Capitulo 64 - Doze Horas
Capítulo 64 - Doze Horas.
O cheiro de pão caseiro ainda preenchia a cozinha quando bateram na porta.
Glória ergueu uma sobrancelha.
— Quem é o maluco acordado essa hora?
Ester soltou uma risada baixa antes de dar mais um gole no chá.
Glória abriu a porta e imediatamente revirou os olhos.
— Claro.
Dona Maria Helena entrou na casa carregando um enorme fardo nos braços.
Travesseiros.
Lençóis.
Cobertores.
— Bom dia pra vocês também — ela resmungou enquanto passava pela porta.
Glória fechou atrás dela.
— Nós já temos roupa de cama.
Maria Helena sequer olhou em sua direção.
— Eu não me lembro de ter te perguntado nada, Glória.
Ester gargalhou com a boca cheia de pão e quase se engasgou no mesmo instante.
— Socorro... — conseguiu dizer entre tosses, ainda rindo.
Glória entortou os lábios antes de olhar para Débora.
— Acho que você se lembra dessa doçura de pessoa. Minha sogra querida, Dona Maria Helena.
Débora sorriu de leve pela primeira vez desde que chegara.
Então levantou-se rapidamente e pegou o fardo das mãos da mulher.
— Eu lembro sim. Obrigada.
Maria Helena fez um gesto como se aquilo não tivesse importância alguma.
— Não precisa agradecer. Você faz parte da família Valente agora.
Ester imediatamente levou a mão ao peito.
— Misericórdia.
— Pobre garota — Glória completou, balançando a cabeça em falsa solidariedade.
Maria Helena lançou um olhar indignado para as duas.
— Não ligue pra elas. Reclamam desse jeito, mas eu sei muito bem que a vida das duas melhorou depois que entraram pra família Valente.
Ester abaixou os olhos para a própria xícara tentando esconder o sorriso.
Glória bufou.
— Sua modéstia me encabula.
Maria Helena e Glória aproveitaram o restante da manhã para mostrar a casa.
Era pequena.
Mas acolhedora.
Glória abriu os armários da cozinha enquanto explicava onde haviam guardado os pratos, os copos e as panelas. Maria Helena mostrou a pequena compra já organizada na despensa como se estivesse apresentando um grande tesouro.
— Tem arroz, feijão, macarrão... — ela enumerava. — E eu trouxe farinha também porque ninguém vive sem farinha.
— A senhora fala isso como se farinha fosse grupo alimentar obrigatório — Glória resmungou.
— Porque é.
Débora observava tudo em silêncio.
A geladeira tinha ovos, frutas, leite e alguns potes de comida já preparados. Coisas simples. Mas organizadas pensando nela.
Pensando na chegada dela.
A sensação era estranha.
Boa.
Enquanto Glória e Maria Helena discutiam baixinho sobre onde deveriam guardar os panos de prato, Ester aproveitou para sair discretamente pela porta da cozinha.
Voltou poucos minutos depois carregando o teclado.
Débora franziu a testa imediatamente ao vê-la atravessar a sala com o instrumento nos braços.
Sem dizer nada, Ester entrou no pequeno quarto e começou a montar o suporte em um dos cantos.
— O que está fazendo? — Débora perguntou, aproximando-se devagar.
Ester nem levantou os olhos.
— Pilotando um disco voador é que não tô.
Débora soltou uma pequena risada pelo nariz antes de encará-la outra vez.
— Mas...
Ester encaixou o teclado no suporte e finalmente olhou para ela.
— Esse pobre teclado foi uma triste vítima dos planos da Janis.
Débora piscou confusa.
— Ela usou isso aí pra conseguir ficar sozinha com a Rebeca — Ester explicou. — E, quando conseguiu, abandonou o coitado sem dó nenhuma.
Então deu um pequeno tapinha carinhoso sobre o teclado.
— Faz um favor pra esse pobre coitado e devolve um pouco de dignidade pra ele.
Foi nesse momento que Glória apareceu na porta do quarto.
Ela observou o teclado por alguns segundos antes de dizer:
— Isso pode ser muito útil pra você.
Débora desviou os olhos para o instrumento.
— Você pode dar aulas particulares.
Débora manteve os olhos presos ao teclado por alguns segundos.
Os dedos tocaram de leve uma das teclas, quase sem força.
Então ela respirou fundo.
— Eu não sei se seria uma boa ideia...
Glória franziu a testa.
— Por quê?
Débora hesitou antes de responder.
— A irmandade da Comunidade me conhece. Algumas mães também. Não é tão difícil me reconhecerem.
O quarto ficou em silêncio por um instante.
Então Ester encostou um dos ombros na parede e cruzou os braços.
— Eu sei como o pessoal da Comunidade é — falou calmamente. — Mas não se preocupa. Ninguém vai encontrar você aqui.
Naquele momento, Maria Helena apareceu na porta carregando uma tesoura em uma das mãos e uma caixa de tintura de cabelo na outra.
Ester imediatamente apontou para ela.
— Tá vendo? A mulher já veio preparada.
Maria Helena ignorou o comentário e olhou diretamente para Débora.
— Você não é obrigada a nada — disse com tranquilidade.
Ester deu de ombros.
— Mas, quem sabe uma mudança no visual ajudaria a te manter incógnita?
Débora passou lentamente as mãos pelos próprios cabelos.
Longos.
Pesados.
Desde menina ela nunca tinha cortado de verdade.
A simples ideia parecia estranha demais.
Ester percebeu a expressão dela imediatamente e suspirou.
— Vamos deixar você pensar nisso. Aliás, você precisa descansar... e eu também.
Ela bocejou no meio da frase, arrancando um sorriso discreto da Glória.
— Mas antes da gente ir, queria que você fizesse uma coisa.
Maria Helena tirou uma fotografia de dentro da bolsa e entregou para Débora.
Ela reconheceu a imagem imediatamente.
Janis e Rebeca dormindo emboladas, completamente apagadas uma sobre a outra.
Um pequeno sorriso escapou antes mesmo que percebesse.
Então seus olhos pararam em outro detalhe.
O cabelo de Rebeca.
Bem diferente do que ela usara durante tantos anos.
Débora ergueu os olhos lentamente para Ester.
— Nós voltamos às dezoito. — Ester avisou.
Maria Helena apontou para fora com o polegar.
— Mas, se ficar entediada, minha casa fica quatro ruas abaixo. Número quarenta e oito. Tem um portão vermelho enorme. Não tem como errar.
Glória soltou uma risada baixa.
— Diga isso pro cara dos Correios.
Quando Ester, Glória e Dona Maria Helena finalmente foram embora, a casa mergulhou num silêncio diferente.
Não vazio.
Quieto.
Débora permaneceu parada no meio da sala por alguns segundos, escutando o som distante de um carro passando na rua e o vento balançando as folhas da pequena árvore no quintal.
Então começou a caminhar pela casa outra vez.
Devagar.
Observando tudo com mais atenção agora que estava sozinha.
A mesa.
As cortinas.
Os armários.
As pequenas toalhinhas dobradas na cozinha.
Ela ainda não tinha escolhido praticamente nada dali.
Mas, mesmo assim, alguma coisa dentro dela insistia em repetir a mesma ideia:
Aquilo era dela.
A sensação parecia estranha.
Boa demais para ser completamente real.
Débora abriu um dos armários da cozinha e trocou algumas xícaras de lugar sem nem perceber que estava fazendo aquilo. Depois reorganizou os panos de prato. Endireitou pequenos enfeites sobre a geladeira.
Coisas mínimas.
Mas que deixavam marcas da presença dela pela casa.
Quando entrou no quarto, alisou o lençol cuidadosamente sobre a cama antes de parar diante do teclado.
Os dedos tocaram a lateral do instrumento quase com carinho.
Era bonito.
E funcional.
Tão bonito quanto o da Rebeca.
Débora puxou a cadeira devagar e sentou.
Ficou alguns segundos imóvel antes de ligar o teclado.
O som suave preencheu o pequeno quarto imediatamente.
Então ela começou a tocar.
Um hino antigo.
De memória.
Depois outro.
E mais outro.
As mãos encontravam as notas quase sozinhas, como se o corpo ainda soubesse exatamente para onde precisava ir mesmo quando a mente parecia cansada demais para pensar.
As horas passaram sem que percebesse.
E Débora continuou ali.
Tocando.
Até os ombros começarem a pesar.
Até os dedos desacelerarem.
Até o próprio corpo pedir descanso.
Só então ela se levantou.
Abriu as malas.
Guardou as roupas cuidadosamente dentro do guarda-roupa.
Separou os sapatos.
Dobrou algumas peças outra vez mesmo já estando dobradas.
Depois pegou uma toalha limpa e entrou no banheiro.
O banho demorou muito tempo.
Como se estivesse tentando lavar não apenas o cansaço da viagem, mas os últimos anos inteiros da própria vida.
Quando saiu, a casa já estava silenciosa outra vez.
Débora deitou devagar na cama ainda cheirando a sabão e tecido limpo.
E, antes de dormir, percebeu uma coisa que nunca tinha sentido de verdade até aquele momento:
Pela primeira vez na vida...
Ela tinha controle sobre o próprio destino.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: