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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 4659
Acessos: 97   |  Postado em: 30/06/2026

Capitulo 77 - Onde se Pode Sentir

Capítulo 77 – Onde se Pode Sentir.

 

A mesa improvisada ocupava boa parte do quintal.

Pratos.

Travessas.

Refrigerantes.

Salada de maionese.

Carne recém-saída da churrasqueira.

Tudo organizado de maneira que só famílias grandes conseguem organizar.

Depois de muita movimentação, todos finalmente começaram a se sentar.

Janis escolheu a cadeira ao lado da Rebeca.

Mas, aquilo durou aproximadamente três segundos.

— Sai pra lá.

Janis ergueu a cabeça.

— O quê?

Ester apontou para outra cadeira.

— Vai.

— Mas eu acabei de sentar.

— Eu vi.

— Então?

— Então levanta.

— Por quê?

— Porque eu quero sentar perto da Rebeca.

— Ela é minha namorada.

— E minha sobrinha.

— Isso não é justo.

— A vida nem sempre é justa.

— Mãe!

— Você não tem direito adquirido não.

Galo começou a rir imediatamente.

Glória também.

Até Maria Helena precisou esconder um sorriso.

Janis olhou para Rebeca.

— Você vai permitir isso?

Rebeca, que já estava tentando não rir, falhou miseravelmente.

— Acho que sim.

— Traição.

— Eu não disse nada.

— Disse com os olhos.

— Não sabia que meus olhos falavam.

— Mais do que você pensa.

— Dramática.

— Perseguida.

— Mimada.

— Vítima.

— Janis! — interrompeu Maria Helena. — Escolha outra cadeira ou eu mesma vou aí e te ajudo a encontrar um lugar para você sentar.

O silêncio foi imediato.

Porque aquela era uma ameaça real.

Muito real.

Janis levantou.

Resmungando.

— Eu quero registrar minha insatisfação.

— Registrada — respondeu Ester.

— E ignorada.

— Corretíssimo.

Janis acabou ocupando uma cadeira do outro lado da mesa.

Ainda indignada.

— Isso é perseguição.

— Isso é família — respondeu Glória.

— É a mesma coisa.

— Não é não.

— É sim.

— Não é.

— É.

Enquanto a discussão continuava, Ester colocou uma porção generosa de salada de maionese no prato da Rebeca.

— Experimenta.

— Obrigada.

— Então me conta uma coisa.

Rebeca ergueu os olhos do prato.

— O quê?

— Como está a escola?

— Bem.

— Bem é uma resposta muito vaga.

— Eu gosto.

— Fez amigos?

— Ainda não.

— Não?

— Eu ainda estou nas aulas de nivelamento.

— Ah.

— Então eu não convivo muito com as turmas.

Ester assentiu.

— E como funciona isso?

Os olhos da Rebeca se iluminaram imediatamente.

— Depende da matéria.

— Como assim?

— Algumas aulas são com professores, apostilas e exercícios.

— Certo.

— Mas outras são diferentes.

— Diferentes como?

— Tem os laboratórios.

 

— E o que vocês fazem nesses laboratórios? — perguntou Ester.

— Depende da matéria.

— Como assim?

— Em biologia, química e física, a gente normalmente aprende a teoria primeiro.

— Certo.

— Depois as professoras mostram na prática.

— Prática de verdade?

— Sim.

— Tipo o quê?

Os olhos da Rebeca brilharam.

— Em biologia a gente já usou microscópios.

— Microscópios de verdade? – Galo perguntou.

— Sim.

— O que você viu? – o garoto continuou interessado.

— Um monte de coisas.

— Tipo?

— Semana passada a professora estava explicando células.

— E aí?

— Ela pediu uma gota de sangue.

Galo quase derrubou o refrigerante.

— Seu sangue?

— Foi só uma gota.

— Ainda assim.

— Ninguém morreu. – Lara revirou os olhos.

— Eu teria morrido. – Galo se defendeu.

Rebeca riu.

— Foi interessante.

— E como foi o experimento? – Ester perguntou.

— A professora coletou mais algumas amostras e colocou tudo no microscópio.

— Inclusive o seu sangue?

— Inclusive o meu sangue.

— E dava para ver? – Galo perguntou.

— Dava.

— As células?

— Sim.

— Sério?

— Sim.

Os olhos da Rebeca já estavam brilhando.

— Ela foi explicando tudo enquanto mostrava.

— Tudo o quê? — perguntou Galo.

— O que são glóbulos vermelhos. Como o sangue transporta oxigênio. Como algumas doenças podem ser identificadas.

— Ah. – Galo ficou boquiaberto.

— Você não está entendendo nada, né? – Janis provocou o primo.

— Não.

— Eu imaginei. - Lara começou a rir.

— Era muito diferente de simplesmente ler no livro. Porque eu estava vendo.

— O lance do sangue ainda é estranho. — comentou Galo.

— Muito.

— Assustador.

— Um pouco.

— Legal.

— Bastante.

Ester observou a menina sorrindo.

Falando com entusiasmo.

Gesticulando.

Explicando conceitos científicos durante um almoço de família.

Então percebeu uma coisa.

Não era apenas o conteúdo que fascinava a Rebeca.

Era a descoberta.

A sensação de olhar para algo comum e perceber que existe um universo inteiro escondido ali.

Como uma gota de sangue.

Como uma biblioteca.

Como um piano.

Ou como uma menina que, há poucos meses, acreditava que o mundo terminava nos limites da própria gaiola.

— E as matérias de humanas? — perguntou Lara.

— Também são diferentes.

— Como?

— Tem bastante leitura.

— Isso não me surpreende.

— Mas os trabalhos são diferentes.

— Diferentes como?

— A professora de literatura me pediu uma tese.

Lara imediatamente prestou atenção.

— Tese?

— Sim.

— De quê?

— Da Capitu.

— Ah.

— Eu precisava escrever como uma advogada.

Agora até Ester ficou curiosa.

— Explica isso melhor.

— A professora propôs uma pergunta.

— Qual?

— Capitu traiu ou não traiu?

— Clássico — comentou Lara.

— E eu precisava escolher um lado.

— E argumentar.

— Exatamente.

— Qual você escolheu?

A resposta veio sem hesitação.

— Defesa.

— Claro que escolheu. – Ester sorriu.

— Por quê?

— Porque você sempre adota os casos perdidos.

Rebeca começou a rir.

— Talvez.

— E qual foi o argumento?

— Bentinho era doido.

A mesa inteira caiu na gargalhada.

— Rebeca!

— Ué.

— Essa não pode ser sua tese.

— Não foi assim que eu escrevi.

— Espero que não.

— Mas foi a conclusão.

Lara já estava rindo.

— Continue.

— Ele tinha ciúme de tudo.

— Tudo?

— Tudo.

— Exemplifique.

— Tem uma passagem que eu usei.

— Qual?

— Aquela passagem do mar.

Agora Lara assentiu imediatamente.

— Eu lembro.

— Eu fiquei indignada.

— Indignada?

— Muito.

— Por causa do mar?

— Sim!

A resposta veio tão rápido que todos começaram a rir.

— Explica isso — pediu Ester.

— A Capitu estava olhando para o mar.

— Certo.

— E ele fica incomodado.

— Sim.

— Como alguém pode sentir ciúmes do mar?

Galo começou a rir.

— Eu acho que essa é uma pergunta válida.

— Não é?

— É.

Rebeca apoiou os braços na mesa.

Claramente investida na discussão.

— O mar é lindo.

— Concordo.

— É admirável.

— Concordo.

— Mas é outro tipo de admiração.

— Exatamente — respondeu Lara.

Agora até ela estava interessada.

— Não faz sentido competir com o mar.

— Era exatamente o meu argumento.

— Hm.

— Você não parece convencida.

— Porque eu ainda acho que existem argumentos melhores.

— Quais?

— Depois eu explico.

Janis largou os talheres.

— Não.

— O quê?

— Eu ouvi esse "depois eu explico"?

— E daí?

— Significa que vocês vão discutir literatura por duas horas.

— Talvez.

— Definitivamente.

— E essa tal de Helba? — perguntou Ester.

Rebeca ergueu os olhos.

— Ela é minha mentora.

Lara ergueu os olhos.

— Mentora?

— Sim.

— O que isso significa?

Rebeca pensou por alguns segundos.

— Significa que ela está me ajudando a construir uma carreira.

— Na música? — perguntou Galo.

— Sim.

— Então você vai virar uma diva pop quando for adulta?

A gargalhada veio imediatamente.

— Não necessariamente.

— Ah.

— Que pena.

— Eu nem sei dançar.

— Isso pode ser aprendido.

— Eu acho que você está confundindo música com reality show.

Ester apoiou os cotovelos na mesa.

— Explica melhor.

— As aulas começaram antes mesmo do nivelamento.

— Por quê?

— Porque a Helba percebeu que eu tinha talento musical e acreditou que poderia me ajudar.

— Então você está tendo aulas particulares?

— Isso.

— E o que ela ensina?

— Ela ensina teoria musical, técnica, método de estudo... Mas, acima de tudo, ensina sensibilidade.

Lara franziu a testa.

— Sensibilidade?

— É.

— Isso parece abstrato.

— Parece mesmo.

— Então explica.

Rebeca demorou alguns segundos.

— A Helba acredita que tocar não é apenas acertar as notas.

— Hm.

— Você precisa entender o que está tocando.

— Entender como?

— O que a música quer dizer.

— Ah.

— O que ela faz as pessoas sentirem.

— Interessante.

— Ela costuma dizer que qualquer pessoa consegue apertar as teclas certas.

— E qual é a parte difícil?

— Fazer alguém sentir alguma coisa.

O silêncio que surgiu foi pequeno.

Mas sincero.

Porque aquela resposta era bonita.

— E para desenvolver a minha sensibilidade, a Helba me apresenta muitas coisas.

— Como assim? — perguntou Lara.

— Artistas, músicos, livros, filmes e espetáculos.

— Para quê?

Rebeca demorou alguns segundos para responder.

Porque aquela era uma pergunta importante.

— Para eu conhecer diferentes formas de enxergar o mundo.

Lara apoiou o queixo na mão.

— E o que você vai fazer com tudo isso?

— Me tornar concertista.

A mesa ficou em silêncio por um instante.

Porque aquela era a primeira vez que muitos deles ouviam a palavra sendo dita em voz alta.

— E você quer isso? — perguntou Lara.

Rebeca ficou pensativa.

Lembrou dos concertos.

Dos pianistas.

Das apresentações que Helba a levara para assistir.

Dos teatros.

Das luzes diminuindo.

Do silêncio antes da primeira nota.

Do sentimento estranho que surgia quando a música começava.

Então sorriu.

— Quero sim.

— E concertistas ficam ricos? — perguntou Galo.

A gargalhada veio imediatamente.

— Mais ou menos.

— Isso não parece muito animador.

— Não é por isso que eu quero ser concertista.

— Não?

— Não.

Ester apoiou os braços na mesa.

— Então por qual motivo você quer ser?

A resposta veio tranquila.

Sem hesitação.

— Para tocar no coração das pessoas.

O silêncio que se seguiu foi curto.

Mas sincero.

Até Maria Helena parou de comer.

— Isso foi muito bonito, bebê.

Rebeca ficou vermelha imediatamente.

— Eu só estou falando a verdade.

Lara continuava observando.

Pensando.

— E a Helba realmente pode fazer isso?

— O quê?

— Te tornar uma concertista.

A resposta veio sem arrogância.

Sem exagero.

Apenas com confiança.

— Ela já fez isso com muitas outras garotas.

— Sério?

— Sim.

— Você conhece alguma?

O sorriso da Rebeca voltou.

Daqueles sorrisos que aparecem quando ela lembra de alguma coisa boa.

— A maioria eu só conheço por cartas.

— Cartas?

— Sim.

— Elas escrevem para você?

— Algumas.

— E por quê?

Rebeca dá de ombros.

— Porque são gentis.

Lara imediatamente perceberia que aquela resposta é incompleta.

— Só por isso?

— Acho que não.

— Então?

— Acho que elas se lembram de como era estar começando.

A garota riu.

— Elas me chamam de irmãzinha.

— Irmãzinha? — perguntou Galo.

— Ou caçula.

— Por quê?

— Porque sou a mais nova.

— Ah.

— E porque elas cuidam umas das outras.

Agora até Glória parecia interessada.

— Cuidam como?

— Compartilhando coisas.

— Tipo?

— Livros. Partituras. CDs. Ingressos para apresentações. Dicas de estudo. Experiências.

Ela sorriu novamente.

— Tudo o que pode ajudar alguém a crescer.

— Então é como uma família? — perguntou Ester.

Rebeca ficou pensativa.

Por alguns segundos.

Então assentiu.

— É.

A resposta foi simples.

Mas verdadeira.

— Acho que é exatamente isso.

E naquele instante, Lara percebeu outra coisa.

A Helba não estava apenas ensinando música para a Rebeca.

Ela estava apresentando a ela um mundo inteiro.

Um mundo onde as pessoas aprendiam juntas.

Cresciam juntas.

E ajudavam umas às outras a chegar mais longe.

E, pela primeira vez, Lara começou a entender por que a Rebeca falava daquela mulher com tanto carinho.

— E você gosta disso? — perguntou Ester.

— Muito.

Janis olhou para a distância que a separava da namorada.

Suspirou dramaticamente.

— Isso continua injusto.

— O quê? — perguntou Galo.

— Eu estou muito longe da minha namorada.

Ester nem levantou os olhos do prato.

— Você está a aproximadamente um metro dela.

— É uma distância emocional.

— É uma cadeira.

— A senhora não entende o sofrimento.

— Entendo.

— E?

— Continuo sem dó.

A mesa voltou a rir.

Rebeca balançou a cabeça, divertindo-se.

Então Ester aproveitou a descontração.

— Agora chegamos na pergunta importante.

Todos olharam para Ester.

— Por que ela está interessada na Janis?

Janis apontou para si mesma.

— Porque eu sou interessante.

— Eu protesto — respondeu Ester imediatamente.

— Ei!

— Protesto aceito — declarou Maria Helena.

Janis ficou escandalizada.

— Quem disse que a senhora é juíza?

— Ninguém.

— Então?

— Estou usando meu direito de matriarca.

— Isso não existe.

— Existe sim.

Galo levantou a mão.

— Eu gostaria de registrar que apoio a decisão da corte.

— Puxa-saco.

Ester voltou a olhar para Rebeca.

— Então?

Rebeca sorriu.

— Eu acho que a Helba gostou da Janis.

— Isso não explica nada.

Janis já abriu a boca.

— Preciso repetir que sou interessante?

— Precisa encher a boca de carne e me deixar conversar em paz.

Janis obedeceu.

Resmungando.

Rebeca pensou por alguns segundos.

— Helba está interessada nos desenhos da Janis.

Agora Janis ergueu a cabeça.

— O quê?

— É.

— Como assim?

— Ela perguntou sobre seus desenhos algumas vezes.

— Perguntou?

— Sim.

— Mas ela nunca viu meus desenhos.

— Não.

— Então?

Rebeca deu de ombros.

— Ela ouviu dizer que eles são muito bons.

Ester arqueou uma sobrancelha.

— Hum.

Aquela foi uma reação perigosa.

Muito perigosa.

— Imagino quem tenha dito isso a ela.

A Rebeca congelou.

— Eu...

— Sim?

— Eu devo ter mencionado uma vez.

A mesa inteira começou a rir.

— Uma vez? — repetiu Ester.

— Uma vez.

— A cada cinco minutos?

O rosto da Rebeca ficou imediatamente vermelho.

— Talvez.

— Talvez?

— Talvez.

— Talvez bastante?

— Talvez bastante.

— Entendi.

Janis já estava sorrindo.

Daquele jeito insuportável que só namoradas conseguem sorrir.

— Então você fala de mim para a Helba?

— Não muito.

— Rebeca.

— Um pouco.

— Rebeca.

— Tá bom!

A gargalhada explodiu ao redor da mesa.

***

Miriam observou a fachada da loja por alguns segundos.

As prateleiras visíveis através da vitrine.

Os capacetes.

Os shapes coloridos.

As rodas.

Os equipamentos de proteção.

Então suspirou.

Tenho certeza de que vou me arrepender disso.

Ainda assim entrou.

O som de uma campainha anunciou sua chegada.

Poucos segundos depois, um rapaz apareceu do fundo da loja.

Devia ter pouco mais de vinte anos.

Sorriso fácil.

Boné virado para trás.

Energia suficiente para abastecer uma pequena cidade.

— Fala, minha amiga!

Pronto.

Aquilo já era um problema.

— Em que posso te ajudar nesse belo dia?

Miriam fechou os olhos por um instante.

Sim. Eu definitivamente vou me arrepender.

— Eu queria fazer uma surpresa para minha sobrinha.

O sorriso dele aumentou imediatamente.

— Eu adoro surpresas.

— Eu imaginei.

— Permita-me ajudar.

Miriam apontou para uma das prateleiras.

— Ela está aprendendo a andar de skate.

Os olhos do rapaz brilharam.

— Ah!

Aquilo também parecia um problema.

— Vem comigo.

— Isso nunca começa bem.

— Eu vou te mostrar o melhor equipamento para iniciantes.

Miriam o seguiu.

Com a mesma sensação de uma pessoa que acabou de embarcar em uma aventura sem nenhum planejamento prévio.

— Quantos anos ela tem?

— Dezesseis.

— Excelente idade.

— Não tenho certeza.

— Eu tenho.

— É justamente isso que me preocupa.

O rapaz já examinava alguns modelos.

— Ela já anda?

— Mais ou menos.

— Cai bastante?

— Pelo que ouvi, sim.

— Ótimo.

— Como isso pode ser ótimo?

— Significa que está aprendendo.

Miriam decidiu que não gostava daquela lógica.

Nem um pouco.

— Ela é cuidadosa?

— Não.

— Corajosa?

— Infelizmente.

— Então precisamos de um capacete.

— Concordo.

— Joelheiras.

— Concordo.

— Cotoveleiras.

— Concordo.

— E protetores de punho.

— Concordo.

O rapaz parou.

— A senhora é médica?

Miriam piscou.

— Como descobriu?

— A senhora concordou rápido demais.

— É um risco ocupacional.

O rapaz riu.

Então, apontou para uma prateleira, repleta de skates.

— Estes aqui são ótimos para começar.

— Como você sabe?

— Porque eu comecei com um parecido.

— E continua inteiro?

— Na maior parte do tempo.

Aquilo não tranquilizou Miriam.

Nem um pouco.

O rapaz já havia separado capacete.

Joelheiras.

Cotoveleiras.

Protetores de punho.

E agora analisava uma parede inteira coberta de shapes.

— Certo.

Miriam já estava começando a desconfiar daquele "certo".

— Qual é o estilo dela?

— Estilo?

— Sim.

— Em que sentido?

— O que ela gosta?

Miriam pensou por alguns segundos.

A resposta veio naturalmente.

— Música.

— Música?

— Bastante.

— Algum instrumento?

— Piano.

Os olhos do rapaz brilharam.

Aquilo era definitivamente um problema.

— Eu tenho a prancha perfeita.

Miriam já não gostou da palavra perfeita.

Nem um pouco.

O rapaz desapareceu entre as prateleiras.

E voltou alguns segundos depois carregando um shape colorido.

Muito colorido.

Colorido demais.

No centro havia a ilustração de um teclado atravessando toda a prancha.

Teclas pretas.

Teclas brancas.

Notas musicais espalhadas pelas laterais.

E algum artista claramente havia decidido que discrição era para covardes.

— O que acha?

Miriam observou o skate.

Depois observou o rapaz.

Depois observou o skate novamente.

— O desenho fica virado para baixo.

O vendedor pareceu ofendido.

— Agora fica.

— Agora?

— Quando ela aprender manobras não.

Aquilo não melhorou a situação.

— Não?

— Não.

Ele pegou um skate de demonstração.

— Olha só.

Girou a prancha no ar.

Uma vez.

Duas.

Três.

— Quando ela fizer isso...

A prancha girou novamente.

— Geral vai ver o desenho.

Miriam observou a demonstração.

Em silêncio.

Absoluto silêncio.

Na cabeça dela existiam duas vozes.

A primeira:

Isso é perigoso.

A segunda:

A Rebeca vai achar isso a coisa mais incrível do mundo.

A segunda voz estava vencendo.

Infelizmente.

— E ela vai conseguir fazer isso?

— Eventualmente.

— Quanto tempo leva?

— Depende.

— Semanas?

— Talvez.

— Meses?

— Provavelmente.

— Anos?

— Também é possível.

— Entendi.

O rapaz sorriu.

— Mas ela vai se divertir tentando.

Pronto.

Aquela frase resolveu o problema.

Porque Miriam conhecia aquele sorriso.

Já tinha visto aquele brilho nos olhos da Rebeca quando ela falava do piano.

Dos laboratórios.

Da biblioteca.

Do mar.

Definitivamente não foi uma boa ideia.

— Vou levar este.

O vendedor abriu um sorriso vitorioso.

— Excelente escolha.

— Eu tenho minhas dúvidas.

— Confie em mim.

— Essa frase costuma anteceder problemas.

— Mas problemas divertidos.

Miriam suspirou.

Porque, infelizmente, ele estava certo.

E porque já conseguia imaginar exatamente a expressão da Rebeca quando visse aquele skate.

E essa era uma batalha que ela estava disposta a perder.

Alguns minutos depois, Miriam saiu da loja carregando o skate.

Já montado.

Já ajustado.

Pronto para uso.

O vendedor ainda acenou quando ela atravessou o estacionamento.

— Ela vai adorar!

Aquilo não ajudou.

Nem um pouco.

Miriam acomodou a prancha no banco do passageiro.

Fechou a porta.

Entrou no carro.

Ligou o motor.

Permaneceu imóvel por alguns segundos.

O skate colorido parecia encará-la.

Ela encarou de volta.

— Em que você estava pensando, Miriam?

O skate não respondeu.

— A menina vai quebrar o pescoço.

Continuou sem resposta.

Miriam apoiou a cabeça no encosto do banco.

Pensativa.

— Augusto vai me julgar.

Aquilo era praticamente uma certeza.

— E com razão.

Ela olhou novamente para o skate.

Para o desenho do teclado.

Para as rodas.

Para a prancha.

Depois suspirou.

Pegou o skate.

— Ainda dá tempo de devolver.

Abriu a porta.

Saiu do carro.

Deu dois passos na direção da loja.

Parou.

Ficou imóvel por alguns segundos.

E então uma imagem surgiu na sua cabeça.

Rebeca recebendo o presente.

Os olhos arregalando.

Os pulinhos.

Os gritinhos.

Aquela expressão de felicidade genuína que aparecia sempre que alguma coisa a surpreendia.

Miriam fechou os olhos.

— Ah, droga.

Voltou para o carro.

Colocou o skate novamente no banco do passageiro.

Acomodou-o com todo cuidado.

Como se fosse uma decisão da qual certamente se arrependeria.

— Mas ela vai ficar tão feliz...

Suspirou.

Ligou o carro.

— Eu definitivamente vou me arrepender disso.

Então saiu do estacionamento.

Enquanto o skate colorido seguia ao seu lado.

E, pela primeira vez em muitos anos, Miriam percebeu que estava comprando algo não porque fosse necessário.

Nem porque fosse útil.

Nem porque fosse prudente.

Mas simplesmente porque queria ver uma menina sorrir.

***

— E os seus tios? — perguntou Ester.

Rebeca demorou alguns segundos para responder.

— Eles parecem gostar de mim.

— Eu imagino.

— E não da menina que querem que eu seja.

O silêncio que surgiu foi imediato.

Até Lara ergueu os olhos.

— Como assim?

Rebeca brincou com o garfo.

Pensativa.

— Meu pai queria que eu fosse uma pessoa diferente.

— Diferente como? — perguntou Lara.

A resposta veio simples.

Direta.

— Uma pessoa que não sente nada.

Ninguém respondeu.

— Não sente nada? — repetiu Glória.

— É.

— Como assim?

— Tristeza demais era problema. Raiva era problema. Medo era problema. Dúvida era problema. Tudo era problema.

Ela deu de ombros.

— Era mais fácil quando eu simplesmente concordava.

O silêncio voltou.

Mais pesado dessa vez.

Lara observava a Rebeca.

Tentando encaixar aquela resposta na menina sentada à sua frente.

A mesma que tinha ficado vermelha porque a Ester descobriu que ela falava da Janis para a Helba.

A mesma que discutia Dom Casmurro durante o almoço.

A mesma que parecia pedir desculpas por ocupar espaço.

Então perguntou:

— E a sua mãe?

Rebeca demorou um pouco mais para responder.

— A mamãe...

Ela parou.

Respirou.

— A mamãe sentia tanto medo do meu pai quanto eu e a Rute.

A mesa inteira ficou em silêncio.

Porque ninguém sabia exatamente o que dizer depois disso.

E foi justamente nesse momento que Maria Helena resolveu intervir.

— Pois aqui na casa da família Valente você pode sentir o que quiser.

Todos olharam para ela.

A matriarca apontou uma colher de pau na direção da mesa.

— Tristeza. Alegria. Raiva. Medo. Vergonha. Pode sentir tudo.

Então apontou para Janis.

— E por falar nisso...

Janis imediatamente estreitou os olhos.

— Não.

— Sim.

— É sério?

— É o melhor momento.

— A surpresa era minha.

— Para de charminho — respondeu Ester.

— Eu estou falando sério.

— Ninguém acredita.

— Eu estou!

— Menos ainda.

A Rebeca olhou de um rosto para outro.

Completamente perdida.

— Do que vocês estão falando?

Maria Helena apontou novamente para a neta.

— Vai buscar.

— Vó...

— Vai.

— Vó...

— Janis.

— Isso é chantagem emocional.

— E está funcionando.

Galo já estava sorrindo.

Glória também.

Até o Gordo parecia se divertir.

— O que ela tem que buscar? — perguntou Rebeca.

— Nada.

— Janis.

— Nada importante.

— JANIS.

— Tá bom!

A garota se levantou dramaticamente.

— Nesta casa não existe respeito pelos artistas.

— Vai logo — respondeu Ester.

— Eu sou perseguida.

— Vai.

— Oprimida.

— Vai.

— Silenciada.

— Janis.

— Tô indo.

Janis desapareceu para dentro da casa.

Rebeca continuava sentada à mesa.

Confusa.

— O que está acontecendo?

— Nada — respondeu Ester.

— Estão mentindo.

— Estamos.

— Pelo menos vocês admitem.

Galo já estava tentando não rir.

O que era um péssimo sinal.

Então veio o barulho.

Primeiro um estalo.

Depois outro.

Em seguida um som metálico.

E então...

VRRRRRAAAAAAAAMMMM!

O quintal inteiro congelou.

Glória fechou os olhos.

Devagar.

— Ela não fez isso.

Outro ronco respondeu à pergunta.

VRRRRRAAAAAAMMMM!

Ester nem levantou a cabeça.

— É a Janis.

— Eu sei que é a Janis.

— Então é claro que ela fez.

Maria Helena levou uma mão à testa.

— Menina encapetada.

— Concordo — respondeu Glória.

— Eu também — respondeu Ester.

— Totalmente de acordo — acrescentou Galo.

O motor voltou a rugir.

Dessa vez mais perto.

Muito mais perto.

Rebeca já estava olhando para a porta da casa.

Sem entender absolutamente nada.

— Janis está bem?

— Infelizmente sim — respondeu Ester.

Então Janis surgiu.

Montada na bicicleta.

O laço vermelho ainda preso ao guidão.

O farol novo brilhando.

A pintura reluzindo sob o sol.

E, por um segundo, Rebeca ficou imóvel.

Tentando entender o que estava vendo.

Então reconheceu.

Os olhos arregalaram.

A boca abriu.

E toda a compostura cuidadosamente construída desapareceu.

— MINHA BICICLETA!

Ela pulou da cadeira.

— MINHA BICICLETA!

Outro pulo.

— MINHA BICICLETA!

Mais um.

Janis começou a rir.

— A restauração é um oferecimento de Bigode.

Acelerou o motor.

VRRRRAAAAAAMMMM!

— O tio do ano!

A essa altura todo mundo já estava de pé.

Rebeca praticamente atravessou o quintal correndo.

Passou direto pela bicicleta.

Passou direto pela Janis.

E foi parar nos braços do Gordo.

— Obrigada, tio!

O abraço foi tão espontâneo que pegou o mecânico desprevenido.

Por um instante ele ficou sem reação.

Então abriu um sorriso.

Daqueles enormes.

Impossíveis de esconder.

Orgulhoso.

Absolutamente orgulhoso.

— Gostou?

— Ficou perfeita!

— Eu sei.

— José Antônio! — reclamou Glória.

— O quê?

— Você está mais feliz que ela.

— Talvez.

Glória cruzou os braços.

— Você é mais irresponsável que as crianças.

— Isso é uma acusação grave.

— É uma constatação.

Janis aproveitou a distração.

Deu dois tapinhas no banco traseiro.

— Sobe aqui, gata.

A Rebeca virou na mesma hora.

Não pensou e nem hesitou.

— MENINAS! — gritou Ester.

Tarde demais.

Rebeca pulou para o banco traseiro.

Passou os braços pela cintura da Janis.

E se acomodou atrás dela.

Como se aquilo fosse a decisão mais sensata do mundo.

— Pronta?

— Vai!

O motor rugiu novamente.

VRRRRAAAAAAMMMM!

E a bicicleta disparou.

Primeiro pelo quintal.

Depois em direção ao portão.

As duas gargalhando.

O laço vermelho balançando ao vento.

A bicicleta desapareceu pela rua.

O ronco do motor foi ficando cada vez mais distante.

VRRRRAAAAAAMMMM!

VRRRAAAAMMMM!

VRRAAAMM...

Até sumir completamente.

O silêncio tomou conta do quintal.

Por aproximadamente três segundos.

Então Glória virou lentamente para Maria Helena.

— A senhora vai fazer alguma coisa?

Maria Helena continuou olhando para a rua.

Pensativa.

— Vou.

— Graças a Deus.

— Vou acender uma vela para Nossa Senhora.

Glória piscou.

— O quê?

— E pedir que ela traga as duas vivas de volta.

— É sério!

— O que quer que eu faça?

— Elas estão numa bicicleta!

— Eu sei.

— Com um motor!

— Eu também sei.

— E a senhora não vai impedir?

Maria Helena olhou para a nora.

Com toda a serenidade do mundo.

— Você já tentou impedir a Janis de fazer alguma coisa?

Glória abriu a boca.

Pensou.

Fechou a boca novamente.

— Pois é.

Galo já estava rindo.

— Eu gosto do plano da vó.

— Não existe plano.

— Existe.

— Qual?

— Intervenção divina.

Ester tomou um gole de refrigerante.

— Honestamente?

— O quê? — perguntou Glória.

— É o plano mais realista que temos.

Gordo apoiou os braços na churrasqueira.

Orgulhoso.

— Elas estão felizes.

Glória virou para ele.

— Você não ajuda.

— Nunca foi meu forte.

— Eu sei.

— Mas admita.

— Não.

— Admita.

Glória suspirou.

Bem fundo.

— A bicicleta ficou bonita.

O sorriso do Gordo apareceu imediatamente.

Vitória.

Maria Helena balançou a cabeça.

Observando os dois.

Depois olhou novamente para a rua.

E murmurou:

— Nossa Senhora, proteja essas meninas.

Fez uma pausa.

Pensou melhor.

— E tenha paciência com elas.

Outra pausa.

— Principalmente com a Janis.

 

 

Fim do capítulo


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Comentários para 77 - Capitulo 77 - Onde se Pode Sentir:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 01/07/2026

O capítulo inteiro foi maravilhoso, mas Tia Miriam comprando o skate e esse final com a bicicleta foram perfeitos


Elin Varen

Elin Varen Em: 03/07/2026 Autora da história
Aaaah, muito obrigada! Fico muito feliz que você tenha gostado. A cena da Tia Miriam comprando o skate era muito importante para mostrar o jeito dela de demonstrar carinho, e o final com a bicicleta também tem um lugar especial no meu coração. Saber que essas duas partes funcionaram tão bem para você me deixa muito feliz. Obrigada por ler com tanto carinho!


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