Capitulo 76 – Você é Esperada
Capítulo 76 – Você é Esperada.
O despertador tocou às cinco e meia da manhã.
Janis desligou o aparelho antes que ele completasse o segundo toque e ficou alguns segundos sentada na beirada do colchão. O quarto ainda estava escuro. No chão, Ester dormia enrolada em uma coberta fina.
Com cuidado, Janis pegou a mochila e saiu na ponta dos pés.
A casa ainda estava mergulhada no silêncio da madrugada.
Ou quase.
A luz da cozinha já estava acesa.
Sentada à mesa, Maria Helena tomava café enquanto folheava uma revista antiga.
No corredor, a bicicleta aguardava encostada na parede.
O guidão ostentava um enorme laço vermelho.
Janis sorriu.
— Você ficou ridícula.
A menina segurou o guidão com cuidado e começou a empurrar a bicicleta na ponta dos pés.
O laço balançava de um lado para o outro.
Ela estava quase chegando ao quarto da avó quando ouviu a voz atrás dela.
— Aonde pensa que vai?
Janis parou.
— Guardar a bicicleta.
Maria Helena ergueu uma sobrancelha.
— No meu quarto?
— Quero que a Rebeca receba o presente dela na hora certa.
A idosa observou o laço vermelho.
— E por que ela não pode ficar no seu quarto?
— Porque a Rebeca vai guardar as coisas dela lá quando chegar.
— Hm.
— E a minha mãe está dormindo no chão.
— Hm.
Janis voltou a empurrar a bicicleta.
— Então achei que o seu quarto era o esconderijo mais seguro da casa.
Maria Helena fingiu pensar por alguns segundos.
— Você está dizendo que ninguém mexe nas minhas coisas?
— Estou dizendo que ninguém tem coragem.
A velha soltou um resmungo que soou perigosamente parecido com uma risada.
— Coloca atrás da poltrona.
Janis abriu um sorriso.
— Sabia que podia contar com a senhora.
— Não se acostume.
— Te amo também, vó.
— Vai trabalhar antes que eu mude de ideia.
Assim que Janis saiu para o trabalho, Maria Helena ocupou a cozinha.
O pudim foi para o forno pouco depois das seis.
Lá pelas nove, Ester finalmente acordou.
Encontrou a idosa sentada à mesa, descascando legumes para o almoço.
— Bom dia.
— Já estava começando a achar que você tinha entrado em coma.
Ester riu, serviu-se de café e se sentou.
As duas passaram a manhã conversando sobre assuntos simples. A vida, o trabalho, as crianças. Nada muito importante.
Às dez horas, o silêncio da casa terminou.
Gordo apareceu carregando uma churrasqueira, um saco de carvão e uma quantidade suspeita de utensílios.
Ester observou a movimentação pela janela.
— Hum... Vai assar a carne aqui?
— Tenho ordem judicial — respondeu ele, sem parar de andar.
Maria Helena ergueu os olhos.
— Eu quero é ter certeza de que a carne não vai ficar toda queimada como da última vez.
— Aquilo foi um incidente.
— Aquilo foi um atentado contra a culinária.
Pouco antes das onze, Glória chegou trazendo um enorme pote de salada de maionese.
Galo veio logo atrás, carregando refrigerantes.
Enquanto os homens tomavam conta da churrasqueira, a cozinha foi dominada pelas mulheres.
Panelas começaram a bater, facas trabalharam sem descanso e o cheiro do almoço logo tomou conta da casa.
Quando o relógio marcou meio-dia e meio, Janis finalmente voltou da padaria.
Cumprimentou todo mundo no caminho.
— O que aconteceu aqui?
— Fome — respondeu Glória.
A resposta pareceu satisfazê-la.
Janis pegou uma muda de roupa e foi tomar banho.
Como de costume, aproveitou para lavar o banheiro antes de sair.
Quando terminou de lavar o banheiro, Janis voltou para o quarto.
Penteou o cabelo com os dedos e abriu a gaveta da cômoda.
O frasco de perfume continuava lá.
Ela ficou alguns segundos observando o vidro.
Então deu duas borrifadas discretas no pescoço.
— Milagre.
Janis virou-se.
Ester estava parada na porta.
— Que susto!
— Achei que esse perfume tinha sido comprado só para decoração.
— Engraçadinha.
Ester se aproximou e fez uma careta exagerada.
— Está tentando agradar ou afugentar a Rebeca?
— Mãe!
— Estou perguntando por que ainda dá tempo de tomar outro banho.
— Sai daqui.
— A pobre menina vai chegar tensa e será atacada por uma nuvem tóxica.
Janis pegou a escova de cabelo e ameaçou jogar nela.
Ester recuou, rindo.
— Só estou dizendo que amor verdadeiro suporta qualquer coisa.
— Some.
Janis esperou a mãe desaparecer pelo corredor antes de revirar os olhos.
Mas o sorriso insistiu em ficar.
Lara apareceu logo em seguida.
Janis já estava na cozinha e terminava de organizar os copos sobre a mesa.
Ela observou a movimentação por alguns segundos.
A churrasqueira montada no quintal.
A salada de maionese da Glória.
O pudim da dona Maria Helena.
Os refrigerantes empilhados dentro da geladeira.
Então cruzou os braços.
— Espero que, quando eu começar a namorar, também haja todo esse empenho da família para agradar seja lá quem for.
Glória nem levantou os olhos da salada.
— Se for uma pessoa que valha a pena.
— E a Rebeca vale?
Janis ergueu a cabeça imediatamente.
O olhar que lançou para a prima deixava claro que violência era uma possibilidade real.
Lara sorriu.
— Pergunta sincera.
Ester apoiou a xícara sobre a mesa.
— Lara, o que você acha que tem mais valor? Um pássaro que nasceu livre? Um pássaro que vive numa gaiola? Ou um pássaro que está aprendendo a viver fora dela?
A adolescente franziu a testa.
— As situações são diferentes.
— São.
— Mas todos têm o mesmo valor.
Ester assentiu.
— A mesma coisa vale para a Rebeca e para qualquer pessoa que você venha a conhecer. Algumas tiveram uma vida mais fácil. Outras passaram por coisas difíceis. Algumas ainda estão aprendendo a viver de um jeito diferente. Mas isso não torna ninguém mais ou menos valioso.
Lara ficou pensativa por alguns segundos.
— E que tipo de pássaro a Rebeca é?
— Vai ter que descobrir sozinha.
Janis soltou um resmungo.
— Isso se eu não socar a sua fuça antes.
Pouco depois, um carro estacionou em frente à casa.
Janis foi a primeira a sair para receber as visitas.
A porta do passageiro se abriu.
Rebeca desceu segurando a própria bolsa e um cabide protegido por uma capa plástica.
Mais tarde, ela e Janis encontrariam Helba para assistir a um concerto. Para não amassar a roupa escolhida com tanto cuidado, Rebeca preferira trazê-la pendurada.
— Oi, tia Miriam.
Miriam sorriu do banco do motorista.
— Oi, Janis.
— Não vai entrar?
— Não. Vou fazer uma visita rápida para uma velha amiga que acabou de se mudar.
Janis entendeu na mesma hora.
— Está certo. A gente se vê amanhã.
— Até amanhã.
Rebeca se inclinou pela janela e deu um beijo no rosto da médica.
— Tchau.
— Divirta-se, menina.
O carro partiu.
Janis pegou o cabide da mão da namorada.
— Eu levo isso.
— Obrigada.
As duas seguiram em direção à casa.
Mas, antes mesmo de alcançarem a porta, Rebeca ouviu as vozes.
Gargalhadas.
Panelas.
Gente conversando ao mesmo tempo.
Ela diminuiu o passo.
— O que é isso?
— Uma festa.
— Uma festa?
— Para a mais nova integrante da família Valente.
Rebeca parou de andar.
— Janis...
— Hum?
— Você devia ter me avisado que haveria uma festa de família.
— Por quê?
— Porque eu não quero me intrometer em nada.
Janis olhou para ela por um instante.
Então um sorriso apareceu no canto de sua boca.
— Rebeca...
— O quê?
— A festa é para você.
A garota piscou algumas vezes.
— Para mim?
— Sim. Para você.
— Para ela o quê? — perguntou Maria Helena, surgindo na porta da cozinha com uma colher de pau na mão.
Janis apontou para a namorada.
— Ela perguntou.
— Fofoqueira.
A idosa ergueu a colher numa ameaça claramente simbólica.
— Essa menina não consegue ficar de boca fechada.
— Eu só respondi à pergunta.
— Não ligue para ela.
Maria Helena abriu os braços.
— Vem cá, bebê.
Rebeca mal teve tempo de reagir.
Foi puxada para um abraço firme e demorado.
Um daqueles abraços que não perguntavam nada.
Não exigiam nada.
Apenas diziam: que bom que você chegou.
E era exatamente isso que fazia os olhos da menina arderem.
Enquanto Rebeca era recebida na casa da família Valente, Miriam seguiu por mais algumas ruas até parar diante de uma casa simples.
Desceu do carro, caminhou até o pequeno portão e bateu palmas.
Poucos instantes depois, Débora apareceu à porta.
Ao reconhecer a visitante, ficou imóvel por um instante.
— Miriam...
— Desculpe aparecer sem avisar.
Débora hesitou apenas o tempo suficiente para abrir o portão.
— Entra... por favor.
A casa era simples.
Os móveis não combinavam entre si e a decoração era modesta, mas tudo estava impecavelmente limpo e organizado.
As cortinas deixavam a luz da manhã entrar suavemente, um vaso com flores descansava sobre a mesa e o aroma de café recém passado parecia abraçar quem cruzava a porta.
Era o tipo de lugar que convidava o visitante a se sentar, aceitar uma xícara de café e esquecer a hora.
Miriam sorriu discretamente.
Aquela casa tinha a delicadeza de quem estava aprendendo a recomeçar.
Débora serviu duas xícaras de café e sentou-se diante da médica.
Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.
Foi Miriam quem rompeu o silêncio.
— A lista que você me deu está sendo muito útil.
Débora ergueu os olhos.
— A Rebeca realmente come cenoura... desde que ela esteja discretamente misturada no caldo da carne.
Os lábios de Débora se curvaram num sorriso.
Os olhos, porém, marejaram.
— Ela ainda faz isso...
Miriam sorriu.
— Faz.
Abriu a bolsa e retirou um pequeno envelope.
Lá de dentro, espalhou sobre a mesa algumas fotografias.
Rebeca e Janis caminhando pela areia.
As duas rindo depois de uma onda inesperada.
Rebeca sentada na praia, olhando o mar.
Débora passou os dedos sobre uma das imagens como quem tinha medo de estragá-la.
Sorriu outra vez.
Dessa vez, as lágrimas vieram junto.
— Ela está bem...
— Está.
Miriam esperou alguns segundos antes de continuar.
— Ela está se revelando um pouquinho mais a cada dia.
Débora não respondeu.
Continuava olhando as fotografias.
— Estar com a Rebeca... — disse Miriam em voz baixa — ...é como testemunhar um pequeno milagre todos os dias.
O silêncio voltou a ocupar a sala.
Foi Débora quem o quebrou.
Débora permaneceu alguns instantes olhando as fotografias.
Passou o polegar sobre uma delas e respirou fundo.
Débora permaneceu alguns instantes olhando as fotografias.
Sorriu ao reconhecer uma expressão da filha que conhecia desde menina.
— Ela vai querer me ver.
Miriam assentiu.
— Vai.
— Eu conheço a Rebeca.
Os dedos de Débora acariciaram delicadamente uma das fotografias.
— Ela pode passar anos tentando esconder o que sente... mas, quando ama alguém, ela corre na direção daquela pessoa.
Miriam sorriu de leve.
— É exatamente isso que me preocupa.
Débora ergueu os olhos.
— Ela ainda está muito frágil.
— Sim.
— As crises de febre continuam acontecendo?
Miriam respirou fundo.
— Estão mais espaçadas, mas ainda acontecem. Basta alguma situação emocional mais intensa.
Débora fechou os olhos por um instante.
— Então não podemos apressar as coisas.
— Não.
— E tem o Moisés.
Miriam confirmou com um gesto.
— Ele não pode descobrir onde você está. Nem que a Rebeca voltou a ter contato com você.
As duas permaneceram em silêncio.
Débora foi a primeira a falar.
— Eu posso esperar.
Miriam sorriu.
— Eu prometo uma coisa.
Débora levantou os olhos.
— Quando esse reencontro acontecer, vai ser porque nós temos certeza de que vocês duas estarão seguras.
Débora assentiu.
— É tudo o que eu quero.
Na casa da dona Maria Helena, Rebeca ouviu uma voz conhecida.
— Ei.
Ela virou o rosto.
Ester surgiu da cozinha usando um avental florido. Os cabelos estavam presos de qualquer jeito, e uma pequena mancha de farinha decorava uma das bochechas.
Rebeca abriu um sorriso tão grande que nem pensou.
Correu até ela.
Ester a recebeu num abraço apertado.
— Pelo menos você esperou o carro estacionar dessa vez.
Rebeca riu.
— Aprendi.
— Ainda bem.
Ester a segurou pelos ombros.
— Quero que você conheça uma pessoa.
Glória secou as mãos no pano de prato antes de se aproximar.
Sorriu com a tranquilidade de quem parecia conhecer Rebeca havia muito mais tempo.
— Eu sou a Glória.
Rebeca sorriu de volta.
— Muito prazer.
— Mas pode me chamar de tia Glória.
— Obrigada.
Glória inclinou um pouco a cabeça.
— Posso dar um abraço?
Rebeca mal teve tempo de responder.
Ester colocou delicadamente as mãos nas costas da menina e a empurrou na direção de Glória.
— Vai.
Glória a segurou antes que perdesse o equilíbrio.
Depois lançou um olhar divertido para Ester.
— Você é a mulher mais delicada que eu conheço.
— Eu sei.
Janis apareceu ao lado das duas.
— Vem. Vamos guardar sua bolsa e essa roupa no meu quarto.
Rebeca assentiu.
As duas mal haviam dado os primeiros passos pelo corredor quando a voz de Maria Helena ecoou da cozinha:
— PORTA ABERTA!
Janis fechou os olhos por um instante.
— Meu Deus...
Olhou para Rebeca e balançou a cabeça.
— Que fixação nesse assunto.
Assim que entraram no quarto, Janis fechou a porta apenas o suficiente para deixá-la encostada.
Mas aberta, como exigia dona Maria Helena.
Rebeca pousou a bolsa sobre a cama.
Janis pendurou cuidadosamente o cabide com a roupa do concerto no puxador do guarda-roupa.
— Assim não amassa.
— Obrigada.
Enquanto Janis ajeitava o plástico que protegia a roupa, Rebeca abriu a bolsa.
Como sempre, começou a retirar uma pequena pilha de livros.
— Você realmente leva uma biblioteca para qualquer lugar.
— Nunca se sabe quando...
Antes que terminasse a frase, Janis passou um braço em volta de sua cintura e a puxou para si.
— Ai!
O pequeno gritinho fez Janis rir.
Sem dificuldade alguma, ela a acomodou nos braços.
Rebeca passou um instante inteiro tentando parecer indignada.
— Sua ogra.
Janis sorriu.
Afastou delicadamente uma mecha de cabelo do rosto da namorada e depositou um beijo rápido em seus lábios.
— Eu estava com saudades.
A expressão emburrada de Rebeca desapareceu.
Ela relaxou o corpo devagar, encostando a cabeça no ombro de Janis.
— Eu também.
Por alguns segundos, nenhuma das duas disse mais nada.
Não precisavam.
Lá fora, as vozes da família se misturavam ao barulho das panelas.
Ali dentro, bastava aquele abraço para que o resto do mundo esperasse mais um pouquinho.
A tranquilidade durou pouco.
Sem bater à porta, Lara simplesmente entrou no quarto.
— Janis, a vó quer saber se...
Parou no meio da frase.
Janis ainda segurava Rebeca nos braços.
As duas olharam para a intrusa.
— Você não conhece a palavra "licença"? — resmungou Janis.
— Conheço.
— Então usa.
— Pensei que a porta aberta fosse um convite.
Janis revirou os olhos.
Ainda estava um pouco irritada com a prima pelas provocações de mais cedo.
Rebeca, por outro lado, apenas sorriu sem jeito.
Um sorriso pequeno, quase um pedido de desculpas por estar ali.
Foi nesse instante que Lara realmente a enxergou.
A roupa era bonita.
O cabelo estava impecavelmente arrumado.
A maquiagem era discreta e muito bem feita.
Tudo parecia cuidadosamente escolhido.
Mas bastava olhar um pouco além.
As mãos permaneciam unidas diante do corpo, como se não soubessem onde ficar.
Os ombros estavam levemente encolhidos.
O sorriso hesitava.
E os olhos pareciam procurar, o tempo todo, algum sinal de que ela era bem-vinda.
Aquilo apertou o estômago de Lara.
Ela se lembrou das próprias brincadeiras.
Das perguntas inconvenientes.
De tudo o que imaginara sobre aquela menina sem sequer conhecê-la.
Respirou fundo.
— Eu sou a Lara.
Estendeu a mão.
Rebeca a olhou por um instante antes de aceitá-la.
— Rebeca.
Janis apontou para a prima com um suspiro resignado.
— É... essa é a Lara.
Lara ignorou a apresentação pouco entusiasmada.
Sorriu para Rebeca.
— Bem-vinda à família Valente.
Os olhos de Rebeca se iluminaram por um breve instante.
— Obrigada.
Lara já estava saindo quando seus olhos caíram sobre a cama.
Os livros que Rebeca pretendia organizar ainda estavam empilhados ao lado da bolsa.
Ela se aproximou.
— Você trouxe livros?
Rebeca pareceu até surpresa com a pergunta.
— Eu... trouxe.
Lara leu os títulos.
— Alice no País das Maravilhas...
Pegou outro.
— O Pequeno Príncipe...
Olhou para Rebeca.
— Você lê bastante?
Rebeca sorriu.
— Um pouquinho.
Janis soltou uma risada.
— Ela chama uma biblioteca de "um pouquinho".
Lara pegou mais um volume.
— Eu também gosto de ler.
Rebeca pareceu sinceramente interessada.
— Sério?
— Bastante.
Silêncio.
Então Lara arregalou os olhos.
— Peraí.
Virou-se e saiu correndo do quarto.
Janis piscou.
— O que foi isso?
Rebeca deu de ombros.
— Não faço ideia.
Janis abriu caminho pelo corredor.
— Vamos. Ainda falta apresentar metade da família.
Assim que chegaram ao quintal, ela apontou para os dois homens perto da churrasqueira.
— Galo. Bigode. Apresento a Rebeca.
O rapaz sorriu primeiro.
— Então você é a famosa Rebeca.
Ela sorriu, sem graça.
— Acho que sim...
O homem ao lado limpou as mãos num pano de prato antes de estendê-las.
— Muito prazer.
Esperou que ela apertasse sua mão.
— Mas pode me chamar de tio Gordo. É bem mais jovial do que "Bigode".
Janis arqueou uma sobrancelha.
— O que pode ser mais jovial do que Bigode?
— Absolutamente qualquer coisa.
— Discordo.
— Você não serve de parâmetro.
— Claro que sirvo.
— Você me chama de Bigode desde criança.
— Justamente. Cresci chamando você de Bigode. É um nome que envelheceu bem.
Galo deu uma risada.
— Eu não vou entrar nessa discussão.
Rebeca tentou manter a expressão séria.
Não conseguiu.
Acabou rindo baixinho.
Foi nesse instante que uma voz surgiu atrás dela.
— Rebeca.
Ela se virou.
Lara caminhava em sua direção segurando um livro.
A capa estava um pouco desbotada, e as bordas denunciavam que aquele exemplar já tinha passado por muitas leituras.
Ela o estendeu.
— Acho que você vai gostar.
Rebeca leu o título com cuidado.
— Tomates Verdes Fritos...
— Comprei num sebo faz alguns anos.
Lara deu um sorriso discreto.
— É um dos meus livros favoritos.
Rebeca recebeu o volume como quem recebia algo precioso.
Passou os dedos delicadamente pela capa.
— Obrigada.
— Não precisa devolver com pressa.
— Vou cuidar muito bem dele.
Lara sorriu.
— Eu imaginei que diria exatamente isso.
Antes que Rebeca pudesse agradecer outra vez pelo livro, uma movimentação inesperada chamou a atenção de todos.
— Dá uma levantadinha aí! — avisou Ester.
Ela surgiu na porta da cozinha carregando uma das pontas da mesa.
Na outra ponta vinha Glória.
— Para a direita!
— Sua direita ou a minha? — perguntou Glória.
— A que impedir a mesa de bater na porta!
— Ah...
As duas conseguiram atravessar a passagem por uma margem que parecia pequena demais.
Janis observava a cena com os braços cruzados.
— Impressionante.
— O quê? — perguntou Galo.
— Nunca vi duas pessoas transformarem uma mesa numa operação militar.
— Reclama menos e ajuda mais! — respondeu Ester.
Janis obedeceu entre risos.
Enquanto isso, Maria Helena apareceu na varanda, enxugando as mãos no avental.
Olhou para o quintal, conferiu se todos estavam ali e anunciou:
— Muito bem... está na hora do almoço!
As conversas cessaram por um instante.
Logo em seguida, o quintal voltou a se encher de risadas, cadeiras sendo arrastadas e gente disputando quem ajudaria a colocar os últimos pratos sobre a mesa.
Rebeca permaneceu parada por alguns segundos.
Observava aquela movimentação simples, barulhenta e completamente desorganizada.
Sem perceber, sorriu.
Pela primeira vez, não se sentia uma visitante.
Sentia-se esperada.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 30/06/2026 Autora da história
Nunca!
Hoje eu consegui postar mais um capítulo. Espero que goste.