Capitulo 70 - Um problema que não poderia ser resolvido com lógica
Capítulo 70 - Um problema que não poderia ser resolvido com lógica.
O quarto do hotel parecia ter sido atingido por um desastre natural de pequena escala.
Havia roupas sobre a cama.
Livros sobre a cadeira.
Um tênis perto da porta.
Outro em algum lugar que Augusto ainda não tinha conseguido localizar.
No centro daquele caos circulava Júnior.
Em velocidade máxima.
— Meu filho...
Júnior passou correndo.
— Hum?
— Pelo amor de Deus.
— O quê?
— Tenha calma.
— Eu estou calmo.
— Você está correndo em círculos há quinze minutos.
— Estou organizando.
— Você está produzindo vento.
Júnior ignorou a observação.
Abriu uma gaveta.
Fechou.
Abriu a mala.
Fechou.
Abriu outra gaveta.
— Eu não quero deixar nada para trás.
— Isso não significa que você precise correr por aí como o furacão Katrina.
— Vai que eu esqueço alguma coisa.
Augusto suspirou.
Pegou uma camiseta do chão.
Dobrou.
Colocou na mala.
Do outro lado do quarto, Júnior reapareceu.
— Você viu meu carregador?
— Está na sua mão.
Júnior olhou para a própria mão.
— Ah.
— Impressionante.
— Eu estava te testando.
— Claro que estava.
— E o senhor passou.
Augusto balançou a cabeça.
Mas sorriu.
Porque, apesar do caos, estava gostando daquela versão do filho.
Animada.
Falante.
Leve.
Muito diferente do menino silencioso que com quem convivera alguns anos antes.
Júnior voltou para a mala.
Dessa vez em velocidade apenas ligeiramente absurda.
O silêncio durou quase um minuto.
O que, para Júnior, era um recorde.
Então:
— Pai?
— Hum?
— Você está nervoso?
Augusto ergueu os olhos.
— Com o quê?
— Com a Rebeca.
A pergunta ficou suspensa no ar.
Por alguns segundos.
Augusto voltou a dobrar uma camisa.
Com cuidado.
Pensando na resposta.
— Um pouco.
— Eu também.
— Sério?
— Claro.
Augusto pareceu surpreso.
— Achei que você estivesse só animado.
— Eu estou animado.
— E nervoso.
— Dá para ser os dois.
— Dá.
Júnior sentou na cama.
Pela primeira vez naquela manhã.
— E se ela não gostar da gente?
Augusto soltou uma risada baixa.
Porque a pergunta era quase idêntica à que Rebeca provavelmente estaria fazendo naquele mesmo momento.
— Eu acho que vamos sobreviver.
— Isso não foi uma resposta.
— É a melhor que eu tenho.
Júnior pensou por alguns segundos.
Depois assentiu.
— Justo.
Então voltou a levantar.
— Certo.
— O que foi agora?
— Preciso encontrar meu outro tênis.
— Está no seu pé.
Júnior olhou para baixo.
Silêncio.
— Eu nunca vou superar isso, né?
— Não.
— Justo.
Depois de deixar Júnior na escola, Augusto seguiu para o escritório.
A manhã foi ocupada.
Telefonemas.
Reuniões.
Documentos.
Problemas que precisavam ser resolvidos.
Mas sua atenção parecia escorregar constantemente para outro lugar.
Para outra pessoa.
Em algum momento, percebeu que estava lendo o mesmo parágrafo pela terceira vez.
Suspirou.
Tirou os óculos.
E apoiou a cabeça nas mãos.
A verdade era simples.
Ele estava preocupado.
Não com o reencontro.
Mas com a Rebeca.
Porque, por mais que Miriam insistisse que ela estava melhor, uma imagem continuava voltando.
Aquela menina magra.
Sentada no sofá.
Os ombros curvados.
As mãos imóveis.
Os olhos vazios.
Como alguém que tinha desistido de esperar qualquer coisa boa da vida.
Augusto fechou os olhos.
Ainda conseguia vê-la.
Ainda conseguia lembrar do silêncio.
Da apatia.
Da sensação de que qualquer palavra mais alta poderia quebrá-la.
E era justamente isso que o assustava.
Não queria ser mais um peso.
Não queria ser mais uma exigência.
Não queria ser mais um adulto chegando cheio de expectativas.
A menina já tinha carregado coisas demais.
E havia uma diferença enorme entre querer fazer parte da vida de alguém e ter o direito de fazer parte dela.
Augusto não sabia exatamente onde se encaixava.
Não sabia o que a menina esperava dele.
Não sabia sequer se ela esperava alguma coisa.
Mas uma certeza ele tinha.
Não pisaria naquela casa para cobrar espaço.
Nem afeto.
Nem confiança.
Essas coisas não podiam ser exigidas.
Precisavam ser construídas.
Devagar.
No tempo dela.
Porque a última coisa que queria era se tornar mais um homem puxando uma menina para dentro de um poço do qual ela havia levado tanto tempo para sair.
E, se fosse preciso escolher entre a própria ansiedade e a tranquilidade da Rebeca...
A escolha seria simples.
Sempre seria.
Pouco depois do almoço, Augusto tomou uma decisão.
Abriu a agenda.
Olhou para os compromissos da tarde.
Depois ligou para a secretária.
— Preciso cancelar algumas coisas.
— Algum problema?
Augusto girou a cadeira lentamente.
Observando a cidade pela janela.
— Não.
Fez uma pausa.
— Na verdade, é exatamente o contrário.
A primeira parada foi uma barbearia.
Porque Júnior havia comentado, dois dias antes, que ele estava parecendo um professor cansado.
Augusto ainda não tinha certeza se aquilo era uma crítica.
Mas decidiu não correr riscos.
A segunda parada foi uma floricultura.
E foi ali que percebeu que estava mais nervoso do que imaginava.
Porque passou quase quinze minutos escolhendo um arranjo.
Rosas pareciam formais demais.
Girassóis pareciam exagerados.
Lírios lembravam hospitais.
A florista observou sua indecisão por alguns minutos.
Então perguntou:
— Primeira visita?
Augusto piscou.
— Como sabe?
— Experiência.
Ela apontou para um arranjo simples.
Bonito.
Colorido sem ser chamativo.
— Esse costuma funcionar.
Augusto comprou exatamente aquele.
Depois veio a padaria.
A missão era simples.
Comprar uma sobremesa.
O problema era que existiam sobremesas demais.
Depois de cinco minutos observando vitrines, escolheu uma torta de morango.
Enorme.
Absolutamente desnecessária.
O que a tornou perfeita.
A última parada foi o supermercado.
Carrinho.
Corredores.
Lista mental.
Ingredientes para o jantar.
Molho.
Legumes.
Massas.
Temperos.
Em determinado momento, percebeu que estava analisando três marcas diferentes de azeite.
Como se estivesse tomando uma decisão capaz de alterar o destino da humanidade.
Respirou fundo.
Pegou a primeira.
E seguiu em frente.
Porque a verdade era simples.
Ele estava nervoso.
Não por causa do jantar.
Não por causa da casa.
Nem por causa das flores.
Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, tinha a sensação de estar se preparando para algo realmente importante.
Algo que nenhuma planilha conseguiria organizar.
Nenhum relatório conseguiria prever.
Nenhum sistema conseguiria calcular.
Uma menina.
Um reencontro.
E a esperança silenciosa de que aquilo fosse o começo de alguma coisa boa.
Quando finalmente chegou em casa, Augusto sentiu que as coisas estavam sob controle.
As flores já ocupavam o centro da mesa.
A sobremesa estava guardada na geladeira.
E o jantar avançava de maneira promissora.
Pela primeira vez naquele dia, começou a acreditar que talvez tudo desse certo.
Então ouviu um estrondo vindo da área de serviço.
Augusto fechou os olhos.
Contou até três.
E seguiu o barulho.
Encontrou Júnior ajoelhado diante de uma mala aberta.
Ou melhor.
De uma mala que havia sido completamente destruída em nome de uma busca aparentemente urgente.
Roupas ocupavam metade do chão.
Algumas tinham sido arremessadas para uma cadeira.
Outras pareciam vítimas inocentes de uma explosão.
— Pelo amor de Deus, meu filho.
— Oi, pai.
— O que você está fazendo?
— Procurando uma coisa.
— Eu percebi.
— Então está tudo certo.
— Não. Não está.
Júnior continuou revirando a mala.
— Eu só preciso da máscara.
— Que máscara?
— A máscara.
— Isso esclareceu muito pouco.
— A do ensaio.
— Qual ensaio?
— Pai.
Júnior ergueu os olhos.
— Eu faço dança há bastante tempo.
— Eu sei.
— Então...
— Isso não explica a máscara.
— Explica um pouco.
Augusto decidiu não insistir.
Porque claramente perderia.
Alguns segundos depois, Júnior soltou um grito de vitória.
— Achei!
Ergueu uma máscara teatral como se tivesse encontrado um artefato perdido da humanidade.
— Excelente.
— Eu sabia que estava aqui.
— Fico feliz.
Então, sem o menor respeito pela organização do universo, empurrou todas as roupas de volta para dentro da mala.
De qualquer jeito.
Fechou o zíper.
E seguiu em direção à cozinha.
Augusto observou em silêncio.
Porque algumas batalhas simplesmente não valiam a pena.
Foi então que percebeu.
— Ei.
— Hum?
— O que você está pegando?
Júnior já estava com a porta do armário aberta.
— Nada.
— Isso é um pacote de bombons.
— Talvez.
— Estavam escondidos.
— Talvez.
— Júnior.
— Estou atrasado.
— Você nem respondeu.
— Amo você.
— Isso também não responde.
Mas o menino já estava correndo escada acima.
Augusto permaneceu parado na cozinha.
Ainda usando o avental florido.
Ainda segurando uma colher de pau.
Ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
— Espero que um dia eu consiga acompanhar o raciocínio desse menino.
O molho continuou cozinhando.
A casa voltou ao silêncio.
Por aproximadamente quinze minutos.
Então passos voltaram a ecoar pela escada.
Júnior reapareceu.
Agora vestido para o ensaio.
Ou pelo menos para o que ele considerava um ensaio.
— Até mais tarde, pai!
— Ju...
Mas já era tarde.
A porta bateu.
E o silêncio voltou novamente.
Augusto observou a entrada vazia.
Depois balançou a cabeça.
Sorrindo sozinho.
Porque, apesar do caos permanente...
A casa parecia muito mais viva desde que aquele menino tinha entrado nela.
O jantar estava pronto.
Augusto observou tudo por alguns segundos.
Como se estivesse conferindo mentalmente uma lista invisível.
Flores.
Pronto.
Jantar.
Pronto.
Sobremesa.
Pronta.
Respirou fundo.
Então ouviu um carro parando em frente à casa.
O som foi suficiente.
Seu coração disparou imediatamente.
Augusto permaneceu imóvel.
Escutando.
O motor desligou.
Uma porta se abriu.
Depois outra.
Por um instante, teve vontade de rir.
Porque era ridículo.
Liderava equipes.
Falava para auditórios lotados.
Tomava decisões que envolviam milhões de reais.
Mas ouvir um carro estacionar em frente à própria casa tinha sido suficiente para deixá-lo nervoso.
Muito nervoso.
Porque aquilo não era uma reunião.
Não era um projeto.
Não era um problema que pudesse ser resolvido com lógica.
Era uma menina.
Uma família.
Um reencontro.
E, talvez, um novo começo.
Augusto respirou fundo mais uma vez.
Então caminhou em direção à porta.
E abriu.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 08/06/2026
Meu Deus Júnior e Rebeca juntos....o que pode acontecer?
Temos que nos preparar psicologicamente...kk
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Elin Varen Em: 14/06/2026 Autora da história
Meu medo nem é o Júnior e a Rebeca juntos... meu medo é o estrago que eles podem fazer quando resolverem concordar em alguma coisa!
Acho que a gente precisa de capacete, terapia e um estoque de café antes desse encontro acontecer.