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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 7035
Acessos: 87   |  Postado em: 07/07/2026

Capitulo 79 - A Forma Como Você a Enxerga

 

Capítulo 79 – A Forma Como Você a Enxerga.

 

A maquiagem estava quase pronta.

Rebeca aproximou-se um pouco mais do espelho.

Com cuidado, corrigiu um pequeno detalhe no canto do olho.

Depois apoiou as duas mãos sobre a pia.

Ficou alguns segundos observando o próprio reflexo.

Suspirou.

Ela tinha feito uma besteira.

Uma grande besteira.

Não precisava pensar muito para perceber isso.

Tinha preocupado a tia Miriam.

O tio Augusto.

A Ester.

A dona Maria Helena.

Até a Janis, que passara boa parte do caminho tentando convencê-la a voltar, tinha ficado assustada.

Rebeca fechou os olhos por um instante.

Na casa do pai, aquilo teria sido simples.

Errava.

Apanhava.

O assunto acabava.

A dor física permanecia por alguns dias.

Era ela quem lembrava do erro.

Não existia um depois.

Não existia conversa.

Nem pedido de desculpas.

Nem reconstrução.

Só a agressão.

E silêncio.

Ela abriu a torneira.

Molhou as pontas dos dedos.

Retocou discretamente a maquiagem.

Ali era diferente.

Muito diferente.

Ninguém batera nela.

Tinham conversado.

Tinham explicado.

Tinham demonstrado preocupação.

Aquilo a deixava mais perdida do que qualquer castigo.

Com a mãe era diferente.

Quando fazia alguma travessura, quase sempre sabia o que fazer.

Um abraço.

Um pedido de desculpas.

Às vezes um desenho.

Outras vezes um bilhete.

Débora sempre encontrava um jeito de sorrir no final.

Mas...

Ela conhecia a mãe.

Sabia como alcançá-la outra vez.

Com a tia Miriam...

Com a Ester...

Com a dona Maria Helena...

Com o tio Augusto...

Ela ainda não sabia.

Como se consertava uma coisa dessas?

Ela encarou novamente a própria imagem no espelho.

Pela primeira vez desde o passeio de bicicleta, percebeu que o problema não era o castigo.

Era o depois.

O silêncio foi interrompido por duas batidas na porta.

— Rebeca!

A voz da Janis veio do corredor.

— Nós vamos nos atrasar!

Ela respirou fundo.

— Já vou!

Mas não saiu imediatamente.

Permaneceu mais alguns segundos parada.

A mão pousada sobre a maçaneta.

Do outro lado daquela porta estavam as pessoas que ela mais tinha medo de magoar.

E ela ainda não sabia como seriam as coisas quando a abrisse.

Respirou fundo.

Girou lentamente a maçaneta.

E saiu.

A porta se abriu devagar.

Do lado de fora estava Janis.

Ela ainda não tinha se trocado.

Vestia uma bermuda jeans desfiada, uma camiseta velha e chinelos.

Uma toalha apoiada sobre o ombro denunciava que estava a caminho do banho.

Assim que a viu, Rebeca baixou os olhos.

Deu um passo para o lado.

Em silêncio.

Como quem pedia passagem.

Janis não entrou.

Ficou parada.

Observando.

— O que foi?

Rebeca balançou a cabeça.

— Nada.

As bochechas ficaram vermelhas.

Ela continuava olhando para o chão.

Janis sorriu de canto.

Aproximou-se.

Passou um braço pela cintura da namorada.

E a puxou delicadamente para junto de si.

— Tá tudo bem.

Não era uma pergunta.

Era uma certeza.

Rebeca respirou fundo.

Devagar.

O corpo, que permanecia rígido desde a conversa com a Miriam, começou aos poucos a relaxar dentro daquele abraço.

Janis fez um carinho leve nas costas dela.

— Olha pra mim.

A Rebeca obedeceu.

Os olhos já estavam marejados.

Janis sustentou aquele olhar por alguns segundos.

Depois abriu aquele sorriso torto que a Rebeca conhecia tão bem.

— Só pra você saber...

Ela fez uma pausa dramática.

— Aquilo foi perigosamente divertido.

Rebeca soltou uma risadinha involuntária.

Janis continuou.

— Uma ameaça à segurança pública.

— Janis...

— Por muito pouco a gente não chamou a atenção da polícia.

Ela deu de ombros.

— Mas foi divertido.

A alegria da Janis fez a culpa da Rebeca aparecer ainda mais.

Ela abaixou novamente os olhos.

— Eu não devia ter feito aquilo.

Janis concordou.

— Não devia.

Silêncio.

Depois sorriu.

— Mas agora já foi.

Rebeca ficou esperando o restante.

Veio outra coisa completamente diferente.

— Se a gente nunca fizer uma besteira...

Janis encolheu um ombro.

— Não vai ter história boa pra contar pros nossos filhos.

Rebeca ergueu a cabeça imediatamente.

Piscou.

— Você quer ter filhos?

— Quero.

— Comigo?

Janis fez uma cara de quem acabara de ouvir a pergunta mais óbvia do mundo.

— Eu pretendo casar com você.

Pausa.

— Seria bem estranho planejar filhos com outra mulher.

Rebeca deu um tapinha de leve no braço dela.

— Sua grossa!

— Estou apenas ressaltando o óbvio.

As duas ficaram sorrindo uma para a outra.

Até que a expressão da Rebeca mudou outra vez.

Mais séria.

Mais insegura.

— A gente...

Ela respirou fundo.

— A gente está bem?

Janis nem precisou pensar.

— É claro que sim.

Ela segurou delicadamente o rosto da namorada.

— Você fez uma besteira.

— Fiz.

— Eu também fiz.

Rebeca franziu a testa.

— Fez?

— Claro.

— Eu subi na garupa.

As duas riram.

Então Janis encostou a testa na dela.

— Amor...

A voz ficou bem baixinha.

— Você vai fazer outras besteiras.

— Eu sei.

Ela sorriu.

— O importante é que a gente continue escolhendo voltar uma pra outra depois delas.

O beijo da Janis demorou apenas alguns segundos.

O suficiente para acalmar o coração da Rebeca.

— Eu vou tomar banho.

— Tá bom.

Janis entrou no banheiro.

A porta se fechou.

O chuveiro começou a fazer barulho.

Rebeca voltou para o quarto.

Pegou cuidadosamente o vestido que ainda estava protegido pelo plástico.

Vestiu-o devagar.

Calçou os sapatos.

Conferiu a maquiagem mais uma vez no espelho.

Estava pronta.

Só faltava uma coisa.

Sair do quarto.

Ela respirou fundo.

Abriu a porta apenas o suficiente para espiar o corredor.

Silêncio.

Na sala, a televisão estava ligada.

Pelas vozes, dona Maria Helena e Ester assistiam a algum programa enquanto conversavam.

Rebeca fechou a porta outra vez.

Encostou as costas nela.

— Não...

Murmurou para si mesma.

Ainda não.

Ela olhou para a janela.

Depois para a porta.

Depois novamente para a janela.

Cinco segundos depois...

Já estava do lado de fora.

A casa era térrea.

O pequeno salto até o quintal não oferecia qualquer dificuldade.

Ela ajeitou o vestido.

Olhou em volta.

Suspirou.

Agora...

O que eu faço?

As mãos foram parar atrás das costas.

Ela começou a caminhar devagar pelo quintal.

Sem rumo.

Pensando.

Pensando muito.

Precisava fazer alguma coisa.

Não porque alguém tivesse pedido.

Porque ela queria.

Queria que a dona Maria Helena soubesse que lamentava.

Que a Ester entendesse que ela tinha aprendido.

Ela olhou para um dos canteiros.

Cheio de flores.

Sorriu de leve.

Uma ideia começou a surgir.

Rebeca caminhou devagar até um dos canteiros.

Abaixou-se.

Observou as flores por alguns segundos.

— Espero que a senhora não fique brava comigo...

Murmurou para si mesma.

Com cuidado, escolheu algumas das menores.

Depois outras.

Tentou combinar as cores do jeito que conseguiu.

Não ficou exatamente bonito.

Mas parecia sincero.

Sorriu de leve.

Desfez o primeiro arranjo.

Fez outro.

No fim...

Havia dois pequenos buquês improvisados.

Cada um diferente do outro.

Ela respirou fundo.

— Agora não tem mais volta.

Voltou para dentro da casa pela porta da cozinha.

E quase deu um pulo.

Ester estava diante da geladeira.

Segurando uma garrafa de cerveja.

As duas se encararam.

Silêncio.

Então Ester abriu um sorriso.

— Vejam só...

Fechou a geladeira.

— Você não está grande demais para brincar de formiguinha cortadeira de folhas?

As bochechas da Rebeca ficaram imediatamente vermelhas.

Ela baixou os olhos.

Sem saber muito bem onde colocar as mãos.

Acabou esfregando distraidamente a ponta de um dos sapatos no piso.

Depois...

Estendeu um dos pequenos buquês.

Em silêncio.

Ester piscou.

— Pra mim?

Rebeca apenas fez que sim com a cabeça.

Ainda sem coragem de encará-la.

Ester olhou para as flores.

Depois para a menina.

Uma risadinha escapou.

Daquelas curtas.

Cheias de carinho.

— Ah...

Ela pegou o buquê.

— Vem cá, sua cara de pau.

Antes que a Rebeca pudesse responder...

Já estava sendo puxada para um abraço.

Bem apertado.

A garota demorou um segundo para reagir.

Depois retribuiu.

Escondendo o rosto no ombro da tia.

— Me desculpa...

A voz saiu abafada.

Quase infantil.

Ester passou a mão pelos cabelos dela.

— Eu sei.

Silêncio.

— Só não faz outra dessas sem me chamar.

Rebeca ergueu a cabeça.

Confusa.

— Chamar?

— Claro.

Ela sorriu.

— Se você vai sair por aí colocando a cidade em risco, eu quero assistir.

Rebeca não conseguiu evitar a risada.

Ester aproveitou.

Deu um beijo no alto da cabeça dela.

— Está tudo bem.

— O que está acontecendo aí?

A voz de dona Maria Helena veio da sala.

Ester respondeu sem elevar muito o tom.

— Estamos vivendo um momento de ternura aqui na cozinha.

— Estamos?

— A Rebeca e eu.

Houve alguns segundos de silêncio.

Depois a voz da matriarca voltou.

— Pensei que ela estivesse no quarto da Janis.

Ester olhou para a sobrinha.

Depois para o pequeno buquê em suas mãos.

Sorriu.

— Eu disse que o barulho que ouvimos não era um gato.

Antes que a Rebeca pudesse reagir, Ester segurou delicadamente sua mão.

— Vem.

— Mas...

— Vem.

Ela praticamente conduziu a menina até a sala.

Maria Helena continuava sentada em sua poltrona.

As agulhas de tricô trabalhavam tranquilamente.

Ela ergueu os olhos por cima dos óculos.

Olhou para a Rebeca.

Depois para as flores.

Depois novamente para a Rebeca.

— No meu tempo...

Ela fez uma pequena pausa.

— As moças pulavam a janela por outros motivos.

As orelhas da Rebeca ficaram vermelhas na mesma hora.

Ela olhou desesperadamente para a Ester.

Como quem pedia socorro.

Ester não teve pena nenhuma.

— Entrega logo esse buquê sem-vergonha e para de charme.

Sem discutir...

A Rebeca caminhou até a poltrona.

Estendeu as flores.

— É... pra senhora.

Maria Helena aceitou o pequeno buquê.

Observou cada flor.

Sorriu.

Depois deixou o tricô de lado.

Levantou-se devagar.

Aproximou-se da menina.

— Agora eu sei o que a Janis viu em você.

Rebeca piscou.

— Sabe?

— Sei.

Ela sorriu ainda mais.

— Não é só por causa da beleza.

Fez um carinho no rosto da garota.

— Você é tão pestinha quanto ela.

Foi a primeira vez desde a bronca que a Rebeca riu de verdade.

Uma risada leve.

Daquelas que escapam antes mesmo de pedir licença.

Maria Helena aproveitou.

Puxou a menina para um abraço.

Bem apertado.

— Só tenta não aprontar outra dessas.

Ela suspirou dramaticamente.

— Meu estoque de velas está ficando baixo.

Rebeca riu outra vez.

— Desculpa...

Maria Helena deu um beijo em sua testa.

— Eu sei.

Ela se afastou só o suficiente para olhar nos olhos da menina.

— E, da próxima vez...

A matriarca sorriu.

— Leva a Ester junto.

Ester arregalou os olhos.

— Ei!

Maria Helena deu de ombros.

— Se é para me dar trabalho... Pelo menos vocês dividem a culpa.

Ainda abraçada à dona Maria Helena, Rebeca respirava mais tranquila.

O peso que carregava desde a manhã parecia finalmente diminuir.

Então...

Um perfume conhecido invadiu a sala.

Rebeca ergueu a cabeça.

Antes mesmo de vê-la.

Reconheceu.

Virou-se.

Janis surgiu no corredor.

Ainda fechava calmamente os botões dos punhos da camisa social preta.

A calça, igualmente preta, caía perfeitamente.

Os sapatos já estavam engraxados.

O cabelo, preso em um rabo de cavalo impecável, deixava o rosto completamente à mostra.

Ela caminhava como se aquilo fosse absolutamente normal.

— Vó, a senhora tem uma pasta para me emprestar?

Continuou fechando o último botão da manga.

— Não quero que meus desenhos amassem.

Silêncio.

Janis finalmente levantou os olhos.

Encontrou Rebeca.

Sorriu.

Aquele sorriso torto.

Como se nada estivesse acontecendo.

Já a Rebeca...

Parou de funcionar.

Piscou uma vez.

Duas.

As orelhas começaram a ficar vermelhas.

Depois as bochechas.

Depois o pescoço inteiro.

Ela tentou dizer alguma coisa.

Não conseguiu.

Então vieram os risinhos.

Primeiro discretos.

Quase inaudíveis.

Depois outro.

E mais um.

Até que simplesmente perdeu a batalha.

— Hihihi...

Tentou esconder o rosto.

Piorou.

— Hahaha...

Ester olhou da sobrinha para Janis.

Depois voltou para a sobrinha.

— O que foi que aconteceu?

Maria Helena torceu os lábios.

— Hunf... O que mais poderia ser?

Fez uma pequena pausa.

— Paixão adolescente.

Aquela frase teve exatamente o efeito contrário do esperado.

A Rebeca começou a rir ainda mais.

Agora já completamente sem controle.

Escondeu o rosto nas duas mãos.

— Meu Deus...

Janis permaneceu absolutamente serena.

Como se a conversa não tivesse absolutamente nada a ver com ela.

— Vó?

Maria Helena respondeu sem olhar.

— O quê?

— A pasta.

— Vou ver se tenho uma no quarto.

Passando ao lado da Rebeca, comentou baixinho:

— Respira, bebê.

Assim que a avó desapareceu pelo corredor...

Ester cruzou os braços.

Olhou para a Rebeca.

Depois para a Janis.

Depois novamente para a Rebeca.

— Sossega, sua assanhada.

A Rebeca tentou responder.

Só saiu outra risada.

Janis finalmente decidiu colaborar.

Aproximou-se devagar.

Parou bem na frente dela.

— Oi.

Foi só isso.

"Oi."

A Rebeca respirou fundo.

Olhou para cima.

Encontrou aqueles olhos verdes.

E voltou a rir.

Janis balançou a cabeça.

— Ela quebrou.

Ester deu uma risada.

— Foi você quem quebrou.

Janis fez cara de inocente.

— Eu?

— Você apareceu toda arrumada desse jeito.

Janis olhou para a própria roupa.

— É só uma camisa.

Ester respondeu imediatamente:

— Não.

Apontou discretamente para a Rebeca.

— Pela reação dela...

Isso aí é praticamente uma arma.

Alguns minutos depois, Rebeca voltou ao quarto.

Abriu a bolsa carteiro.

De dentro dela retirou uma pequena bolsa social.

Janis observava a cena enquanto conferia os próprios desenhos.

— Você trouxe uma bolsa dentro da outra?

Rebeca nem levantou a cabeça.

— A tia Miriam disse que esta combina mais com o vestido.

Janis sorriu.

— Ela tem razão.

Rebeca guardou cuidadosamente o celular.

Depois os ingressos do concerto.

Fechou o fecho da bolsa.

Respirou fundo.

— Vamos?

— Vamos.

Ester já esperava na garagem.

— As artistas podem entrar.

As duas acomodaram-se no banco de trás.

O carro da Ester era bem menor do que o da Miriam.

Consequentemente...

As duas também ficaram bem mais próximas.

Muito próximas.

Ester ligou o carro.

— Todo mundo de cinto?

— Sim.

— Então vamos.

Durante os primeiros minutos, reinou um silêncio surpreendente.

Rebeca permanecia olhando pela janela.

Ainda discretamente vermelha.

Janis olhava para a frente.

Como se estivesse profundamente interessada na paisagem.

Até que...

Sem absolutamente nenhuma cerimônia...

Estendeu a mão.

E passou a ponta dos dedos pelo braço da Rebeca.

Bem devagar.

A reação foi imediata.

Os ombros da Rebeca encolheram.

Um risinho escapou.

Depois outro.

Ela levou a mão à boca.

Tentando esconder.

Foi inútil.

Janis continuou olhando para a frente.

Como se não tivesse feito absolutamente nada.

Cinco segundos depois...

Fez de novo.

Só um carinho rápido.

A Rebeca já nem conseguia olhar para ela.

Os risinhos agora vinham em sequência.

Ester observou tudo pelo retrovisor.

Resolveu ignorar.

Cinco segundos.

Dez.

Quinze.

Até que ouviu outra crise de riso.

Suspirou.

— Sosseguem.

Ninguém respondeu.

Janis inocentemente perguntou:

— O quê?

— Vocês sabem muito bem o que.

Rebeca já ria de olhos fechados.

Sem conseguir recuperar a compostura.

Ester balançou a cabeça.

— Ou vocês se comportam...

Fez uma pequena pausa.

— Ou eu largo as duas no próximo ponto de ônibus.

Silêncio.

As duas tentaram ficar sérias.

Durou aproximadamente três segundos.

Janis aproximou discretamente um dedo da mão da Rebeca.

Nem chegou a tocar.

Só ameaçou.

A Rebeca explodiu em outra gargalhada.

Ester olhou novamente pelo retrovisor.

— Janis.

— Hum?

— Eu vi.

— Viu o quê?

— Você sabe.

— Eu não fiz nada.

— Justamente.

— Então...

— Foi pior.

As duas finalmente conseguiram se acalmar.

Por uns vinte segundos.

Até que Janis resolveu entrelaçar os dedos nos da Rebeca.

Agora sem esconder.

A Rebeca olhou para as mãos.

Depois para a Janis.

Depois voltou a rir.

Baixinho.

Daquele jeito completamente apaixonado.

Ester respirou fundo.

— Senhor...

Olhou rapidamente para o teto do carro.

— Me dê paciência.

Depois sorriu sozinha.

Porque, no fundo...

Era muito bom ver a Rebeca rindo daquele jeito.

Quando o carro estacionou em frente ao teatro, Helba já aguardava na entrada.

Elegante como sempre.

Assim que viu as três, abriu um sorriso.

Mas esse sorriso durou pouco.

Ao observar a expressão da Rebeca...

Uma sobrancelha subiu discretamente.

A garota respirou fundo.

Precisava parecer normal.

Conseguia fazer isso.

Claro que conseguia.

Ela caminhou até Helba.

Parou à sua frente.

— Helba...

Respirou.

— Esta é a minha tia Ester.

Olhou para Ester.

— Tia Ester...

Depois para Helba.

— A Helba.

As duas trocaram um cumprimento cordial.

Tudo ia muito bem.

Até aquele momento.

Então Rebeca olhou para o lado.

Janis estava ali.

Toda de preto.

As mangas da camisa dobradas até os antebraços.

O rabo de cavalo impecável.

As mãos nos bolsos.

A garota sorriu.

Só isso.

Sorriu.

Foi suficiente.

A Rebeca perdeu completamente a batalha.

— Hihihi...

Levou a mão à boca.

Tentou controlar.

Piorou.

Janis, fingindo que absolutamente nada estava acontecendo, deu um passo à frente.

Estendeu a mão.

— Janis.

Helba apertou sua mão.

Depois a observou da cabeça aos pés.

Sem qualquer pressa.

Camisa social.

Calça social.

Sapatos.

Postura tranquila.

Voltou a olhar para Rebeca.

Que ainda ria.

Depois novamente para Janis.

Sorriu de canto.

— Entendo...

Ester cruzou os braços.

— Eu duvido muito que vocês duas consigam ficar até o fim do concerto.

Helba respondeu com absoluta serenidade.

— Sempre consigo bons lugares.

Olhou discretamente para a Rebeca.

Que tentava respirar fundo.

Sem sucesso.

— Mesmo que a Rebeca continue bancando a hiena...

Ela sorriu.

— Vai ficar tudo bem.

Rebeca fez um enorme esforço para recuperar a compostura.

Inspirou.

Expirou.

Endireitou a postura.

— Eu já parei.

Nesse exato instante...

Janis passou calmamente por ela.

E, como quem não queria nada...

Roçou de leve a ponta dos dedos nas costas da mão da Rebeca.

A garota soltou outro risinho.

Helba assistiu à cena inteira.

Impassível.

Depois comentou:

— Talvez eu tenha sido otimista.

Ester caiu na gargalhada.

— Eu avisei.

Janis fez a melhor expressão de inocência que conseguiu.

— Eu não fiz nada.

Helba olhou diretamente para ela.

— Exatamente.

Silêncio.

— É isso que me preocupa.

Helba voltou-se para Ester.

— Quando o concerto terminar, vou levar as meninas para jantar.

Ester assentiu.

— Está certo.

— Depois eu mesma as levo para casa.

— Como quiser.

Helba sorriu.

Como se lembrasse de mais alguma coisa.

— Se você não se importar...

Ela olhou rapidamente para Rebeca e Janis.

— Gostaria de almoçar com as duas amanhã.

Ester arqueou uma sobrancelha.

— Algum motivo especial?

— Meus cachorros andam ressentidos comigo.

— Ressentidos?

— Tenho trabalhado demais.

Ela deu uma risadinha.

— Não tenho tido energia suficiente para brincar com eles.

Então voltou o olhar para as duas adolescentes.

As duas finalmente haviam parado de rir.

Ou quase.

— Mas estou vendo que essas duas têm energia de sobra.

Ester acompanhou o olhar da Helba.

Depois sorriu.

— Seus cachorros nunca mais serão os mesmos.

Helba respondeu com toda a tranquilidade do mundo.

— A ideia é exatamente essa.

Ester deu um passo até Janis.

Parou bem na frente da filha.

— Comporte-se.

Janis fez uma expressão ofendida.

— Eu sempre me comporto.

Ester balançou a cabeça.

— Não.

Fez uma pequena pausa.

— Você se comporta como a Janis.

Janis abriu um sorriso.

— Obrigada.

— Não foi um elogio.

— Eu escolhi interpretar como um.

Ester respirou fundo.

— Faça um esforço.

— Faço.

— Um esforço maior.

— Tudo bem.

— E, por favor...

Ela olhou discretamente para Rebeca.

Depois voltou para Janis.

— Não incentive essa menina.

Janis respondeu imediatamente:

— Farei o melhor que puder.

Enquanto caminhavam pelo foyer, Helba percebeu que Janis diminuía o passo constantemente.

Não para olhar as pessoas.

Mas para olhar o prédio.

Ela parava diante de uma coluna.

Passava alguns segundos observando um detalhe do relevo.

Depois levantava os olhos para o teto.

Em seguida aproximava-se de um quadro.

Não fazia fotografias.

Nem comentários.

Apenas observava.

Como se estivesse desmontando mentalmente cada elemento daquele lugar.

Helba sorriu discretamente.

"Ela realmente vê."

Muita gente olhava.

Pouquíssimas pessoas viam.

Uma mulher aproximou-se e parou ao lado de Janis, que observava atentamente um dos quadros expostos na parede.

— Bonito, não é?

Janis sorriu sem desviar os olhos da pintura.

— Bastante.

A mulher acompanhou seu olhar.

— Você gosta de pintura?

Janis deu de ombros, com um sorriso tranquilo.

— Gosto de tudo que alguém fez com carinho.

Helba ergueu discretamente as sobrancelhas.

Era uma resposta muito Janis.

A conversa continuou por mais alguns segundos. A mulher comentou sobre as cores, perguntou se Janis também desenhava, elogiou o interesse dela pela exposição.

Enquanto isso...

Rebeca permanecia em silêncio.

Primeiro deu um passo.

Depois outro.

Sem perceber, já estava praticamente ao lado de Janis.

Mais um pouquinho e pisaria no mesmo azulejo.

Helba acompanhou toda a movimentação pelo canto dos olhos.

Disfarçando um sorriso, inclinou-se na direção de Rebeca.

— Nada de fazer uma cena, mocinha.

Rebeca arregalou os olhos.

— Eu?

— Você.

— Eu nem fiz nada.

Helba sustentou o olhar por um instante.

— Ainda.

Rebeca cruzou os braços, ofendida.

— Eu só estou...

Nem ela mesma sabia terminar aquela frase.

Helba sorriu com a serenidade de quem já vira aquele filme muitas vezes.

— Dramas amorosos são entediantes até nos livros.

Rebeca soltou um suspiro resignado.

Helba desviou discretamente o olhar para Janis.

Esperava encontrar uma adolescente constrangida.

Ou lisonjeada.

Encontrou outra coisa.

Janis olhava para a Rebeca.

E sorria.

Não para a mulher que puxara conversa.

Para a Rebeca.

Aquele pequeno bico.

Os braços cruzados.

O esforço quase heroico para fingir indiferença.

Janis parecia...

Divertir-se.

Helba precisou conter um sorriso.

"Interessante..."

Não era a atenção da desconhecida que a encantava.

Era a certeza silenciosa de que alguém tinha medo de perdê-la.

O concerto começou.

As luzes da plateia diminuíram lentamente.

O burburinho cessou.

Os músicos ocuparam seus lugares.

Helba lançou apenas um olhar rápido para Rebeca.

A menina já parecia completamente absorvida pelo palco.

Era o esperado.

Então voltou a atenção para Janis.

A princípio...

Nada.

A garota apenas observava.

Mas, poucos minutos depois, pequenas mudanças começaram a aparecer.

O sorriso desapareceu.

A expressão tornou-se serena.

Concentrada.

As pernas permaneceram cruzadas.

As mãos descansavam sobre o colo.

Um dos dedos...

Marcava discretamente os compassos da música.

Helba sorriu quase imperceptivelmente.

"Ela está ouvindo."

Não apenas escutando.

Ouvindo.

Em determinado momento, Janis inclinou levemente a cabeça.

Os olhos passaram rapidamente pelos músicos.

Depois pelo maestro.

Voltaram para um violoncelista.

Em seguida para o percussionista.

Como se tentasse compreender a conversa silenciosa entre todos eles.

Quando um tema musical retornou...

Ela sorriu.

Muito discretamente.

Quase sem perceber que sorria.

Helba continuou observando.

"Muito interessante..."

A música ainda estava na metade.

Mas ela já tinha descoberto algo importante.

Janis não conhecia teoria musical tão bem quanto a Rebeca.

Talvez, não soubesse o nome de muitas daquelas peças.

Provavelmente nem conseguiria explicar tecnicamente o que estava ouvindo.

Mesmo assim...

Seu corpo inteiro acompanhava a música.

Como se compreendesse intuitivamente a lógica daquele universo.

Helba desviou o olhar para Rebeca.

Ela estava completamente encantada.

Depois voltou para Janis.

E pensou:

"A Rebeca percebe a música."

"A Janis percebe as pessoas que fazem a música."

Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.

"São sensibilidades diferentes..."

"Mas igualmente raras."

Quando o concerto terminou, as três foram para o restaurante.

O garçom acomodou as três à mesa.

O salão era elegante.

Luzes amareladas.

Taças de cristal.

Guardanapos de tecido.

E, principalmente...

Talheres.

Muitos talheres.

Janis observou a mesa por alguns segundos.

Depois aproximou discretamente a boca do ouvido da Rebeca.

— Oh, céus...

Rebeca olhou para ela.

— O que foi?

Janis fez um gesto discreto em direção à mesa.

— Mais um restaurante cheio de talheres.

Rebeca precisou morder o lábio para não rir.

O garçom aproximou-se.

Distribuiu os cardápios.

Janis abriu o dela.

Leu.

Virou a página.

Franziu a testa.

Virou outra.

Então, sem perceber que estava falando em voz alta, murmurou:

— Não podiam servir hambúrguer com batata frita?

Helba levantou os olhos do cardápio.

— É isso que você quer?

Janis congelou.

Levantou lentamente a cabeça.

— Eu...

Olhou para Rebeca.

Depois novamente para Helba.

— Era só um comentário.

Helba fechou o cardápio.

Sorriu para o garçom.

— Três hambúrgueres com batata frita, por favor.

O garçom piscou.

Confuso.

— Senhora...

Helba manteve a serenidade.

— Espero que o chef esteja preparado para o desafio.

O garçom segurou um sorriso.

— Vou verificar imediatamente.

Assim que ele se afastou...

Janis ainda parecia processar o que tinha acabado de acontecer.

— A senhora...

Helba arqueou uma sobrancelha.

— Hum?

— Acabou de pedir hambúrguer...

— Sim.

— Num restaurante desses.

— Sim.

— Gostei.

Helba sorriu.

— Obrigada.

Rebeca começou a rir baixinho.

Janis apoiou os cotovelos na mesa.

— Achei que a senhora fosse explicar por quinze minutos qual garfo eu deveria usar.

Helba respondeu sem hesitar:

— Posso fazer isso.

Janis fez uma careta.

— Ainda bem que escolheu o hambúrguer.

Helba tomou um gole de água antes de completar:

— Etiqueta serve para deixar as pessoas confortáveis. Nunca para deixá-las constrangidas. Se um restaurante não consegue servir um bom hambúrguer... Talvez o problema seja do restaurante. Não seu.

Janis ficou alguns segundos olhando para ela.

Depois sorriu.

— Agora gostei mais ainda.

Os hambúrgueres ainda não haviam chegado.

Helba tomou um gole de água.

Depois olhou para Janis.

— Posso ver seus desenhos?

Janis abriu a pasta sem cerimônia.

— Claro.

Helba começou a folhear.

As primeiras páginas traziam estudos.

Perspectiva.

Objetos.

Mãos.

Rostos.

Paisagens.

Ela assentia discretamente.

— Você desenha bastante.

— Quase todo dia.

Mais algumas páginas.

Outros estudos.

Experimentos.

Sombras.

Luz.

Então...

Helba parou.

Silêncio.

Rebeca inclinou o corpo, curiosa.

— O que foi?

Helba virou lentamente a folha.

Outro desenho.

Depois outro.

Depois mais um.

Todos da mesma pessoa.

Rebeca.

Ela usando uniforme.

Lendo.

Dormindo.

Concentrada ao teclado.

Rindo.

Até mesmo distraída, olhando pela janela.

Rebeca arregalou os olhos.

— Sou eu?

Janis olhou rapidamente para os desenhos.

Depois para a namorada.

— Quem mais poderia ser?

Helba fechou cuidadosamente a pasta.

Permaneceu alguns segundos olhando para a capa.

Depois ergueu os olhos para Janis.

— Posso lhe pedir uma coisa?

Janis assentiu.

— Claro.

Helba retirou um dos desenhos da pasta.

Era um retrato da Rebeca.

Não o mais elaborado.

Mas um dos mais espontâneos.

A Rebeca estava distraída, apoiando o rosto na mão enquanto lia.

Os cabelos caíam sobre os ombros.

Havia um sorriso quase imperceptível.

Helba observou mais uma vez.

— Este...

Ela ergueu a folha.

— Você me daria?

Janis ficou completamente surpresa.

— Esse?

— Sim.

— Mas...

Ela olhou para a Rebeca.

Depois novamente para Helba.

— É um desenho da Rebeca.

— Eu sei.

— A senhora não prefere um desenho seu?

Helba sorriu.

— Não.

Fez uma pequena pausa.

— Quero justamente este.

Janis franziu a testa.

— Posso perguntar por quê?

Helba passou delicadamente a ponta dos dedos sobre o papel.

— Porque ele me conta duas histórias.

As duas adolescentes permaneceram em silêncio.

— A primeira é sobre a Rebeca.

Ela olhou para a menina.

— A segunda...

Voltou os olhos para Janis.

— É sobre a forma como você a enxerga.

Janis abaixou os olhos.

Nunca tinha pensado naquilo.

Helba continuou:

— Um retrato nunca fala apenas da pessoa desenhada.

Também fala do artista.

Silêncio.

— E eu gostaria de guardar esse encontro.

A Janis sorriu, um pouco envergonhada.

— Então... Pode ficar.

Helba recebeu a folha com o cuidado de quem segura algo precioso.

— Obrigada.

Rebeca observava a cena em silêncio.

Ainda sem entender completamente.

— A senhora gostou tanto assim?

Helba sorriu.

— Gostei.

Depois olhou novamente para o desenho.

— Acho que um dia vocês duas vão entender por quê.

Poucos minutos depois, o garçom reapareceu.

Equilibrava uma bandeja enorme.

— Com licença.

Três pratos foram colocados sobre a mesa.

Hambúrgueres altos.

Batatas fritas.

Molhos.

Refrigerantes.

Janis abriu um sorriso.

— Isso, sim, é comida.

Helba agradeceu ao garçom.

Esperou que ele se afastasse.

Então...

Olhou para o próprio prato.

Depois para o garfo.

Depois para a faca.

Pegou os dois.

Rebeca observava em silêncio.

Janis também.

Helba posicionou delicadamente a faca sobre o pão.

Tentou fazer o primeiro corte.

O hambúrguer escorregou.

Ela tentou de novo.

O pão afundou.

A alface escapou para um lado.

O tomate para o outro.

Janis acompanhava tudo com uma expressão absolutamente séria.

Até que não aguentou.

— Professora...

Helba levantou os olhos.

— Sim?

— Com todo respeito...

Ela apontou discretamente para o hambúrguer.

— Acho que ele está ganhando da senhora.

Rebeca abaixou a cabeça para esconder a risada.

Helba observou o prato por alguns segundos.

Depois pousou o garfo.

Pousou a faca.

Suspirou.

— Muito bem.

Pegou o hambúrguer com as duas mãos.

— Rendição.

Janis abriu um sorriso vitorioso.

— Agora sim.

Helba deu a primeira mordida.

Silêncio.

Mastigou.

Depois olhou para as meninas.

— Confesso...

Ela limpou delicadamente o canto da boca com o guardanapo.

— Faz anos que eu não fazia isso.

Janis arqueou uma sobrancelha.

— Comer hambúrguer?

— Comer hambúrguer... com as mãos.

Rebeca sorriu.

— E aí?

Helba olhou novamente para o sanduíche.

Deu outra mordida.

Pensou alguns segundos.

— Acho que compreendi por que vocês gostam tanto.

Janis ergueu uma batata frita como se estivesse fazendo um brinde.

— Bem-vinda ao lado divertido da gastronomia.

Helba riu.

— Não se empolgue.

Amanhã continuo usando garfo e faca.

— Até no hambúrguer?

Helba fez cara de quem estava refletindo seriamente.

Depois respondeu:

— Acho que aprendi alguma coisa hoje.

Janis sorriu.

— O quê?

— Existem refeições que foram feitas para serem comidas sem cerimônia.

Janis assentiu.

— Igual algumas amizades.

A Helba olhou para ela.

Sorriu.

— Exatamente.

Helba permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois olhou para Janis.

— Você desenha a Rebeca quando ela não está olhando.

Janis deu de ombros.

— Acho que sim.

Então Helba voltou-se para Rebeca.

— E você faz exatamente a mesma coisa.

A garota franziu a testa.

— Como assim?

— Você toca.

— Eu toco várias coisas.

Helba sorriu.

— Nem sempre.

Rebeca ficou confusa.

— Quando você fala da Janis...

Ela fez uma pequena pausa.

— Ou quando pensa nela sem perceber... Você sempre toca a mesma melodia.

Janis virou lentamente o rosto para a namorada.

— Sério?

Rebeca piscou algumas vezes.

— Eu faço isso?

— Faz.

— Eu nunca percebi.

— Justamente.

Helba apoiou as mãos sobre a mesa.

— É por isso que achei tão natural transformá-la em uma composição.

Ela já existia.

Você apenas resolveu escutá-la.

Janis sorriu daquele jeito torto.

— Então eu tenho uma trilha sonora?

Helba respondeu com absoluta serenidade.

— Ao que tudo indica... Tem.

Rebeca escondeu o rosto nas mãos.

— Meu Deus...

Janis deu uma risadinha.

— Agora quero ouvir mais ainda.

Ainda havia um pequeno sorriso em seu rosto.

— Janis...

— Hum?

— Já pensou em fazer Belas Artes?

A pergunta pegou a garota completamente desprevenida.

Ela piscou algumas vezes.

— Eu...

Olhou para a própria pasta.

— Nunca pensei.

— Nunca?

Janis balançou a cabeça.

— Sinceramente...

Não.

Helba apoiou os cotovelos na mesa.

— É uma pena.

— Por quê?

— Porque seus desenhos mostram alguém com um futuro bastante promissor.

Janis deu uma risadinha sem graça.

— Sério?

— Jamais elogio alguém que não mereça.

Silêncio.

Janis abaixou os olhos para as próprias mãos.

— Eu nunca pensei nisso.

Helba esperou alguns segundos.

Depois perguntou:

— Então...

O que pretende fazer quando a escola terminar?

A resposta veio imediatamente.

Como se estivesse pronta há anos.

— Arrumar um emprego melhor.

— Melhor como?

— Que pague pelo menos um salário mínimo.

Ela sorriu.

— Tenha benefícios...

Pensou mais um pouco.

— E uma cota pequena de sapos para engolir.

As três riram.

Helba, porém, continuou observando.

— E depois?

Janis franziu a testa.

— Depois?

— O que pretende conseguir com esse emprego?

A garota abriu a boca para responder.

Mas as palavras não vieram.

Instintivamente...

Olhou para Rebeca.

Helba acompanhou aquele olhar.

Sorriu discretamente.

— Entendo.

Janis abaixou os olhos.

Um pouco envergonhada.

Helba continuou:

— Mas é bom que saiba de uma coisa.

Janis esperou.

— Você não precisa passar a vida inteira andando atrás da Rebeca.

A garota ergueu a cabeça.

— Pode caminhar ao lado dela.

Janis respirou fundo.

Depois sorriu.

— A Rebeca tem talento.

Helba assentiu.

— Tem.

Silêncio.

— E você também.

Janis balançou a cabeça.

— Não como ela.

Helba sorriu.

— É claro que não.

Olhou para Rebeca.

Depois para Janis.

— Ainda bem.

As duas ficaram confusas.

— Imagina como o mundo seria chato se todos os artistas fossem iguais.

Ela apontou discretamente para a pasta de desenhos.

— A Rebeca transforma sentimentos em música.

Depois olhou para Janis.

— Você transforma sentimentos em imagens.

Fez uma pequena pausa.

— São idiomas diferentes.

Mas ambos precisam ser estudados.

Janis apoiou os braços sobre a mesa.

— Estudados?

— Sim.

— Eu achei que talento bastasse.

Helba sorriu.

— Talento abre a porta.

Conhecimento permite atravessá-la.

Janis permaneceu em silêncio.

Pensando.

Helba percebeu.

— Um emprego que pague um salário mínimo é digno.

— É o que eu penso.

— E eu concordo.

Ela fez uma pausa.

— Mas talvez você esteja colocando um teto muito baixo sobre a própria cabeça.

Janis olhou surpresa.

— Eu?

— Você.

— Com orientação...

Com estudo...

Com prática...

Você pode chegar a lugares que hoje nem consegue imaginar.

Silêncio.

— Não porque é melhor do que alguém.

Ela sorriu.

— Mas porque é melhor do que imagina ser.

Janis permaneceu completamente quieta.

Pela primeira vez naquela noite...

Ela realmente não tinha uma resposta pronta.

O carro deixou o estacionamento do restaurante.

Por alguns minutos, ninguém disse nada.

Helba dirigia tranquilamente.

Janis observava a cidade pela janela.

Pensativa.

As palavras de Helba insistiam em voltar.

"Você pode caminhar ao lado da Rebeca."

"Você também tem talento."

Ela nunca tinha olhado para o próprio futuro daquele jeito.

Nunca.

No banco ao lado...

Rebeca mexia distraidamente na pequena bolsa.

Ainda sorria, lembrando do concerto.

Foi Helba quem quebrou o silêncio.

— A casa da sua tia fica mais perto que a da avó da Janis.

Ela sorriu.

— Vou deixar você primeiro.

Rebeca ergueu os olhos.

— Eu...

Pigarreou.

— Na verdade...

Eu vou dormir na casa da Janis.

Helba lançou um olhar rápido pelo retrovisor.

— É mesmo?

Rebeca sentiu uma necessidade quase irresistível de explicar.

— A tia Ester dorme no quarto com a gente.

Helba assentiu.

— Sei.

— Ela dorme num colchão no chão.

— Como uma guardiã de pedra.

— Não!

Rebeca quase pulou no banco.

— Ela só fica lá...

Pra...

Pra...

Pra...

Helba completou serenamente:

— Para evitar que vocês façam qualquer outra coisa além de dormir.

As bochechas da Rebeca ficaram completamente vermelhas.

— A gente faz um monte de coisas que não seja dormir!

— Faz?

— Claro!

Ela começou a contar nos dedos.

— A gente anda de bicicleta...

— De skate...

— Toma sorvete...

— Assiste filmes...

— Ouve música...

— Faz dever de casa.

Helba sorriu.

— Imagino o dever de casa que vocês fazem.

— De matemática!

— De química!

— De física!

Helba fez um leve aceno com a cabeça.

— De biologia...

Rebeca levou as duas mãos ao rosto.

— Helba!

A mentora não conseguiu esconder um sorriso.

Enquanto isso...

Janis continuava olhando pela janela.

Silenciosa.

Rebeca cutucou o braço dela.

— Janis...

Nenhuma resposta.

Outro cutucão.

— Me ajuda.

Janis finalmente virou o rosto.

Ainda parecia distante.

— Hum?

— Fala alguma coisa!

Ela olhou para a Rebeca.

Depois para a Helba.

E abriu um pequeno sorriso.

— Pensando bem...

As duas olharam para ela.

— A ideia da minha mãe ser uma guardiã de pedra é bem legal.

Rebeca arregalou os olhos.

— Janis!

Ela ignorou completamente o protesto.

— E a minha vó podia ser aquele cachorro de três cabeças do Harry Potter.

Helba já começava a rir.

— O Fofo?

— Esse mesmo!

Janis fez um gesto animado com as mãos.

— Só que, em vez de proteger uma porta...

As três cabeças gritariam juntas:

— PORTA ABERTA!

Helba já gargalhava.

Precisou até diminuir um pouco a velocidade do carro.

Janis continuou, completamente séria.

— Faz sentido. Uma cabeça reclama. Outra faz tricô. E a terceira acende vela pra Nossa Senhora.

Helba enxugou discretamente uma lágrima de tanto rir.

Depois perguntou:

— E Miriam, tia da Rebeca?

Janis pensou por alguns segundos.

— Hum...

Ela olhou para a Rebeca.

Ela fez uma expressão de quem acabara de resolver um grande mistério.

— A tia Miriam me lembra a Noiva de Kill Bill.

Rebeca arregalou os olhos.

— O quê?

Helba sorriu, curiosa.

— Explique.

Janis respondeu com toda a naturalidade do mundo.

— Ela é elegante.

Fez um gesto com a mão.

— Centrada.

Outro gesto.

— Quase nunca levanta a voz.

Sorriu.

— Mas dá a impressão de que poderia eliminar uma pessoa em cinco segundos...

Ela olhou para Rebeca.

— ...e depois voltar pra casa e tomar um café como se nada tivesse acontecido.

Rebeca ficou em silêncio por um instante.

Pensou.

Depois assentiu.

— Pior que parece mesmo.

Helba começou a rir.

— Vocês têm uma imaginação bastante fértil.

Janis deu de ombros.

— Eu nunca vi a tia Miriam perder a calma.

— Nem eu.

— Justamente.

Ela apontou discretamente para a Rebeca.

— Isso assusta mais.

Helba continuava divertida.

— Então você acha que ela é perigosa?

Janis balançou a cabeça.

— Não.

Fez uma pequena pausa.

— Acho que ela é perigosa pelos motivos certos.

O sorriso da Helba diminuiu.

Ela percebeu que, por trás da brincadeira, havia uma observação sincera.

Janis continuou:

— Se alguém machucar a Rebeca... Tenho a impressão de que a tia Miriam resolve o problema. Sem fazer escândalo. Sem gritar. Sem ameaçar. Ela simplesmente... Resolve.

Helba ficou alguns segundos em silêncio.

Depois sorriu.

— Acho que você a leu muito bem.

O carro parou em frente à casa de dona Maria Helena.

Helba desligou o motor.

As duas adolescentes já iam abrir a porta quando ela comentou, casualmente:

— Bom dever de casa.

Rebeca virou imediatamente.

— Mas o dever de casa é só amanhã.

Helba inclinou levemente a cabeça.

— Hum...

Janis já estava com a mão na maçaneta.

Sem nem olhar para trás, respondeu:

— Guardiã de pedra, esqueceu?

Rebeca congelou.

Olhou para Helba.

Depois para Janis.

Depois voltou para Helba.

As bochechas ficaram vermelhas outra vez.

— Ah...

Helba sorriu daquele jeito discreto.

— Então está tudo sob controle.

Janis abriu a porta.

— Sempre esteve.

Helba arqueou uma sobrancelha.

— Não tenho tanta certeza.

 

As duas já estavam do lado de fora do carro.

Rebeca acenou.

— Boa noite, Helba.

— Boa noite, meninas.

Helba esperou mais um instante.

Então abaixou novamente o vidro.

— Janis.

Ela se virou.

— Sim?

Helba pegou uma pequena folha de papel da bolsa.

Escreveu rapidamente.

Depois estendeu o braço pela janela.

— Meu endereço.

Janis recebeu o papel.

Leu.

Depois ergueu os olhos, confusa.

— Gostaria que viesse almoçar amanhã.

Ela sorriu de leve.

— Prometo colocar apenas os talheres essenciais sobre a mesa.

Janis abriu um sorriso.

— A senhora é muito gentil.

— Não.

Helba fechou a bolsa.

— Estou apenas curiosa.

Janis inclinou a cabeça.

— Curiosa?

— Sim.

Olhou rapidamente para Rebeca.

Depois voltou para Janis.

— Quero conhecer melhor a artista que desenha minha concertista.

A Rebeca sentiu o rosto esquentar outra vez.

— Helba...

A professora sorriu.

— Boa noite, meninas.

Janis guardou cuidadosamente o papel na carteira.

Como quem acabara de receber um convite importante.

— Até amanhã.

Helba ligou o carro.

Antes de partir, ainda comentou pela janela:

— E, Janis...

— Sim?

— Se aparecer um hambúrguer na mesa...

Não faça cara de surpresa.

Janis riu.

— Vou fingir que sempre esperei isso.

As duas acenaram.

O carro se afastou lentamente.

Rebeca olhou para a namorada.

— Ela gostou de você.

Janis dobrou cuidadosamente o papel antes de colocá-lo no bolso.

Sorriu de canto.

— Acho que sim.

Depois olhou para a casa da avó.

— Agora estou começando a ficar nervosa com o almoço.

A porta do quarto se abriu devagar.

As duas entraram tentando fazer o mínimo de barulho possível.

A luz do abajur permanecia acesa.

No colchão, ao lado da cama, Ester já estava deitada.

Os olhos fechados.

Ou quase.

Janis deixou os sapatos perto da porta.

Olhou para a mãe.

Depois para Rebeca.

Um sorriso malicioso apareceu.

— Boa noite, minha guardiã favorita.

Ester abriu um olho.

Só um.

— Minha o quê?

Janis fez a maior cara de inocente do mundo.

— Nada...

Fez um gesto com a mão.

— Nada, não.

É piada interna.

Ester fechou o olho novamente.

— Hunf...

Puxou um pouco mais a coberta.

— Uma hora dessas...

Suspirou.

— Curtindo com a minha cara.

Janis deu de ombros.

— É uma homenagem.

— Sei.

Silêncio.

Depois de alguns segundos, Ester murmurou:

— Apaga a luz quando terminarem de conversar.

— Pode deixar.

Janis abriu o guarda-roupa.

Começou a procurar o pijama.

Rebeca permaneceu parada por alguns instantes.

Ainda segurando a pequena bolsa.

Os olhos passearam pelo quarto.

Depois pararam sobre um conjunto de pijama azul cuidadosamente dobrado sobre a cama.

Ela sorriu.

— Você separou esse pra mim?

Janis levantou os olhos.

— Claro.

Pegou a peça.

Estendeu para ela.

— Achei que o azul combinava com você.

Rebeca passou os dedos pelo tecido.

Sorriu daquele jeito tímido.

— Gostei.

Janis sorriu de volta.

— Eu sabia que ia gostar.

No colchão...

Sem abrir os olhos...

Ester resmungou:

— Se acabaram a sessão de romance...

Eu gostaria de dormir.

As duas prenderam a risada.

— Boa noite, tia.

— Boa noite, mãe.

— Boa noite...

E, dessa vez...

O quarto mergulhou em silêncio.

 

 

Fim do capítulo


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