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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 1298
Acessos: 74   |  Postado em: 03/06/2026

Capitulo 67 – Uma rotina quase agradável

Capítulo 67 - Uma rotina quase agradável.

 

Os dias da Janis haviam entrado em uma rotina quase agradável. 
Quase. 
O despertador tocava às cinco da manhã por um motivo muito simples. 
Janis estava pagando uma dívida. 
Não uma dívida de dinheiro. 
Uma dívida de horas. 
A viagem para a praia tinha custado dois dias de trabalho na padaria. Tião não havia brigado. Não havia ameaçado descontar nada. Apenas informara quantas horas precisariam ser repostas. 
Janis aceitara sem reclamar. 
Bom. 
Sem reclamar muito. 
Então, durante alguns dias, passou a chegar mais cedo à padaria. 
Uma hora e meia por dia. 
O suficiente para compensar o tempo que passara observando o mar, o pôr do sol e a Rebeca. 
Na opinião dela, ainda tinha sido um excelente negócio. 
Mas o despertador das cinco da manhã discordava. 
Naquele dia, quando o despertador tocou, Janis abriu um olho. 
Considerou ignorá-lo. 
Considerou fingir a própria morte. 
Considerou mudar de identidade e fugir para outro estado. 
Então suspirou e saiu da cama. 
Alguns minutos depois, atravessou o corredor da casa da Maria Helena arrastando os pés e tentando parecer uma pessoa funcional. 
Como acontecia todas as manhãs, encontrou a cozinha iluminada. 
Maria Helena já estava acordada. 
Janis ainda não sabia exatamente quando aquela mulher dormia. 
Ou se dormia. 
Sobre a mesa havia uma caneca de café fumegante. 
E um pão com manteiga esperando por ela. 
Janis encarou o prato. 
Depois encarou Maria Helena. 
— A senhora sabe que eu posso tomar café no trabalho, né? 
Maria Helena nem levantou os olhos da própria caneca. 
— Você não vai sair daqui sem comer para desmaiar na rua. 
— Eu nunca desmaiei na rua. 
— Ainda. 
Janis abriu a boca para argumentar. 
— E Valente nenhum sai de casa com fome. 
A resposta morreu antes de nascer. 
Porque aquilo era injusto. 
Não existia defesa possível contra frases de avó. 
Janis sentou-se à mesa. 
— Isso foi golpe baixo. 
— Coma o pão. 
Poucos minutos depois, pegou a mochila e o skate. 
Maria Helena observou da porta. 
— Você vai acordar a vizinhança inteira com o barulho das rodas dessa coisa. 
Janis colocou o skate no chão. 
— Ótimo. 
— Ótimo? 
— Assim eu não sou a única sofrendo. 
Maria Helena balançou a cabeça. 
— Um dia alguém vai me explicar por que eu gosto de você. 
— Quando descobrir, me avisa. 
E saiu antes que a resposta viesse. 
Às cinco e meia em ponto, entrou pela porta dos fundos da padaria. 
O cheiro de pão recém assado era forte o bastante para convencer qualquer pessoa de que acordar cedo tinha alguma vantagem. 
Quase. 
Janis ajudou a organizar as bandejas. 
Limpou algumas mesas. 
Conferiu encomendas. 
Carregou mais peso do que considerava razoável para alguém do seu tamanho. 
Quando o relógio marcou sete horas, retirou o avental numa velocidade impressionante. 
— Até mais tarde! — gritou para quem estivesse ouvindo. 
E saiu praticamente correndo. 
Às sete e quinze, entrava na escola por poucos segundos de vantagem. 
O suficiente para não se atrasar. 
Não o suficiente para recuperar o fôlego. 
Na escola, Janis fazia o possível para prestar atenção. 
Nem sempre conseguia. 
Mas fazia o possível. 
Anotava explicações. 
Copiava fórmulas. 
Marcava datas de provas. 
Registrava trabalhos. 
Fazia listas mentais de capítulos que ainda precisava ler. 
Às vezes até conseguia acompanhar uma aula inteira sem se distrair. 
Às vezes. 
Na maior parte do tempo, sua atenção tinha o mesmo nível de compromisso de um gato doméstico. 
Bastava um pensamento aleatório surgir para que ela se afastasse mentalmente da sala de aula. 
Quando percebia, já estava desenhando. 
Um professor particularmente parecido com uma coruja. 
Uma colega dormindo sobre o caderno. 
Ela mesma afundando em uma pilha de livros. 
Então olhava para a folha. 
Suspirava. 
E voltava para a matéria. 
O processo se repetia diversas vezes ao longo do dia. 
Prestava atenção. 
Distraía-se. 
Desenhava. 
Arrependia-se. 
Voltava a prestar atenção. 
Pelo menos estava ficando mais rápida na última etapa. 
Também evitava participar das conversas paralelas que surgiam durante as aulas. 
Não porque tivesse perdido o interesse por pessoas. 
Muito pelo contrário. 
Conversar continuava sendo infinitamente mais divertido do que estudar. 
Mas havia aprendido que cinco minutos de conversa quase sempre se transformavam em vinte. 
E vinte minutos depois ela não entendia a matéria, não sabia qual exercício a turma estava fazendo e precisava reconstruir a própria existência acadêmica. 
Então, quando alguém tentava puxar assunto, normalmente recebia apenas um sorriso rápido. 
Ou um: 
— Depois você me conta. 
E voltava para o caderno. 
A antiga Janis provavelmente ficaria chocada com esse comportamento. 
A atual também ficava um pouco. 
O intervalo era a parte mais fácil do dia. 
Janis aproveitava para encontrar os primos. 
Conversava alguns minutos. 
Reclamava das aulas. 
Ouvia reclamações sobre outras aulas. 
E, principalmente, pegava o celular. 
Quase sempre encontrava alguma mensagem da Rebeca esperando por ela. 
Naquele dia, resolveu tomar a iniciativa. 
Janis: Estou com saudades. 
A resposta chegou poucos segundos depois. 
Rebeca: Eu estou mais. 
Janis sorriu. 
Janis: Não está não. 
Rebeca: Estou sim. 
Rebeca: A minha saudade é maior que o mundo. 
Janis digitou imediatamente. 
Janis: A minha é maior que o universo. 
Houve alguns segundos de silêncio. 
Então: 
Rebeca: O universo é infinito. 
Janis apoiou o queixo na mão. 
Pensou por um instante. 
E respondeu: 
Janis: Pra você ver. 
Janis: Minha saudade é maior que o infinito. 
A resposta demorou um pouco mais dessa vez. 
Janis imaginou a expressão da Rebeca do outro lado da tela. 
O sorriso tentando aparecer. 
Aquele jeito que ela tinha de abaixar a cabeça quando começava a rir. 
As risadinhas baixas que sempre vinham antes de qualquer tentativa de responder uma bobagem. 
Não podia ouvi-las. 
Mas conseguia imaginá-las perfeitamente. 
E, por algum motivo, isso tornava a saudade um pouco mais fácil de suportar. 
Quando saía da escola, Janis quase sempre fazia um pequeno desvio antes de voltar para casa. 
Passava na casa da Débora. 
Não demorava muito. 
Só o suficiente para confirmar que estava tudo bem. 
Nos últimos dias, encontrara cenas cada vez mais animadoras. 
Num deles, Débora estava no jardim, cuidando das plantas. 
Em outro, o cheiro de bolo podia ser sentido ainda do portão. 
E, numa tarde particularmente memorável, encontrou uma aluna sentada diante do teclado enquanto Débora explicava pacientemente a posição correta das mãos. 
As aulas de música estavam voltando aos poucos. 
Assim como todo o resto. 
Janis aproveitava essas visitas para perguntar se ela precisava de alguma coisa. 
Fazer companhia por alguns minutos. 
Ou apenas ouvir as novidades do dia. 
Depois seguia para casa. 
E, como acontecia quase todos os dias, encontrava Maria Helena esperando por ela. 
O almoço já estava servido. 
Janis largou a mochila numa cadeira e observou o prato. 
— Salada de novo? 
— Sim. 
— Ontem também tinha salada. 
— E amanhã também vai ter. 
Janis suspirou. 
— A senhora sente prazer nisso. 
— Faz bem para você. 
— Essa frase costuma ser o começo de experiências traumáticas. 
Maria Helena apontou para a cadeira. 
— Sente e coma. 
Janis sentou. 
Resmungando. 
Mas sentou. 
Tentava comer o mais devagar possível. 
Porque sabia exatamente o que vinha depois. 
Quando terminasse o almoço, precisaria correr de volta para a padaria. 
Cumprir o expediente. 
Quando finalmente saía da padaria, o sol já começava a desaparecer. 
Antes de voltar para casa, Janis passava mais uma vez na casa da Débora. 
Quase sempre levava alguma coisa. 
Pães que sobravam no fim do dia. 
Algum sonho. 
Uma fatia de torta. 
Qualquer coisa que a padaria não venderia mais no dia seguinte. 
Débora raramente deixava a gentileza sem resposta. 
Às vezes entregava um bolo. 
Outras vezes um rocambole. 
Ou alguma sobremesa que havia decidido fazer naquela tarde. 
Em certas noites, as duas seguiam juntas até a casa de Maria Helena. 
Cada uma carregando alguma coisa para a outra. 
Como se estivessem participando de uma troca silenciosa que nenhuma das duas pretendia encerrar. 
Depois do jantar, Janis finalmente podia diminuir o ritmo. 
Tomava banho. 
Vestia roupas confortáveis. 
E se refugiava no quarto. 
Ainda havia deveres da escola. 
Algum trabalho para adiantar. 
Capítulos para ler. 
Anotações para organizar. 
E, principalmente, a Rebeca. 
As conversas variavam. 
Às vezes longas. 
Às vezes curtas. 
Às vezes cheias de novidades. 
Às vezes compostas quase inteiramente por bobagens. 
Mas faziam parte do dia. 
Assim como o café da manhã. 
Assim como a padaria. 
Assim como a escola. 
Quando desligava o telefone, terminava o que precisava terminar. 
Organizava o material para o dia seguinte. 
E, quase sempre, adormecia antes mesmo de perceber. 
Mais tarde, quando a casa já estava silenciosa, Maria Helena passava pelo quarto. 
Recolhia alguma roupa largada. 
Colocava os tênis no lugar. 
Deixava meias limpas separadas para a manhã seguinte. 
Conferia se o uniforme estava seco. 
Então o acomodava sobre a cadeira. 
Pronto para ser usado. 
Por último, aproximava-se da cama. 
Janis dormia profundamente. 
Exausta. 
Maria Helena ajeitava a coberta sobre seus ombros. 
Afastava uma mecha de cabelo do rosto da menina. 
Apagava a luz. 
E saía sem fazer barulho. 
Na manhã seguinte, às cinco horas, Janis provavelmente reclamaria da existência, do despertador e da crueldade do universo. 
Mas, por enquanto, podia simplesmente descansar. 
E isso já era suficiente.

 

Fim do capítulo


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