a escola também falhou com você.
Janis piscou.
— O quê?
— Algumas crianças passam tanto tempo ouvindo que são um problema... Que acabam interiorizando isso.
Janis franziu a testa.
— Interio...
Parou no meio da palavra.
— O quê?
Ester sorriu.
— Interiorizar. Quer dizer que você ouviu uma coisa tantas vezes... Que ela virou verdade dentro da sua cabeça.
Janis permaneceu em silêncio.
Ester continuou:
— Você acredita que é um problema. Então não consegue imaginar que seja capaz de fazer coisas que, na sua cabeça, pertencem aos "bonzinhos".
Ela começou a contar nos dedos.
— Entrar na faculdade. Construir uma carreira. Se formar. Dar aula. Expor seus desenhos.
Janis fez uma careta.
— Ah... Tá.
Ester sorriu.
— Está entendendo?
A filha assentiu devagar.
— Um pouquinho.
Ester aproximou-se.
Falou mais baixo.
— Escuta uma coisa.
Esperou até que Janis a olhasse.
— Você pode ser o que quiser. Não apenas porque tem talento.
Sorriu.
— Você tem a mim.
Os olhos da Janis baixaram automaticamente.
Um sorriso pequeno apareceu.
Ester passou a mão de leve em seus cabelos.
— Enquanto eu estiver por aqui... Você vai ter ajuda para ser quem quiser.
Fez uma pausa.
Depois completou, divertida:
— E espero sinceramente que comece a pensar em Belas Artes. Porque... Já comecei a escrever o discurso da sua formatura.
Janis arregalou os olhos.
— Já?
— Claro.
— Mas eu nem passei no vestibular!
— Detalhes.
Janis caiu na gargalhada.
— Mãe!
Ester deu de ombros.
— Você não vai querer perder. Está ficando um discurso muito bonito.
E Janis ficou ali.
Fazendo planos para o futuro.
***
A porta se abriu.
Rebeca sorriu.
— Bom dia, professora.
Helba usava uma calça jeans clara, uma camiseta branca e os cabelos presos em um coque meio desfeito.
Sem maquiagem.
Sem os brincos elegantes que costumava usar nas aulas.
Por um instante, Rebeca teve a impressão de estar conhecendo outra pessoa.
Helba sorriu e caminhou até o portão.
— Finalmente.
Antes que conseguissem destrancar a fechadura, três pequenos cachorros da raça Pug surgiram correndo e latindo.
— Eu avisei que eles estavam carentes.
Helba destrancou o portão e abriu o suficiente para dar passagem para as meninas e para Ester.
— Estes são Mozart, Beethoven e Chopin.
Os três se intercalavam entre uma e outra, tentando brincar com Rebeca, Janis e Ester ao mesmo tempo.
Janis quase perdeu o equilíbrio quando um deles apoiou as patas em suas pernas.
— Ah... Você quer ser meu amigo, é?
O rabinho do cachorro começou a balançar.
— Eu acho que sim. Tá balançando essa bunda pra mim.
Rebeca revirou os olhos.
— Você endoidou?
— Não liga pra ela.
Janis faz carinho no cachorro.
— A Rebeca é ciumenta.
— JANIS!
— Tudo bem você ser meu amigo.
Pausa.
— Só não pode pedir pra eu te fazer uma tatuagem.
Rebeca ficou vermelha até a raiz dos cabelos.
— Cala essa boca.
Mozart se afastou um pouco do grupo para buscar uma bolinha. Quando ele retornou, Helba aproveitou o ensejo para convidar Ester para entrar.
— Que tal vocês duas brincarem um pouco com os três. Ester e eu vamos tomar um pouco de chá e conversar.
Janis e Rebeca correram pelo quintal, sendo seguidas de perto por Mozart, Beethoven e Chopin. Era difícil dizer quem fazia mais barulho. Os três Pugs ou as duas meninas.
Helba e Ester entraram na casa em silêncio.
Pela janela da cozinha, as duas conseguiam observar o quintal.
Mozart atravessou o gramado em disparada.
Chopin foi atrás.
Beethoven resolveu perseguir os dois.
Cinco segundos depois...
Os três estavam completamente perdidos.
Janis gargalhava.
Rebeca tentava convencer um deles a devolver um graveto.
— Beethoven!
O cachorro a ignorou solenemente.
E continuou correndo.
Helba colocou duas xícaras sobre a mesa.
— Chá?
— Com prazer.
As duas permaneceram alguns segundos observando a cena.
Ester sorriu.
— Faz tempo que não vejo a Janis rir desse jeito.
Helba acompanhou o olhar de Ester.
— Ela me impressionou.
— A Janis?
— Muito.
Silêncio.
— Não apenas porque desenha bem. Ela tem uma sensibilidade incomum.
Fez uma pequena pausa.
— É cuidadosa com as pessoas. Escuta antes de responder. Observa mais do que fala.
Sorriu.
— Ama sem fazer alarde.
Ester sorriu discretamente.
— Sempre foi assim.
— E tem outra coisa.
Helba apoiou a xícara sobre o pires.
— Ela é muito responsável.
Ester riu.
— Às vezes até demais.
— Exatamente.
Olhou novamente para Janis.
— Trabalha. Estuda. Ajuda em casa. Cuida da Rebeca sem que ninguém peça.
Silêncio.
— E faz tudo isso como se fosse absolutamente normal.
A expressão da Ester mudou um pouco.
Helba percebeu.
— O que foi?
Ester soltou um pequeno suspiro.
— Acho que ela nunca teve muita escolha.
As duas permaneceram em silêncio por alguns instantes.
Foi Helba quem voltou a falar.
— O que mais me impressiona... É que ela parece não fazer ideia de quem é.
Ester sorriu sem humor.
— Não faz.
— Ela acredita que desenhar daquele jeito é normal.
— Sempre acreditou.
Helba balançou lentamente a cabeça.
— Não é.
Olhou novamente para a amiga.
— A Janis é uma dessas pessoas raras que carregam qualidades extraordinárias com uma naturalidade tão grande... Que acabam achando que todo mundo também é assim.
Ester olhou pela janela.
A filha agora corria atrás dos cachorros.
Ria.
Gritava o nome deles.
Parecia muito menor do que realmente era.
— Ela ainda se vê como a menina bagunceira da escola.
Helba sorriu.
— Pois eu vejo uma artista.
Fez uma pequena pausa.
— E uma mulher muito bonita se formando.
Helba observou as meninas pela janela outra vez.
Janis tentava convencer Chopin a buscar uma bolinha.
Rebeca ria tanto que quase caiu no chão.
Helba sorriu.
— Acho que ela precisa de uma educação artística formal.
Ester permaneceu em silêncio.
— Mas não apenas numa escola.
Olhou novamente para o quintal.
— Acho que a rotina de um ateliê faria muito bem a ela.
Ester voltou-se para a amiga.
— Como assim?
Helba tomou um gole do chá.
— Um ateliê ensina coisas que nenhuma faculdade consegue ensinar.
Fez uma pequena pausa.
— Como receber um cliente. Como ouvir uma crítica. Como escolher um papel. Como errar um desenho e começar de novo.
Sorriu.
— Como viver de arte.
Ester assentiu lentamente.
— Faz sentido.
Foi então que Helba continuou.
— Conhece o Dois Tons?
— Conheço de nome.
Helba assentiu.
— Os proprietários são meus amigos e eu conversei com o Rui e a Samira ontem.
Ester arqueou uma sobrancelha.
— Ontem?
— Quase meia-noite.
Ester começou a rir.
— O que fez com seu bom senso?
— Nunca tive.
As duas riram.
Depois Helba voltou ao assunto.
— Contei sobre a Janis. Mostrei um desenho. Expliquei quem ela era. E fiz uma proposta.
Ela contou calmamente como imaginava a rotina no Dois Tons.
O trabalho.
Os horários.
O aprendizado.
O ambiente.
Quando terminou...
Ester permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois sorriu de lado.
— Tem um problema.
— Qual?
— A Janis é orgulhosa demais para aceitar ajuda.
Helba sorriu imediatamente.
— Eu ficaria decepcionada se não fosse.
Ester arqueou uma sobrancelha.
— Ficaria?
— Muito.
Ela apoiou a xícara sobre a mesa.
— Orgulho também pode ser dignidade. E a Janis tem isso de sobra.
Silêncio.
— Justamente por isso... Ela nunca vai saber que essa conversa aconteceu.
Ester a encarou.
— Como?
— Ela vai acreditar que conquistou aquele lugar sozinha.
Fez uma pequena pausa.
— Porque foi exatamente isso que aconteceu.
Ester sorriu.
— Mas houve interferência.
Helba balançou a cabeça.
— Houve uma ponte. Não um empurrão.
Olhou novamente para o quintal.
Janis agora ajudava a Rebeca a limpar as patas enlameadas de Mozart antes que ele entrasse em casa.
Helba sorriu.
— Ela desenha porque tinha talento. Entrou na vida da Rebeca porque tinha sensibilidade. Vai entrar no Dois Tons pelos mesmos motivos.
Olhou novamente para Ester.
— Eu apenas conheço as pessoas certas.
Ester permaneceu alguns segundos observando a filha.
Depois perguntou:
— E quando ela descobrir?
Helba sorriu.
— Espero que descubra muitos anos depois.
— Por quê?
— Porque, até lá... Ela já terá aprendido que pertence àquele lugar. Não por minha causa. Nem por causa do Rui. Nem da Samira. Mas porque trabalhou, estudou e construiu o próprio caminho.
Silêncio.
Ester sorriu.
Um sorriso cheio de orgulho.
— Então...
Vamos deixar que ela descubra isso sozinha.
Helba levantou a xícara.
— Combinado.
Ester terminou o último gole de chá.
Colocou a xícara sobre o pires.
Levantou-se.
— Bom... Já vou indo.
Helba também se levantou.
— Não quer ficar para o almoço?
Ester balançou a cabeça.
— Não.
Olhou pela janela.
As duas atravessavam o quintal em disparada.
Mozart corria atrás da Rebeca.
Chopin havia decidido perseguir uma folha.
Beethoven latia para absolutamente ninguém.
Rebeca gargalhava.
Janis tentava convencer os três de que um graveto não era comida.
Helba sorriu.
— Achei que elas estivessem se divertindo.
— Estão.
— Então por que ir embora?
Ester colocou a bolsa no ombro.
— Porque, enquanto eu estiver aqui... Elas vão ficar inibidas.
Helba olhou novamente para o quintal.
Uma das meninas acabara de tropeçar na outra.
As duas caíram na grama.
Os três pugs aproveitaram para subir em cima delas.
Helba levantou lentamente uma sobrancelha.
— Elas estão inibidas?
Ester acompanhou a cena.
Sorriu.
— Estão.
Fez uma pequena pausa.
— E vai ser muito mais divertido quando resolverem se soltar.
Helba riu.
— Tenho um certo receio de descobrir o que você considera "se soltar".
Ester caminhou até a porta.
— Eu também.
As duas trocaram um sorriso.
— Até mais, Helba.
— Até.
Antes de entrar no carro, Ester olhou mais uma vez para o quintal.
Janis acabara de colocar Beethoven no colo.
Rebeca tentava ensinar Mozart a dar a pata.
Nenhum dos dois cachorros parecia disposto a colaborar.
Ester sorriu sozinha.
— Aproveita, filha...
Murmurou baixinho.
— Você merece um domingo assim.
Entrou no carro.
Deu partida.
E foi embora.
Fim do capítulo

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