Capitulo 15 - Protocolos da Linha de Frente e Outros Jantares Indigestos... Ou Não...
Se a segunda-feira havia terminado sob o signo do silêncio e da indiscrição involuntária à beira de uma calçada no subúrbio, a terça-feira de Phoebe Fields começou com o som estridente e autoritário de um toque de celular que ela conhecia tão bem quanto os relatórios de auditoria da Fields Cosmetics.
Eram exatamente os oito e quinze da manhã quando Phoebe entrou em sua sala no último andar. O terno do dia - um conjunto azul-petróleo com corte sob medida que desenhava uma silhueta milimetricamente calculada - envolvia seu corpo com perfeição elegante.
Quando o aparelho sobre a mesa da presidência começou a vibrar. O visor indicava apenas um nome que fazia o estômago de Phoebe contrair-se em um espasmo de ansiedade pura: Mamãe.
Phoebe suspirou, largando a pasta de couro e ajeitando os óculos de leitura na ponte do nariz, onde a mancha arroxeada deixada pela porta da geladeira de Isla Cooper começava a desbotar para um tom amarelo-esverdeado perfeitamente camuflável.
- Bom dia, mamãe - Phoebe atendeu, assumindo sua melhor voz de comando, aquela que usava para acalmar acionistas minoritários em pânico, diante de uma queda de ações.
- Tire essa voz de conselho de administração comigo, Phoebe. Eu não sou um dos seus diretores assustados - a voz de Althea Fields veio através da linha, límpida, nítida e totalmente desprovida de qualquer vestígio da ressaca monumental que deveria tê-la acometido após o domingo em Chelsea. - Eu liguei porque ontem à noite, enquanto ainda tentava digerir aquele queijo de subúrbio que sua namorada comprou, que por sinal estava muito bom, tive uma excelente ideia.
Phoebe sentiu um calafrio familiar descer pela espinha. As "excelentes ideias" de Althea costumavam envolver reestruturações de fundos familiares ou a demissão em massa de jardineiros que ousavam plantar azaleias fora do quadrante planejado.
- Que tipo de ideia, mamãe? Eu realmente estou com a agenda congestionada esta semana...
- Bobagem - Althea a cortou, sem qualquer cerimônia. - No próximo sábado, darei um jantar, ou melhor, adiantarei a reunião anual da família aqui na propriedade de campo em Hertfordshire. Nada monumental, como sempre apenas trinta ou quarenta pessoas e alguns convidados. Seus tios de Sussex, e, claro, o ramo da família que cuida das exportações na Suíça e Escócia, os primos de Aberdeen e seu tio Freddie. Quero que todos conheçam a Cooper.
Phoebe parou no meio do movimento de abrir o laptop. O ar pareceu rarefeito na sala da presidência.
- Isla? Mamãe, isso é... absolutamente prematuro. Nós estamos juntas há pouquíssimo tempo. Ela tem um cronograma de trabalho complexo na agência de segurança e...
- Phoebe, poupe-me dos seus termos técnicos e das suas desculpas deslavadas - a matriarca destilou, com aquela ironia fina que operava como um bisturi. - Durante quatro anos, eu fui obrigada a tomar chá de ervas e raízes obscuras com a moça das samambaias enquanto ela discursava sobre a conformidade das plantas e o mundo moderno e você olhava para gráficos e mais gráficos. Eu detestava Florence, e a família inteira achava o relacionamento de vocês um exercício de paciência e um tédio absoluto. A senhorita Cooper, por outro lado, tem sangue nas veias. Ela tem utilidade. E, francamente, a história do coelho de Natal de 1994 foi a coisa mais divertida que ouvi em um domingo nos últimos quatro anos.
- Mamãe...
- Eu não vou aceitar um não como resposta, Phoebe. Se você aparecer aqui sem ela, vou dizer ao seu tio Freddie que você está sabotando os investimentos dele na divisão de fragrâncias. E você sabe como ele fica ranzinza quando perde dinheiro. Leve a Isla. Quero ver como ela se comporta diante dos primos de Aberdeen. Eles costumam ser terrivelmente arrogantes, e acho que ela tem a musculatura ideal para colocá-los no lugar. Até sábado, querida. Use algo que não pareça um uniforme desses de tribunal que você costuma usar.
- Mamãe!... - Phoebe gritou, antes que Althea desligasse
- O que foi agora, Phoebe?
- Você vai mentir para o tio Freddie que estou sabotando os investimentos dele? Você sabe que não é verdade, por favor!
- Claro que não, querida. Mas até você provar que não, ele vai azucrinar sua paciência por um mês ou mais. Portanto pense bem e traga aquela moça para o jantar.
O clique seco da linha sendo cortada ecoou no ouvido de Phoebe como um veredicto de tribunal militar. Ela pousou o celular na mesa lentamente, os dedos batendo um ritmo frenético contra o tampo de madeira da mesa.
A farsa, que deveria ter morrido na porta do prédio de Isla no domingo à noite, havia ganhado uma sobrevida com direito a ramificações familiares e a presença do tio Freddie - um homem que considerava qualquer pessoa que tivesse abaixo de um milhão de libras na conta bancária como alguém que não era digno de nota.
***
O dia de Phoebe transformou-se em um borrão de ansiedade. Ela revisou contratos com os olhos fixos nas palavras, mas sua mente estava presa na imagem de Isla Cooper parada junto às catracas do saguão. Ela precisava falar com a segurança. Mais do que isso: precisava convencê-la a entrar novamente naquele teatro de absurdos, desta vez com uma plateia de aristocratas britânicos esnobes.
Para piorar a situação, o carma do abacate parecia determinado a enviar sinais físicos de que o controle de Phoebe era uma ilusão barata. Às doze e meia, Eleanor entrou na sala com um pacote de correspondência confidencial e uma salada de frutas que Phoebe havia pedido para o almoço.
- Senhora Fields, os relatórios de gestão dos lançamentos estão aqui - Eleanor disse, pousando os papéis na mesa. - E a copa enviou o seu lanche.
- Obrigada, Eleanor. Pode tirar a tarde para organizar os arquivos da Ásia - Phoebe respondeu, sem erguer os olhos do monitor.
Minutos depois, ainda imersa nas planilhas de custos, Phoebe estendeu a mão cegamente para pegar o garfo de metal que acompanhava a salada de frutas. Seus dedos erraram o cálculo por dois milímetros - o mesmo erro de cálculo que parecia persegui-la desde o fim de semana. A ponta do garfo bateu contra a borda do recipiente de acrílico, criando uma alavanca perfeita.
O pedaço mais generoso e escorregadio de mamão papaia, perfeitamente besuntado em calda de laranja, foi ejetado do pote com uma velocidade balística invejável.
Phoebe ergueu os olhos bem a tempo de ver o projétil laranja descrever uma parábola perfeita no ar e colidir, com um som úmido e definitivo, contra o reverso de sua lapela azul-petróleo, escorrendo vagarosamente pelo tecido lã inglesa antes de despencar sobre o relatório impresso da auditoria.
Ela olhou para a mancha úmida e amarelada na roupa. Olhou para o pedaço de fruta caído sobre o gráfico da curva de lucros.
- Cooper - Phoebe sibilou para o teto da sala, os lábios comprimidos numa careta. - Isso é culpa sua. Eu sei que é.
A certeza de que sua coordenação motora havia sido permanentemente amaldiçoada pela presença da segurança foi o empurrão que faltava. Ela pegou um lenço de papel, limpou o estrago com a eficiência de quem remove evidências de um crime e discou o ramal interno da central de monitoramento.
- Aqui é a presidência - Phoebe disse, quando o operador atendeu. - Solicito a presença da segurança Cooper na minha sala às quinze horas para uma... revisão de protocolo de segurança interna.
***
Às quinze horas em ponto, duas batidas firmes soaram na porta do escritório.
- Entre - Phoebe chamou, a voz assumindo uma neutralidade gélida que ela havia passado os últimos trinta minutos ensaiando na frente do espelho do banheiro privativo.
Isla Cooper cruzou o batente da porta. Usava o uniforme azul da empresa de vigilância, as botas táticas emitindo aquele rangido característico sobre o tapete de Phoebe. A prancheta estava sob o braço, e os olhos verdes brilhavam com uma intensidade que fez as pernas da CEO lembrarem-se, por um instante, do seu corpo agarrado ao dela, na madrugada de sábado.
- Boa tarde, chefe - Isla disse, fechando a porta atrás de si e caminhando até a frente da mesa.
Phoebe acenou mecanicamente para que ela sentasse na cadeira a sua frente, tentando não se deixar abalar pela presença física de Isla, o corpo mandando sinais confusos para o cérebro, um leve rubor surgindo no rosto, com imagens desconexas de beijos e corpos em uma cama, que insistiam em nublar sua mente analítica.
Isla puxou uma das cadeiras de couro com um movimento fluido, sentando-se de lado, apoiando o tornozelo sobre o joelho oposto com aquela postura irritantemente relaxada.
- Pois não, senhora Fields. Em que a segurança privada pode ser útil? - Isla começou, mas antes que Phoebe pudesse responder, ela inclinou a cabeça, o brilho travesso nos olhos se intensificando. - A menos, é claro, que você queira relatar uma atividade suspeita no subúrbio. Sabe, ontem à noite, por volta das vinte e trinta, notei um veículo de luxo cinza-escuro estacionado exatamente a cinco metros da minha porta. Ficou lá por longos quinze minutos, com os limpadores de para-brisa funcionando e os faróis apagados. Um comportamento clássico de vigilância secreta. O Napoleão achou que era um espião, mas eu reconheci a placa da presidência da empresa. Algum problema com o GPS do carro, Fields?
Phoebe limpou a garganta abruptamente, sentindo uma onda de calor mais forte subir pelas bochechas. Ela ajeitou alguns papéis na mesa com uma pressa desnecessária para evitar o contato visual direto.
- Fui obrigada a chamar você aqui porque... bem, ontem à noite eu precisei ir até o seu bairro. E o motivo de eu ter ficado parada de carro na frente do seu apartamento por quinze minutos sob a chuva foi puramente profissional. Eu estava lá para falar sobre a renovação do nosso contrato. Para alinhar os termos de um novo serviço de cobertura familiar. Althea me ligou e marcou um novo jantar e exige tua presença.
Isla ergueu uma sobrancelha loira, um sorriso lento e altamente perigoso começando a desenhar-se em seus lábios. Ela inclinou-se um pouco para a frente, apoiando os braços nos joelhos.
- Ah, entendi. Então a senhora foi até o subúrbio, no meio da noite, sob um toró tipicamente londrino, exclusivamente para me propor um novo contrato de farsa romântica por causa da sua mãe?
- Exatamente - Phoebe inflou o peito, recuperando um pouco de sua dignidade como executiva de uma multinacional. - Como CEO, eu ajo com proatividade. Eu antecipo as demandas de crises empresariais e familiares antes que elas se tornem insolúveis.
Isla assentiu, fingindo uma profunda admiração profissional.
- Fascinante. Uma visão de mercado impecável, chefe. E... A que horas exatamente a senhora Althea te ligou?
- Hoje de manhã, às oito e quinze - Phoebe respondeu prontamente, sem piscar, sem pensar, com aquela perda de raciocínio rápido que era sua característica, sempre que estava próxima a Isla.
O silêncio que se instalou na sala durou três segundos exatos. Isla cobriu a boca com o dorso da mão, mas a risada rouca escapou mesmo assim, fazendo seus ombros fortes sacudirem sob a camisa azul do uniforme.
- De manhã? - Isla perguntou, os olhos verdes transbordando puro divertimento. - Então deixa eu ver se entendi a física quântica da sua agenda, Fields. Você viajou no tempo? Pegou o seu sedã executivo na segunda-feira à noite, foi até a minha rua, ficou plantada na chuva adivinhando, por pura clarividência, que a sua mãe te ligaria doze horas depois para marcar um novo encontro?
Phoebe congelou. Suas pupilas se dilataram e o resto de sua dignidade executiva foi instantaneamente triturado, pulverizado e jogado na lixeira da sala. Ela abriu a boca duas vezes, parecendo um peixe dourado tentando respirar fora do aquário, enquanto o rosto atingia um tom de vermelho que faria o mamão de seu almoço parecer pálido.
- Eu... houve uma... - ela gaguejou, batendo a caneta contra a mesa. - A ordem dos fatores não altera o produto, Cooper!
- Não, mas altera a verdade, senhora Fields - Isla riu alto, recostando-se na cadeira e cruzando os braços. - Você foi pega no pulo. Admita: você estava lá ontem à noite porque estava com saudade do seu cobertor térmico humano. Ou os gatos estão conquistando você? - Disse, dando uma piscadela bem-humorada.
Phoebe escondeu o rosto nas mãos, os cotovelos apoiados na mesa. O nível de humilhação de ser desmascarada em sua própria sala de presidência por uma segurança com um crachá ultrapassava qualquer índice de perdas e danos aceitável nos negócios.
- Cale a boca, Cooper - Phoebe murmurou por trás dos dedos, antes de abaixar as mãos e tentar assumir uma postura minimamente profissional, apesar do cabelo castanho estar prestes a se desgrenhar pelo estresse. - O fato é que ela organizou um jantar de família para o próximo sábado na propriedade de Hertfordshire. Trinta pessoas. Tios, primos e o ramo suíço da família Fields. Ela exige a sua presença. Se você não for, ela vai infernizar a minha vida e sabotar as relações comerciais com o meu tio Freddie.
Isla parou de rir, embora seus olhos ainda dançassem com a provocação.
- Um jantar com a alta aristocracia e o ramo suíço? Isso parece um campo minado de etiqueta. Por que eu aceitaria me meter nisso de novo? O acordo foi por 48 horas. De maneira nenhuma que eu caio nessa novamente.
Phoebe respirou fundo. Era hora de jogar a sua cartada de mestre. Se Isla gostava de negociar termos, ela daria os termos.
- Eu preciso que você colabore comigo. E para alinhar esse... roteiro e as cláusulas contratuais de intimidade antes que meus primos de Aberdeen te façam um interrogatório, eu estou te convidando para jantar. Hoje à noite.
Isla ergueu as duas sobrancelhas, genuinamente surpresa.
- Você está me convidando para jantar, Fields? Na sua cobertura de vidro com queijo e um vinho que tem certidão de nascimento do século passado e custa uma indecência?
- Não - Phoebe determinou, reunindo o que lhe restava de autoridade. - Em um lugar comum. Onde as pessoas normais comem, você sabe. Um restaurante normal, na cidade. Considere isso como uma... reunião de negócios preparatória de alta relevância logística. Mas o convite é meu. E você vai aceitar, porque eu preciso de você... Isla, isso já foi longe demais, além do ponto de retorno e eu estou desesperada, tanto que você pode me pedir o que quiser. - desabafou.
Isla sustentou o olhar de Phoebe por alguns instantes, o sorriso enigmático e travesso retornando devagar ao canto esquerdo dos lábios. Ela levantou-se com aquele movimento fluido de sempre, batendo a prancheta de leve contra a lateral da calça tática.
- Um restaurante normal. Onde se come com talheres de verdade? - Isla caminhou até a porta, girando a maçaneta. Antes de sair, olhou de soslaio para a executiva. - Tudo bem, chefe. Você venceu pelo cansaço e pela total falta de noção, porque para começo de conversa era só dizer a verdade para sua mãe. Eu aceito o seu convite. Você pode me buscar às vinte horas.
Isla abriu a porta, mas parou no batente, soltando um último petardo cômico:
- E, por favor, use uma roupa que resista a respingos de molho. Não quero que o seu carma ou a sua falta de coordenação motora estraguem a noitada. - disse rindo - E limpe o canto esquerdo da sua mesa... Tem um pedaço de mamão tentando fazer o mesmo papel do caroço do abacate bem do lado do seu tablet. Até de noite, Fields.
A porta se fechou com um baque surdo e definitivo.
- Mas que debochada. Só tolero porque não tenho lá muita escolha mesmo... - A verdade, bem sabia, era que mesmo que tivesse escolha, acabaria por escolher Isla Cooper.
Phoebe Fields permaneceu sentada em sua cadeira de couro, os olhos fixos na madeira vazia à sua frente. Ela olhou para o lado e, de fato, havia um pedaço de mamão com uma pequena semente preta brilhando sobre o relatório de lucros cessantes. Ela pegou o pedaço e a semente com a ponta dos dedos, sentindo o tecido do terno azul-petróleo parecer subitamente apertado demais para o ritmo de sua respiração.
Ela havia sido pega na mentira, havia sido ridicularizada, mas o jantar de negócios estava marcado. E Phoebe soube, com a certeza absoluta que aquela seria a reunião mais perigosa e descontrolada de toda a sua carreira - e ela mal podia esperar pelas vinte horas.
Fim do capítulo
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Lady Texiana Em: 05/06/2026 Autora da história
Quem sabe não haverá redenção para Althea? ;) rsrsrs
Obrigada pelos comentários
Abraços
Lady Texiana