Capítulo 81

Capitulo 81 - Doutor Carvalho

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 81 – Doutor Carvalho.
 
O espelho refletia um rapaz de dezessete anos tentando, sem muito sucesso, domar um fio de cabelo que insistia em ficar de pé. 
Depois da terceira tentativa, ele desistiu. 
— Você venceu. 
Vestiu o jaleco branco cuidadosamente dobrado sobre a bancada. 
No bolso esquerdo, um bordado azul chamava atenção. 
Dr. Carvalho. 
Pegou o estojo do saxofone. 
Conferiu o crachá pendurado no pescoço. 
Respirou fundo. 
Então abriu a porta. 
No corredor, três figuras já o aguardavam. 
Lívia, vestida de bailarina. 
Clara, com asas de fada presas às costas. 
E Sofia, uma princesa cuja coroa parecia desafiar todas as leis da física. 
Lívia sorriu. 
— Preparado? 
Júnior colocou a mão no bolso do jaleco. 
Retirou um pequeno nariz vermelho. 
— Eu já nasci preparado. 
Assim que atravessaram a porta da brinquedoteca, o Dr. Carvalho entrou em cena. 
O saxofone rompeu o burburinho da sala. 
Algumas crianças começaram a bater palmas. 
Outras tentavam adivinhar de onde vinha aquela música. 
Uma menina de cabelos cacheados aproximou-se devagar. 
— Doutor... 
— Hum? 
— Seu sax também toma remédio quando fica gripado? 
Júnior fingiu pensar. 
— Só xarope de notas musicais. 
Ela gargalhou. 
Poucos minutos depois, o chão já estava tomado por desenhos, bolhas de sabão, músicas improvisadas e crianças correndo de um lado para o outro. 
A manhã passou sem que nenhum deles percebesse. 
Quando finalmente deixaram o hospital, o relógio já marcava pouco depois do meio-dia. 
— Estou morrendo de fome. — resmungou Sofia. 
— Eu também. — respondeu Clara. 
Lívia apontou para o outro lado da rua. 
— Cachorro-quente? 
Ninguém discordou. 
A pequena barraquinha em frente ao hospital já conhecia o grupo. 
— Os quatro de sempre? 
— Capricha na batata-palha! — pediu Sofia. 
Enquanto esperavam os lanches, lembravam das crianças. 
— O Pedro quase fugiu com o seu sax. — comentou Lívia. 
Júnior riu. 
— Se ele aprendesse a tocar, eu deixava. 
— A Melissa perguntou se fada podia voar de metrô. — contou Clara. 
— E o que você respondeu? 
— Que depende da tarifa. 
Os quatro caíram na gargalhada. 
Sofia olhou o relógio. 
— Vamos correr. 
Daqui a pouco começa o ensaio. 
A igreja ocupava um prédio simples, cercado por árvores. 
Ainda do lado de fora já era possível ouvir um teclado sendo afinado. 
Júnior abriu o estojo do saxofone enquanto caminhava. 
Entrou cumprimentando algumas pessoas pelo nome. 
Uma senhora lhe entregou um pedaço de bolo embrulhado em guardanapo. 
— Você vai esquecer de almoçar de novo. 
— Nunca esqueço. Só adio. 
Ela balançou a cabeça, divertida. 
Júnior sorriu. 
Guardou o bolo dentro da mochila. 
Nem sempre aquela fora sua comunidade. 
Durante boa parte da infância acompanhara os pais em outra igreja. 
Ainda guardava carinho pelas pessoas de lá. 
Mas crescera. 
E, junto com o corpo, cresceram perguntas para as quais não encontrava resposta. 
Enquanto os amigos falavam das meninas de quem gostavam, Júnior percebia que seu coração seguia outro caminho. 
No início, acreditou que fosse apenas uma fase. 
Esperou. 
Rezou. 
Tentou ignorar. 
Mas o tempo apenas tornava aquela certeza mais clara. 
O problema nunca foi descobrir de quem gostava. 
O problema era acreditar que talvez não houvesse espaço para alguém como ele no lugar onde aprendera a amar a Deus. 
Foi um tempo difícil. 
Vieram a ansiedade. 
Vieram dias em que levantar da cama parecia uma tarefa maior do que qualquer ensaio de dança. 
Vieram perguntas que ele não tinha coragem de fazer em voz alta. 
"Será que Deus ainda me ama?" 
Demorou. 
Muito. 
A terapia foi o primeiro lugar onde conseguiu colocar aquelas perguntas para fora. 
Depois vieram as conversas com os pais. 
Difíceis. 
Cheias de lágrimas. 
Mas também cheias de amor. 
Aos poucos, descobriu que não precisava escolher entre a fé, a arte e quem era. 
Ainda havia dias complicados. 
Mas já não caminhava sozinho. 
Sorriu enquanto encaixava cuidadosamente o bocal do saxofone. 
Olhou ao redor. 
Naquele salão, encontrara uma comunidade onde não precisava esconder partes de si. 
Ali... 
Sua fé respirava em paz. 
O maestro levantou a mão. 
O ensaio começou. 
O ensaio terminou pouco antes das cinco. 
Depois de guardar os instrumentos, os quatro seguiram caminhando até a estação de metrô. 
Sem pressa. 
Lívia caminhava de costas, tentando convencer Clara de que conseguia desviar das pessoas sem olhar. 
— Você vai bater em alguém. 
— Confia. 
Três segundos depois... 
Pof. 
Ela esbarrou em um poste. 
Sofia caiu na gargalhada. 
— O poste ganhou. 
Júnior apenas balançou a cabeça. 
— Você perdeu para um objeto imóvel. 
— Não comenta. 
Ao passarem por uma banca de doces... 
Clara parou imediatamente. 
— Cocada. 
Sofia sorriu. 
— Você sempre para aqui. 
— Porque sempre tem cocada. 
Era um argumento difícil de contestar. 
Enquanto Clara escolhia os doces, Júnior atravessou alguns passos. 
Na calçada ao lado, um senhor organizava livros usados sobre uma lona azul. 
Sem pensar duas vezes, ajoelhou-se. 
Começou a folhear os títulos. 
Machado de Assis. 
Agatha Christie. 
Júlio Verne. 
Um atlas completamente desatualizado. 
Um livro de receitas da década de oitenta. 
Sofia aproximou-se. 
— Vai comprar mais livro? 
— Talvez. 
— Você já não tem lugar para guardar os que comprou no mês passado. 
— Lugar a gente inventa. 
O vendedor sorriu. 
— Esse aí chegou hoje. 
Entregou-lhe um livro de tirinhas do Snoopy já bastante gasto. 
Júnior virou algumas páginas. 
Cheirou o papel. 
Sorriu. 
— Quanto? 
Poucos metros adiante... 
Um rapaz tocava violino próximo à entrada da estação. 
As pessoas passavam depressa. 
Quase ninguém diminuía o passo. 
Júnior, no entanto, parou. 
Ficou alguns segundos apenas ouvindo. 
Quando a música terminou... 
Colocou uma nota dentro do estojo aberto. 
O violinista agradeceu com um aceno. 
Júnior respondeu com outro. 
E voltou a caminhar. 
Na entrada do metrô, os quatro finalmente se despediram. 
— Até semana que vem! 
— Até! 
Cada um seguiu para uma plataforma diferente. 
Júnior colocou os fones de ouvido. 
E deixou que a cidade continuasse seu caminho ao redor dele 
O metrô ficava a poucas quadras da igreja. 
Mas o condomínio dos Carvalho... 
Não. 
Ainda havia um bom pedaço de cidade entre um e outro. 
Júnior nunca se importou. 
Gostava daquele caminho. 
Era sempre diferente. 
Na primeira esquina, diminuía o passo diante de uma enorme loja de piscinas. 
As vitrines mudavam quase toda semana. 
Parava por alguns segundos. 
Tentava descobrir quais modelos tinham sido vendidos. 
— Essa é nova... 
Murmurou para si mesmo. 
Sorriu. 
E voltou a caminhar. 
Alguns quarteirões adiante, vinham as concessionárias. 
Carros tão brilhantes que pareciam nunca ter visto uma estrada. 
Júnior observou um esportivo vermelho. 
Balançou a cabeça. 
— Pra que tanta velocidade... 
Sorriu sozinho. 
— ...se ninguém chega a lugar nenhum mais cedo? 
Continuou andando. 
Na praça seguinte... 
Um casal caminhava de mãos dadas. 
Mais adiante, um senhor passeava com um dachshund teimoso que se recusava a seguir qualquer direção lógica. 
Do outro lado da avenida, um grupo fazia cooper. 
Uma menina ensinava um garotinho a andar de bicicleta. 
Júnior diminuía o passo sem perceber. 
Gostava de olhar as pessoas. 
Gostava de imaginar suas histórias. 
Gostava daquela cidade. 
Principalmente quando ela deixava de parecer apressada. 
Alguns quarteirões depois, entrou no condomínio. 
O porteiro levantou os olhos do jornal. 
— Boa tarde, Júnior. 
— Boa tarde, seu Antônio. 
— Como foi o hospital? 
Júnior sorriu. 
— Hoje teve até banda. 
— Então foi um sucesso. 
— Acho que sim. 
Acenou. 
Seguiu caminhando pelas alamedas arborizadas. 
Algumas crianças brincavam perto do parquinho. 
Um casal conversava sentado em um banco. 
Alguém fazia churrasco em alguma varanda. 
O cheiro de carvão já começava a tomar conta do lugar. 
Júnior assoviava baixinho. 
O estojo do saxofone balançava nas costas. 
As mãos nos bolsos. 
Nenhuma pressa. 
Dobrou a última esquina. 
A garagem da casa estava aberta. 
Olhou rapidamente para dentro enquanto passava. 
Continuou andando. 
Subiu os dois degraus da varanda. 
Levou a mão até a maçaneta. 
Parou. 
Piscou. 
Franziu a testa. 
— Espera... 
Virou lentamente a cabeça. 
Voltou alguns passos. 
Olhou novamente para a garagem. 
Silêncio. 
No meio dela... 
Estava a bicicleta da Rebeca. 
Ele arregalou os olhos. 
— Mãe? 
Deu um passo na direção da bicicleta. 
— Nada disso! 
A voz da Miriam ecoou da cozinha. 
Ela apareceu na porta com um pano de prato nas mãos. 
— Nem pense em encostar. 
Júnior apontava para a bicicleta como um arqueólogo que acabara de encontrar um fóssil. 
— Mas... 
— Já tivemos problemas suficientes por um dia causados por esta... 
Ela apontou para a bicicleta, mas não encontrou a palavra que procurava. 
Augusto apareceu logo atrás: 
— Evidência? 
Miriam olhou feio pra ele. 
— Augusto... 
— O quê? 
— Não abuse. 
Ele sorriu. 
— Só estou zelando pela terminologia. 
Júnior olhava de um para o outro completamente perdido. 
— Evidência? 
Augusto cruzou os braços. 
— Você perdeu uma boa. 
Se soubesse o que encontraria quando voltasse para casa, talvez tivesse prestado menos atenção às vitrines. 
*** 
Júnior ainda estava rindo quando entrou no quarto. A aventura da prima era exatamente o que a família Carvalho precisava. Pelo menos, essa era a opinião do garoto. 
O sorriso morreu assim que os olhos de Júnior caíram nas estantes.  
Júnior estava segurando o livro do Snoopy. 
Olhou para a estante. 
Depois para o livro. 
Depois para a estante outra vez. 
Suspirou. 
— Vamos fingir que ainda existe espaço. 
Ele tentou encaixar. 
Não coube. 
Puxou um livro. 
Empurrou outro. 
Uma pilha ameaçava tombar. 
Ele segurou com o ombro. 
Outra pilha inclinou para o lado oposto. 
— Calma... calma... 
Silêncio. 
Tudo parou de balançar. 
Ele sorriu, satisfeito. 
Cinco segundos depois... 
Tum. 
Um livro caiu no chão. 
— Traidor. 
Jogou o livro caído em cima da cama e pegou uma muda de roupa. 
Entrou no banheiro. 
Dez minutos depois desceu a escada ainda enxugando os cabelos com a toalha. 
 
A cozinha já não pertencia a ninguém. 
A família trabalhava em conjunto. 
Miriam lavava as folhas da salada enquanto Augusto terminava de grelhar a carne. 
Júnior entrou na cozinha. 
— Precisam de ajuda? 
— As laranjas. — respondeu Miriam, apontando para a fruteira. 
Ele pegou a sacola e começou a cortá-las ao meio. 
Poucos minutos depois, o som da panela de arroz se misturava ao chiado da carne, ao barulho da torneira e às conversas que atravessavam a cozinha sem destino certo. 
Ninguém parecia ter uma função fixa. 
Quando Miriam terminava a salada, Augusto já colocava a mesa. 
Enquanto Júnior espremia as últimas laranjas, a mãe experimentava o arroz. 
— Falta sal? 
Ela estendeu a colher. 
Júnior provou. 
— Pra mim está bom. 
Em poucos minutos, as travessas começaram a ocupar seus lugares. 
Arroz. 
Salada. 
Carne. 
Uma jarra de suco ainda gelada. 
Nada extravagante. 
Mas cada prato carregava um pouco das mãos de quem estava ali. 
Naquela casa, a refeição nunca começava quando todos se sentavam à mesa. 
Começava bem antes. 
Começava quando alguém lavava a primeira folha de alface, outro colocava o arroz no fogo, um terceiro perguntava se faltava alguma coisa. 
Era ali, entre panelas, risadas e pequenas tarefas divididas sem que ninguém precisasse pedir, que a família se reunia pela primeira vez naquele dia. 
Só depois vinham os pratos. 
Assim que começaram o comer, Júnior falou: 
— Acho que vou ter que parar de comprar livros... 
Miriam e Augusto ergueram os olhos ao mesmo tempo. 
— O espaço do quarto acabou. — completou Júnior. 
— Acabou? — perguntou Miriam. 
— Não cabe mais nada nas estantes. 
— Ainda tem espaço na estante do nosso quarto. — respondeu ela. — O que você tem contra o nosso quarto? 
Augusto sorriu. 
— Engraçado... quando tinha sete anos e acordava de madrugada por causa dos pesadelos, era justamente lá que você se enfiava. 
Júnior abriu um pequeno sorriso. 
— Nada contra. Só gosto de organizar minhas coisas do meu jeito. 
Miriam arqueou uma sobrancelha. 
— Você chama aquilo de organizar? 
— Chamo. 
— Livros empilhados uns sobre os outros, parecendo a Torre de Pisa? 
— Exatamente. 
Augusto apoiou o garfo sobre o prato, pensativo. 
— Acho que dá para improvisar uma estante no seu estúdio de dança. 
Júnior olhou para ele imediatamente. 
— Se isso acontecer, serei eternamente grato. 
— Eternamente? 
— Até eu comprar livros demais de novo. 
— Em breve vamos ter o mesmo problema com a Rebeca. — comentou Miriam enquanto passava a travessa de arroz. 
Augusto soltou uma risada. 
— Quem sabe a gente instala um bagageiro na bicicleta dela? 
Júnior ergueu os olhos. 
— Bagageiro? 
— Ué. Se ela aprender a equilibrar bem os livros, acho que não atrapalha a pilotagem. 
Miriam lançou um olhar demorado para o marido. 
— Não incentiva. 
— Estou sendo prático. 
— Você está sendo Augusto. 
Júnior riu. 
— E por falar em bicicleta... 
— Não. 
— Mas eu nem terminei a frase. 
— Não terminou porque eu já sei qual é o resto. 
— Mãe... 
— Não. 
Júnior apoiou o garfo sobre o prato. 
— A senhora está contrariando o propósito do próprio objeto. Que graça tem ganhar uma bicicleta e não poder andar nela? 
Miriam permaneceu impassível. 
— Pense naquela bicicleta como um carro de luxo. 
Ele franziu a testa. 
— Comparação péssima. 
— É a que você tem. 
Augusto fez um gesto conciliador. 
— Eu achei criativa. 
— Claro que achou. — respondeu Miriam. 
A conversa mudou de assunto naturalmente. 
Entre uma garfada e outra, falaram da igreja, de um paciente engraçado do hospital e de um novo espetáculo de dança que Lívia queria montar. 
Quando o jantar terminou, Júnior começou a recolher os pratos. 
— Deixa que eu lavo. 
Miriam suspirou. 
— Preciso dizer "não" outra vez? 
— Eu não vou andar na bicicleta. 
Ela estreitou os olhos. 
— Júnior... 
— Estou falando sério. 
Ele abriu a torneira. 
Lavou um prato. 
Depois outro. 
Enxaguou os copos. 
Secou as mãos. 
Assobiava baixinho enquanto organizava tudo no escorredor. 
Miriam permaneceu na cozinha, segurando uma xícara de chá. 
Observava o filho por cima da borda da caneca. 
Cinco minutos. 
Nada. 
Mais cinco. 
Continuava lavando a louça como se fosse a única missão da noite. 
Na sala, Augusto aumentou um pouco o volume da televisão. 
— Vem assistir. 
Ela lançou um último olhar desconfiado para o filho. 
— Se eu descobrir que você... 
— Eu não vou andar na bicicleta. 
Ela resolveu acreditar. 
Ou, pelo menos, fingir que acreditava. 
Entrou na sala. 
A conversa da televisão logo substituiu o barulho da torneira. 
Júnior esperou alguns segundos. 
Olhou discretamente para a porta da sala. 
Sorriu. 
— Eu realmente não vou andar... 
Subiu para o quarto sorrateiramente e de dentro do closet tirou um pequeno objeto: uma caixa de som. 
Desceu silenciosamente pela escada da cozinha. 
Abriu a porta que dava acesso à garagem. 
A bicicleta permanecia exatamente onde Miriam a deixara. 
Ele colocou uma pequena caixa de som sobre o banco. 
Abriu uma gaveta da bancada. 
Pegou alguns enforca-gatos. 
Trabalhou por dois ou três minutos. 
Apertou o último. 
Puxou a caixa de som para conferir se estava firme. 
Nem se mexeu. 
Deu dois passos para trás. 
Cruzou os braços. 
Inclinou a cabeça para um lado, admirando a própria obra. 
Um sorriso satisfeito apareceu no rosto. 
— Pronto. 
Fez um carinho no guidão. 
— Agora ficou perfeita. 
 
 

 

Fim do capítulo

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