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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

Ver comentários: 1

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Palavras: 1513
Acessos: 40   |  Postado em: 29/05/2026

Capitulo 63 - Ela é minha

Capítulo 63 –  Ela é minha. 
 
A casa estava silenciosa demais. 
Débora permanecia sentada no sofá da sala, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos entrelaçadas, olhando para lugar nenhum. As malas já estavam prontas ao lado da porta desde o começo da noite. Fechadas. Esperando. 
Ainda era cedo. 
O relógio de parede marcava os segundos com uma insistência irritante. 
Tic. 
Tac. 
Tic. 
Tac. 
Ela nunca tinha reparado naquele som antes. Agora parecia impossível ignorá-lo. 
Cada batida arrancava mais um pedaço do tempo que ainda restava ali. 
As luzes estavam apagadas.  
Até a rua parecia quieta naquela noite. Débora respirou fundo e afundou mais no sofá, tentando encontrar alguma posição confortável, mas não havia conforto possível naquela espera. 
O relógio continuava marcando os segundos no silêncio da sala. 
Débora desviou os olhos das malas e encarou o órgão eletrônico encostado perto da parede. 
Durante anos, aquele instrumento tinha feito parte da rotina dela. Horas de estudo. Aulas para as meninas. Ensaios. Músicas repetidas até tarde da noite enquanto a casa inteira dormia. 
Ela gostava daquele órgão. 
Mas ele nunca tinha sido dela. 
Pertencia a Moisés. 
E, por mais que doesse admitir, não podia levá-lo consigo. 
A constatação trouxe um aperto estranho ao peito. Como se estivesse deixando para trás mais do que móveis ou objetos. Como se partes inteiras da vida dela fossem permanecer naquela casa mesmo depois da partida. 
Débora abaixou o olhar outra vez. 
As malas já estavam prontas. 
Mas ainda havia coisas que ela não sabia como guardar. 
*** 
Na casa da Ester, a televisão falava sozinha. 
Algum programa qualquer preenchia a sala com vozes e risadas artificiais, mas ela mal prestava atenção. Permanecia sentada na poltrona, olhando para a tela sem realmente enxergar nada. 
Ainda era cedo. 
Ela passou a mão pelo rosto cansado e soltou o ar devagar antes de se levantar. 
O quintal estava escuro quando abriu a porta dos fundos. O ar da noite era mais frio ali fora. Por alguns segundos, Ester apenas ficou parada observando a bicicleta encostada perto do muro. 
O guidão ainda estava amassado. 
Ela aproximou-se devagar, passando os dedos pelo metal torto como se verificasse uma ferida antiga. 
A bicicleta da Rebeca. 
Ainda não tinha conseguido consertar aquilo. 
Talvez porque algumas coisas fossem difíceis demais de colocar de volta no lugar. 
Ester desviou o olhar, respirou fundo e abriu o porta-malas do carro. Depois voltou até a bicicleta e começou a desmontá-la. 
Primeiro a roda da frente. 
Depois os pedais. 
O banco. 
As ferramentas tilintavam baixo no silêncio do quintal. Metal contra metal. Parafusos soltos sendo deixados cuidadosamente dentro de uma caixa pequena. 
Ela fazia tudo sem pressa. 
Como quem precisava ocupar as mãos para impedir a cabeça de pensar. 
De vez em quando, a voz distante da televisão escapava pela porta aberta da cozinha, misturando-se ao som das ferramentas. 
Quando terminou de soltar o guidão, Ester ficou alguns segundos parada segurando a peça torta nas mãos. 
Então apenas a colocou no porta-malas junto com o restante. 
*** 
O ponteiro dos segundos continuava girando. 
Débora acompanhava cada volta em silêncio, os olhos presos ao relógio como se não conseguisse mais desviar. O coração parecia acelerar junto com ele. 
Tic. 
Tac. 
Tic. 
Tac. 
Quanto mais o tempo avançava, mais difícil ficava respirar devagar. 
Ela sentia os próprios batimentos no peito, rápidos, descompassados, como se estivesse correndo sem sair do lugar. 
Então o relógio finalmente marcou a hora. 
Débora levantou antes que pudesse pensar demais. 
Pegou as malas ao lado da porta e respirou fundo uma única vez. Depois abriu a porta da sala. 
O ar frio da madrugada encontrou seu rosto imediatamente. 
Ela saiu sem olhar para trás. 
Desceu os poucos degraus da varanda, atravessou o quintal em silêncio e abriu o portão. O carro já estava estacionado do lado de fora, o motor ligado. 
Esperando. 
Débora puxou o portão pela última vez, trancou e permaneceu alguns segundos segurando as chaves nas mãos. 
Então as lançou por cima do muro. 
O barulho metálico ecoou do outro lado. 
Seco. 
Definitivo. 
Ela engoliu em seco, ajeitou a alça da bolsa no ombro e caminhou até o carro. 
Quando entrou no banco do passageiro, não olhou para a casa. 
Nem para o portão. 
Nem para nada que tivesse ficado para trás. 
O carro arrancou devagar pela rua silenciosa. 
E Débora foi embora para nunca mais voltar. 
Quando o silêncio tomou conta da casa outra vez, já não havia malas na sala. Nenhum som de passos. Nenhuma luz acesa. 
A única prova de que Débora um dia habitara aquela casa era um bilhete de despedida preso à porta da geladeira. 
*** 
Ester olhou para o relógio de pulso. 
Faltava pouco. 
Ela respirou fundo e passou os olhos pela sala antes de começar a verificar a casa pela última vez. Conferiu as janelas. As portas. A cozinha. O quintal. 
Tudo trancado. 
Tudo em silêncio. 
Quando terminou, seus passos acabaram levando-a até o antigo quarto de Janis. 
A porta rangeu baixo ao ser aberta. 
A menina já tinha levado quase tudo. Restavam apenas os móveis, algumas marcas nas paredes e a sensação estranha de vazio que quartos abandonados sempre carregavam. 
Ester observou o ambiente por alguns segundos até notar o objeto encostado em um dos cantos. 
O teclado. 
Janis praticamente a obrigara a comprar aquilo meses atrás, insistindo nas aulas de música com Rebeca. Ester lembrava perfeitamente da animação das duas carregando o instrumento pela casa, discutindo músicas, rindo, tentando aprender juntas. 
Agora ele permanecia ali, esquecido. 
Ela aproximou-se devagar e passou o dedo por uma das teclas. 
Uma fina camada de poeira ficou presa na ponta de seus dedos. 
E foi naquele instante que a ideia surgiu. 
Ester ergueu os olhos imediatamente. 
Sem perder tempo, desmontou o suporte do teclado e carregou tudo até o carro. O instrumento foi colocado com cuidado no banco traseiro antes que ela fechasse a porta. 
Depois entrou no veículo, ligou os faróis e colocou o carro para fora da garagem. 
Então partiu em busca de Débora. 
*** 
A viagem aconteceu em silêncio. 
Ester não teve coragem de ligar o rádio. Nem música, nem notícias, nem qualquer som que pudesse quebrar a quietude dentro do carro. Parecia errado perturbar aquele momento com vozes estranhas. 
Então apenas seguiram estrada adentro acompanhadas pelo barulho baixo do motor e pelos faróis cortando a madrugada. 
Débora permaneceu o tempo inteiro olhando pela janela. 
As luzes dos postes passavam rápidas pelo vidro. Casas. Árvores. Ruas vazias. Tudo desaparecendo para trás aos poucos. 
Ela observava a paisagem sem realmente enxergá-la. 
Como se procurasse alguma coisa perdida no escuro. 
Ou talvez tentando encontrar, entre aqueles últimos quilômetros, algum motivo para não sentir que estava deixando a própria vida para trás. 
Quando Ester estacionou o carro em frente à casa, o céu já começava a clarear. 
Débora demorou alguns segundos até conseguir se mover. 
As mãos permaneceram imóveis sobre o colo enquanto ela encarava o para-brisa em silêncio. 
Então, devagar, soltou o cinto. 
O clique pareceu alto demais dentro do carro. 
Ela abriu a porta e desceu. 
Assim que ergueu os olhos, viu a casa pela primeira vez. 
O imóvel era simples. Pequeno. Quieto. 
No quintal, uma pequena árvore balançava suavemente com o vento da manhã. 
Débora permaneceu parada observando enquanto os primeiros raios de sol atravessavam as folhas mais altas, tingindo-as de dourado aos poucos. 
E o silêncio dela começou a preocupar Ester. 
— Então... — ela arriscou, tentando esconder o nervosismo na voz. 
Débora continuava olhando para a casa. 
— Ela é... 
Ester esperou. 
O coração disparado dentro do peito. 
Então Débora finalmente terminou: 
— ...minha. 
A palavra saiu quase desacreditada. 
Como se ainda estivesse tentando entender aquilo. 
Devagar, ela virou o rosto e olhou para Ester pela primeira vez desde que haviam chegado. 
Os olhos estavam brilhando. 
— Eu nunca tive nada que fosse realmente meu. 
A frase atingiu Ester com uma força inesperada. 
Porque não era sobre a casa. 
Nunca tinha sido. 
Assim que abriram a porta, deram de cara com Glória saindo da cozinha. 
— Que bom que vocês chegaram! — ela disse baixo, provavelmente tentando não acordar a vizinhança naquela hora da madrugada. 
Ester soltou o ar discretamente. 
— Essa é a Glória. Acho que você se lembra dela, não é? 
Débora assentiu de leve. 
— Lembro sim. A senhora é casada com o José Antônio, certo? 
Glória fez uma careta divertida imediatamente. 
— Pode me chamar de você, pelo amor de Deus. 
Débora pareceu sem graça. 
— Desculpa... 
— E sim — Glória continuou, aproximando-se. — Sou mulher do José Antônio. Mas você pode chamar ele de Gordo. Todo mundo chama. 
A frase arrancou da Ester um pequeno sorriso cansado pela primeira vez naquela noite. 
Então o cheiro vindo da cozinha finalmente alcançou Débora. 
Chá. 
E pão caseiro recém-saído do forno. 
Glória percebeu o olhar dela imediatamente. 
— Pensei que vocês iam chegar com fome. 
Glória conduziu as duas até a cozinha sem fazer cerimônia alguma. 
A mesa já estava posta. 
O chá soltava fumaça dentro da chaleira. O pão caseiro recém assado descansava sobre um pano de prato florido no centro da mesa. 
Ester sentou primeiro. 
Cansada demais para formalidades. 
Pegou um pedaço de pão ainda quente e começou a comer em silêncio, como se finalmente permitisse ao próprio corpo perceber o quanto estava exausta. 
Débora permaneceu de pé por alguns segundos. 
Os braços junto ao corpo. Quieta. Sem saber exatamente onde colocar as mãos ou como ocupar aquele espaço que ainda parecia pertencer aos outros. 
Glória percebeu imediatamente. 
Então puxou uma das cadeiras com naturalidade e disse: 
— A casa é sua. Nós é que estamos aqui de visita. 
A frase atingiu Débora de um jeito inesperado. 
Devagar, ela se aproximou da mesa. 
Pegou uma das xícaras com cuidado quase excessivo, como se tivesse medo de quebrá-la. Depois serviu um pouco de chá, colocou açúcar e mexeu devagar. 
Quando levou a bebida à boca, mal percebeu o sabor. 
O que realmente sentia era outra coisa. 
A segurança silenciosa de estar segurando uma pequena xícara que era dela.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Gente... eu preciso confessar uma pequena trapalhada de autora. 

Ontem eu publiquei o capítulo errado.

Em vez do capítulo 63, acabei publicando o 64. Então, se alguém ficou pensando "ué, perdi alguma coisa?", não era impressão sua. O problema estava entre a cadeira e o teclado. 

Já corrigi a ordem dos capítulos, então agora está tudo certinho.

Aproveitando a oportunidade... o que vocês acharam da capa nova? 

Eu gostei bastante dela, mas estou curiosa para saber a opinião de vocês. Combina com a história? Mudariam alguma coisa?

Obrigada pela paciência com esta autora distraída. 


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Comentários para 63 - Capitulo 63 - Ela é minha:
Socorro
Socorro

Em: 29/05/2026

Amei a capa nova ... parabéns !! Nao mudaria nada .. 

novo ciclo pra Débora tava na hora .. 

Quero ver a emoção do encontro de mãe e filha .. 

 


Elin Varen

Elin Varen Em: 29/05/2026 Autora da história
Muito obrigada! Fico feliz que tenha gostado da capa nova.

E concordo com você... Acho que esse novo ciclo da Débora já estava mais do que na hora. Ela sofreu bastante ao longo da história e merecia a oportunidade de recomeçar.

Quanto ao encontro de mãe e filha... posso dizer apenas que ele também está ocupando bastante espaço nos meus pensamentos.

Obrigada por acompanhar a história e por deixar seu comentário!


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