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Contrato de Risco Romântico por Lady Texiana

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Palavras: 2433
Acessos: 469   |  Postado em: 03/06/2026

Capitulo 14 - Uma Certa Vigilância Noturna e Gatos Esfomeados

 

O silêncio de uma cobertura em Chelsea, após quarenta e oito horas de ruído emocional e invasão de perímetro, deveria ser o prêmio supremo para Phoebe Fields. No entanto, quando a porta pesada se fechou às suas costas, isolando-a do corredor de mármore, o apartamento não pareceu um santuário. Pareceu um cofre vazio.

Phoebe deixou as chaves sobre a bancada da cozinha - o mesmo mármore escuro onde Althea havia se embriagado com vinho proibitivamente caro e exposto as misérias de seu casamento com o falecido Arthur.

O aroma de café forte e pão tostado já havia evaporado, substituído pelo cheiro asséptico de purificadores de ar automáticos e superfícies polidas. Ela caminhou até a imensa janela que dava para as luzes de Londres, o blazer azul-marinho ainda perfeitamente alinhado, mas os ombros carregando um peso que nenhum gráfico de vendas poderia mensurar.

Havia algo terrivelmente errado com a acústica do lugar. Faltava o som de passos descalços e pesados sobre a madeira. Faltava aquela risada rouca, meio de garganta, que desarmava sua empáfia com a facilidade de quem abre um relatório de rotina.

Phoebe subiu as escadas para a suíte em um ritmo lento, quase arrastado. O quarto mantinha sua geometria perfeita, mas o edredom cinza-chumbo, agora arrumado pela equipe de limpeza que passara no final da tarde, parecia plano demais. Frio demais. Ela sentou-se na borda esquerda do colchão - o lado de Isla - e pressionou as palmas das mãos contra o lençol esticado. Não havia calor residual. Não havia nenhuma camiseta preta jogada no chão ou calça de moletom cinza quebrando o minimalismo da decoração.

- O que eu vou fazer com isso agora? - Phoebe murmurou para si mesma, cobrindo o rosto com as mãos.

A percepção a atingiu com a força de um soco no estômago. Ela não sentia falta do silêncio; sentia falta daquela presença absurda, irritante e absurdamente quente que havia invadido seu espaço pessoal na madrugada, embora no fundo da sua mente soubesse, que quem havia invadido o espaço de Isla era ela mesma. O universo, operando através de seu carma particular, havia trocado a agua do copo de Florence por um par de olhos verdes - o verde do abacate pelo verde dos olhos de Isla -  que se recusavam a sair de sua memória.

***

A três quilômetros dali, no subúrbio de Londres, a entrada de Isla Cooper em seu próprio território foi consideravelmente mais barulhenta e menos existencial. Assim que a chave girou na fechadura da porta de metal pintado, um coro de protestos agudos ecoou pelo pequeno corredor de entrada.

- Sim, sim, eu sei. Eu sou uma mãe horrível - Isla disse, jogando a mochila de lona preta em cima de uma poltrona de veludo desgastado e fechando a porta com o pé.

Imediatamente, as duas silhuetas peludas, gordas e visivelmente ultrajadas de Barnaby e Napoleão se materializaram ao redor de suas botas. Ambos haviam passado as últimas quarenta e oito horas sob a guarda da senhora aposentada, a cobrança pela ausência de Isla começou antes mesmo que ela pudesse tirar o casaco.

Barnaby ergueu-se nas patas traseiras, cravando as unhas na calça de moletom de Isla com um miado que parecia uma ordem direta de um general de infantaria. Napoleão limitou-se a deitar de lado sobre o tapete da sala, soltando um som gutural que denunciava a mais profunda negligência nutricional da qual ele achava que havia sido submetido.

- Não comecem - Isla resmungou, caminhando até a cozinha americana enquanto os dois a seguiam em uma marcha sincronizada. - Eu estava trabalhando. Auxiliando no problema familiar de uma mulher que consegue ser mais ranzinza que vocês dois juntos. E, acreditem, ela não aceita suborno em sachê de salmão.

Ela abriu o armário, pegou duas latas de ração úmida e distribuiu o conteúdo nos potes de inox no chão. O silêncio que se seguiu foi o som mastigatório de duas ferinhas esfomeadas. Isla escorou-se na bancada da pia, observando os animais. Sua mente, no entanto, recusava-se a focar na rotina doméstica.

Toda vez que fechava os olhos, a sensação do pijama de seda de Phoebe contra a sua pele voltava com uma nitidez incômoda. A forma como a chefe havia se enrodilhado em seu corpo durante a madrugada - procurando calor como um bicho assustado, longe de toda aquela pose que ela insistia em manter, mas estava ficando cada vez mais claro que era pura fachada - havia acionado um gatilho que Isla achava que estava desativado desde seus tempos de serviço militar e de seu último relacionamento de ocasião. Ela estava acostumada a monitorar ameaças, não a contagem de batimentos cardíacos de uma mulher que cheirava tão bem e era tão macia

Isla olhou para as próprias mãos, lembrando-se da firmeza com que havia apertado a carne sob a blusa preta de Phoebe no sofá, sob o olhar vigilante de Althea. A farsa havia sido boa demais. Quase real demais.

- Barnaby- Isla chamou, o gato erguendo os olhos verdes do pote de comida. - Nós temos um problema de perímetro. E eu acho que só a cerca elétrica não vai funcionar desta vez.

***

Às sete e quarenta e cinco da manhã de segunda-feira, o saguão principal da sede da Fields Cosmetics em Londres operava em sua potência máxima. O fluxo de funcionários de terno e tailleur cruzando as catracas de vidro era constante, sob a supervisão discreta da equipe de segurança chefiada por Isla, que monitorava os crachás.

Phoebe Fields atravessou as portas giratórias automáticas com a passada larga e imponente que era sua marca registrada. Vestia um terno de corte impecável em tom cinza-escuro, os cabelos castanhos presos em um coque baixo que não permitia um único fio solto, e carregava uma pasta de couro estruturada. Seu nariz ainda exibia uma leve mancha arroxeada na ponte, mas ela havia aplicado uma camada estratégica de corretivo  da própria marca para garantir que nenhum funcionário fizesse perguntas ou fofocas sobre sua integridade física.

Ela caminhou em direção ao banco de elevadores executivos, focada em revisar mentalmente a pauta da reunião de diretoria das nove horas. Sua mente estava em modo operacional completo. Até que ela a viu.

Isla Cooper estava parada junto ao posto de comando central da segurança, perto das catracas do lado direito. Usava o uniforme azul da empresa de vigilância privada: calça tática, botas militares limpas e uma camisa com o logotipo discreto no peito que marcava seus ombros largos com uma precisão indecente. Ela conversava com um dos operadores de câmera, com uma prancheta apoiada na lateral do corpo.

Como se sentisse a aproximação de um vetor de energia conhecido, Isla ergueu os olhos verdes exatamente no momento em que Phoebe se aproximava do elevador.

O impacto visual foi imediato e totalmente desprovido de lógica. Phoebe sentiu as pernas vacilarem por um microssegundo - uma sensação de perda de atrito tão violenta quanto a da seda no lençol esticado de madrugada. Seus joelhos pareceram transformar-se em geléia sob a calça de alfaiataria, e o ar sumiu de seus pulmões com uma rapidez alarmante.

Isla não se moveu. Ela apenas sustentou o olhar, erguendo o canto esquerdo dos lábios em um cumprimento quase imperceptível. Um sorriso de quem conhecia a textura do pijama que ela usava a noite e sobretudo da sua pele. Um sorriso de quem havia sido jogada no chão às seis da manhã.

Phoebe engoliu em seco, trancando o maxilar. Com um aceno de cabeça frio e puramente protocolar que faria Althea Fields orgulhosa, ela desviou os olhos e entrou no elevador que acabara de abrir.

- Bom dia, senhora Fields - a secretária executiva, que já estava dentro da cabine, cumprimentou.

- Bom dia, Elanor. Por favor, cancele qualquer interrupção durante a manhã. Temos muito trabalho a fazer - Phoebe respondeu, a voz saindo duas oitavas mais rígida do que o normal, enquanto as portas de espelho se fechavam, ocultando a silhueta de Isla no saguão.

***

Se o fim de semana havia sido uma simulação de proximidade, a segunda-feira transformou-se em uma maratona de distanciamento exaustivo. A agenda de Phoebe parecia ter sido desenhada por alguma divindade sádica.

Às nove, a reunião com o conselho de administração sobre a expansão dos laboratórios de pesquisa estendeu-se por três horas de discussões exaustivas. Às duas da tarde, houve uma videoconferência tensa com os distribuidores da Ásia que exigiu dela uma postura de negociação agressiva e implacável. Às cinco, quando ela achou que poderia respirar, um relatório de conformidade ambiental dos novos fornecedores de matéria-prima apresentou inconsistências que exigiram uma reunião de emergência na sala de reuniões do décimo segundo andar.

As horas passavam no visor digital do relógio de parede, e Phoebe permanecia sentada na cabeceira da mesa de vidro, analisando planilhas, assinando despachos e cobrando prazos de diretores que pareciam assustados com o nível de exigência da CEO naquela tarde.

- Se não tivermos esses números revisados até quarta-feira, a auditoria externa vai travar o lançamento da linha de inverno - Phoebe declarou, a voz firme, embora seus olhos estivessem ardendo de cansaço. Ela olhou para o relógio de pulso. Eram dezenove e quinze. - Chega por hoje. Eleanor, organize esses arquivos e envie para o meu e-mail pessoal. Retomamos amanhã às oito.

Os diretores recolheram seus laptops com o alívio de quem sobrevive a um bombardeio e artilharia inimiga. Phoebe esperou que todos saíssem antes de se recostar na cadeira de couro. Seus ombros doíam, a cabeça latej*v* no mesmo ritmo da ressaca de Althea no dia anterior, e a marca no nariz começava a coçar sob a maquiagem pesada.

Ela desceu pelo elevador de serviço até a garagem subterrânea, evitando o saguão principal. Ela não queria ver Isla. Ou melhor, ela tinha pânico do que aconteceria com o seu controle se visse aqueles olhos verdes novamente após doze horas de estresse corporativo, embora fosse pouco provável que a segurança ainda estivesse no posto aquele horário.

***

O sedã executivo de Phoebe cortou o trânsito pesado da noite londrina sob uma chuva fina e persistente que começava a embaçar os vidros. O plano original era simples: ir para a cobertura em Chelsea, tomar um banho quente, ingerir os analgésicos que havia prometido a si mesma e dormir no lado direito da cama.

No entanto, quando o carro atingiu a bifurcação que dava acesso à rodovia expressa em direção ao centro, as mãos de Phoebe operaram o volante em uma direção que desafiava qualquer lógica.

Ela pegou a saída para o subúrbio.

O trajeto levou quarenta minutos. À medida que os edifícios espelhados de Chelsea e Westminster davam lugar às fachadas de tijolos aparentes e pequenos comércios do bairro de Isla, a velocidade do carro diminuía. Phoebe sentia o coração bater contra as costelas em um ritmo descompassado, uma arritmia que ela nunca havia experimentado em nenhuma mesa de negociação de ações.

Ela estacionou o carro a cerca de cinco metros da entrada do pequeno prédio residencial de Isla. O motor permaneceu ligado, o som baixo dos limpadores de para-brisa limpando as gotas de chuva do vidro dianteiro criando um ritmo hipnótico dentro do veículo.

Phoebe desligou os faróis, deixando o carro envolto na penumbra da rua, iluminada apenas pelo brilho amarelado de um poste antigo de iluminação pública. Ela olhou para cima. Na janela do segundo andar, uma luz quente de cor âmbar estava acesa. Ela conseguia ver a silhueta de uma planta na janela - não um abacate, mas algo verde e ramificado - e o vulto de um dos gatos que passava pelo parapeito interno.

Ela colocou a mão na maçaneta da porta do carro. Seus dedos congelaram no metal frio.

O que você está fazendo, Phoebe? - a voz de sua própria mente a cobrou, fria e analítica. - Você é a CEO da Fields Cosmetics e chefe dela. Você solicitou uma segurança para um serviço de fim de semana. O contrato acabou. Bater naquela porta às oito e meia da noite de uma segunda-feira é uma quebra insana do código de ética da empresa. E também uma confissão de vulnerabilidade.

Ela tirou a mão da maçaneta, afundando-se no banco de couro. A coragem que a fazia peitar fundos de investimento internacionais antagônicos falhou miseravelmente diante de uma escada de concreto de dois lances em um prédio sem elevador. Ela não tinha um roteiro para aquilo. Não havia uma farsa para mantê-las juntas sob a luz âmbar daquele apartamento. 

Havia apenas a verdade nua e crua de que ela queria subir aquelas escadas e ver se o corpo de Isla permanecia tão quente quanto antes ou se seus lábios ainda tinham o mesmo gosto bom e viciante que ela havia provado.

Phoebe permaneceu ali, imóvel, os olhos fixos na janela do segundo andar, apenas olhando da rua, como uma intrusa em um perímetro que ela mesma havia delimitado como inseguro.

***

Lá em cima, no pequeno apartamento com cheiro de ração úmida e sabão de coco, Isla Cooper estava de pé ao lado da janela da cozinha, segurando uma caneca de cerâmica com chá de camomila que havia preparado para tentar acalmar a mente antes de deitar. Napoleão estava sentado no parapeito da janela, a cauda batendo contra o vidro com uma cadência lenta.

Isla olhou para baixo, através da cortina fina, observando a rua residencial silenciosa.

Um sedã cinza-escuro, de porte executivo e vidros excessivamente escuros, estava parado perto do poste de luz. Isla estreitou os olhos verdes. Ela conhecia aquela placa. Havia memorizado cada caractere alfanumérico da frota pessoal da presidência da Fields Cosmetics no primeiro dia de seu contrato de trabalho.

A caneca de chá permaneceu estática em sua mão direita.

- Olha só aquilo, Napo... - Isla murmurou, a voz baixa, os olhos fixos no veículo que mantinha os limpadores de para-brisa em movimento lento sob a chuva. - Parece que alguém errou o caminho de volta para a segurança da fortaleza.

Isla deu um gole no chá, a expressão intrigada mudando lentamente para aquele sorriso travesso e enigmático que Phoebe tanto temia. Ela conseguia ver a silhueta escura de Phoebe através do para-brisa molhado, imóvel atrás do volante, apenas encarando a fachada do prédio. A executiva estava ali há dez minutos, sem descer do carro, sem buzinar, sem enviar mensagens. Apenas observando.

Isla recostou-se no batente da janela, cruzando os braços, observando a resistência da CEO começar a ruir no escuro da rua. O carma do abacate, ao que parecia, era um operador que trabalhava em turnos noturnos. E Isla estava perfeitamente disposta a ver quantas noites de plantão aquela farsa ainda iria render.

 

Fim do capítulo


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