Capitulo 65 - Cada Cena Melhora Essa Novela
Capítulo 65 – Cada Cena Melhora Essa Novela.
Miriam acordou cedo.
Por hábito.
A casa ainda estava silenciosa quando ela saiu do quarto.
Ao passar pelo corredor, lançou um olhar distraído para o quarto da Janis.
Então parou.
As duas ocupavam exatamente metade da cama cada uma.
Pelo menos era o que deveriam estar fazendo.
Na prática, pareciam ter passado a madrugada tentando descobrir quantas pessoas cabiam no mesmo travesseiro.
Janis dormia abraçada à Rebeca.
A cabeça apoiada no ombro dela.
Uma das pernas atravessada por cima das cobertas.
E a Rebeca sequer parecia se importar.
Miriam observou a cena por alguns segundos.
Balançou a cabeça.
E foi fazer café.
Pouco tempo depois, o cheiro de café fresco e pão aquecido começou a se espalhar pela casa.
Foi o suficiente.
As meninas apareceram na cozinha alguns minutos depois.
Cabelos bagunçados.
Cara de sono.
E fingindo uma naturalidade que não convencia ninguém.
Miriam servia o café quando levantou os olhos na direção delas.
— Muito bonito.
Janis puxou uma cadeira.
— O que foi?
— Você sabe muito bem o que foi.
— Nós tínhamos cinquenta por cento de permissão.
Miriam arqueou uma sobrancelha.
— É mesmo?
— Sim. A senhora não disse nem sim, nem não.
Rebeca sentou ao lado dela e pegou uma fatia de pão.
— Só gritou "porta aberta".
— Sei.
Miriam tomou um gole de café.
— O nome disso é condescendência.
Janis apontou imediatamente.
— Tá vendo? Eu falei que tinha permissão.
— Não.
Miriam apontou a colher na direção das duas.
— E vocês não usaram cinquenta por cento.
As duas se entreolharam.
— Usaram cento e cinquenta.
Janis franziu a testa.
— Que matemática é essa?
— Uma matemática nova — respondeu Miriam antes de tomar um gole de café.
— Nova? "Nova" quanto?
— Acabei de inventar.
Janis apoiou o cotovelo na mesa.
— Estamos cheios de matemáticos nessa família.
Miriam ergueu uma sobrancelha.
— Família?
Janis deu de ombros.
— Sim. Só um milagre pra senhora se livrar de mim agora.
Por um instante, Miriam tentou sustentar a expressão séria.
Não conseguiu.
Porque a verdade era que aquilo já não parecia uma ameaça fazia tempo.
Então, acabou rindo.
Do outro lado da mesa, Rebeca afundou na cadeira e cobriu o rosto com as mãos.
— Meu Deus...
— Não reclama — disse Janis. — Você que atravessou o corredor.
— Você também atravessou.
— Mas foi você quem se jogou na minha cama.
Rebeca abriu a boca.
Fechou.
Pensou.
Depois apontou um dedo para ela.
— Eu odeio quando você tem razão.
Pouco depois do café da manhã, as três seguiram para a praia.
Dessa vez, a caminhada foi mais tranquila.
Ou pelo menos mais tranquila para Janis.
O choque inicial do biquíni já tinha passado.
Não completamente.
Mas o suficiente para ela conseguir olhar para Rebeca sem esquecer o próprio nome.
Na maior parte do tempo.
Rebeca carregava o violão.
Janis levava o caderno e a lapiseira que ganhara de presente.
Miriam carregava apenas o livro.
Como alguém que já sabia exatamente onde terminaria a manhã.
Enquanto o sol ainda estava suportável, as duas aproveitaram o mar.
Entravam na água.
Saíam.
Voltavam.
Corriam das ondas.
Discutiam qual delas estava ganhando uma competição que nenhuma das duas tinha explicado direito.
Em determinado momento, Rebeca tentou convencer Janis de que conseguia prever qual onda quebraria primeiro.
O resultado foi uma derrota humilhante em menos de trinta segundos.
Quando o sol começou a subir de verdade, a coragem desapareceu.
As duas atravessaram a areia praticamente correndo.
— Tá muito quente!
— Eu avisei — respondeu Miriam sem tirar os olhos do livro.
Janis despencou na sombra.
— Acho que meu espírito evaporou.
— O seu ou o da Rebeca?
— Os dois.
Rebeca largou o violão ao lado da cadeira e sentou na toalha.
Foi então que reparou melhor na tia.
O chapéu elegante.
Os óculos escuros.
O livro aberto.
A postura relaxada.
Como se não existisse nenhuma preocupação no mundo.
Ficou observando por alguns segundos.
Depois abriu a bolsa.
Pegou o celular.
Miriam percebeu imediatamente.
— O que está fazendo?
— Tirando uma foto sua.
Miriam baixou o livro.
— Rebeca.
— A senhora prometeu que tiraríamos fotos para o mural.
A câmera já estava apontada.
— E o melhor momento é agora.
— Eu discordo profundamente.
Janis resolveu participar.
— Eu não.
As duas olharam para ela.
— A senhora está com cara de rica em férias da vida de rica que trabalha.
Miriam piscou.
— Como é?
— Sabe como é...
Janis fez um gesto vago.
— Aquela pessoa que passa metade do ano resolvendo problemas e a outra metade fingindo que não conhece problemas.
Rebeca começou a rir.
— Pois é.
Janis apontou.
— Um pouco mais pra direita.
— Janis.
— O quê?
— Deixa de ser intrometida.
— Eu tô ajudando.
— Ninguém pediu ajuda.
— Todo artista precisa de um diretor criativo.
O celular disparou.
Rebeca olhou a foto.
Abriu um sorriso.
— Ficou linda.
— Deixa eu ver.
Miriam estendeu a mão.
Observou a foto por alguns segundos.
Depois suspirou.
— Eu odeio admitir isso.
Janis abriu um sorriso vitorioso.
— Eu sabia.
— Mas realmente ficou boa.
Erro estratégico.
Porque, a partir daquele momento, a sessão de fotos saiu completamente do controle.
Dez minutos depois existiam fotos da Miriam, da Janis, da Rebeca, das três juntas, das duas fazendo careta, das duas tentando não fazer careta e pelo menos uma foto acidental do próprio pé da Rebeca.
— Essa vai para o mural também — anunciou Janis.
— Não vai.
— Vai sim.
— Não vai.
— Vai.
Miriam fechou o livro.
— Meu Deus.
As duas nem ouviram.
— Janis, para de cortar minha cabeça.
— Isso se chama enquadramento artístico.
— Isso se chama incompetência.
— Ingrata.
Em algum momento, um casal que passava pela areia foi recrutado para tirar mais algumas fotos das três juntas.
Miriam observava tudo com crescente resignação.
— Vocês trouxeram o violão. Trouxeram o caderno. Trouxeram livros.
As duas olharam para ela.
— Sim?
— Então por que não conseguem se distrair como duas meninas normais?
Silêncio.
Janis foi a primeira a responder.
— Porque o nosso charme é não ser normal.
Rebeca assentiu imediatamente.
— É um ponto justo.
Miriam olhou para uma.
Depois para a outra.
Pensou por alguns segundos.
— Infelizmente, é mesmo.
Passada a empolgação das fotos, a energia baixa naturalmente.
A Janis abre o caderno.
A lapiseira aparece.
A Rebeca pega o violão.
A Miriam volta para o livro.
E por alguns minutos ninguém fala nada.
O som das ondas preenchia os intervalos do silêncio.
De vez em quando, a Rebeca tocava alguns acordes.
Janis rabiscava.
Miriam virava uma página.
Tudo muito tranquilo.
Até que deixou de ser.
Janis estava concentrada nos últimos detalhes de um dragão.
A língua presa entre os dentes.
A lapiseira deslizando pelo papel.
Quando uma sombra apareceu sobre o caderno.
— Uau.
Janis ergueu os olhos.
Uma moça sorria para ela.
— Foi você que desenhou isso?
— Foi.
— Ficou incrível.
Janis sorriu de leve.
— Obrigada.
A moça apontou para o desenho.
— Você tatua?
— Não.
— Pois devia.
Janis soltou uma risada.
— Acho que não tenho coragem.
— Eu teria.
Então a mulher virou um pouco de lado.
Depois apontou para a própria lombar.
Ou pelo menos era isso que pretendia fazer.
Porque o biquíni deixava pouca coisa para a imaginação.
— Eu adoraria tatuar esse dragão bem aqui.
— EU QUERO NADAR!
Silêncio.
A moça piscou.
Janis piscou.
Miriam baixou lentamente o livro.
Rebeca já estava de pé.
— O quê? — perguntou Janis.
— Quero nadar.
— Agora?
— Agora!
Janis olhou para o mar.
Depois para o sol.
Depois para a própria sombra confortável.
— Mas...
Tarde demais.
Rebeca já tinha fechado o caderno.
Guardado a lapiseira.
Enfiado tudo na mochila.
— Rebeca!
— Vamos.
— Eu tô no meio de um desenho!
— Você termina depois.
— Mas...
— Vamos.
E segurou a mão dela.
A moça observava a cena inteira completamente perdida.
— Eu interrompi alguma coisa?
— Sim! — respondeu Rebeca rápido demais.
— Não! — respondeu Janis ao mesmo tempo.
Então Rebeca começou a puxar.
Janis tropeçou na própria toalha.
— Rebeca!
Janis quase tropeçou quando a Rebeca a puxou pela mão até a água.
Quando elas estavam distantes do guarda-sol, Janis soltou uma risada sem fôlego.
— O que foi aquilo?
Rebeca virou imediatamente.
— Se ela quer uma tatuagem, eu faço uma.
Janis piscou.
— O quê?
— A minha mão tatuada na cara dela.
Janis chegou a se assustar por meio segundo.
Então entendeu.
E começou a rir.
Muito.
Daquele jeito irritante onde ela precisava apoiar a mão na barriga.
— NÃO TEM GRAÇA — protestou Rebeca.
Janis continuava rindo.
— Meu Deus…
Rebeca cruzou os braços e virou de costas pro mar, emburrada.
— Eu não vi graça nenhuma.
Janis tentou recuperar o ar.
— Qual é? Foi divertido.
Rebeca lançou um olhar azedo por cima do ombro.
O que só piorou a situação.
Janis voltou a rir.
— Ah, pronto. Agora você tá brava comigo também?
— Talvez.
— Dramática.
— E ela mostrou a bunda pra você!
Janis perdeu completamente a compostura nessa hora.
Rebeca fechou ainda mais a cara.
— Para de rir.
Janis se aproximou um pouco, ainda sorrindo.
— Você é um esquilinho com muitas camadas.
Rebeca tentou continuar emburrada.
Tentou mesmo.
Mas o canto da boca traiu ela primeiro.
Janis ainda ria quando tentou se aproximar.
— Vem cá.
Rebeca deu um passo pro lado imediatamente.
— Não.
— Ah, qual é?
Outro passo.
Janis colocou a mão no peito.
— Você tá fugindo de mim?
— Talvez.
Janis tentou segurar o sorriso.
— Não fica zangada comigo.
Rebeca lançou um olhar atravessado.
— Difícil.
Janis suspirou dramaticamente antes de se aproximar outra vez.
— Pra ser franca, eu nem reparei nela.
Rebeca ergueu uma sobrancelha cética.
— Não?
— Não. Eu tava mais tentando entender como aquela conversa começou.
— Hunf.
Rebeca cruzou os braços.
— Eu sei muito bem onde ela ia acabar.
Janis perdeu a batalha contra o riso por meio segundo, mas se controlou rápido dessa vez.
— Ei. Eu tô falando sério.
A expressão da Rebeca vacilou um pouco.
Janis aproveitou imediatamente pra puxá-la pela cintura.
Dessa vez ela deixou.
— Você não olhou mesmo? — perguntou Rebeca, desconfiada.
Janis tentou manter a expressão séria.
— Não.
— Era imensa. Uma coisa impossível de ignorar.
Janis mordeu o lábio tentando não rir outra vez.
— Dou minha palavra de que não vi nada.
Rebeca ficou em silêncio por alguns segundos.
Então suspirou.
— Tá…
Ela ainda parecia emburrada.
Só um pouquinho.
Mas puxou a mão da Janis mesmo assim, levando ela de volta pra sombra do guarda-sol.
Janis acompanhou sorrindo.
— Você não queria nadar?
— Não.
— Não?
— Eu só queria levar você pra longe dela.
Janis olhou pra ela por um instante longo demais.
Aí sorriu daquele jeito pequeno e perigoso.
Quando as duas voltaram, Miriam abaixou os óculos escuros lentamente:
— Eu fui muito boba.
Janis já começou a rir antes mesmo dela continuar.
— Devia ter cobrado ingresso das pessoas pra assistir.
Ela apontou pras duas com o livro.
— Cada cena melhora essa novela.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 31/05/2026 Autora da história
Kkkkkkkk a Rebeca com ciúmes foi tudo pra mim.
O mais engraçado é que a Janis nem tinha entendido direito o que estava acontecendo. Quem fez a análise completa da situação foi a própria Rebeca.
A mulher elogiou o desenho e a Rebeca já estava pronta pra colocar a Janis debaixo do braço e levar embora.
E sim... a moça da praia foi bem sem noção também. Mas confesso que adorei a reação da Rebeca. Ela tentando disfarçar o ciúme foi justamente o que entregou tudo.