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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 1228
Acessos: 7   |  Postado em: 30/05/2026

Capitulo 64 - Doze Horas

Capítulo 64 - Doze Horas.
 
O cheiro de pão caseiro ainda preenchia a cozinha quando bateram na porta. 
Glória ergueu uma sobrancelha. 
— Quem é o maluco acordado essa hora? 
Ester soltou uma risada baixa antes de dar mais um gole no chá. 
Glória abriu a porta e imediatamente revirou os olhos. 
— Claro. 
Dona Maria Helena entrou na casa carregando um enorme fardo nos braços. 
Travesseiros. 
Lençóis. 
Cobertores. 
— Bom dia pra vocês também — ela resmungou enquanto passava pela porta. 
Glória fechou atrás dela. 
— Nós já temos roupa de cama. 
Maria Helena sequer olhou em sua direção. 
— Eu não me lembro de ter te perguntado nada, Glória. 
Ester gargalhou com a boca cheia de pão e quase se engasgou no mesmo instante. 
— Socorro... — conseguiu dizer entre tosses, ainda rindo. 
Glória entortou os lábios antes de olhar para Débora. 
— Acho que você se lembra dessa doçura de pessoa. Minha sogra querida, Dona Maria Helena. 
Débora sorriu de leve pela primeira vez desde que chegara. 
Então levantou-se rapidamente e pegou o fardo das mãos da mulher. 
— Eu lembro sim. Obrigada. 
Maria Helena fez um gesto como se aquilo não tivesse importância alguma. 
— Não precisa agradecer. Você faz parte da família Valente agora. 
Ester imediatamente levou a mão ao peito. 
— Misericórdia. 
— Pobre garota — Glória completou, balançando a cabeça em falsa solidariedade. 
Maria Helena lançou um olhar indignado para as duas. 
— Não ligue pra elas. Reclamam desse jeito, mas eu sei muito bem que a vida das duas melhorou depois que entraram pra família Valente. 
Ester abaixou os olhos para a própria xícara tentando esconder o sorriso. 
Glória bufou. 
— Sua modéstia me encabula. 
Maria Helena e Glória aproveitaram o restante da manhã para mostrar a casa. 
Era pequena. 
Mas acolhedora. 
Glória abriu os armários da cozinha enquanto explicava onde haviam guardado os pratos, os copos e as panelas. Maria Helena mostrou a pequena compra já organizada na despensa como se estivesse apresentando um grande tesouro. 
— Tem arroz, feijão, macarrão... — ela enumerava. — E eu trouxe farinha também porque ninguém vive sem farinha. 
— A senhora fala isso como se farinha fosse grupo alimentar obrigatório — Glória resmungou. 
— Porque é. 
Débora observava tudo em silêncio. 
A geladeira tinha ovos, frutas, leite e alguns potes de comida já preparados. Coisas simples. Mas organizadas pensando nela. 
Pensando na chegada dela. 
A sensação era estranha. 
Boa. 
Enquanto Glória e Maria Helena discutiam baixinho sobre onde deveriam guardar os panos de prato, Ester aproveitou para sair discretamente pela porta da cozinha. 
Voltou poucos minutos depois carregando o teclado. 
Débora franziu a testa imediatamente ao vê-la atravessar a sala com o instrumento nos braços. 
Sem dizer nada, Ester entrou no pequeno quarto e começou a montar o suporte em um dos cantos. 
— O que está fazendo? — Débora perguntou, aproximando-se devagar. 
Ester nem levantou os olhos. 
— Pilotando um disco voador é que não tô. 
Débora soltou uma pequena risada pelo nariz antes de encará-la outra vez. 
— Mas... 
Ester encaixou o teclado no suporte e finalmente olhou para ela. 
— Esse pobre teclado foi uma triste vítima dos planos da Janis. 
Débora piscou confusa. 
— Ela usou isso aí pra conseguir ficar sozinha com a Rebeca — Ester explicou. — E, quando conseguiu, abandonou o coitado sem dó nenhuma.  
Então deu um pequeno tapinha carinhoso sobre o teclado. 
— Faz um favor pra esse pobre coitado e devolve um pouco de dignidade pra ele. 
Foi nesse momento que Glória apareceu na porta do quarto. 
Ela observou o teclado por alguns segundos antes de dizer: 
— Isso pode ser muito útil pra você. 
Débora desviou os olhos para o instrumento. 
— Você pode dar aulas particulares. 
Débora manteve os olhos presos ao teclado por alguns segundos. 
Os dedos tocaram de leve uma das teclas, quase sem força. 
Então ela respirou fundo. 
— Eu não sei se seria uma boa ideia... 
Glória franziu a testa. 
— Por quê? 
Débora hesitou antes de responder. 
— A irmandade da Comunidade me conhece. Algumas mães também. Não é tão difícil me reconhecerem. 
O quarto ficou em silêncio por um instante. 
Então Ester encostou um dos ombros na parede e cruzou os braços. 
— Eu sei como o pessoal da Comunidade é — falou calmamente. — Mas não se preocupa. Ninguém vai encontrar você aqui. 
Naquele momento, Maria Helena apareceu na porta carregando uma tesoura em uma das mãos e uma caixa de tintura de cabelo na outra. 
Ester imediatamente apontou para ela. 
— Tá vendo? A mulher já veio preparada. 
Maria Helena ignorou o comentário e olhou diretamente para Débora. 
— Você não é obrigada a nada — disse com tranquilidade. 
Ester deu de ombros. 
— Mas, quem sabe uma mudança no visual ajudaria a te manter incógnita? 
Débora passou lentamente as mãos pelos próprios cabelos. 
Longos. 
Pesados. 
Desde menina ela nunca tinha cortado de verdade. 
A simples ideia parecia estranha demais. 
Ester percebeu a expressão dela imediatamente e suspirou. 
— Vamos deixar você pensar nisso. Aliás, você precisa descansar... e eu também. 
Ela bocejou no meio da frase, arrancando um sorriso discreto da Glória. 
— Mas antes da gente ir, queria que você fizesse uma coisa. 
Maria Helena tirou uma fotografia de dentro da bolsa e entregou para Débora. 
Ela reconheceu a imagem imediatamente. 
Janis e Rebeca dormindo emboladas, completamente apagadas uma sobre a outra. 
Um pequeno sorriso escapou antes mesmo que percebesse. 
Então seus olhos pararam em outro detalhe. 
O cabelo de Rebeca. 
Bem diferente do que ela usara durante tantos anos. 
Débora ergueu os olhos lentamente para Ester. 
— Nós voltamos às dezoito. — Ester avisou. 
Maria Helena apontou para fora com o polegar. 
— Mas, se ficar entediada, minha casa fica quatro ruas abaixo. Número quarenta e oito. Tem um portão vermelho enorme. Não tem como errar. 
Glória soltou uma risada baixa. 
— Diga isso pro cara dos Correios. 
Quando Ester, Glória e Dona Maria Helena finalmente foram embora, a casa mergulhou num silêncio diferente. 
Não vazio. 
Quieto. 
Débora permaneceu parada no meio da sala por alguns segundos, escutando o som distante de um carro passando na rua e o vento balançando as folhas da pequena árvore no quintal. 
Então começou a caminhar pela casa outra vez. 
Devagar. 
Observando tudo com mais atenção agora que estava sozinha. 
A mesa. 
As cortinas. 
Os armários. 
As pequenas toalhinhas dobradas na cozinha. 
Ela ainda não tinha escolhido praticamente nada dali. 
Mas, mesmo assim, alguma coisa dentro dela insistia em repetir a mesma ideia: 
Aquilo era dela. 
A sensação parecia estranha. 
Boa demais para ser completamente real. 
Débora abriu um dos armários da cozinha e trocou algumas xícaras de lugar sem nem perceber que estava fazendo aquilo. Depois reorganizou os panos de prato. Endireitou pequenos enfeites sobre a geladeira. 
Coisas mínimas. 
Mas que deixavam marcas da presença dela pela casa. 
Quando entrou no quarto, alisou o lençol cuidadosamente sobre a cama antes de parar diante do teclado. 
Os dedos tocaram a lateral do instrumento quase com carinho. 
Era bonito. 
E funcional. 
Tão bonito quanto o da Rebeca. 
Débora puxou a cadeira devagar e sentou. 
Ficou alguns segundos imóvel antes de ligar o teclado. 
O som suave preencheu o pequeno quarto imediatamente. 
Então ela começou a tocar. 
Um hino antigo. 
De memória. 
Depois outro. 
E mais outro. 
As mãos encontravam as notas quase sozinhas, como se o corpo ainda soubesse exatamente para onde precisava ir mesmo quando a mente parecia cansada demais para pensar. 
As horas passaram sem que percebesse. 
E Débora continuou ali. 
Tocando. 
Até os ombros começarem a pesar. 
Até os dedos desacelerarem. 
Até o próprio corpo pedir descanso. 
Só então ela se levantou. 
Abriu as malas. 
Guardou as roupas cuidadosamente dentro do guarda-roupa. 
Separou os sapatos. 
Dobrou algumas peças outra vez mesmo já estando dobradas. 
Depois pegou uma toalha limpa e entrou no banheiro. 
O banho demorou muito tempo. 
Como se estivesse tentando lavar não apenas o cansaço da viagem, mas os últimos anos inteiros da própria vida. 
Quando saiu, a casa já estava silenciosa outra vez. 
Débora deitou devagar na cama ainda cheirando a sabão e tecido limpo. 
E, antes de dormir, percebeu uma coisa que nunca tinha sentido de verdade até aquele momento: 
Pela primeira vez na vida... 
Ela tinha controle sobre o próprio destino. 

 

Fim do capítulo


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