Capitulo 80 – Dois Tons
Capítulo 80 – Dois Tons.
O carro parou diante de uma casa simples.
Helba desligou o motor.
Olhou o relógio.
23h57.
Sorriu.
— Ainda está cedo.
Ela desceu.
Tocou a campainha.
Uma vez.
Duas.
Lá dentro...
Uma luz acendeu.
O relógio da sala marcava quase meia-noite quando a campainha tocou.
Lá dentro, ouviu-se o barulho de chinelos arrastando pelo piso.
A porta se abriu.
Samira apareceu primeiro, usando um roupão azul e o cabelo preso às pressas.
Ao reconhecer Helba, arqueou uma sobrancelha.
— Morreu alguém?
— Não.
— Aconteceu alguma tragédia?
— Ainda não.
Samira deu um passo para o lado.
— Então entre.
Antes mesmo que Helba terminasse de atravessar a porta, Rui surgiu no corredor, bocejando.
— Você sabe que horas são?
Helba olhou o relógio de pulso.
— Sim.
— E resolveu vir mesmo assim?
Ela sorriu.
— Sou uma mulher decidida e gosta de resolver as coisas o mais rápido possível.
Rui suspirou.
— Isso significa trabalho.
— Significa uma conversa.
Os três seguiram até a sala.
Samira preparou café enquanto Rui se acomodava no sofá.
Helba retirou uma folha de papel da bolsa.
Colocou-o cuidadosamente sobre a mesa.
Um retrato.
Samira pegou o desenho primeiro.
Permaneceu em silêncio.
Rui aproximou-se.
Observou por cima do ombro da esposa.
A menina retratada lia um livro.
Os cabelos caíam naturalmente sobre o rosto.
Havia um sorriso discreto.
Quase imperceptível.
Nenhum efeito exagerado.
Nenhuma pose.
Apenas um instante comum.
E, justamente por isso...
Cheio de vida.
Samira virou a folha.
Não havia assinatura.
— Quem fez isso?
— Uma menina chamada Janis.
— Quantos anos?
— Dezesseis.
— Estuda?
— Ensino médio.
— Fez curso com quem?
— Ninguém.
Samira ergueu lentamente os olhos.
— Ninguém?
Helba balançou a cabeça.
— Absolutamente ninguém.
Samira voltou ao desenho.
— Ela enxerga muito bem...
Rui ficou alguns segundos observando.
— E conhece essa menina muito bem.
Helba sorriu.
— Conhece.
Rui devolveu a folha à mesa.
— Por que isso é tão importante para você?
Helba respirou fundo.
Os olhos permaneceram sobre o retrato.
— Não faz muito tempo...
Ela sorriu discretamente.
— Uma menina apareceu na minha sala de música.
Samira ouviu em silêncio.
— O tamanho do talento bruto que havia dentro dela não combinava com o tamanho do corpo.
Sorriu.
— Então eu fiz o que qualquer professora faria... Acolhi.
Fez uma pequena pausa.
— Aos poucos... Fui conhecendo alguns detalhes da vida dela.
Olhou novamente para o desenho.
— E a Janis é um deles.
Samira inclinou levemente a cabeça.
— Elas são...
Helba sorriu antes mesmo da pergunta terminar.
— Almas gêmeas.
Rui levantou os olhos do desenho.
Helba continuou.
— Jovens demais... Para já terem enfrentado tantas coisas.
Silêncio.
— Mas seguem caminhando. Juntas.
Samira voltou a observar o retrato.
Depois perguntou baixinho:
— Elas são um casal?
Helba assentiu.
— São.
Samira sorriu.
Um sorriso sereno.
— Então a vida provavelmente já começou a testá-las antes da hora.
Helba apenas concordou com um leve movimento de cabeça.
Rui voltou a olhar o desenho.
— Ela é boa.
Helba sorriu.
— É.
— Muito boa.
— Tem um talento tão grande... Quanto o da Rebeca.
Rui arqueou uma sobrancelha.
— Tão grande?
— Diferente. Mas igualmente bruto. Ainda sem direção. Sem técnica. Sem referências.
Fez uma pequena pausa.
— E justamente por isso... Cheio de possibilidades.
Helba respirou fundo.
— Eu não conheço todos os detalhes da vida delas. Mas sei que começaram juntas.
Olhou para os dois.
— Não me parece justo que apenas uma delas encontre um caminho.
Samira permaneceu em silêncio.
Helba continuou.
— A Rebeca encontrou a música. Gostaria que a Janis encontrasse a arte.
Rui cruzou os braços.
— Está pensando em quê?
— Um trabalho.
Os dois a encararam.
— A Janis estuda pela manhã. Sai da escola ao meio-dia. Como mora longe, chegaria no Dois Tons por volta das duas da tarde. Ficaria até às cinco. De segunda a sexta.
Samira já começava a compreender.
— Trabalhando no ateliê?
— Sim. Atendendo clientes. Organizando materiais. Separando encomendas. Conhecendo papéis, tintas, pincéis... Tudo o que uma boa vendedora precisa dominar.
Depois sorriu.
— E, enquanto trabalha... Aprende.
Rui permaneceu calado.
Depois comentou:
— Os aprendizes costumam pagar para estudar conosco.
— Eu sei.
— Então por que seria diferente?
— Porque ela não será apenas aprendiz. Vai trabalhar.
Novo silêncio.
Rui ainda não parecia convencido.
— Não tenho muita paciência com adolescentes.
Helba sorriu.
— Então trate de preparar seu espírito.
— Por quê?
— Porque vai receber uma em breve.
Samira riu.
Rui não.
— O Dois Tons não é uma casa de caridade.
Antes que Helba respondesse, Samira colocou delicadamente a xícara sobre a mesa.
— Nós aceitamos.
Rui virou-se para ela.
— Você decidiu sozinha?
— Não. Estou decidindo com você.
Ela pegou novamente um dos desenhos.
— Estamos falando de um casal de meninas.
Fez uma pequena pausa.
— Você faz ideia de quanto o mundo pode ser duro com elas?
Rui permaneceu em silêncio.
— A Helba não está pedindo um presente. Nem que sintamos pena. Ela está pedindo que ajudemos uma menina talentosa a construir uma profissão.
Olhou novamente para o marido.
— Se não usarmos aquilo que sabemos para melhorar a vida de alguém que está começando agora... Para que serve o Dois Tons?
Rui respirou fundo.
Olhou novamente para o desenho.
Depois para Helba.
Depois para Samira.
Demorou alguns segundos.
Por fim, sorriu de lado.
— Você não é uma pessoa fácil, Helba.
Helba deu um pequeno sorriso.
— Pensei que isso fosse implícito a meu respeito.
Samira riu.
— Sobre uma coisa eu gostaria de conversar.
Helba assentiu.
— Diga.
— Já que você não quer transformar isso numa bolsa formal... Vamos deixar o aprendizado acontecer naturalmente.
Helba ouviu atentamente.
— Ela vai precisar conhecer os materiais para vender bem. Então nós colocamos tudo nas mãos dela. Quando surgir uma dúvida... Ensinamos. Quando ela demonstrar curiosidade... Aprofundamos. Quando percebermos uma inclinação... Direcionamos. Sem pressão. Sem currículo engessado. Deixamos a arte fazer o resto.
Helba abriu um sorriso satisfeito.
— Era exatamente isso que eu esperava ouvir.
Rui levantou-se.
Pegou novamente o desenho.
Observou-o por alguns segundos.
— Ela nem imagina que a vida dela acabou de mudar.
Helba também sorriu.
— Ainda não. E acho melhor que continue sem imaginar. Ela precisa acreditar que conquistou esse lugar pelo próprio talento. Porque foi exatamente isso que aconteceu.
Os três permaneceram em silêncio.
Sobre a mesa, o retrato da Rebeca parecia observar a conversa.
E, sem que nenhuma das duas soubesse...
Naquela madrugada, o futuro da Janis começava a ser desenhado.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 08/07/2026
Eu já estava curiosa para saber como os caminhos da Janis iam se abrir
Elin Varen
Em: 08/07/2026
Autora da história
Pode deixar, eu não esqueci da Janis. Esse arco estava amadurecendo há um tempinho e agora finalmente chegou a hora dele. Espero que você goste do que vem por aí!
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Elin Varen Em: 08/07/2026 Autora da história
Pode deixar, eu não esqueci da Janis. Esse arco estava amadurecendo há um tempinho e agora finalmente chegou a hora dele. Espero que você goste do que vem por aí!