Capitulo 16 - Efeito do Vinho Barato e... Outras Cláusulas Noturnas
O ponteiro digital no painel do sedã executivo mudou para as dezenove e cinquenta bem quando Phoebe Fields freou junto à calçada de tijolos aparentes no subúrbio de Londres. A chuva da noite anterior havia cedido espaço a uma névoa densa e tipicamente britânica, que transformava os postes de iluminação pública em globos difusos de luz amarelada.
Phoebe tamborilou os dedos no volante revestido de couro. Ela havia trocado o terno azul-petróleo manchado de mamão por uma calça de alfaiataria preta de cintura alta e uma blusa de seda texturizada em tom marfim, protegida por um sobretudo de lã batida. O corretivo na ponte do nariz ainda cumpria seu papel, mas seu estômago operava em uma rotação que nada conseguiria justificar.
Às vinte horas em ponto, a porta de metal pintado do edifício se abriu.
Isla Cooper surgiu na calçada. Sem o uniforme azul da agência, ela parecia uma força da natureza desalinhada: usava uma calça jeans escura, botas de couro macias de salto baixo e uma jaqueta de camurça verde-oliva sobre uma camiseta preta simples. Os cabelos loiros curtos estavam penteados para trás e fixos com gel, e os olhos verdes brilharam assim que ela localizou o carro.
Isla abriu a porta do carona, trazendo consigo o aroma fresco de sabão de coco e o vento frio da rua. Ela entrou, jogando-se no banco com a mesma naturalidade com que havia se portado na cobertura de Phoebe.
- Boa noite, Fields - Isla disse, puxando o cinto de segurança. - Pontual como uma boa inglesa. Fico feliz em ver que não há vestígios de frutas tropicais na sua vestimenta atual. - disse, olhando-a de cima a baixo.
- Boa noite, Cooper - Phoebe respondeu, novamente ficando vermelha como uma adolescente pela inspeção visual de Isla. Engatou a marcha e saiu suavemente com o veículo. - Eu tenho uma excelente coordenação motora quando não estou sob o efeito de assédio moral provocado pela minha própria funcionária da segurança.
Isla soltou uma risada rouca, encostando a cabeça no apoio do banco e observando o perfil rígido de Phoebe contra as luzes da cidade e o rubor no rosto da chefe.
- Para onde estamos indo? Espero que o seu conceito de "restaurante normal" não envolva um lugar onde o garçom me explica a genealogia da trufa antes de colocá-la no meu prato.
- Fique tranquila. Eu sei cumprir acordos - Phoebe disse, embora a menção à palavra "acordo" fizesse sua base tremer. - Vamos a um pequeno lugar em Borough Market. Um restaurante de massas divinas, mas com talheres de metal normais e sem gastronomia conceitual. Apenas comida boa e simples.
***
O restaurante era exatamente o que Phoebe havia prometido: um espaço pequeno, com paredes de tijolos expostos, vigas de madeira escura no teto e poucas mesas iluminadas por velas de cera de abelha. O som ambiente era o murmúrio baixo dos clientes e o tilintar de pratos, longe do eco estéril dos salões mais chiques.
Sentadas em uma mesa de canto, a tensão que havia flutuado na sala da presidência e durante o trajeto até ali, começou a se assentar. Isla analisava o cardápio com uma seriedade quase militar, enquanto Phoebe já havia solicitado a primeira garrafa de um vinho tinto da Toscana - não por pretensão, mas porque seu sistema nervoso exigia um anestésico imediato.
- Então - Isla começou, pousando o menu de papelaria simples na mesa e apoiando os antebraços na madeira da mesa. - O ramo suíço da família Fields. Eles são do tipo que contam as moedas de ouro no cofre, tipo Tio Patinhas ou do tipo que esquiam nos Alpes Suíços, reclamando dos nativos e dos turistas estrangeiros?
Phoebe deu um gole generoso no vinho, sentindo o calor do álcool começar a desatar os nós em seus ombros.
- Ambos. Meu tio Freddie gerencia a holding de investimentos na Europa e considera qualquer demonstração de afeto público um erro crasso. Seus filhos, meus primos, são clones dele, vestidos com suéteres de cashmere e com uma fixação doentia por cavalos e jogos de polo. Eles vão tentar desossar você em perguntas. Além disso são pedantes e mau humorados.
- Eles podem tentar - Isla sorriu, aquele semicírculo de lábios que fazia os joelhos de Phoebe perderem a sustentação. - Eu já passei por interrogatórios da inteligência militar em fronteiras. Garotos ricos de suéter não me assustam. Mas você... você me parece genuinamente aterrorizada. O que há de tão grave em dizer a verdade para Althea? Que o nosso namoro foi um arranjo de conveniência para tirá-la do seu pé?
Phoebe girou a taça de vinho, observando as gotas do líquido escorrerem pelo cristal. A iluminação da vela acentuava os contornos de seu rosto, expondo uma vulnerabilidade que ela raramente permitia que chegasse aos olhos. Mas com Isla, tudo parecia mais fácil e as palavras saíram com facilidade.
- Se eu fizer isso, Isla, eu abro um precedente - Phoebe confessou, a voz mais baixa do que o normal. - Na minha família, a vulnerabilidade é um ativo que os outros usam para te manipular, limitar a sua autonomia. Althea me quer casada com alguém do círculo deles porque, na cabeça dela, isso protege o patrimônio e a tradição. Trazer você... trazer uma mulher que não é da área, que não tem familiaridade com uma carteira de ações, mas que conta fatos engraçados para minha mãe e compra queijo de subúrbio... isso quebra o roteiro deles. Pela primeira vez, com o que presenciou, Althea não sabe como me controlar. E eu... eu preciso desse controle.
Isla observou Phoebe em silêncio por um longo momento. O deboche sumiu de seus olhos verdes, substituído por uma intensidade analítica e curiosamente suave.
- Você passa tanto tempo fingindo que é feita de aço e engrenagens, Fields, que esquece que até os relógios precisam que alguém dê corda. Você não precisa controlar o mundo vinte e quatro horas por dia. Às vezes, deixar o perímetro desprotegido é a única forma de descobrir quem realmente quer entrar.
Phoebe engoliu em seco, sentindo as palavras de Isla atingirem um ponto muito mais profundo e sensível em seu âmago. Para disfarçar o impacto, ela ergueu a taça novamente.
- Mais vinho, Cooper?
- Acho melhor você ir devagar, chefe. Esse é o seu terceiro copo e nós mal recebemos o macarrão.
- Eu sou a chefe aqui - Phoebe declarou, a dicção ligeiramente macia demais devido ao álcool. - Eu decido o ritmo da chegada de mercadorias nesta mesa.
***
O resultado da teimosia de Phoebe manifestou-se duas horas depois, quando ambas saíram do restaurante. A névoa londrina havia se transformado em uma garoa fina e fria, e Phoebe vacilou visivelmente ao tentar encontrar a chave do carro dentro do sobretudo. Seus dedos pareciam não responder ao comando do cérebro e ela se atrapalhou com o chaveiro.
Isla interceptou a mão de Phoebe com suavidade, retirando as chaves de seus dedos trêmulos.
- Muito bem, executiva. O seu limite de crédito alcoólico estourou - Isla disse, abrindo a porta do motorista e empurrando Phoebe gentilmente para o lado do carona. - Eu dirijo.
- Eu posso... eu... eu estou muito bem para dirigir - Phoebe protestou, mas sua cabeça encostou no vidro da janela com um baque leve, e o mundo do lado de fora parecia mover-se em um plano inclinado.
Isla assumiu o volante, ajustando o banco para suas pernas longas e ligando o motor. O sedã cortou as ruas de Londres com uma precisão firme. À medida que se aproximavam da bifurcação para Mayfair, Isla olhou de relance para Phoebe. A CEO estava com as bochechas coradas e os olhos semicerrados, lutando contra o álcool em excesso que lhe entorpecia e chamava o sono.
- Escuta, Fields - Isla disse, mudando o curso do carro para a rota do subúrbio. - Você não tem a menor condição de entrar em um condomínio de luxo em Mayfair desse jeito. Os seus porteiros vão achar que você sofreu um assalto ou perdeu a compostura que você insiste em manter. Você vai ficar no meu apartamento hoje. O sofá ainda está lá, e os gatos prometeram não cobrar taxa de ocupação.
Phoebe apenas murmurou algo incompressível sobre vinhos, sonhos e gatos gordos e fechou os olhos, entregando-se ao sono.
***
Quando Phoebe recuperou uma fração de sua consciência, ela estava sendo guiada por Isla subindo os dois lances de escada de concreto. O cheiro de sabão de coco a atingiu como um lembrete familiar de que o perímetro de segurança havia sido completamente violado.
Assim que cruzaram a porta, Barnaby e Napoleão ergueram-se de seus respectivos postos de vigia. Napoleão soltou um miado agudo, inspecionando as botas de Isla, enquanto Barnaby fixou os olhos verdes em Phoebe, que se largou na poltrona de veludo desgastado com o sobretudo entreaberto.
Isla fechou a porta e tirou a jaqueta, caminhando até a cozinha americana.
- Vou preparar um café ou um chá para você tentar estabilizar essas engrenagens - Isla disse, acendendo o fogão.
Phoebe, no entanto, parecia ter atingido aquele estágio de embriaguez onde os filtros sociais são completamente dissolvidos e a verdade emerge sem qualquer polimento. Ela ajeitou os cabelos com os dedos trêmulos e olhou para as costas de Isla.
- Eu tive um sonho com você - Phoebe disparou, a voz arrastada, quebrando o silêncio do apartamento. - Na verdade foram dois... não, foram três sonhos. - disse, a voz pastosa.
Isla parou com a chaleira no ar. Ela girou o corpo lentamente, apoiando-se contra a bancada da pia, os olhos verdes semicerrados em uma mistura de choque e puro divertimento.
- Como é que é, Fields? Repete. - Intimou.
- Um sonho. O último foi... - Phoebe repetiu, assentindo com uma seriedade quase solene. - No domingo à noite. Depois que eu voltei para Chelsea, depois de deixar você aqui. Eu sonhei que você... que você entrava na minha sala de uniforme azul, mas sem a camisa por baixo. E você usava aquela prancheta para... para confiscar meus relatórios de um jeito terrivelmente desrespeitoso. E muito... comprometedor. E tinha as algemas...
Isla soltou uma gargalhada alta e rouca que fez Napoleão saltar do parapeito da janela. Ela balançou a cabeça, caminhando até a sala com passos lentos, parando bem na frente da poltrona de Phoebe.
- Comprometedor, é? Então a CEO tem fantasias eróticas com a segurança? Isso é uma quebra gravíssima de conduta, senhora Fields.
- Eu não tenho fantasias eróticas. Não tinha... pelo menos não antes de você - Phoebe rebateu, tentando inflar o peito, mas falhando ao cambalear para o lado. Seus olhos focaram na bancada da cozinha, onde uma garrafa de vinho tinto, que Isla havia deixado pela metade no dia anterior, repousava ao lado do saco de ração.
Antes que Isla pudesse prever o movimento, Phoebe levantou-se com uma agilidade impressionante para quem estava bêbada, marchou até a cozinha, pegou a garrafa aberta pelo gargalo, voltou para a sala aos tropeções e, sem usar nenhuma taça de cristal ou conferir a marca, virou o líquido diretamente na boca.
Isla arregalou os olhos, genuinamente surpresa. - Ei! Calma aí, pirata! Isso é vinho de mercado de cinco libras!
Phoebe engoliu o gole, limpando o canto da boca com as costas da mão, os olhos brilhando com uma rebeldia infantil. - É horrível. Tem gosto de... uvas passadas e álcool puro. Eu adorei.
O esforço da audácia, porém, cobrou seu preço em segundos. O álcool misturado fez o mundo de Phoebe girar em trezentos e sessenta graus. Suas pernas cederam e ela se deixou cair pesadamente no sofá de tecido áspero, a cabeça tombando para trás contra a almofada. Em menos de dois minutos, sua respiração tornou-se pesada e regular. Ela havia apagado.
Isla ficou de pé no meio da sala, segurando a garrafa quase vazia que Phoebe havia largado no chão. Ela olhou para a executiva desmanchada no seu sofá, os cabelos castanhos agora totalmente soltos sobre o estofado, e sentiu um calor estranho e desconhecido apertar seu próprio peito.
- Você é inacreditável, Fields - Isla sussurrou.
Com a habilidade de quem carregava fardos pesados no exército, Isla passou os braços por baixo dos joelhos e das costas de Phoebe, erguendo-a do sofá sem esforço. Phoebe murmurou algo sobre "olhos verdes e abacates", mas aconchegou a cabeça no pescoço de Isla, respirando contra a pele quente da segurança.
Isla a levou para o pequeno quarto, deitando-a na cama de casal com cuidado. Tirou os sapatos de salto de Phoebe e o sobretudo, cobrindo-a com o edredom que cheirava a amaciante barato. Isla pensou em voltar para o sofá, mas o frio da noite e o cansaço acumulado a fizeram tomar outra decisão. Ela contornou a cama e deitou-se do outro lado, por cima da colcha, apenas para monitorar o sono de Phoebe.
***
Eram cerca de três e meia da manhã quando o efeito anestésico do vinho começou a dissipar-se da mente de Phoebe. Ela acordou lentamente, a boca seca e a cabeça com uma pulsação leve, mas o que realmente chamou sua atenção foi a sensação física de calor que a envolvia.
Ela não estava sozinha. E ela não estava em Chelsea.
O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelo reflexo distante dos postes da rua. Phoebe percebeu que seu corpo estava completamente colado ao de Isla. Suas costas estavam pressionadas contra o peito firme da segurança, e um dos braços pesados e musculosos de Isla estava jogado por cima de sua cintura, segurando-a contra si com uma firmeza possessiva, mesmo durante o sono.
O cheiro de sabão de coco e a textura da camiseta de algodão de Isla contra seu corpo criaram uma corrente elétrica instantânea. A respiração de Isla era uma marca quente na nuca de Phoebe, compassada, profunda.
Phoebe tentou se mover milimetricamente para aliviar a proximidade, mas o movimento fez Isla despertar. O braço em sua cintura se contraiu, puxando-a ainda mais para perto, eliminando qualquer espaço de manobra.
- Se você tentar fugir agora, Fields, eu vou ter que relatar uma violação de segurança - a voz de Isla veio através do escuro, incrivelmente grave, rouca pelo sono recente.
Phoebe prendeu o ar, girando o corpo devagar dentro do abraço até ficar de frente para ela. Os rostos estavam a centímetros de distância. Os olhos verdes de Isla, mesmo na penumbra, tinham uma lucidez predatória e intensamente focada que fez o coração de Phoebe disparar em uma arritmia incontrolável.
- Eu não estou fugindo, Cooper - Phoebe sussurrou, a voz trêmula, perdendo toda a pose de CEO. - Eu só... a farsa foi longe demais.
- Não tem nenhuma farsa aqui no escuro, Phoebe - Isla disse, o nome de Phoebe escorregando pelos lábios macios da segurança, rouco, magnético, e o som daquilo operou como a queda da última barreira mental.
Isla estendeu a mão livre, os dedos calejados e firmes tocando a linha do maxilar de Phoebe, subindo até a têmpora, afastando uma mecha de cabelo castanho. O contraste da pele áspera da mão de Isla com a sensibilidade de Phoebe fez a executiva soltar um suspiro baixo, os lábios se entreabrindo.
A tensão acumulada desde a partida de Florence, passando pelo estresse com Althea e pelas mentiras contadas por sobrevivência, colapsou de uma só vez.
Isla inclinou a frente e tomou os lábios de Phoebe em um beijo que nada tinha de protocolar ou cenográfico. Não havia a suavidade contida dos círculos aristocráticos a que Phoebe estava acostumada; era um beijo faminto, profundo, ditado pela urgência de duas forças que vinham se chocando em órbitas destrutivas há dias. A língua de Isla invadiu o espaço da boca com uma autoridade que fez Phoebe agarrar os ombros bem trabalhados da segurança, puxando-a para cima de si.
Phoebe soltou um gemido abafado contra a boca de Isla quando o corpo mais pesado da segurança se acomodou entre suas pernas. A seda de sua blusa totalmente amassada parecia uma camada fina diante do calor que emanava de Isla. As mãos de Phoebe subiram para os cabelos loiros de Isla, desalinhando o cabelo curto, os dedos se enroscando nos fios enquanto o beijo se estendia, mudando de ângulo, tornando-se mais úmido e urgente.
Isla desceu os lábios pelo queixo de Phoebe, traçando uma linha de fogo pelo pescoço até atingir a clavícula exposta pela blusa desalinhada. Seus dedos ágeis e firmes começaram a abrir os botões da camisa de seda com uma precisão militar que fez Phoebe arquear as costas contra o colchão, entregando-se completamente à invasão daquele perímetro.
- Isla... - Phoebe chamou, a voz falhando quando as mãos de Isla encontraram a pele nua de sua cintura, subindo pelas costelas com uma pressão que deixaria marcas visíveis na pele.
- Eu tenho o controle da situação, chefe - Isla murmurou contra a sua pele, a voz vibrando contra o peito de Phoebe. - Apenas confie.
E Phoebe confiou, afundando as unhas nas costas largas de Isla enquanto o lençol era chutado para o pé da cama. A urgência contida por dias explodiu ali, sem espaço para a frieza britânica; cada toque de Isla na pele alva de Phoebe era intencional e ardente, focado nos pontos onde arrancava os gemidos mais agudos da executiva.
A segurança ditava o ritmo com uma possessividade quente, marcando o pescoço e os ombros de Phoebe com mordidas e pressões deliberadas da boca, enquanto o corpo de Phoebe respondia a cada investida, arqueando-se na escuridão do quarto, entregue ao atrito e à eletricidade crua que envolvia as duas.
O resto da madrugada transformou-se em uma celebração de atrito puro. Naquela cama estreita do subúrbio, a CEO de Mayfair e a inspetora de segurança reescreveram todas as cláusulas de intimidade que haviam tentado simular diante de Althea. Cada toque era uma confissão; cada gemido abafado contra o travesseiro era a assinatura de um contrato que elas já não tinham mais qualquer intenção de rescindir.
***
Quando os primeiros raios de sol começaram a romper a névoa de Londres, atravessando a cortina fina da janela da cozinha e invadindo o quarto, o cenário era de uma calmaria absoluta pós-combate.
Phoebe acordou com a luz clara batendo em seu rosto. Ela estava deitada de lado, com a cabeça apoiada no peito de Isla, cujo braço ainda a envolvia em um escudo protetor contra o resto do mundo. Os lençóis estavam bagunçados ao redor de suas pernas entrelaçadas. As marcas visíveis em seu pescoço, seios e coxas, eram o atestado da paixão pura e crua que haviam vivenciado na madrugada.
Ela olhou para cima. Isla estava acordada, observando-a com aqueles olhos verdes agora suaves sob a claridade da manhã. Um sorriso preguiçoso e genuíno desceu pelos lábios da segurança.
- Bom dia, senhora Fields - Isla disse, a voz ainda mais rouca, os dedos acariciando o ombro nu de Phoebe. - O relatório da manhã indica que o perímetro está completamente pacificado. Nenhuma invasão a vista.
Phoebe sorriu, um sorriso real que raramente aparecia em suas fotos de perfil de negócios. Ela se aconchegou mais contra o corpo quente de Isla, sentindo o ritmo calmo de seus batimentos cardíacos.
- Bom dia, Cooper. Acho que podemos considerar essa reunião de logística um sucesso absoluto.
Antes que Isla pudesse responder, o colchão afundou bruscamente nos pés da cama. Com um miado curto e imponente, Barnaby saltou sobre o edredom bagunçado, marchando em direção ao peito de Isla. Um segundo depois, Napoleão, usando toda a sua impressionante massa corporal adquirida pela ociosidade e sachês de salmão, pegou impulso e aterrissou com um baque surdo diretamente sobre a barriga de Phoebe.
- Ai! - Phoebe soltou uma exclamação, o ar sendo expulso de seus pulmões pelo impacto felino.
Napoleão instalou-se ali mesmo, enrolando o corpo gordo sobre o abdômen de Phoebe e começando a ronronar em uma frequência que parecia fazer a cama inteira vibrar. Barnaby, por sua vez, começou a esfregar as bochechas contra o queixo de Isla.
Phoebe congelou, os olhos muito abertos, encarando o animal sobre o seu corpo.
- Cooper... temos um problema - Phoebe sussurrou, sem se mexer, os braços esticados ao lado do corpo. - Eu preciso que você remova essa unidade de artilharia pesada de cima de mim imediatamente.
Isla começou a rir, a vibração em seu peito movendo a cabeça de Phoebe. - Relaxe, Fields. O Napoleão só está cobrando o imposto de permanência. Ele gostou de você. Geralmente ele morde as visitas.
- Você não está entendendo - Phoebe disse. - Eu sou severamente alérgica a felinos. Althea me repetiu isso a vida inteira. Ela baniu qualquer animal com pelos de Hertfordshire quando eu tinha cinco anos. Se eu passar mais de dez minutos no mesmo ambiente que esse bicho, meu trato respiratório vai colapsar e eu vou precisar de atendimento médico. - continuou, mas a mão já acariciando os pelos macios do gato.
Isla franziu as sobrancelhas, olhando para Phoebe e depois para Napoleão, que agora fechava os olhos, plenamente satisfeito.
- Fields, você esteve aqui outro dia e eles subiram no seu colo. Hoje você dormiu aqui na cama, que está literalmente coberta de pelos do Barnaby, as últimas quatro horas colada em mim, e eu sou basicamente cinquenta por cento algodão e cinquenta por cento pelo de gato. Seus olhos estão vermelhos?
Phoebe piscou. - Não.
- Seu nariz está coçando? - Isla estendeu a mão, tocando a ponta do nariz de Phoebe com o indicador.
Phoebe testou as vias respiratórias, puxando o ar profundamente. O aroma de sabão de coco ainda era a nota principal, sem qualquer sinal de espirros. - Não. Na verdade... eu estou respirando surpreendentemente bem.
Isla soltou uma risada debochada, balançando a cabeça enquanto acariciava a cabeça de Barnaby.
- Pois é, chefe. Acho que o seu laudo médico foi fraudado. Parece que a dona Althea mentiu para você sobre a alergia só para não ter o trabalho de conviver com animais de estimação.
Phoebe permaneceu em silêncio por três segundos, processando a informação. A percepção de que havia passado quarenta anos acreditando em uma alergia inventada por sua mãe para poupar os tapetes persas de Hertfordshire trouxe um brilho de indignação puramente cômica aos seus olhos.
- Aquela... manipuladora - Phoebe sibilou, embora o canto de sua boca tivesse cedido a um sorriso desacostumado. Ela ergueu a outra mão e sem hesitação, enterrou os dedos na pelagem cinza e gorda de Napoleão, que respondeu aumentando o volume do ronronar. - Quarenta anos em que não conheci o prazer de ter um animalzinho de estimação. Eu fui enganada pela minha mãe.
- Bem-vinda à vida real, Fields - Isla esticou o braço, puxando Phoebe para mais perto, de forma que os dois gatos agora pareciam fazer parte de um único bloco de calor sobre a cama. - O lado bom é que agora você já pode incluir ausência de alergias a felinos no seu currículo para o jantar de sábado.
Phoebe fechou os olhos, sentindo os pelos de Napoleão contra seus dedos e o braço de Isla firme ao redor de seus ombros. A luz da manhã inundava o quarto do subúrbio, e pela primeira vez em toda a sua carreira, a CEO da Fields Cosmetics não se importou nem um pouco com a total e absoluta quebra de todos os seus protocolos pessoais.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 05/06/2026
Todos os protocolos quebrados.... finalmente Phoebe baixou a guarda e de quebra descobriu uma mentirinha da mãe...
Adorei esse capítulo muito bom mesmo..
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Lady Texiana Em: 07/06/2026 Autora da história
Uma quebra de protocolo e da CEO também. rsrs
Obrigada por acompanhar e comentar.
Abraços.