Capitulo 78 - Quem Ama Também Tem Medo
Capítulo 78 – Quem Ama Também Tem Medo.
Miriam fechou cuidadosamente a porta do closet.
A caixa era completamente sem graça.
Papelão pardo.
Sem desenhos.
Sem qualquer indício do que havia ali dentro.
Melhor assim.
Quanto menos chamasse atenção, menores eram as chances de uma adolescente curiosa resolver investigar.
Ela desceu as escadas.
Augusto continuava na sala.
Livro aberto.
Óculos na ponta do nariz.
— Escondeu?
— Sim.
Ela se acomodou ao lado dele.
Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio.
Então Augusto comentou:
— Ela vai adorar.
Miriam soltou um suspiro.
— Sim.
Outro breve silêncio.
— E esse é exatamente o problema.
Augusto sorriu.
— Ela tem gosto pelo perigo.
— Bastante.
— Você também tinha, na idade dela.
— Eu tinha bom senso.
— Você escalou um muro para entrar num show.
Miriam olhou para ele.
— A ideia foi sua!
— Você topou porque quis.
— Você disse que era o único jeito.
— E era.
— Augusto!
— Eu não obriguei ninguém a nada.
— Você pulou primeiro!
— Exatamente.
— Eu achei que você soubesse o que estava fazendo.
Augusto sorriu.
— Eu também achei.
Miriam cruzou os braços.
— Nós poderíamos ter sido presos.
— Não fomos.
— Poderíamos ter quebrado uma perna.
— Não quebramos.
— Poderíamos...
— Mas o show foi excelente.
Miriam tentou sustentar a expressão séria.
Falhou miseravelmente.
Sorriu.
— Continua sendo uma péssima lembrança.
— Estranho...
— O quê?
— Você sempre ri quando conta essa história.
— Eu tinha quase vinte anos.
— Continua sendo um muro.
Ela fez uma careta.
— Não ajuda.
Augusto voltou ao livro.
Ainda sorrindo.
O silêncio tomou conta da casa.
Cada um mergulhado na própria leitura.
Até que...
Ao longe...
Um ronco.
Baixo.
Distante.
VRRRRRRRAAAAAAMMM
Augusto levantou os olhos.
Miriam também.
— Escutou?
— Escutei.
O barulho aumentou.
VRRRRRRRAAAAAAMMM!
— Será que vai chover?
Miriam franziu a testa.
— Não me parece trovão.
— Não?
— Acho que é uma motosserra.
O barulho aumentou.
Muito.
VRRRRAAAAAAMMMM!
Os dois ficaram em silêncio.
VRRRRAAAAAAMMMM!
— Definitivamente não é uma motosserra.
— Concordo.
VRRRRAAAAAAMMMM!
A casa inteira pareceu vibrar.
Augusto fechou o livro.
Devagar.
Com a serenidade de um homem que pressentia problemas.
O barulho ficou ainda mais próximo.
Muito próximo.
Perigosamente próximo.
Então os dois correram para a porta.
Abriram.
E congelaram.
Em frente à casa estava uma bicicleta.
Ou algo que um dia tinha sido uma bicicleta.
Ela tinha um motor.
Tinha um laço vermelho.
Fazia mais barulho do que parecia fisicamente possível.
E estava sendo pilotada por...
— Rebeca?
A garota abriu um sorriso gigantesco.
E acenou.
— OI!
O motor foi desligado.
O silêncio que veio depois pareceu estranho.
Miriam foi a primeira a se mover.
Não na direção da bicicleta.
Não na direção da Rebeca.
Na direção da Janis.
— Janis?
A garota desceu da garupa.
Devagar.
Muito devagar.
Como alguém que havia acabado de retornar de uma missão de guerra.
— Tia Miriam...
— Você está bem?
Janis apoiou uma mão no ombro dela.
— Eu vi coisas.
— Que coisas?
— A luz branca no fim do túnel.
Augusto virou o rosto para esconder a risada.
Sem sucesso.
— Janis...
— Ela é real.
— Quem?
— A luz.
— Não existe luz nenhuma.
— Existe sim.
— Não existe.
— Eu vi.
Miriam segurou os ombros da garota.
Inspecionando.
— Você bateu a cabeça?
— Ainda não.
— Ainda?
— O dia não acabou.
Enquanto isso...
A Rebeca já estava ajoelhada ao lado da bicicleta.
Como uma criança mostrando um brinquedo novo.
— Tia Miriam!
— Um instante, Rebeca.
— Mas olha isso!
Ela apontava para o guidão.
— Esse é novo.
Depois para o farol.
— Esse também.
Depois para o motor.
— E isso aqui...
Ela abriu os braços.
— É a melhor invenção da história!
Augusto cruzou os braços.
Fazendo um esforço monumental para não rir.
O canto da boca insistia em subir.
Miriam alternava o olhar entre a sobrinha e a Janis.
Que ainda parecia emocionalmente abalada.
— Eu tentei fazer ela voltar...
— Eu sei.
Janis olhou para Miriam.
— Eu juro que eu tinha boas intenções...
Miriam respirou fundo.
Bem fundo.
Olhou para a bicicleta.
Depois para a sobrinha.
Depois novamente para a bicicleta.
Então perguntou com uma calma quase assustadora:
— Rebeca...
A garota finalmente parou de falar.
— Sim?
— O que deu em você?
Silêncio.
A Rebeca piscou.
Sorriu sem graça.
E foi exatamente naquele momento que tudo começou.
Algumas horas antes...
O parque estava relativamente vazio.
Algumas crianças brincavam perto dos balanços.
Dois rapazes andavam de skate.
Uma senhora passeava com um cachorro.
Janis desligou o motor.
— Hora da troca.
Rebeca desceu da bicicleta.
Ainda rindo.
— Eu gostei.
— Eu percebi.
A garota deu dois passos na direção da namorada.
Passou os braços em volta do pescoço dela.
— Obrigada.
— Pelo quê?
Rebeca sorriu.
— Por hoje.
Janis sorriu de volta.
— Ainda nem acabou.
Rebeca aproximou o rosto.
Deu um beijo demorado nela.
Quando se afastou, Janis ainda permaneceu alguns segundos olhando para aqueles olhos brilhando de felicidade.
— Você está muito feliz.
— Estou.
— Dá para perceber.
— Dá?
— Sim.
Rebeca riu.
— Sua vez de pilotar acabou.
Ela apontou para o guidão.
— Agora é a minha.
Janis entregou a chave.
— Vai devagar.
— Pode deixar.
— Estou falando sério.
— Eu também.
Janis passou para a garupa.
Segurou a cintura da namorada.
— Pronta?
— Pronta.
O motor voltou a roncar.
A bicicleta começou a andar.
Devagar.
Muito devagar.
Janis sorriu.
— Tá vendo? Eu falei que conseguia.
— Está indo muito bem.
Rebeca abriu um sorriso orgulhoso.
Deram uma volta completa no parque.
Depois outra.
Na terceira...
Rebeca acelerou um pouquinho.
Só um pouquinho.
O suficiente para fazer o vento brincar com os cabelos das duas.
— Gostou, né? — perguntou Janis.
— Muito.
Na quarta volta...
Veio um risinho.
Baixinho.
Janis arqueou uma sobrancelha.
— Rebeca...
— Hum?
— Você está rindo.
— Estou.
— Isso normalmente antecede uma decisão ruim.
A resposta veio acompanhada de outra risada.
Na quinta volta...
A bicicleta passou um pouco mais rápido.
— Devagar.
— Eu estou devagar.
— Esse "devagar" foi mais rápido que o anterior.
Rebeca não respondeu.
Só continuou sorrindo.
Na sexta volta...
Ela já gargalhava.
Daquele jeito espontâneo.
Livre.
Como uma criança que acabara de descobrir uma brincadeira nova.
Janis apertou um pouco mais a cintura dela.
— Rebeca...
— O quê?
— Continua respirando.
— Eu estou respirando.
— Estou tentando me convencer disso.
A sétima volta começou.
Foi então que Rebeca olhou para a saída do parque.
Os olhos brilharam.
Uma ideia atravessou sua cabeça.
Daquelas ideias perigosamente boas.
— Janis?
— Hum?
— A tia Miriam precisa ver isso.
Janis congelou.
— Não precisa.
— Ela vai gostar.
— Não vai.
— Vai sim.
— REBECA.
A bicicleta fez uma curva suave.
Na direção da saída.
Janis sentiu imediatamente.
— Rebeca...
— Hum?
— Essa não é a pista.
— Eu sei.
— Você sabe?
— Sei.
— Então por que estamos indo para lá?
— Pra encontrar a tia Miriam.
Janis fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
— Volta.
— Depois.
— Volta agora.
— É rapidinho.
A bicicleta ganhou velocidade.
Saiu do parque.
Entrou na avenida.
— REBECA!
— O quê?
— Você vai matar a gente!
— Não vou!
— Como você sabe?
— Porque eu estou pilotando muito bem!
Janis olhou para a rua.
Depois para a velocidade.
Depois para os carros.
Voltou a olhar para a rua.
Respirou profundamente.
Então apoiou a testa nas costas da namorada.
— O que você está fazendo? — perguntou Rebeca, ainda rindo.
— Aceitando meu destino.
Rebeca gargalhou ainda mais alto.
O vento batia no rosto.
O motor roncava alegremente.
E, naquele instante, ela só conseguia pensar em uma coisa.
"A tia Miriam vai adorar."
Janis, por outro lado, tinha uma conclusão completamente diferente.
"A tia Miriam vai me matar."
Miriam permaneceu alguns segundos olhando para as duas.
Depois olhou para a bicicleta.
Depois voltou a olhar para as duas.
Respirou fundo.
— Espera.
Silêncio.
— Vocês vieram da casa da dona Maria Helena... nessa coisa?
Rebeca balançou a cabeça imediatamente.
— É claro que não.
Miriam soltou um pequeno suspiro de alívio.
— Ainda bem.
— Nós saímos do parque.
Silêncio.
Outro silêncio.
Miriam piscou.
— Parque?
Janis respondeu antes da Rebeca.
Com a serenidade de quem já não tinha mais forças para sentir medo.
— Fica a uns quinze minutos da casa da minha avó.
Miriam olhou para ela.
Janis deu de ombros.
— Foi o único momento do trajeto em que eu fui feliz.
Augusto virou o rosto.
Tentando não rir.
Não conseguiu.
Rebeca ainda parecia confusa.
— Ué...
— O quê? — perguntou Miriam.
— Eu pilotei direitinho.
Janis olhou para o céu.
— Ela realmente acredita nisso.
Miriam respirou fundo.
Mais uma vez.
Olhou para a sobrinha.
— Você perdeu a cabeça, Rebeca?
Antes que a garota respondesse, Janis ergueu um dedo.
— Tá aí...
As três olharam para ela.
— Eu acabei de aprender como funciona uma pergunta retórica.
Rebeca fez uma cara profundamente ofendida.
— Eu não perdi a cabeça.
— Não?
— Eu queria fazer uma surpresa para a senhora.
Miriam piscou.
— Uma surpresa?
— Mostrar que eu também sei dirigir.
Janis olhou para a namorada.
— Da próxima vez...
Ela apontou para Miriam.
— Espera o aniversário dela.
— Janis...
— Faz um bolo.
— Janis...
— Canta parabéns.
Miriam respirou fundo outra vez.
Depois apontou para dentro da casa.
— As duas.
— Para dentro.
Rebeca deu meio passo na direção da bicicleta.
— Eu só vou...
— Nada disso.
A garota congelou.
Miriam virou-se para o marido.
— Augusto.
— Sim?
— Leve a prova do crime para a garagem.
Augusto observou a bicicleta.
Depois olhou para Miriam.
— Quer que eu coloque luvas para não contaminar a cena, sargento?
Miriam fechou os olhos.
— Augusto.
— Foi uma dúvida técnica.
— Pra garagem.
— Sim, senhora.
As três entraram.
Janis afundou no sofá como quem acabara de sobreviver a um desastre natural.
Miriam voltou da cozinha com um copo de água.
Entregou à garota.
— Obrigada.
Ela bebeu metade do copo de uma vez.
Ainda em silêncio.
Só então Miriam falou.
— Vou precisar levar vocês de volta.
Janis apenas concordou com a cabeça.
— E explicar exatamente o que aconteceu.
Outro pequeno aceno.
— Ester e eu vamos precisar conversar.
Rebeca franziu a testa.
— Conversar?
— Para decidir qual será o seu castigo.
Silêncio.
— O meu castigo?
— Sim.
— Mas...
— A senhorita arrastou a Janis para essa aventura.
Rebeca olhou para a namorada.
Depois voltou para Miriam.
— Ela me parecia bem feliz...
Janis abaixou lentamente o copo.
Olhou para Rebeca com uma expressão quase comovida.
— Meu coração estava acelerado.
Rebeca sorriu.
— Viu?
Janis balançou a cabeça.
— Mas não era alegria, não.
Rebeca piscou.
— Não?
— Eu estava alternando entre medo...
Pausa.
— Pânico...
Outra pausa.
— E aceitação.
— Aceitação?
— Sim.
— Do quê?
Janis suspirou.
— Do fato de que eu provavelmente seria manchete no jornal do dia seguinte.
Na casa de Maria Helena...
O almoço já havia acabado fazia bastante tempo.
As travessas estavam vazias.
Os copos, recolhidos.
Galo e Lara já tinham saído para encontrar alguns amigos.
Mas os adultos não pareciam dispostos a ir embora.
Gordo havia dado duas voltas de carro pelo bairro.
Depois uma terceira.
Sem sinal das meninas.
Glória olhou para o relógio mais uma vez.
— Está demorando.
Ester concordou em silêncio.
Maria Helena caminhava de um lado para o outro.
Disfarçando a preocupação.
Sem muito sucesso.
— Eu sabia que essa bicicleta ia me dar dor de cabeça.
Gordo voltou a guardar as chaves no bolso.
— Nada.
— Nem sinal?
Ele balançou a cabeça.
O silêncio voltou a tomar conta da casa.
Até que um carro entrou na rua.
Todos olharam para a janela.
Era o carro da Miriam.
Ester nem esperou ele parar completamente.
Suspirou.
— Deu merd*.
Maria Helena virou-se para ela.
— Misericórdia...
— O que será que aconteceu?
Ester cruzou os braços.
— Janis e Rebeca aconteceram.
O carro parou.
Miriam foi a primeira a descer.
Fechou a porta com calma.
Respirou fundo.
Olhou para todos.
— Precisamos conversar.
Antes que alguém perguntasse qualquer coisa...
Janis abriu a porta do passageiro.
Desceu lentamente.
Ainda com o mesmo semblante de sobrevivente.
Olhou para Gordo.
Depois para a bicicleta.
Depois para Gordo novamente.
— Tá...
Silêncio.
— Talvez não tenha sido uma boa ideia colocar um motor na bicicleta da Rebeca.
Gordo arregalou os olhos.
— Talvez?
Foi então que a porta de trás abriu.
Rebeca desceu.
Devagar.
Muito devagar.
Braços cruzados.
Os olhos brilhavam.
Claramente tentando segurar as lágrimas.
Fechou a porta.
Ou melhor...
Bateu a porta.
Tum!
Com toda a dignidade de uma adolescente profundamente injustiçada.
Maria Helena olhou para a cena.
Depois para Miriam.
Depois novamente para Rebeca.
— O que aconteceu?
Miriam respondeu calmamente.
— Sua neta...
Apontou para Janis.
— Presenteou minha sobrinha com uma a bicicleta.
Depois apontou para Rebeca.
— E a Rebeca resolveu dirigir até a minha casa.
Silêncio.
Gordo fez uma conta mental.
— Até... A sua casa?
Janis levantou um dedo.
— Eu fui contra.
— Foi?
— Desde o parque.
Rebeca fez uma careta.
— Exagerada
Janis virou lentamente a cabeça.
— Exagerada?
— Uhum.
— Rebeca...
Ela colocou a mão no peito.
— Eu negociei com Deus.
Maria Helena levou a mão à boca.
Tentando esconder a risada.
Não conseguiu.
Glória também começou a rir.
Até Gordo deu uma tossidinha para disfarçar.
Só Ester continuava séria.
Ou quase.
Ela olhou para a filha.
Depois para Rebeca.
Depois perguntou:
— Quem teve a ideia?
Janis apontou imediatamente para a namorada.
Sem a menor hesitação.
— Ela.
Rebeca arregalou os olhos.
— Traidora.
Poucos minutos depois...
A sala da casa de Maria Helena havia adquirido um aspecto curiosamente solene.
Gordo permanecia encostado na parede.
Glória observava em silêncio.
Janis afundada no sofá.
Rebeca sentada ao lado dela.
Ainda de braços cruzados.
Ainda bicuda.
Ainda convencida de que estava sendo vítima de uma enorme injustiça.
Maria Helena olhou ao redor.
Depois declarou:
— Muito bem.
Bateu duas vezes com a colher de pau na mesa.
— Está aberta a sessão.
Janis ergueu a cabeça.
— A senhora acabou de criar um tribunal?
— Claro.
— Quem é o juiz?
— Eu.
— Não pode.
— Posso.
Ester cruzou os braços.
— Protesto.
— Protesto negado.
— A senhora nem ouviu.
— Não precisava.
Glória balançou a cabeça.
— Essa audiência promete.
Maria Helena apontou para Ester.
— A promotoria pode começar.
Ester respirou fundo.
Olhou para Rebeca.
Depois para Janis.
— As rés saíram do parque.
— Correção — disse Janis. — Eu fui sequestrada.
— Em seguida...
Continuou Ester.
— Percorreram vários quilômetros numa bicicleta motorizada.
— Tecnicamente...
Rebeca tentou interromper.
Miriam levantou um dedo.
— Não use a palavra "tecnicamente".
A garota fechou a boca.
Miriam assumiu a palavra.
— Se a aventura tivesse terminado dentro do parque...
Ela olhou para Rebeca.
— Ainda seria uma imprudência.
— Mas compreensível.
Maria Helena assentiu.
— Concordo.
Miriam continuou.
— O problema é que ela resolveu atravessar a cidade.
Rebeca murmurou:
— Não era a cidade inteira...
Janis olhou para ela.
— Ajuda um pouquinho.
Maria Helena fez um gesto com a mão.
— A defesa gostaria de lembrar que...
Ela olhou para Rebeca.
Sorriu.
— A menina só queria viver a experiência completa.
Ester levou a mão ao rosto.
— Dona Maria Helena...
— O quê?
— A senhora está defendendo o indefensável.
— Estou defendendo uma adolescente muito feliz.
Miriam suspirou.
— Ela poderia ter sofrido um acidente.
Maria Helena concordou.
— Poderia.
— Poderia ter machucado a Janis.
— Poderia.
— Então?
— Não machucou.
Gordo finalmente resolveu participar.
— Mãe...
— O quê?
— A senhora está atrapalhando.
— Estou exercendo o direito de defesa.
Miriam respirou fundo.
— A promotoria gostaria de acrescentar um agravante.
Maria Helena apoiou os cotovelos na mesa.
— Estou ouvindo.
— As rés atravessaram a cidade...
Ela olhou para Rebeca.
— Sem celular.
Rebeca abaixou um pouquinho a cabeça.
— Sem documentos.
A cabeça abaixou mais um centímetro.
— Sem dinheiro.
Silêncio.
Miriam concluiu:
— Agora imagine que essa bicicleta resolvesse parar no meio do caminho.
Maria Helena ainda tentou argumentar.
— Elas empurravam.
Miriam respondeu imediatamente.
— Até onde?
A sala permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Maria Helena suspirou.
— Está bem...
Todos olharam para ela.
— A promotoria tem um ponto.
Miriam fez um pequeno aceno de cabeça.
— Obrigada.
Maria Helena continuou:
— Sem celular... Sem dinheiro... Sem documentos...
Ela olhou para Rebeca.
— Foi imprudente.
Rebeca baixou os olhos.
— Foi.
Miriam respirou, aliviada.
Até que Maria Helena completou:
— Mas...
Ester fechou os olhos.
— Lá vem...
Maria Helena abriu um sorriso satisfeito.
— Eu acendi uma vela para Nossa Senhora.
Silêncio.
— Então ela deu um jeitinho.
Miriam levou a mão ao rosto.
— Dona Maria Helena...
— O quê?
— Não foi a vela.
— Como a senhora sabe?
— Porque não foi.
— Tem certeza?
Glória resolveu colaborar.
— Eu acho que é difícil produzir evidência científica contra uma vela.
Maria Helena bateu novamente a colher de pau na mesa.
— Muito bem. Chamem a principal testemunha.
Todos olharam para Janis.
Ela arregalou os olhos.
— Eu?
— Você.
— Eu sou a vítima.
— Justamente.
Janis suspirou.
Sentou-se direito.
Olhou para Rebeca.
Rebeca olhou de volta.
Sem piscar.
Braços cruzados.
Com aquele biquinho clássico de quem ainda se considera injustiçada.
Janis engoliu em seco.
— Então...
Ela olhou outra vez para a namorada.
Rebeca estreitou ainda mais os olhos.
Janis olhou para o teto.
Respirou fundo.
Levantou uma das mãos dramaticamente.
— Excelência...
Maria Helena respondeu no mesmo tom.
— Sim?
— Acho que vou desmaiar.
E, sem esperar autorização...
Ela simplesmente deixou a cabeça cair para trás no sofá.
Os braços penderam para os lados.
Olhos fechados.
Imóvel.
Silêncio.
Glória foi a primeira a falar.
— Ela...
Ester nem olhou.
— Está fingindo.
— Como você sabe?
— Eu que pari.
Maria Helena cutucou a neta com a colher de pau.
— A testemunha está viva?
Nenhuma resposta.
Outro cutucão.
Janis abriu um olho.
Só um.
— O julgamento acabou?
Rebeca continuava encarando.
Janis fechou o olho de novo.
— Acho que piorei.
O tribunal foi oficialmente encerrado.
Mas ninguém se levantou.
Rebeca permanecia no sofá.
Braços cruzados.
Pernas cruzadas.
O maior bico que conseguia fazer.
Os olhos ainda brilhavam.
Ela fazia um enorme esforço para não chorar.
Miriam observou a sobrinha por alguns segundos.
Depois olhou para Ester.
— E agora?
Ester suspirou.
— Sinceramente...
Ela balançou a cabeça.
— Eu não sei.
Silêncio.
— Só o fato de a Janis ter quebrado a cara exatamente do jeito que eu imaginei que quebraria...
Janis levantou um dedo.
— Tecnicamente...
— Nem pense.
Ela abaixou o dedo.
Ester continuou.
— Já me deixou satisfeita.
Miriam assentiu.
— Eu também.
Pausa.
— Mas alguém precisa aprender alguma coisa com isso.
Rebeca levantou lentamente a cabeça.
Olhou para as duas.
Com uma expressão de absoluta traição.
— Eu?
Miriam arqueou uma sobrancelha.
— Quem mais?
Rebeca voltou a cruzar os braços.
Ainda mais forte.
Como se isso fortalecesse sua defesa.
Ester pensou por alguns segundos.
Depois falou:
— Acho que ficar sem comer pudim seria um bom castigo.
Maria Helena virou-se imediatamente para a filha.
— O que o meu pudim tem a ver com essa história?
— Ela gosta.
— Justamente por isso eu faço.
— Mãe...
— Não.
Ela cruzou os braços.
— Meu pudim não participa de punições.
Miriam tentou argumentar.
— Talvez ajudasse a Rebeca a refletir.
Maria Helena respondeu sem hesitar.
— Um espelho também.
Glória abaixou a cabeça para esconder a risada.
Até Gordo precisou coçar a barba para disfarçar.
Miriam e Ester se entreolharam.
As duas perceberam que aquela discussão não chegaria a lugar nenhum.
Miriam respirou fundo.
— Está bem.
Ela olhou para Rebeca.
Depois para Ester.
— Eu vou pensar em alguma coisa quando chegar em casa.
Olhou novamente para a sobrinha.
— E depois te aviso.
Rebeca permaneceu imóvel.
Ainda bicuda.
Ainda profundamente ofendida.
Miriam olhou para o relógio.
— Eu vou para casa agora.
Maria Helena assentiu.
— Dirija com cuidado.
— Pode deixar.
Ela se despediu de Ester com um abraço, de Glória com um beijo no rosto e fez um carinho rápido nos cabelos da Janis.
Então seus olhos procuraram Rebeca.
A garota continuava sentada no sofá.
Braços cruzados.
O olhar perdido em algum ponto do chão.
Ainda emburrada.
— Rebeca.
Ela levantou a cabeça.
— Sim?
Miriam caminhou até ela.
Parou bem à sua frente.
Depois se curvou um pouco, até que seus olhos ficassem na mesma altura dos da sobrinha.
Falou baixo.
Sem qualquer dureza.
— Nada de se aventurar em veículos não autorizados.
Rebeca fez um pequeno bico.
— Tá bom.
Miriam respirou fundo.
— Se alguma coisa tivesse acontecido com você...
A frase ficou suspensa por um instante.
Ela engoliu em seco antes de concluir:
— Eu jamais me perdoaria.
O silêncio tomou conta da sala.
Rebeca permaneceu imóvel.
Até aquele momento, tinha pensado na bronca.
No castigo.
Na bicicleta.
Na diversão.
Mas nunca havia pensado no medo da tia.
Os olhos baixaram devagar.
Quando voltou a falar, a voz saiu quase num sussurro.
— Desculpa...
Miriam sorriu de leve.
Passou a mão pelos cabelos da menina.
— Aproveita o resto do dia. Amanhã nós conversamos.
Rebeca apenas assentiu.
— Tá bom.
Miriam se despediu mais uma vez de todos e saiu.
A porta se fechou.
Ninguém disse nada durante alguns segundos.
Rebeca continuou sentada no sofá.
Agora sem fazer bico.
Apenas olhando para as próprias mãos.
Maria Helena observou a cena em silêncio.
Depois comentou, quase para si mesma:
— Acho que isso foi melhor do que qualquer castigo.
Ester acompanhou a sobrinha com o olhar.
Depois sorriu discretamente.
— Também acho.
Janis sentou-se ao lado de Rebeca.
Deu um leve esbarrão no ombro dela.
— Ei...
Rebeca respirou fundo.
— Eu assustei ela de verdade, né?
Janis demorou alguns segundos para responder.
— Assustou.
A garota fechou os olhos por um instante.
— Eu não queria isso...
Janis passou um braço em volta dos ombros da namorada.
— Eu sei.
Rebeca encostou a cabeça no ombro dela.
E ficou ali, em silêncio.
Pela primeira vez desde o passeio, ela entendia que a bronca da Miriam não tinha nascido da raiva.
Tinha nascido do amor.
Fim do capítulo
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