Capitulo 69 - Entre perguntas e silêncios
Capítulo 69 – Entre perguntas e silêncios.
Miriam gostava das manhãs.
Talvez porque fossem os únicos momentos do dia em que conseguia observar Rebeca sem que ela percebesse.
Naquele dia, por exemplo, a menina estava sentada à mesa da cozinha.
Falando.
Muito.
Sobre um livro.
Miriam não tinha certeza se estava acompanhando a história.
Mas acompanhava a felicidade.
E isso bastava.
— O autor passou trezentas páginas construindo uma teoria.
— Hum.
— Aí ele simplesmente joga tudo pela janela.
— Que ousado.
— É criminoso.
— Entendi.
— Você não está me ouvindo.
— Estou sim.
— Então qual é o problema?
— O autor jogou tudo pela janela.
— Isso.
— E você está revoltada.
— Muito.
Miriam sorriu.
Rebeca voltou para o café.
E para o livro.
E para os comentários indignados sobre o livro.
Como se estivesse recuperando o tempo perdido.
Pouco depois, o assunto mudou.
Como sempre mudava.
— Hoje tem laboratório.
Miriam ergueu os olhos.
— Laboratório?
— Química.
— Você parece animada.
— Porque eu estou animada.
Rebeca apoiou os cotovelos na mesa.
— Na minha escola antiga quase não tinha aula prática.
— Não?
— Não.
— E hoje vamos usar o laboratório de verdade.
— Com equipamentos?
— Sim.
— Com experiências?
— Sim.
— Com jaleco?
Rebeca abriu um sorriso.
— Principalmente com jaleco.
Miriam riu.
Porque havia alguma coisa profundamente adorável naquela empolgação.
Era apenas uma aula.
Mas para Rebeca parecia uma aventura.
E talvez fosse.
Mais uma experiência.
Mais uma descoberta.
Mais um pedaço de mundo que estava voltando a pertencer a ela.
***
Quando deixou Rebeca na escola, Miriam permaneceu alguns segundos observando a menina atravessar o portão.
Ela caminhava depressa.
Segurando a mochila contra o corpo.
Provavelmente pensando no laboratório.
Ou no livro.
Ou nos dois.
Miriam esperou até que ela desaparecesse de vista.
Então pegou o telefone.
O número de Augusto continuava salvo nos favoritos.
Atendeu no terceiro toque.
— Oi.
— Oi.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não.
— Então por que esse tom?
Miriam observou a escola por alguns segundos.
— Eu estava pensando.
— Isso nunca termina em coisa simples.
— Eu acho que chegou a hora.
Do outro lado da linha houve silêncio.
Não um silêncio de dúvida.
Um silêncio de compreensão.
— Tem certeza?
Miriam respirou fundo.
Pensou na praia.
Na Janis.
Na Maria Helena.
Na Helba.
Nas aulas.
Nos livros.
Nas risadas.
Na menina que agora atravessava laboratórios como quem atravessava novas fronteiras.
— Tenho sim.
Augusto permaneceu quieto.
— Acho que o momento é perfeito.
***
A manhã passou rapidamente.
Consultas.
Prontuários.
Telefonemas.
Pacientes.
Quando percebeu, já era hora da menina voltar da escola.
Encontrou Rebeca na área de descanso.
Sentada no chão.
Os livros de francês espalhados ao redor.
A mochila aberta.
E uma batalha aparentemente séria acontecendo entre folhas soltas e uma pasta.
— Oi.
— Oi.
— Como foi o laboratório?
Rebeca levantou os olhos.
E imediatamente começou a falar.
Miriam sorriu.
A experiência tinha sido um sucesso.
Pelo menos era o que parecia depois dos primeiros cinco minutos de explicação.
Quando finalmente terminou, voltou a organizar o material.
Miriam encostou no batente da porta.
Observando.
Esperando.
Escolhendo as palavras.
Então decidiu que não existia forma perfeita de dizer aquilo.
— Rebeca.
— Hum?
— Precisamos conversar.
O efeito foi imediato.
Rebeca congelou.
Uma folha escorregou de suas mãos.
— Isso nunca é bom.
— Nem sempre.
— Quase sempre.
— Rebeca...
— O que aconteceu?
Miriam respirou fundo.
E, pela primeira vez naquele dia, sentiu um leve nervosismo.
— Eu queria conversar sobre o Augusto.
Silêncio.
Depois:
— E sobre o Júnior.
***
A aula de francês normalmente era uma das partes favoritas do dia.
Naquele dia, porém, Rebeca não conseguiu prestar atenção em metade do que foi dito.
As palavras continuavam chegando.
Os exercícios continuavam aparecendo no quadro.
Os colegas continuavam respondendo perguntas.
Mas sua mente insistia em voltar para a mesma conversa.
Augusto.
Júnior.
O reencontro.
A possibilidade.
A professora percebeu antes do fim da aula.
Percebeu porque Rebeca respondeu uma pergunta errada.
Depois perdeu uma explicação.
Depois ficou olhando para a mesma página durante vários minutos.
Quando os outros alunos começaram a sair, ela se aproximou.
— Está tudo bem?
Rebeca demorou alguns segundos para responder.
— Tudo.
A professora esperou.
Como se soubesse que havia mais alguma coisa.
Mas não insistiu.
— Certo.
Rebeca guardou o material.
Sorriu.
E foi embora.
O caminho até a clínica era familiar.
Tão familiar que ela normalmente conseguia percorrê-lo quase sem pensar.
Naquele dia, pensava demais.
— Ei!
A voz veio da cafeteria.
Rebeca ergueu a cabeça.
A atendente estava na porta.
— Fadinha do cabelo azul!
— Oi.
— Não vai tomar um chocolate quente hoje?
Rebeca hesitou.
— Tá.
Entrou.
Recebeu o chocolate.
Depois um cookie.
Porque aparentemente recusar comida era impossível naquela rua.
Agradeceu.
Sentou-se.
Tomou alguns goles.
Mas o gosto parecia distante.
Como se estivesse acontecendo com outra pessoa.
Poucos minutos depois voltou para a calçada.
Seguiu caminhando.
— Nossa melhor cliente vai passar direto hoje?
A voz veio da livraria.
Rebeca suspirou.
O vendedor sorriu.
— Isso foi um sim.
Ela entrou.
Passeou entre as estantes.
Passou os dedos pelas lombadas.
Escolheu um livro.
Pagou.
Saiu.
Mais adiante, a dona da loja de doces acenou da vitrine.
— Temos brigadeiro.
— Tá. Eu aceito.
A mulher pareceu satisfeita com a resposta.
Depois do brigadeiro, Rebeca continuou andando.
Nada estava funcionando da forma habitual.
As pessoas eram as mesmas.
A rua era a mesma.
As lojas eram as mesmas.
Mas ela estava em outro lugar.
Presa dentro da própria cabeça.
Quando finalmente entrou na clínica, o expediente estava terminando.
Alguns pacientes saíam.
Luma organizava documentos.
Miriam estava terminando uma anotação.
Rebeca parou perto da porta.
Observando.
Em silêncio.
As duas demoraram alguns segundos para perceber sua presença.
— Oi — disse Miriam.
— Oi.
— Como foi o francês?
— Foi legal.
Miriam trocou um olhar rápido com Luma.
Respostas curtas.
Sinal clássico.
Rebeca estava pensando demais.
Então o silêncio voltou.
Longo.
Até que ela falou.
Baixinho.
Como se estivesse pensando em voz alta.
— Se o tio Augusto não gostar de mim...
Miriam congelou.
Luma também.
Rebeca apertou o livro novo contra o peito.
— Com quem eu vou morar?
O silêncio que se seguiu foi tão imediato que ela finalmente percebeu o que tinha acabado de dizer.
E talvez tenha sido naquele momento que Miriam entendeu o tamanho real do medo da menina.
Porque Rebeca não estava preocupada com o reencontro.
Estava preocupada com pertencimento.
Com família.
Com ter um lugar para ficar.
Miriam foi a primeira a falar.
— Nós temos uma garagem bem grande.
Rebeca piscou.
— O quê?
— Se o Augusto causar problemas, podemos construir um quartinho para ele lá.
— Tia!
— Colocamos uma cama.
— Tia Miriam!
— Talvez um micro-ondas.
— Estou falando sério.
A resposta saiu baixa.
Muito baixa.
E imediatamente toda a leveza desapareceu.
Miriam trocou um olhar com Luma.
Aquele tipo de olhar que dispensava explicações.
Luma foi a primeira a entender.
— Pode ir.
— Tem certeza?
— Eu tranco tudo.
Miriam assentiu.
Pegou a bolsa.
Esperou alguns segundos.
Depois se aproximou da menina.
Rebeca ainda segurava o livro contra o peito.
Como se ele pudesse protegê-la de alguma coisa.
Miriam observou aquilo por um longo momento.
Então sorriu.
— O que você acha de darmos um pulinho no shopping antes de voltar para casa?
— Agora?
— Agora.
— Mas é dia de semana.
— Eu sei.
— A senhora trabalhou o dia inteiro.
— Trabalhei.
— E eu tenho lição de casa.
— Não importa.
— Muita lição de casa.
— Você está exagerando.
Rebeca hesitou.
— Talvez eu esteja exagerando.
— Foi o que pensei.
O cinema foi escolha da Miriam.
Porque a Rebeca demoraria quarenta minutos para decidir.
O filme foi escolha da Rebeca.
Porque a Miriam demoraria quarenta minutos para decidir.
As duas consideraram isso uma divisão justa.
Depois veio o jantar.
E a conversa.
Primeiro sobre o filme.
Depois sobre livros.
Depois sobre a escola.
Depois sobre absolutamente nada importante.
Mas, por mais que Miriam se esforçasse, Rebeca voltava ao mesmo estado.
A mesma inquietação.
A mesma dúvida.
A mesma expectativa.
Até que finalmente largou os talheres.
— A senhora está se despedindo de mim?
Miriam quase engasgou.
— O quê?
— Isso tudo: Cinema. Jantar. Conversa.
Miriam encarou a menina por alguns segundos.
Depois levou uma mão ao rosto.
— É claro que não, criatura.
— Então por que estamos fazendo isso?
Miriam apoiou os cotovelos na mesa.
— Porque você está assustada.
Rebeca desviou o olhar.
— E porque às vezes, quando as pessoas estão assustadas, elas precisam de uma noite boa para lembrar que nem tudo está mudando.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez era diferente.
Mais tranquilo.
Mais seguro.
Miriam estendeu a mão por cima da mesa.
Esperou.
E alguns segundos depois, Rebeca segurou sua mão.
— Você não vai a lugar nenhum. Você faz parte da nossa família.
Rebeca permaneceu em silêncio.
Miriam apertou sua mão com carinho.
— Mesmo que ainda não esteja convivendo com todos os membros dela.
A voz da mulher era firme.
Absolutamente firme.
— O Augusto não tem poder para mudar nenhuma dessas coisas.
Pela primeira vez desde a conversa daquela manhã, Rebeca pareceu respirar de verdade.
Como se finalmente tivesse encontrado espaço para isso.
A volta para casa foi tranquila.
Mais tranquila do que Miriam havia esperado.
Rebeca terminou a lição.
Organizou o material para o dia seguinte.
Tomou banho.
E desapareceu para o quarto.
Miriam aproveitou para dar uma geral na casa.
Guardou algumas coisas.
Lavou a louça.
Organizou o que precisava ser organizado.
Depois tomou banho.
Vestiu o pijama.
E finalmente se acomodou na cama com um livro.
A casa estava silenciosa.
Tão silenciosa que o leve rangido da porta do quarto chamou sua atenção imediatamente.
Miriam ergueu os olhos da leitura.
A porta se abriu apenas alguns centímetros.
Então uma figura magricela atravessou a fresta.
Sem fazer barulho.
Sem dizer nada.
Atravessou o quarto.
Ergueu a ponta do cobertor.
E desapareceu embaixo dele.
Miriam observou o volume suspeito ao seu lado.
Esperou.
Nada aconteceu.
Esperou mais um pouco.
Ainda nada.
— Pois não?
A resposta veio abafada por causa do cobertor e embolada por conta da placa de bruxismo.
— Tá...
— Hum?
— Mesmo que eu continue morando aqui...
Miriam fechou o livro.
Porque aquele começo nunca terminava em coisa simples.
— Certo.
— Vai ser muito ruim se o tio Augusto não gostar de mim.
Silêncio.
Miriam apoiou a cabeça no travesseiro.
Pensando.
Então respondeu:
— É impossível uma pessoa não gostar de você.
A resposta veio imediatamente.
Ainda debaixo das cobertas.
— O Moisés não gosta de mim.
Miriam ficou em silêncio por dois segundos.
Talvez três.
Então respondeu:
— Devido aos últimos acontecimentos, eu não estou mais classificando o Moisés como pessoa.
Por um instante, nada aconteceu.
Então o cobertor começou a se mexer.
Uma risada escapou.
Depois outra.
E, de repente, Rebeca estava gargalhando.
Daquele jeito desajeitado que fazia parecer que ela estava tentando rir e pedir desculpas ao mesmo tempo.
Miriam sorriu.
Porque aquele era exatamente o objetivo.
Quando a crise diminuiu, uma cabeça de cabelo azul finalmente surgiu para fora das cobertas.
— A senhora não pode falar isso.
— Posso sim.
— Não pode.
— Acabei de falar.
— Tia Miriam...
— Estou sendo bastante generosa, inclusive.
Rebeca voltou a rir.
Depois ficou quieta.
Pensando.
— Você acha mesmo que ele vai gostar de mim?
Miriam estendeu a mão.
Afastou uma mecha de cabelo do rosto da menina.
E respondeu com toda a honestidade que possuía:
— Eu acho que ele já gosta.
— Eu acho difícil.
— Rebeca...
— E se for estranho?
— Vai ser estranho.
— Obrigada pela confiança.
— Não terminei.
Rebeca ergueu uma sobrancelha.
— Vai ser estranho. Vai ser desconfortável. Vai ser emocionante. Vai ser confuso. E provavelmente alguém vai chorar.
— Eu?
— Com certeza você.
— Traidora.
— Mas sabe o que não vai acontecer?
— O quê?
— Você nunca vai deixar de ser parte desta família.
Dessa vez, Rebeca não respondeu.
Apenas se aproximou um pouco mais.
E ficou ali.
Enrolada no cobertor.
Como alguém que precisava ouvir exatamente aquilo antes de conseguir dormir.
A casa estava quieta.
A conversa parecia ter terminado.
Ou quase.
Miriam fechou os olhos.
Esperou alguns segundos.
Depois abriu apenas um deles.
A menina continuava ali.
Exatamente no mesmo lugar.
— Não me lembro de ter te convidado para dormir aqui.
Rebeca nem sequer levantou a cabeça.
— Pensei que o convite estivesse implícito.
— Implícito? Que palavra difícil.
— Aprendi com a Helba.
Miriam esperou mais um pouco.
Talvez a menina se levantasse.
Talvez voltasse para o próprio quarto.
Talvez fingisse que pretendia voltar.
Mas nada aconteceu.
Rebeca permaneceu exatamente onde estava.
Imóvel.
Como um gato que havia decidido ficar.
E que agora considerava aquele espaço propriedade particular.
— Rebeca...
Nenhuma resposta.
Miriam inclinou a cabeça.
Os olhos da menina já estavam fechados.
Ou quase.
A tensão do dia finalmente começava a desaparecer.
Com cuidado, Miriam puxou o cobertor.
Cobriu melhor os ombros da menina.
Afastou uma mecha azul do rosto.
E apagou a luz do abajur.
— Boa noite, Rebeca.
A resposta veio sonolenta.
Quase um murmúrio.
— Boa noite.
Poucos minutos depois, ela já dormia.
E Miriam permaneceu acordada por mais algum tempo.
Observando.
Pensando.
Porque, apesar de todos os livros, diagnósticos, teorias e anos de profissão...
Algumas vezes a melhor forma de ajudar alguém continuava sendo absurdamente simples.
Uma conversa.
Um cobertor.
E um lugar seguro para dormir.
Fim do capítulo
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