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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 3059
Acessos: 75   |  Postado em: 09/06/2026

Capitulo 71 - O Homem que não sabia amar (completo)

Capítulo 71 – O Homem que Não Sabia Amar 
 
Aquela era a terceira vez que Helba ajustava o metrônomo. 
E a terceira vez que aquilo não adiantava absolutamente nada. 
O problema não era técnica. 
Nem leitura. 
Nem mesmo os erros. 
Era o tempo. 
As notas saíam corretas. 
Mas lentas. 
Mais lentas do que deveriam. 
Como se cada uma precisasse ser examinada antes de receber autorização para existir. 
Helba observou por alguns instantes. 
Então estendeu a mão. 
E fechou a tampa do piano. 
O som interrompeu a música imediatamente. 
Rebeca ergueu os olhos. 
Confusa. 
— O que foi? 
— Acho que precisamos conversar. 
A menina imediatamente desviou o olhar. 
— Eu estou bem. 
— Eu não perguntei se você está bem. 
Silêncio. 
— Rebeca. 
Mais silêncio. 
Helba apoiou os braços sobre o piano. 
— Quero que se lembre de uma coisa. 
A menina continuou olhando para as próprias mãos. 
— Antes de ser sua professora... 
A voz suavizou. 
— Eu sou sua amiga. 
Os olhos azuis finalmente ergueram-se. 
— Você pode confiar em mim. 
Por alguns segundos, nada aconteceu. 
Então: 
— Ele é tão grande quanto o Moisés. 
Helba piscou. 
— Quem? 
— O tio Augusto. 
Silêncio. 
— E quem é Moisés? 
A resposta demorou. 
Como se estivesse presa em algum lugar difícil de alcançar. 
— Meu pai. 
Helba assentiu devagar. 
— E ele é um homem grande? 
Rebeca concordou. 
Uma mecha azul foi enrolada entre os dedos. 
Depois desenrolada. 
Depois enrolada novamente. 
— Quando está zangado ele fica maior. 
— Maior? 
— Ele grita. 
A resposta saiu baixa. 
Helba esperou. 
— E o que mais? 
As mãos abandonaram o cabelo. 
Inconscientemente, deslizaram pelos próprios braços. 
Como se lembrassem antes da cabeça. 
— Ele bate. 
O silêncio ocupou a sala. 
Por alguns segundos, Helba não disse nada. 
Apenas ficou ali. 
Presente. 
— Ah. 
Foi tudo o que respondeu. 
Porque algumas dores mereciam espaço antes das palavras. 
Rebeca baixou os olhos. 
Como se tivesse revelado algo vergonhoso. 
— Posso te fazer uma pergunta? 
A menina assentiu. 
— Você nunca conviveu com o seu tio? 
Rebeca pensou. 
— Quando eu era criança, ele, a tia Miriam e o Júnior costumavam nos visitar no final do ano. 
— E como eram essas visitas? 
— Normais. 
— Você sentia medo dele? 
A resposta demorou. 
Mas veio. 
— Não. 
— Não? 
— Na verdade, não. 
— E como ele parecia? 
Rebeca pensou mais um pouco. 
Então deu de ombros. 
— Bonzinho. 
Helba sorriu. 
— Bonzinho? 
— É. 
— Essa é uma descrição surpreendentemente técnica. 
Pela primeira vez, um sorriso apareceu no rosto da menina. 
Pequeno. 
Mas verdadeiro. 
— Ele nunca gritou comigo. 
— Isso é bom. 
— Nem com o Júnior. 
— Melhor ainda. 
O sorriso aumentou. 
— Uma vez o Júnior colocou fogo no tapete da igreja. 
Helba piscou. 
— Desculpe? 
— Foi sem querer. 
— Claro que foi. 
— Ele estava observando formigas. 
— Evidentemente. 
— Com uma lente de aumento. 
Helba já estava começando a rir. 
— Continue. 
— As formigas estavam passeando no tapete. 
— Isso parece o começo de uma tragédia. 
— E foi uma tragédia. 
— Imaginei. 
— Aí o sol bateu na lente. 
— Ah não. 
— E o tapete começou a pegar fogo. 
Helba levou uma mão à boca. 
— O que aconteceu depois? 
— O Júnior entrou em pânico. 
— Justo. 
— E decidiu apagar o fogo. 
— Excelente decisão. 
— Só que ele não sabia usar o extintor. 
— Ah não. 
— Então tentou jogar o extintor em cima das chamas. 
Helba começou a rir. 
— Eu consigo imaginar a cena. 
— O tio Augusto viu. 
— E? 
— Levantou no meio do culto. 
— Certo. 
— Pegou o extintor. 
— Ótimo. 
— E apagou o fogo. 
— Melhor ainda. 
— Mas ele se empolgou. 
Helba fechou os olhos. 
— Rebeca... 
— E acertou uma parte da irmandade. 
A gargalhada escapou antes que pudesse impedir. 
— Meu Deus. 
— A tia Miriam teve uma crise de riso. 
— Eu também teria. 
As duas ficaram rindo por alguns segundos. 
Quando o silêncio voltou, ele parecia mais leve. 
Mais respirável. 
Helba apoiou o queixo na mão. 
— Curioso. 
— O quê? 
— Você passou a última meia hora me explicando por que está com medo do Augusto. 
— Sim. 
— E a única lembrança que conseguiu me contar sobre ele envolve apagar um incêndio provocado pelo próprio filho. 
Rebeca ficou em silêncio. 
Pensando. 
— Quando a senhora fala desse jeito parece meio ridículo. 
— Eu não disse ridículo. 
— Não? 
— Eu disse interessante. 
A menina sorriu. 
Então ficou séria novamente. 
— E se eu estiver errada? 
— Sobre o quê? 
— Sobre ele. 
Helba observou a adolescente por alguns segundos. 
— Então você vai descobrir. 
— Só isso? 
— Só isso. 
— Não parece muito. 
— É mais do que você imagina. 
Rebeca baixou os olhos. 
Pensativa. 
Alguns minutos depois elas caminhavam pelo corredor que levava ao refeitório dos professores. 
Na porta havia uma placa. 
PROIBIDA A ENTRADA DE PESSOAL NÃO AUTORIZADO. 
Rebeca diminuiu o passo. 
Como sempre fazia quando as duas iam almoçar ali. 
Helba empurrou a porta. 
— Vamos. 
— Está escrito... 
— Eu sei ler. 
— Mas... 
— Você está comigo. 
A menina ainda hesitou. 
Helba suspirou. 
— No dia em que eu acordar de mau humor vou arrancar essa placa. 
— Isso parece um crime. 
— Só se me pegarem. 
Já na fila do self-service, Helba apontou para a travessa. 
— Salada. 
Rebeca fez um muxoxo. 
— Salada. 
— Eu já comi ontem. 
— Vai pegar o dobro por ter reclamado. 
— Isso é abuso de autoridade. 
— Sou professora. Faz parte do cargo. 
Sentaram-se perto da janela. 
Durante alguns minutos falaram de coisas sem importância. 
Até que Rebeca comentou: 
— O tio Augusto também fazia isso. 
— O quê? 
— Mandava as crianças comerem vegetais. 
— Um homem sensato. 
— Ele cortava a carne de todo mundo. 
— Mesmo da Rute? 
— Principalmente da Rute. 
Helba riu. 
— Ela deixava? 
— Não. 
— Imagino. 
A lembrança trouxe outra. 
E depois outra. 
— A Rute era diferente naquela época. 
— Diferente como? 
— Ela ria mais. 
— Sim? 
— Era muito bonita. Todos os meninos gostavam dela. 
— E ela? 
— Só tinha olhos para o Josué. 
O sorriso desapareceu devagar. 
— Depois ela engravidou. 
Helba percebeu a mudança imediatamente. 
— E então? 
Rebeca ficou alguns segundos em silêncio. 
— Foi a primeira vez que eu tive medo do meu pai. 
A professora não interrompeu. 
— Ele não bateu na Rute, pois ela estava grávida. Mas destruiu metade da casa. Quebrou móveis. Jogou coisas contra a parede. Eu lembro do barulho. Lembro da minha mãe chorando. Lembro de ficar escondida. 
A voz ficou menor. 
— Eu achei que ele fosse destruir a casa inteira. 
Silêncio. 
— E depois? 
Os olhos azuis se perderam em algum ponto distante. 
— A tia Miriam apareceu. 
— Sim? 
— E o tio Augusto me levou para tomar sorvete. 
A expressão da menina suavizou. 
— Só vocês dois? 
— Sim. 
— E sobre o que conversaram? 
— Eu não lembro. 
— Não? 
— Não. Mas lembro da volta. 
Helba permaneceu quieta. 
— Eu estava segurando a mão dele. 
O silêncio voltou. 
Mas agora era um silêncio diferente. 
Quente. 
Gentil. 
Cheio de memória. 
— Quando chegamos, ele me entregou para a minha mãe. Depois ele e a tia Miriam levaram a Rute embora. 
Helba observou a adolescente por alguns segundos. 
Então perguntou: 
— Você percebe uma coisa curiosa? 
— O quê? 
— Todas as lembranças que você me contou sobre o Augusto são boas. 
Rebeca permaneceu imóvel. 
Pensando. 
Incêndio. 
Almoço. 
Carne cortada. 
Sorvete. 
A mão segurando a dela. 
Nenhuma delas machucava. 
Nenhuma delas assustava. 
— Acho que sim. 
— Então talvez você não esteja com medo do Augusto. 
A menina abaixou os olhos. 
— Então do que eu tenho medo? 
Helba apoiou os braços sobre a mesa. 
— De reencontrar o seu pai em outra pessoa. 
O mundo pareceu parar por um instante. 
Porque aquilo fazia sentido. 
Mais sentido do que deveria. 
A professora ficou em silêncio por alguns segundos. 
Então falou: 
— Escute com atenção. 
Os olhos azuis voltaram a encontrá-la. 
— Se alguém for violento com você... Homem ou mulher. Família ou não. Adulto ou adolescente. Qualquer pessoa. 
A voz permaneceu calma. 
Mas firme. 
— Você pode me procurar. 
Rebeca permaneceu imóvel. 
— Mesmo que seja a Janis. 
— A Janis? Ela não faria nada de mal comigo. 
Helba sorriu. 
— Assim espero. 
Rebeca baixou os olhos, contrariada. 
— Eu ainda não conheço a Janis de verdade. Só conheço a versão dela que você me conta. 
— Ah. 
— E, honestamente? 
O sorriso da Helba aumentou. 
— Estou curiosa. 
A professora abriu a bolsa. 
Procurou alguma coisa. 
E colocou dois envelopes sobre a mesa. 
— O que é isso? 
— Dois ingressos. 
Rebeca piscou. 
— Ingressos? 
— Um para você. 
Ela empurrou o segundo envelope. 
— E um para a Janis. 
Rebeca observa os envelopes. 
— A senhora quer mesmo conhecê-la? 
— Quero. 
— Por quê? 
Helba apoia o queixo na mão. 
Pensativa. 
— Porque ela parece interessante. 
— Ela é. 
— E porque quero ver os desenhos dela. 
Rebeca pisca. 
— Os desenhos? 
— Sim. 
Helba apoiou o queixo na mão. 
— Você vive elogiando os desenhos dela. 
Rebeca piscou. 
— Eu não vivo elogiando. 
— Vive sim. 
— Não vivo. 
— Rebeca, eu já ouvi sobre os desenhos da Janis, as pinturas da Janis, os cadernos da Janis... 
A menina cruzou os braços. 
— Tá bom. 
— Quero ver se são tão bons quanto você diz. 
Helba deu um sorriso travesso. 
— Além disso, uma pessoa que consegue provocar febre psicossomática em uma aluna normalmente equilibrada merece ser estudada de perto. 
Rebeca cobriu o rosto. 
— Eu sabia que não devia ter contado aquilo. 
— Tarde demais. 
E pela primeira vez naquele dia, a menina riu sem medo. 
O almoço já tinha terminado quando Rebeca saiu do refeitório. 
Helba seguiu para uma reunião. 
E a menina ficou esperando perto da entrada da escola. 
Não precisou esperar muito. 
Poucos minutos depois, o carro da tia Lígia apareceu. 
Assim que entrou, ouviu a pergunta de sempre. 
— Está tudo bem, gatinha? 
Rebeca demorou alguns segundos para responder. 
Ainda estava pensando na conversa com Helba. 
No Moisés. 
No Augusto. 
No incêndio da igreja. 
No sorvete. 
Na mão segurando a dela. 
— Está sim. 
Lígia lançou um olhar rápido na direção dela. 
Como quem sabia que aquela resposta não contava a história inteira. 
Mas respeitava o silêncio. 
Depois de alguns segundos, Rebeca completou: 
— O tio Augusto e o Júnior vão voltar para casa hoje. 
Um sorriso apareceu no rosto da mulher. 
— Vão mesmo. 
— A senhora conhece o tio Augusto? 
— Conheço. 
— E como ele é? 
Lígia pensou por um instante. 
Então respondeu: 
— Seu tio é um dos homens mais tranquilos que eu já conheci. 
Rebeca virou a cabeça imediatamente. 
— Sério? 
— Sério. 
A mulher soltou uma risada. 
— Homens normalmente não são muito pacientes. 
— Não? 
— Não. Especialmente quando são pais de alguém como o Júnior. 
A gargalhada escapou antes que pudesse evitar. 
— O Júnior dá trabalho? 
— Gatinha... 
Lígia fez uma pausa dramática. 
— O Júnior transforma tarefas simples em aventuras. 
Rebeca sorriu. 
— Então ele dá trabalho. 
— Bastante. 
— E o tio Augusto? 
— É o pai e a mãe da paciência. 
O sorriso permaneceu no rosto da menina. 
Pequeno. 
Pensativo. 
— Mesmo? 
— Mesmo. 
— Nem quando o Júnior faz besteira? 
— Principalmente quando o Júnior faz besteira. 
Rebeca observou a paisagem pela janela. 
— Estranho. 
— O quê? 
— Eu lembro dele sendo assim. 
— Porque ele é assim. 
A resposta veio simples. 
Sem esforço. 
Sem discurso. 
Como quem descreve a cor do céu. 
— Às vezes a gente passa tanto tempo preocupada com uma coisa que esquece o que já sabe. 
Rebeca ficou em silêncio. 
Porque talvez fosse exatamente isso. 
Talvez ela tivesse esquecido. 
Ou talvez apenas tivesse deixado o medo falar mais alto que a memória. 
E, pela primeira vez naquele dia, a ideia de reencontrar o tio não pareceu tão assustadora. 
Rebeca entrou na clínica em silêncio. 
Cumprimentou a recepcionista. 
Cumprimentou Luma. 
E encontrou Miriam atrás do balcão. 
Conferindo alguns prontuários. 
— Oi. 
— Oi. 
A resposta veio automática. 
Os olhos continuaram nas pastas. 
Rebeca seguiu pelo corredor. 
Passou pela sala de espera. 
Chegou perto da área de descanso. 
Então parou. 
Ficou imóvel por alguns segundos. 
Pensando. 
Depois voltou. 
— Tia? 
— Hum? 
— A senhora não tem medo do Moisés? 
Miriam continuou lendo. 
— Não. 
A resposta veio tão rápido que surpreendeu a menina. 
— Por quê? 
Só então Miriam ergueu os olhos. 
Observou a sobrinha por alguns segundos. 
Depois fechou a pasta. 
— Porque eu conheço o Moisés de um jeito que poucas pessoas conhecem. 
Ela entregou os prontuários para Luma. 
— Já volto. 
Então apontou para o corredor. 
— Vem comigo. 
Poucos minutos depois, as duas estavam sentadas na área de descanso. 
Miriam serviu café para si mesma. 
Chocolate para Rebeca. 
Porque existiam tradições que não deveriam ser quebradas. 
A menina segurou a caneca. 
Ainda esperando. 
Miriam apoiou os cotovelos na mesa. 
Pensativa. 
— Eu ajudei a criar o seu pai. 
Rebeca piscou. 
— Sério? 
— Muito sério. 
Um sorriso pequeno apareceu. 
— Você deve lembrar que nosso pai foi embora quando ainda éramos crianças. 
A menina assentiu. 
— Eu tinha quinze anos. 
— Seu pai tinha sete. 
O sorriso desapareceu. 
— Foi devastador para ele. 
— Foi? 
— Foi. 
Miriam ficou alguns segundos olhando para a própria xícara. 
Como se estivesse vendo outra época. 
Outro lugar. 
— O Moisés amava o nosso pai. 
Mais do que amava qualquer outra coisa. 
Silêncio. 
— E quando ele foi embora... 
A mulher suspirou. 
— Moisés ficou perdido. 
Rebeca permaneceu imóvel. 
Escutando. 
— O que aconteceu depois? 
— Nossa mãe precisou trabalhar. Muito. E eu passei a cuidar dele. 
— Sozinha? 
— Quase sempre. 
A menina baixou os olhos. 
Tentando imaginar. 
— Como ele era? 
Miriam soltou uma risada sem humor. 
— Rebelde. 
— Rebelde? 
— Fugia da escola. Brigava. Batia nos colegas. Respondia aos professores. 
Rebeca franziu a testa. 
— Por quê? 
Miriam demorou alguns segundos para responder. 
— Porque ele não sabia o que fazer com a dor. 
O silêncio voltou. 
— Algumas pessoas choram. Algumas se fecham. Algumas procuram ajuda. 
A voz ficou mais baixa. 
— E algumas machucam tudo o que conseguem alcançar. 
Rebeca observou a própria caneca. 
— Isso desculpa o que ele fez? 
Miriam respondeu imediatamente. 
— Não. 
A firmeza da resposta ocupou a sala inteira. 
— Não desculpa. Nunca desculpou. Nunca vai desculpar. 
A menina assentiu. 
Devagar. 
— Então por que está me contando isso? 
Miriam sorriu. 
Triste. 
Mas sincera. 
— Porque entender uma pessoa não é a mesma coisa que concordar com ela. 
Rebeca ficou pensando naquilo. 
Por bastante tempo. 
Então perguntou: 
— E ele ficou melhor? 
A pergunta arrancou um silêncio longo da mulher. 
— Em algumas coisas. 
— Sim. 
— Em outras... 
Miriam desviou os olhos. 
— Não. 
As duas ficaram quietas por alguns segundos. 
Até que Miriam pousou a mão sobre a mesa. 
— Seu pai fez escolhas pelas quais ele é responsável. Todas elas. Mas antes de ser o homem que você conheceu... Ele foi um menino que eu amava muito. 
Os olhos de Rebeca baixaram para a caneca. 
Pensativos. 
Porque aquela talvez fosse a primeira vez que alguém lhe mostrava uma versão do Moisés que não era apenas assustadora. 
Não melhor. 
Não inocente. 
Apenas humana. 
E, por algum motivo, isso tornava tudo ainda mais triste. 
— Então por que a senhora não tem medo dele? 
Miriam girou a caneca entre os dedos. 
Pensativa. 
— Porque eu conheço o Moisés há muito tempo. Mais tempo do que qualquer outra pessoa. 
Rebeca permaneceu em silêncio. 
Escutando. 
— Quando ele era criança, nossa mãe e eu tentávamos ajudá-lo. 
— Como? 
— Com afeto. 
A resposta veio simples. 
— Quando ele brigava na escola. Quando fugia das aulas. Quando fazia alguma coisa estúpida. 
Um sorriso pequeno apareceu. 
— O que acontecia? 
— Nós o amávamos mesmo assim. 
O sorriso desapareceu. 
— Todas as vezes. 
Rebeca baixou os olhos. 
— E funcionou? 
Miriam soltou uma risada baixa. 
Sem humor. 
— Às vezes. 
— Só às vezes? 
— Só às vezes. 
O silêncio voltou. 
— É por isso que ele não consegue enfrentar a senhora? 
Miriam demorou alguns segundos para responder. 
— Não. 
Rebeca piscou. 
— Não? 
— Seu pai pode enfrentar qualquer pessoa. 
A mulher girou a caneca entre os dedos. 
— A questão é que ele sabe que eu não estou lutando contra ele. 
A menina ergueu os olhos. 
Surpresa. 
— Mesmo depois de tudo? 
— Mesmo depois de tudo. 
— E a senhora não sente raiva? 
— Sinto. 
A resposta veio imediata. 
— Bastante. 
— Então por que... 
Miriam respirou fundo. 
Escolhendo as palavras. 
— Porque eu não quero responder da mesma forma que ele responde. 
O silêncio ocupou a sala. 
— O que isso significa? 
A mulher apoiou os braços sobre a mesa. 
— Significa que eu poderia passar a vida inteira brigando com o seu pai. 
— Discutindo. Gritando. Tentando vencer uma guerra. 
Ela balançou a cabeça. 
— Mas essa não é a vida que eu quero. 
Os olhos da Rebeca permaneciam fixos nela. 
— Então o que a senhora faz? 
Miriam sorriu. 
Triste. 
Mas sincera. 
— Eu cuido das pessoas que ele feriu. 
A resposta pairou entre elas. 
Pesada. 
Verdadeira. 
— Da Rute. Da Débora. De você. 
Os olhos azuis imediatamente se encheram de emoção. 
— De mim? 
— Principalmente de você. 
Miriam estendeu a mão sobre a mesa. 
Sem pressa. 
Sem exigir nada. 
— Algumas pessoas respondem à dor causando mais dor. Outras tentam interromper a corrente. 
Rebeca observou a mão da tia por alguns segundos. 
Então colocou a própria mão sobre ela. 
Pequena. 
Frágil. 
Segura. 
— E a senhora escolheu interromper? 
Miriam apertou seus dedos com carinho. 
— Todos os dias. 
— Mesmo quando é difícil? 
— Principalmente quando é difícil. 
O silêncio voltou. 
Mas dessa vez não era triste. 
Era o silêncio de quem finalmente entendia alguma coisa. 
Talvez não sobre o Moisés. 
Mas sobre a Miriam. 
E sobre o motivo pelo qual ela sempre parecia tão forte. 
Miriam bebeu mais um gole de café. 
Depois apoiou a caneca sobre a mesa. 
— Ainda preocupada com o Augusto? 
Rebeca pensou por alguns segundos. 
— Não muito. 
Um sorriso apareceu no rosto da mulher. 
— Isso é bom. 
A menina girou a própria caneca entre os dedos. 
Pensativa. 
Então falou: 
— Eu só queria entender uma coisa. 
— O quê? 
A resposta demorou. 
Como se precisasse atravessar uma distância enorme para sair. 
— Se o problema estava em mim. 
Miriam permaneceu imóvel. 
Atenta. 
— Ou... 
Rebeca hesitou. 
— No meu pai. 
O silêncio ocupou a sala. 
Miriam pegou a caneca. 
Tomou um longo gole de café. 
Não porque precisasse pensar na resposta. 
Mas porque aquela era uma pergunta que merecia respeito. 
Quando voltou a falar, sua voz estava suave. 
— Eu adoraria que você pudesse se enxergar através dos meus olhos. 
Rebeca franziu a testa. 
— Por quê? 
Miriam sorriu. 
Daquele jeito que sempre fazia quando estava prestes a dizer alguma coisa importante. 
— Porque você veria a menina mais fofa, mais gentil e mais adorável que eu já conheci. 
A adolescente imediatamente desviou o olhar. 
— Tia... 
— Estou falando sério. 
— A senhora é suspeita. 
— Sou. 
— Muito. 
— Ainda assim estou certa. 
Rebeca ficou olhando para a própria caneca. 
Sem coragem de encará-la. 
— Então por que ele não gosta de mim? 
A pergunta saiu tão baixa que quase desapareceu. 
Miriam sentiu o coração apertar. 
Porque aquela era a pergunta. 
A pergunta que existia por trás de todas as outras. 
— Rebeca. 
A menina ergueu os olhos. 
— Seu pai gosta de você. 
— Gosta? 
— Sim. 
— Então por que... 
Miriam suspirou. 
— Porque gostar de alguém e saber amar alguém são coisas diferentes. 
O silêncio voltou. 
— Seu pai nunca aprendeu a amar direito. Nem a ser cuidado. Nem a cuidar.p E você acabou pagando o preço por isso. 
Os olhos azuis ficaram cheios de lágrimas. 
Mas ela não chorou. 
Ainda não. 
— Então o problema não era eu? 
Miriam respondeu imediatamente. 
Sem hesitação. 
Sem espaço para dúvida. 
— Nunca foi você. 
— Nem quando eu fazia bagunça? 
— Nem quando fazia bagunça. 
— Nem quando tirava nota baixa? 
— Nem quando tirava nota baixa. 
— Nem quando eu era chata? 
A mulher riu. 
— Especialmente quando era chata. 
Isso arrancou um sorriso pequeno da menina. 
— Então qual era o problema? 
Miriam demorou alguns segundos para responder. 
— Seu pai carregava feridas que nunca 

aprendeu a tratar. E acabou transformando essa dor em alguma coisa que machucava as pessoas ao redor. Mas essa dor começou nele. Não em você.

A sala ficou silenciosa.

Por um longo tempo.

Até que Rebeca encostou a cabeça no ombro da tia.

Como fazia desde criança.

Miriam passou um braço ao redor dela.

Sem dizer mais nada.

Porque algumas respostas precisam ser explicadas.

E outras apenas precisam ser abraçadas.

Miriam olhou para o relógio.

Então arregalou os olhos.

— Você vai se atrasar para o inglês.

Rebeca piscou.

— Ah.

Olhou para os livros.

Depois para a porta.

A menina levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira.

— Estou indo.

— Eu percebi.

Rebeca recolheu os livros.

A caneta.

O estojo.

Quase esqueceu o caderno.

Voltou para buscá-lo.

Então disparou corredor afora.

— Tchau!

— Rebeca.

A voz de Miriam a alcançou antes que chegasse à porta.

A adolescente parou.

Virou-se.

— O quê?

Miriam permaneceu sentada.

Observando a sobrinha por alguns segundos.

Como se estivesse avaliando alguma coisa.

Então sorriu.

Pequeno.

Calmo.

— Você é maravilhosa.

O corredor ficou silencioso.

— Não se esqueça disso.

Os olhos azuis piscaram uma vez.

Depois outra.

Como se aquela frase tivesse chegado de surpresa.

Um sorriso tímido apareceu.

Pequeno.

Mas verdadeiro.

— Tá bem.

E então ela foi embora.

Correndo novamente.

Porque estava atrasada.

Mas também porque algumas palavras eram difíceis de carregar andando devagar.

Miriam observou a porta se fechar.

E sorriu para si mesma.

Porque, de todas as coisas que a Rebeca precisava aprender naquele dia...

Talvez aquela fosse a mais importante.

Fim do capítulo

Notas finais:

Perdão. 

Na postagem anterior o capítulo saiu incompleto.

Estou sem computador e está um pouco mais difícil pra escrever.

Mas, seguimos tentando.

Obrigada por avisarem.


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Comentários para 71 - Capitulo 71 - O Homem que não sabia amar (completo):
Socorro
Socorro

Em: 09/06/2026

Eu sabia que tava faltando algo que a frase da miriam não tava encaixando kkk 

Eu ia relatar kkk  só não tive tempo de fazer ..

obrigada 


Elin Varen

Elin Varen Em: 14/06/2026 Autora da história
Pois é menina...
Postar diretamente do celular não é uma tarefa fácil!


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