Capitulo 13 - A Dinâmica dos Corpos na Cama e o Carma do Abacate
A suíte de Phoebe em Chelsea operava sob a mesma lógica de controle rígido que governava sua vida pública. Os lençóis de puro algodão eram brancos, esticados com uma precisão que beirava a perfeição, e o edredom cinza-chumbo parecia pesado o suficiente para conter qualquer corpo debaixo dele. No entanto, quando a iluminação embutida no teto foi reduzida a um fio dourado e o silêncio da madrugada londrina se instalou, a geometria perfeita do quarto começou a ceder à presença física de Isla Cooper.
Isla havia deitado do lado esquerdo da cama de casal, vestindo uma camiseta preta e uma calça de moletom cinza que pareciam antigas, confortáveis e irritantemente grandes para o espaço. Phoebe, recolhida em seu próprio lado sob um pijama de seda azul-escuro abotoado até o último botão, mantinha-se imóvel, os olhos fixos no teto de gesso.
A distância entre elas era de exatamente trinta centímetros - uma fronteira invisível, mas vigiada pelo fantasma do beijo de Hertfordshire e pelas declarações etílicas de Althea no andar de baixo.
- Você está respirando como se estivesse tentando economizar o oxigênio do quarto, chefe - a voz de Isla surgiu no lusco-fusco, baixa e arrastada, vibrando no ar.
- Estou tentando dormir, Cooper. É o que as pessoas normais fazem à uma da manhã - Phoebe respondeu, sem mover a cabeça.
- Pessoas normais relaxam os ombros quando dormem. Você parece uma estátua de mármore em um canto. Relaxe. Eu prometo não quebrar o limite de distância entre nós... enquanto você estiver dormindo. - Acrescentou com um meio sorriso. - A propósito, gostei da sua mãe, ela é realmente um furacão. - disse sorrindo.
- Você gostou de Althea?! Não acredito nisso! - Phoebe estava incrédula. - Se bem que... acho que ela também gostou de você. De todas as mulheres que já apresentei para ela, ela acaba por aprovar a única que é de mentira. - disse, pressionando os olhos com os dedos.
- Bom, tivemos uma boa química. - Isla brincou.
Phoebe não respondeu. Ela fechou os olhos, concentrando-se no som regular da respiração de Isla, que aos poucos foi diminuindo até se transformar em um ritmo calmo e profundo. O calor que emanava do lado esquerdo da cama era palpável, uma espécie de microclima térmico que contrastava com a frieza habitual daquela suíte. Levou mais de uma hora para que o cansaço mental do fim de semana finalmente vencesse as defesas dela, arrastando-a para um sono sem sonhos.
O problema do corpo humano é que ele não respeita contratos assinados, nem mesmo os verbais, quando se está com frio. Na madrugada, a temperatura em Londres despencou, e o inconsciente de Phoebe Fields, operando sob uma necessidade puramente humana de sobrevivência, buscou a fonte de calor mais próxima e eficiente do ambiente.
Quando as primeiras frestas de luz cinzenta atravessaram as cortinas, Phoebe começou a emergir lentamente do sono. A sensação inicial era de um conforto absoluto, uma densidade macia e acolhedora que ela não experimentava há anos. Ela estava completamente enrodilhada em algo consistente e macio. Sua perna direita estava jogada por cima de uma coxa surpreendentemente sólida, seu braço esquerdo envolvia uma cintura firme e seu nariz estava pressionado diretamente contra a curva do pescoço de alguém que cheirava distintamente a sabão de coco e pele quente.
Phoebe piscou, a visão turva focando primeiro no tecido preto de uma camiseta. Seus dedos se moveram, apertando inadvertidamente o músculo da lateral do corpo de Isla, a mão subindo e tocando um... seio macio?!
Acima dela, um som grave de garganta ecoou. Isla se moveu milimetricamente, acomodando o peso de Phoebe contra o próprio peito com uma familiaridade assustadora.
- Bom dia, chefe - Isla murmurou, a voz matinal absurdamente rouca, o hálito quente batendo direto na testa de Phoebe. - Não sabia que nosso acordo incluía me usar como cobertor térmico, com direito a passada de mão.
O cérebro de Phoebe Fields processou a informação em três etapas ultravelozes. Primeira: ela estava agarrada à sua segurança privada como um coala em uma árvore. Segunda: sua perna estava prendendo o corpo de Isla e sua mão meio que segurava um dos seios dela. Terceira e a mais assustadora de todas: ela queria muito continuar como estava.
O pânico que se seguiu foi uma manifestação pura de reações automáticas quando reage-se sem pensar. Em vez de se afastar com dignidade, Phoebe deu um solavanco violento para trás, as pernas se enroscando no edredom pesado. Ela tentou empurrar Isla para se distanciar, mas o impulso, combinado com a falta de aderência da seda de seu pijama no lençol esticado, gerou um vetor de força totalmente descontrolado.
Phoebe empurrou os ombros de Isla com os dois braços. Isla, que ainda estava meio dormindo e não esperava um ataque de forças antagônicas às seis da manhã, perdeu o equilíbrio na borda do colchão de molas ensacadas.
BUM. CRASH.
O som do corpo atlético de Isla Cooper impactando diretamente o piso de madeira da suíte ecoou pelo quarto, acompanhado pelo barulho de um abajur de grife que balançou perigosamente na mesa de cabeceira.
Phoebe sentou-se na cama num pulo, os cabelos castanhos completamente desgrenhados, e o rosto atingindo um tom de vermelho que faria um tomate parecer pálido. Ela espiou pela borda da cama.
Isla estava caída de costas no chão, um braço jogado sobre os olhos, a perna esquerda ainda meio presa no edredom que fora arrastado junto. Ela soltou um suspiro longo, a camiseta preta subida até a altura das costelas, revelando a linha do abdômen tenso e definido e uma pequena tatuagem de uma abelha nas costelas.
- Caramba, Fields... - Isla resmungou de trás do braço, a voz ainda rouca. - Eu já levei estilhaço de morteiro no Oriente Médio, mas nunca fui ejetada de uma cama com tanta violência. Isso foi uma manobra evasiva ou você só queria o edredom para você?
- Você... você estava... eu não... - Phoebe gaguejou, a dignidade completamente pulverizada. Ela puxou os lençóis até o queixo. - É que você estava me segurando, Cooper. - Decidiu pelo ataque como melhor defesa.
Isla removeu o braço dos olhos, sentando-se no chão com uma agilidade irritante. Ela olhou para Phoebe lá de baixo, as sobrancelhas loiras erguidas em puro divertimento.
- Eu estava te segurando? Phoebe, você cruzou a fronteira do travesseiro imaginário às três da manhã. Às quatro, você já tinha confiscado a minha perna como propriedade privada sua. Eu tentei me afastar duas vezes, mas toda vez que eu me mexia, você soltava um grunhido reclamando e grudava mais ainda no meu corpo.
Phoebe escondeu o rosto nas mãos, os ombros caindo. - Meu Deus. Eu quebrei as minhas próprias regras.
Isla levantou-se do chão com um movimento fluido, ajeitando a camiseta com um tapinha rápido e estendendo a mão para recolher o edredom caído.
- Me diga uma coisa - Isla comentou, escorando-se na coluna da cama, olhando para a chefe com um sorriso travesso. - Você sempre foi assim estabanada e perigosa ao acordar ou isso é uma habilidade que você desenvolveu recentemente?
- Eu nunca fui estabanada na minha vida! - Phoebe retrucou instantaneamente, erguendo a cabeça e tentando recompor a postura de autoridade, apesar do cabelo rebelde. - Eu sou uma pessoa de movimentos precisos, calculados e milimétricos, com minha mãe vigiando cada gesto, cada movimento desde que nasci. Minha equipe de logística me descreve como um relógio suíço! Embora eu ache que não seja exatamente um elogio. - Comentou mais para si mesma.
- Pois o relógio suíço acabou de me jogar no chão como se eu fosse um saco de batatas - Isla riu, caminhando até o banheiro da suíte. - E essa sua coordenação motora desastrosa começou quando então? Foi um trauma de infância ou foi depois de me conhecer?
- Foi depois de conhecer você! - Phoebe disparou, a voz subindo um tom, seguindo a loira com o olhar. - É o carma, só pode ser! O carma do caroço do abacate. Minha vida era perfeitamente estável até aquela maldita fruta entrar na minha cozinha e decidir me usar como metáfora existencial.
Isla parou no batente da porta do banheiro, com a escova de dentes reserva que Phoebe deixara na bancada na mão. Ela se virou, os olhos verdes brilhando de curiosidade.
- Espera aí. Você já mencionou esse abacate e de novo ontem, no almoço. Não sei se entendi bem. Que conversa é essa de abacate, Fields? O que a sua ex-mulher tem a ver com uma fruta verde tropical? Explique isso direito.
Phoebe suspirou, afundando-se contra os travesseiros, os braços cruzados sobre o pijama de seda.
- Florence era botânica e tinha uma obsessão por plantas exóticas, daquelas que exigem estufas e umidade controlada - Phoebe começou, a voz misturando irritação antiga com o cansaço do despertar. - Um dia, ela cismou que queria fazer brotar um caroço de abacate usando palitos de dente em um copo de água na janela da nossa cozinha. Aquela porcaria ficou ali por meses. Não brotava, não morria, só acumulava poeira e parecia um experimento botânico fracassado. Eu odiava o copo, odiava os palitos, odiava a presença daquela coisa que quebrava o minimalismo da minha bancada.
Isla começou a escovar os dentes, mas continuou ouvindo, encostada no batente, visivelmente entretida.
- Quando nós resolvemos nos divorciar - Phoebe continuou gesticulando com uma das mãos -, a separação de bens foi pacífica e até mesmo rápida, não demorou um mês. Advogados, partilha de ações, carros, tudo resolvido em duas audiências. Mas no dia em que Florence foi embora em definitivo do apartamento, ela colocou todas as caixas no caminhão e, na última viagem, ela voltou à cozinha, pegou o copo com o caroço do abacate e os palitos, e levou junto. Ela não levou uma planta de verdade, que para falar a verdade, nem tem neste apartamento. Ela levou o maldito caroço. E o pior é que eu senti um nó no estômago quando vi a bancada vazia. Eu nem sequer gostava daquela coisa! Eu odeio abacates! Mas eu percebi que tinha me apegado ao carma da permanência dele. Desde então, sinto que o universo me pune com situações absurdas toda vez que eu tento controlar demais o ambiente. E você, Cooper, é o catalisador desse carma.
Isla cuspiu a espuma na pia, enxaguou a boca rapidamente e limpou os lábios com a toalha, soltando uma gargalhada que ecoou pelo banheiro.
- Então eu sou o seu caroço de abacate? - Isla perguntou, voltando para o quarto. - A diferença é que eu não preciso de palitos de dente para ficar de pé. Vamos descer, chefe. Sua mãe já deve estar inspecionando o ambiente e você precisa manter a pose de relógio suíço antes que ela perceba que o seu carma está te pregando muitas peças.
***
Na cozinha, o cenário era consideravelmente menos tenso do que na noite anterior, embora o ambiente ainda estivesse impregnado com os resquícios da comédia familiar. Althea Fields estava sentada na banqueta da ilha central, vestindo um robe de seda preta que parecia flutuar ao redor de sua silhueta magra. Ela segurava uma xícara de porcelana com as duas mãos, os olhos castanhos ligeiramente semicerrados contra a claridade que entrava pelas imensas janelas de Chelsea. A ressaca da matriarca não se manifestava em desleixo, mas em uma quietude quase majestosa.
Isla, movendo-se com a costumeira eficiência prática, já havia colocado a cafeteira italiana para funcionar e organizava algumas fatias de pão artesanal na torradeira. Phoebe entrou na cozinha logo atrás, já vestindo uma calça de alfaiataria cinza e uma blusa preta de gola alta - sua armadura corporativa padrão para dias de crise -, tentando manter os olhos fixos em qualquer ponto que não fosse o corpo de Isla.
- Bom dia, mamãe - Phoebe disse, a voz controlada. - Como passou a noite?
Althea soltou um suspiro longo, bebendo um gole do café preto que Isla havia servido momentos antes.
- Minha cabeça parece um campo de testes industriais ruidosos, Phoebe - Althea respondeu, a voz menos arrastada do que na noite anterior, mas sem a crueza cortante do sábado. - Mas o quarto de hóspedes é surpreendentemente confortável para um lugar tão desprovido de quadros ou personalidade. Isla... este café é a única coisa que está impedindo o meu cérebro de implodir nesta manhã. Obrigada.
- É uma receita militar, senhora Fields - Isla respondeu, servindo uma xícara para Phoebe com uma piscadela discreta. - Forte o suficiente para levantar um batalhão ou para curar os excessos de uma safra excelente de vinho tinto.
Althea olhou para Isla, o canto dos lábios esboçando uma aprovação que fez Phoebe quase derrubar sua própria xícara.
- Você tem utilidade, Isla. Eu aprecio pessoas que sabem o que fazer em uma manhã difícil sem precisar de um manual de instruções - Althea virou-se para a filha, observando a rigidez na postura de Phoebe. - Sabe, Phoebe, durante os quatro anos em que você esteve com aquela moça das samambaias... Florence, não é? os nossos cafés juntos exigiam de mim muito esforço. Aquela mulher passava o tempo todo tentando me convencer dos benefícios do adubo orgânico enquanto você revisava os gráficos de vendas no celular. Uma chatice sem fim. Nós estávamos sempre em pé de guerra.
Phoebe piscou, surpresa com a franqueza da mãe.
- Você nunca me disse isso de forma tão... direta, mamãe.
- Eu não precisava dizer, estava estampado na minha cara, se você prestasse mais atenção teria visto - Althea deu de ombros, pegando uma torrada que Isla ofereceu. - Florence tentava parecer perfeita demais para o papel de esposa de uma Fields. A senhorita Cooper, por outro lado, não parece se importar muito com o papel. Ela simplesmente empurra você da sua zona de conforto. E, considerando o tamanho do roxo no seu nariz, acho que ela está fazendo um trabalho excelente em quebrar a sua casca.
Phoebe olhou de Althea para Isla, sentindo uma pontada de incredulidade. Isla mantinha a expressão neutra, mas seus olhos verdes dançavam com o puro triunfo de ter conquistado a fortaleza de Hertfordshire usando apenas um queijo do subúrbio e uma história sobre um coelho de chocolate.
***
O restante do domingo transformou-se em uma coreografia de proximidade forçada e carinhos estratégicos que testaram os limites do autocontrole de Phoebe. Como Althea decidiu estender sua permanência até o final da tarde para evitar o tráfego pesado da rodovia, as duas mulheres tiveram que manter a farsa em tempo integral dentro do espaço confinado da cobertura.
Às duas da tarde, enquanto Althea lia suas revistas de moda na sala de estar, Isla e Phoebe dividiam o espaço do sofá menor. Para manter as aparências e a intimidade de um casal arrebatador, Isla havia esticado o braço esquerdo pelo encosto, os dedos longos tocando casualmente o ombro de Phoebe.
Toda vez que Althea erguia os olhos do jornal para inspecioná-las, Isla realizava um pequeno movimento: um polegar que acariciava a clavícula de Phoebe por cima do tecido da blusa preta, ou uma inclinação de cabeça que trazia seu rosto a poucos centímetros do ouvido da executiva.
- Você está tensa de novo, Fields - Isla sussurrou, os lábios quase tocando o lóbulo da orelha de Phoebe. O hálito quente fez um arrepio violento descer pela espinha da CEO. - Se sua mãe olhar agora, vai achar que eu estou aplicando um golpe de imobilização em você, não um carinho de namorada.
- É porque você está fazendo isso de propósito, Cooper - Phoebe respondeu entre dentes, mantendo um sorriso falso direcionado para a parede oposta. - Seus dedos estão quentes demais. Isso está... atrapalhando a minha concentração.
- É o meu corpo quente, lembra? Recomendação expressa da sua mãe para não deixar você congelar no pedestal de gelo - Isla provocou, descendo os dedos sutilmente pelo braço de Phoebe, apertando o tecido e a carne com uma firmeza que fez o estômago da executiva dar nós novamente.
Phoebe engoliu em seco, sentindo o peso daquela farsa se transformar em algo muito mais denso. Cada toque disfarçado, cada esbarrão de joelhos no sofá, e a lembrança do corpo de Isla colado ao seu na madrugada estavam operando uma mudança em suas barreiras. Ela não estava mais atuando para enganar Althea; ela estava lutando para não se entregar ao desejo real que a presença da segurança provocava.
***
Às seis, depois do chá das cinco da tarde, o sedã preto da empresa encostou em frente ao edifício em Chelsea. O motorista particular, convocado por Phoebe, aguardava do lado de fora para levar a matriarca de volta à sua residência principal.
Althea despediu-se na porta do apartamento com a mesma elegância aristocrática de sempre, embora seu olhar estivesse visivelmente mais suave do que na manhã de sábado. Ela segurou as mãos de Phoebe por um segundo, um gesto de raríssima intimidade física entre as duas.
- Cuide desse nariz, Phoebe. E tente não ser tão... fria durante a semana. A Fields Cosmetics sobrevive sem a sua vigilância por algumas horas - Althea virou-se para Isla, oferecendo uma mão firme que a segurança apertou com respeito. - Senhorita Cooper, mantenha o café forte e os reflexos rápidos. Minha filha demanda muita paciência, mas acho que você tem as ferramentas certas para lidar com as flutuações de humor dela.
- É a minha especialidade, senhora Fields - Isla respondeu, mantendo o sorriso travesso.
Quando a porta do elevador se fechou, levando Althea embora, o silêncio que caiu sobre a cobertura de Chelsea foi diferente de tudo o que haviam experimentado no fim de semana. Não era o silêncio do pânico ou da mentira; era o silêncio do esgotamento do roteiro. A farsa havia terminado. O comitê de inspeção havia ido embora. Elas estavam sozinhas, e o contrato verbal de quarenta e oito horas havia sido cumprido.
Phoebe caminhou até a bancada da cozinha, recolhendo as chaves do carro que estavam sobre o mármore. O rubor de sua pele havia desaparecido, substituído por uma expressão de cansaço profundo e uma vulnerabilidade que ela já não conseguia esconder.
- Acabou - Phoebe disse, a voz mansa, quase um sussurro. - Althea comprou a história. O suplício terminou.
Isla pegou sua mochila de lona preta do canto da sala, jogando-a sobre o ombro. Ela caminhou até o centro da cozinha, parando a dois passos de Phoebe. A ausência dos toques forçados agora parecia criar um vácuo estranho entre as duas.
- É o que parece, chefe. Missão cumprida - Isla comentou, os olhos verdes focados na executiva com uma seriedade amistosa. - Você sobreviveu ao fim de semana com sua mãe. Acho que o seu carma deu uma trégua.
- Eu vou levar você até a sua casa, Isla. É o mínimo que posso fazer depois de... tudo isso. E depois de ter jogado você da cama de madrugada - Phoebe tentou brincar, mas a voz saiu sem força, presa na tensão residual que flutuava no ar.
O trajeto até o subúrbio de Londres foi o oposto da viagem de vinda. Não havia Althea no banco de trás, não havia tiradas desagradáveis, nem histórias engraçadas de coelhos de Natal, mas o silêncio dentro do carro de Phoebe era carregado de uma eletricidade estática palpável.
Nenhuma das duas ligou o rádio. Phoebe mantinha os olhos fixos no trânsito de domingo à noite, as mãos apertando o volante de couro com força, enquanto Isla olhava pela janela lateral, os dedos batendo um ritmo invisível na própria coxa.
Quando o carro finalmente parou em frente ao pequeno prédio residencial de Isla, a iluminação amarelada dos postes de rua invadiu o interior do veículo, destacando as linhas do rosto de ambas.
Isla não abriu a porta imediatamente. Ela se virou no banco do carona, deixando a mochila de lado, e encarou Phoebe.
- Bem... de volta à realidade de catracas e crachás na segunda-feira? - Isla perguntou, a voz mansa, mas cortante de uma forma nova.
Phoebe virou a cabeça devagar, encontrando o olhar verde da segurança. O espaço confinado do carro parecia ter encolhido. A lembrança do beijo no quarto e o peso do corpo de Isla em sua cama pareciam fantasmas ocupando os espaços vazios.
- Sim - Phoebe respondeu, o maxilar tenso, lutando contra o impulso de quebrar a distância mais uma vez. - Amanhã voltamos aos nossos respectivos postos. O contrato de final de semana está oficialmente encerrado, Cooper.
Isla sustentou o olhar por três segundos longos, o sorriso travesso surgindo apenas no canto esquerdo dos lábios, um vislumbre da provocação que Phoebe passara o fim de semana tentando combater.
- Entendido, senhora Fields. Mas o problema dos contratos de curto prazo... - Isla abriu a porta do carro, colocando um pé na calçada, antes de olhar de soslaio para a executiva - ...é que eles costumam deixar cláusulas de renovação automáticas na mente da gente. Trate de não sonhar com abacates esta noite. E tente dormir no seu lado da cama.
Isla Cooper desceu do carro com um movimento fluido, jogando a mochila sobre o ombro e caminhando em direção à entrada do prédio sem olhar para trás.
Phoebe Fields ficou parada ali, com o motor do carro roncando baixo, as mãos ainda trêmulas sobre o volante. Ela olhou para o banco do carona vazio, sentindo o aroma sutil de sabão de coco que Isla deixara no estofado, e soube, com a precisão matemática de um relógio suíço, que a segunda-feira na Fields Cosmetics seria o início do período mais perigoso e descontrolado de toda a sua vida.
Fim do capítulo
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