Capitulo 66 - Entre Duas Vidas
Capítulo 66 - Entre duas vidas.
Infelizmente, até os finais de semana perfeitos acabam.
No meio da tarde, as três voltaram para a casa da praia.
Ainda traziam areia nos pés.
O cheiro do mar preso nos cabelos.
E aquela sensação desagradável de que o tempo tinha passado rápido demais.
Assim que entrou, Miriam largou a bolsa sobre a bancada.
— Muito bem.
Janis já estreitou os olhos.
— Eu conheço esse tom.
— Limpeza.
— Ah, não.
— Ah, sim.
Rebeca já estava recolhendo as próprias coisas.
— Eu posso guardar os lençóis.
— Claro que pode — respondeu Miriam.
Janis observou as duas.
— Vocês são assustadoras.
— E você está parada — observou Miriam.
Cinco minutos depois, a casa inteira estava em movimento.
Ou pelo menos era essa a intenção.
Miriam limpava a cozinha.
Rebeca organizava quartos.
E Janis tentava ajudar.
Tentava.
Em determinado momento, Miriam apareceu na sala.
— Janis, você recolheu as toalhas?
— Recolhi.
— Onde elas estão?
Silêncio.
Janis piscou.
— Essa é uma excelente pergunta.
Miriam fechou os olhos.
— Meu Deus.
Rebeca apareceu no corredor carregando uma pilha de roupa de cama.
— Eu achei elas.
— Claro que achou — respondeu Miriam.
— Estavam atrás do sofá.
— Como uma toalha vai parar atrás do sofá?
Janis apontou para si mesma.
— Mistério.
— Não é mistério. É você.
Janis considerou aquilo por alguns segundos.
— Justo.
Pouco a pouco, porém, tudo foi ficando pronto.
As camas foram arrumadas.
Os armários conferidos.
O lixo recolhido.
As janelas fechadas.
Quando terminou de organizar o próprio quarto, Rebeca demorou alguns segundos antes de sair.
O quarto parecia menor agora.
Silencioso.
Arrumado.
Ela ajeitou um travesseiro que já estava alinhado.
Depois sorriu sozinha.
E saiu.
Alguns minutos mais tarde, as três se encontraram na sala.
— Tudo pronto? — perguntou Miriam.
— Sim.
— Acho que sim — respondeu Janis.
— "Acha"?
— Noventa e cinco por cento.
— Janis.
— Tá bom. Sim.
Miriam balançou a cabeça.
Pegou as chaves.
E conduziu as duas para fora.
A porta foi trancada.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
O mar continuava ali.
As ondas quebrando ao longe.
A varanda.
A rede.
O caminho de madeira até a areia.
Janis suspirou.
— Eu poderia me acostumar facilmente com essa vida.
— Eu também — admitiu Rebeca.
Miriam colocou os óculos escuros.
— Eu sei.
Então apontou para o carro.
— Vamos.
— Pra casa?
— Ainda não.
As duas olharam para ela.
— Sorvete?
Silêncio.
Então:
— Sim! — responderam juntas.
A sorveteria estava quase vazia naquela hora da tarde.
Miriam pediu algo simples. Mas, Rebeca e Janis pediram um sorvete imenso, cheio de calda de chocolate. Rebeca pegou a colher e provou. Fechou os olhos e inclinou levemente o rosto para a direita, saboreando o momento.
— Meu Deus.
Janis ergueu uma sobrancelha.
— Dramática.
— Não, olha isso.
Rebeca provou outra colherada e arregalou os olhos.
— A calda é MUITO boa.
Janis olhou pro próprio sorvete por um instante.
Então, sem dizer nada, puxou a taça dela pra perto e deslizou cuidadosamente toda a calda pro sorvete da Rebeca.
Naturalmente. Como se nem tivesse pensado antes de fazer.
Rebeca piscou surpresa.
— …você não queria?
— Eu gosto mais sem.
Mentira descarada.
O sorriso da Rebeca apareceu pequeno e tímido antes dela desviar o olhar pra mesa, claramente tentando fingir que aquilo não tinha mexido com ela.
Miriam assistiu tudo em silêncio absoluto.
Então levantou a mão.
— Garçom?
As duas olharam ao mesmo tempo.
— Pode trazer um castiçal? Precisamos de mais algumas velas pra me fazer companhia.
Janis fechou os olhos imediatamente.
— Fala sério, tia Miriam.
Rebeca ficou vermelha na mesma hora.
Então vieram os risinhos.
Primeiro pequenos.
Depois maiores.
Até ela precisar apoiar a testa no ombro da Janis.
— Não ri — resmungou Janis.
O que só piorou a situação.
— Eu tô tentando.
— Claramente não tá.
Miriam apontou a colher na direção das duas.
— O pior é que vocês nem percebem.
— Percebemos sim — disse Janis.
— Não. Se percebessem, pelo menos tentariam ser discretas.
Rebeca finalmente conseguiu recuperar o fôlego.
— Eu achei que estava sendo discreta.
Miriam e Janis responderam juntas:
— Não.
A resposta sincronizada fez a Rebeca voltar a rir.
Dessa vez até a Janis acabou rindo também.
Por alguns segundos as três ficaram assim.
Sem pressa.
Sem conversa importante.
Só compartilhando o fim de uma tarde boa.
Miriam observou as duas por cima dos óculos.
Então balançou a cabeça.
— Eu devia ter trazido um baralho.
— Por quê? — perguntou Rebeca.
— Porque claramente eu sou a única terceira roda nesta mesa.
Janis soltou uma risada.
Rebeca escondeu o rosto no ombro dela outra vez.
E Miriam apontou para a saída.
— Terminem esse sorvete logo.
— Tá nos expulsando?
Ela pegou a bolsa.
— Sim.
— Pelo menos ela foi honesta — murmurou Janis.
Miriam pegou a bolsa.
— Ainda temos uma viagem inteira pela frente e eu gostaria muito de chegar em casa antes de vocês duas decidirem transformar o banco de trás do meu carro em mais um capítulo dessa novela.
Miriam tinha ido pagar a conta enquanto Janis e Rebeca terminavam os próprios sorvetes.
Então Rebeca congelou no meio de uma colherada.
— Ah não.
Janis ergueu os olhos.
— O quê?
Rebeca apontou discretamente com a colher.
— Três horas.
Janis olhou.
Piscou.
Reconheceu imediatamente.
— Ah.
A mesma mulher da praia estava sentada algumas mesas adiante.
Dessa vez usando shorts e saída de praia.
Rebeca suspirou dramaticamente.
— Pelo menos ela tá vestida agora.
Janis soltou uma risada.
— Para com isso, sua boba.
— Ela ainda tá olhando pra você.
— E daí?
— E daí?
Janis continuava estranhamente tranquila.
O que irritava a Rebeca mais do que deveria.
— Como você consegue ficar tão calma?
Janis levou mais uma colherada de sorvete à boca.
Pensou por um instante.
Depois respondeu:
— Porque eu já tenho tudo de que preciso.
Rebeca virou o rosto lentamente.
— ...o quê?
Janis finalmente olhou diretamente para ela.
— Tô falando de você, Rebeca.
Silêncio.
O cérebro da Rebeca abandonou suas funções.
Janis sorriu.
— Agora para de acompanhar essa temporada de Lucas Silva e Silva que tá passando na sua cabeça e toma o seu sorvete.
Rebeca continuava olhando para ela.
Completamente sem reação.
Miriam voltou naquele exato instante.
Observou as duas.
— O que aconteceu agora?
Janis pegou mais uma colherada de sorvete.
— Nada.
— Tem certeza?
— A Rebeca só perdeu a conexão com a realidade por alguns segundos.
Miriam assentiu.
— Entendi.
Pausa.
— Então está tudo normal.
A estrada já estava escura quando começaram a viagem de volta.
O rádio tocava baixinho.
Miriam dirigia.
Janis observava as luzes passando pela janela.
Rebeca estava estranhamente quieta.
Mais quieta do que o normal.
Alguns minutos se passaram.
Então ela suspirou.
— Eu tava sendo boba, né?
Miriam respondeu sem hesitar:
— Boba não.
Pausa.
— Possessiva.
— Tia Miriam!
— Estou apenas comprometida com a verdade.
Janis riu baixinho.
Rebeca virou imediatamente para ela.
— Você também acha?
Janis fingiu pensar.
— Acho.
A expressão da Rebeca desmoronou.
Então Janis completou:
— Mas uma boba muito fofa.
E pronto.
Lá estava aquele sorriso outra vez.
Pequeno.
Quente.
Completamente inevitável.
Rebeca tentou esconder olhando para a janela.
Falhou miseravelmente.
Janis observou aquilo por alguns segundos.
Então estendeu a mão devagar entre os bancos.
Rebeca segurou imediatamente.
Como se já estivesse esperando.
Depois disso, a conversa foi diminuindo.
Miriam reclamou do trânsito.
Janis apontou algumas luzes bonitas na estrada.
Rebeca cantarolou baixinho uma música que tocava no rádio.
Mas nenhuma das três parecia sentir necessidade de preencher o silêncio.
As mãos continuaram entrelaçadas durante quase toda a viagem.
E o carro seguiu pela estrada carregando aquele tipo raro de silêncio que não pesa.
Só abraça.
Quando finalmente chegaram na rua da dona Maria Helena, as duas já estavam inquietas outra vez.
Rebeca apertando nervosamente o lencinho nas mãos.
Janis olhando o relógio como se isso pudesse atrasar o fim da noite.
Assim que o carro parou, as duas praticamente saltaram ao mesmo tempo.
— Ei — Miriam tentou.
Tarde demais.
As duas já estavam correndo portão adentro.
Largando Miriam sozinha atrás delas.
Dona Maria Helena ergueu os olhos da televisão imediatamente quando viu a cena.
Janis segurou a mão da Rebeca e puxou ela corredor adentro sem cerimônia nenhuma.
Então abriu a porta do quarto rapidamente.
As duas entraram.
E a porta bateu logo depois.
Silêncio.
Do lado de fora:
— PORTA ABERTA.
A voz de dona Maria Helena atravessou a casa inteira.
Lá dentro, as duas congelaram por meio segundo.
Então começaram a rir baixinho.
Janis se aproximou devagar.
Sem piada agora.
Sem brincadeira.
Só saudade antecipada.
Elas se abraçaram forte imediatamente.
Como se estivessem tentando ganhar mais alguns minutos dentro daquele fim de noite.
Depois trocaram um beijo.
Lento.
Carinhoso.
Rebeca escondeu o rosto no ombro dela logo em seguida.
— Eu vou sentir saudades.
Janis fechou os olhos por um instante antes de responder:
— Eu também.
E permaneceram abraçadas o máximo que conseguiram.
Até Janis perceber uma sombra pela fresta da porta.
Janis soltou Rebeca imediatamente.
— Melhor você ir.
A voz saiu séria demais.
— Capaz da minha vó chamar a polícia pra mim por sequestrar você.
A resposta veio instantânea do outro lado da porta:
— E eu chamo mesmo.
Rebeca começou a rir imediatamente enquanto limpava os olhos.
Então abriu a porta de vez.
Dona Maria Helena observou Rebeca por alguns segundos antes de perguntar:
— Tá tudo bem, bebê?
Rebeca confirmou com um pequeno aceno.
Maria Helena suavizou a expressão só um pouquinho.
— No próximo sábado vocês podem se ver de novo.
Aquilo fez a menina sorrir outra vez.
E, para absoluta surpresa da velhinha, Rebeca se aproximou e abraçou ela apertado.
Maria Helena congelou por meio segundo.
Rebeca falou baixinho:
— Tchau, vó.
Quando a menina finalmente saiu em direção ao carro da Miriam, dona Maria Helena permaneceu parada no corredor por alguns instantes.
Depois olhou na direção da neta.
E admitiu calmamente:
— Ela é um amorzinho.
Janis sorriu pequeno.
Orgulhoso.
— Vem comigo. Precisamos que você veja uma coisa.
Janis estreitou os olhos imediatamente.
— A senhora tem amigos imaginários agora?
Maria Helena ignorou a provocação e começou a caminhar em direção à saída.
A emoção das aventuras vividas no final de semana aflorou de uma vez.
Janis começou a falar sem parar.
Sobre a praia.
Sobre a Miriam.
Sobre a Rebeca.
Sobre o fato das duas terem conseguido dormir ouvindo o mar.
Maria Helena apenas escutava.
De vez em quando soltava um “hum”.
Ou um “imagino”.
Mas não interrompia.
Janis estava tão distraída contando a viagem que sequer percebeu quando passaram pelo portão da casa nova.
Nem quando atravessaram o pequeno quintal.
Foi só ao erguer os olhos na direção da porta que ela finalmente viu.
Parou abruptamente e soltou um palavrão.
Ester imediatamente virou o rosto na direção dela.
— Olha a boca!
Janis piscou uma vez, completamente desnorteada.
— O quê?... Como?...
Ester soltou uma risada curta.
— Acho que o sol fritou o cérebro dela.
Maria Helena bufou atrás das duas.
— O sol é? Acho que foi outra coisa...
Pela primeira vez desde que chegara, Janis não respondeu à provocação.
Porque tudo que ela conseguia enxergar era Débora.
O cabelo diferente.
Mais curto.
Outra cor.
Outra aparência.
Mas ainda assim...
Débora.
Os olhos da menina começaram a percorrer o rosto dela como se tentassem entender quantas coisas haviam mudado naqueles poucos dias.
Ester observou a cena em silêncio por alguns segundos antes de suspirar.
— Tá. Temos que conversar.
Débora foi a primeira a conseguir falar.
A voz saiu baixa. Quase cautelosa.
— A Rebeca está bem?
Janis ainda continuava parada perto da porta, tentando processar a cena inteira diante dela.
O cabelo.
A casa.
A presença da Débora ali.
Ela piscou algumas vezes antes de finalmente responder:
— Está...
A palavra saiu automática. Ainda desacreditada.
Ester cruzou os braços imediatamente.
— A Rebeca não pode saber que a Débora está aqui.
Janis virou o rosto na direção dela na mesma hora.
— Mas...
— Não tem “mas”!
O tom firme fez o restante da frase morrer antes mesmo de nascer.
O silêncio tomou conta da sala por alguns segundos.
Então Ester respirou fundo e passou a mão pelo rosto cansado.
— Você não faz ideia do que precisou acontecer pra tirar a Débora de lá.
A expressão da Janis mudou imediatamente.
A animação da viagem desapareceu pouco a pouco do rosto dela enquanto escutava.
Ester explicou tudo.
As ligações.
O medo.
A pressa.
A madrugada.
O cuidado para que ninguém descobrisse.
O esconderijo.
O quanto tinham precisado ser discretas até chegar ali.
Janis permanecia em silêncio absoluto ao final.
Então Ester apontou o dedo diretamente para ela.
— E você tem um papel nessa história toda.
Janis franziu a testa.
— Tenho?
— Tem.
Ester aproximou-se mais um passo.
— Quem colocou a Rebeca a perder foi você.
Janis engoliu seco imediatamente.
A frase bateu nela com força demais.
Ester sustentou o olhar sem aliviar o tom.
— Não tô dizendo que tenha sido ruim. Mas o que você fez mudou a vida de todo mundo.
A voz dela ficou mais baixa dessa vez.
Mais séria.
— E justamente por isso, você precisa se responsabilizar pelas consequências.
Ester continuou encarando Janis por alguns segundos antes de voltar a falar.
— Todas as vezes que a Rebeca começava a se acostumar com a situação... você dava mais um empurrão nela.
Janis abriu a boca, mas não respondeu.
— E de empurrão em empurrão, a vida dela mudou. A nossa também.
O silêncio tomou conta da sala outra vez.
Então Ester apontou discretamente na direção de Débora.
— Agora é sua responsabilidade cuidar das duas.
Janis piscou surpresa.
— Das duas?
— Débora vai precisar de ajuda agora que mora aqui — Ester explicou. — Você vai mostrar o bairro, explicar como funciona o transporte público, ajudar nas compras... essas coisas.
Janis olhou para Débora automaticamente.
Ela parecia desconfortável com o assunto. Quase culpada por precisar de ajuda para coisas tão simples.
Então Janis assentiu devagar.
— Tá bem.
Ester respirou fundo antes de continuar:
— E quanto à Rebeca... você precisa guardar segredo dela.
Janis virou o rosto imediatamente.
— Mas...
— Janis.
O tom foi firme o bastante para fazê-la se calar de novo.
Ester passou a mão pelos cabelos antes de falar, claramente escolhendo as palavras com cuidado.
— A Rebeca precisa estar mais fortalecida emocionalmente pra conseguir lidar com isso tudo.
Janis abaixou os olhos lentamente.
— Nesse momento... vai ser muito difícil pra ela saber que a Débora está tão perto... mas, mesmo assim, inacessível.
O peso daquela frase caiu devagar sobre a sala.
Janis apertou os próprios dedos em silêncio.
Então Ester completou, mais baixa dessa vez:
— Em outras palavras... ela não vai poder viver aqui.
Janis fechou os olhos por um instante.
— E acho que ela não vai aceitar isso muito bem.
Ester observou Janis em silêncio por alguns segundos antes de suspirar.
— Você se acostumou a ser vista como a rebelde da cidade.
Janis desviou os olhos imediatamente.
— Mas não precisa mais ser assim — Ester continuou. — Você tem um emprego, tá estudando... Parece que finalmente começou a entender como a vida adulta funciona.
Janis voltou a encará-la devagar.
O tom da mãe não tinha ironia dessa vez.
Nem julgamento.
Só cansaço.
E verdade.
Ester cruzou os braços antes de completar:
— E parte da vida adulta é saber fazer escolhas difíceis.
O silêncio que veio depois foi curto.
Janis respirou fundo.
— Eu entendi.
Maria Helena, que até então observava tudo quieta da porta da cozinha, resolveu se manifestar:
— Pense nisso como se você estivesse fazendo um bolo.
As três olharam para ela ao mesmo tempo.
A velha ergueu um dedo como se estivesse prestes a revelar uma grande filosofia universal.
— Agora é a hora de preparar a massa. Quando tudo estiver pronto, aí sim você serve pra Rebeca.
A menina acabou soltando uma risada fraca pelo nariz pela primeira vez desde que chegara.
Então o silêncio voltou devagar.
Mais leve dessa vez.
Débora observou Janis por alguns instantes antes de falar, um pouco tímida:
— Eu fiz janta.
Janis ergueu os olhos imediatamente.
— Fez?
Débora assentiu de leve.
— Caso você esteja com fome.
A frase era simples.
Mas alguma coisa no peito da Janis apertou mesmo assim.
Porque, pela primeira vez desde que tinha atravessado aquele portão, a situação toda começava a parecer real.
Débora estava ali.
Morando ali.
Cozinhando naquela casa.
Tentando começar outra vida.
— Tá... Acho que eu tô com fome mesmo.
Débora levantou-se imediatamente e foi até o fogão.
O cheiro da comida ainda preenchia a cozinha inteira. Arroz, feijão e frango.
Ela puxou uma cadeira e sentou enquanto Débora servia o prato em silêncio.
Foi então que seus olhos acabaram parando na geladeira.
A fotografia.
Presa por um ímã bem no meio da porta.
Ela e Rebeca dormindo emboladas.
— Fala sério!
Dona Maria Helena virou o rosto na direção dela sem a menor vergonha.
— Ficou ótima, não ficou?
Janis apontou indignada para a foto.
— “Ótima” não é exatamente a palavra que eu usaria.
Débora colocou o prato na frente dela e voltou a olhar para a imagem.
Um pequeno sorriso escapou.
— Eu gostei. Ficou fofo.
Janis já enfiav* a primeira colherada gigantesca de arroz e feijão na boca.
— Fofo... — reclamou enquanto mastigava. — Não tem nada fofo em ter a privacidade desrespeitada.
Janis voltou a olhar para a fotografia.
Ela e Rebeca.
Dormindo profundamente.
Completamente alheias ao resto do mundo.
Por um instante, a menina sentiu o peso da conversa com Ester voltar.
Rebeca não sabia.
Não fazia ideia.
Janis desviou os olhos para Débora.
A mulher organizava a cozinha em silêncio.
Tentando construir uma vida nova.
Então voltou a olhar para a fotografia.
E percebeu que, pela primeira vez, estava exatamente no meio das duas.
A responsabilidade parecia pesada.
Mas não errada.
Janis respirou fundo.
Pegou mais uma colherada de arroz.
E decidiu que daria um jeito.
Ainda não sabia como.
Mas daria.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 01/06/2026 Autora da história
A farra acabou.
Mas acho que essa é justamente a fase em que a Janis vai crescer mais. Não por causa de grandes dramas, mas porque agora ela precisa aprender a equilibrar trabalho, escola, namoro, amizades e a própria vida.