Capitulo 40
Sabrina continuava abraçada a Fedra, com o rosto escondido no pescoço dela e a respiração irregular. Fedra acariciava-lhe o cabelo, tentando controlar a sua própria respiração.
-Meu amor...- Disse finalmente apertando Sabrina ainda mais contra si.
Sabrina desmontou-se de vez. Aquelas duas palavras tiveram um alcance que não sabia ser possível. Tanto cuidado...tanto afeto...
Depois de algum tempo, finalmente conseguiu afastar-se um pouco. Os olhos inchados e vermelhos encaravam Fedra com vulnerabilidade nua.
-Vieste...- Ainda parecia incrédula.
-Claro que vim!
-Mas e o trabalho...
Fedra fez um pequeno gesto impaciente com a mão.
-Que se dane o trabalho agora.
Sabrina quase riu no meio do choro.
-Fedra... era importante.
Fedra segurou-lhe o rosto com as duas mãos.
-Sabrina. -A voz firme. - Olha para mim.
Ela obedeceu.
-Perdeste o teu pai, estás sozinha num país estrangeiro, e achaste razoável passar por tudo isso, sem me dizer nada?
O tom não era agressivo, mas havia claramente um puxão de orelhas. Sabrina baixou o olhar para o chão.
-Eu não queria atrapalhar...
Fedra fechou os olhos por um segundo, como quem tentava controlar a própria emoção.
-Tu tens noção do quanto eu odeio essa frase?
Sabrina engoliu seco. Claro que sabia.
-Tu não atrapalhas a minha vida. - Continuou Fedra num tom mais baixo.
Silêncio.
-Tu és parte importante dela...muito importante.
A declaração atingiu Sabrina de forma visceral, fazendo com que voltasse a chorar imediatamente, agora de forma mais contida.
-Meu amor... eu precisava saber. - Fedra encostou a testa na dela.
A voz saía entrecortada.
-Fiquei desesperada...
Sabrina apertou os olhos com força.
-Desculpa...- Sussurrou.
-Não pede desculpa. - Retrucou Fedra.
Pausa.
-Só... não faz isso outra vez.
Sabrina respirou fundo, tentando recompor-se, sentindo-se demasiado cansada para fingir força.
-Eu achei que não sentia nada por ele...
A frase saiu baixa.
-E depois parecia que eu estava a perder a infância inteira de uma vez.
Fedra observava-a com uma ternura quase dolorosa.
-Porque não era sobre o homem adulto...
Silêncio.
-Era sobre a menina que ficou sem pai e sem mãe cedo demais.
Sabrina fechou os olhos imediatamente, sentindo que aquelas palavras tocavam exatamente onde doía.
Fedra abraçou-a outra vez.
-Tu não precisas sobreviver sozinha a tudo.
Sabrina permaneceu imóvel dentro daquele abraço. Pela primeira vez em dias, sentiu algo perto de descanso.
-Agradeço imenso à Martina por me ter me contado e permitido que eu viesse...- Disse Fedra num tom baixo.
Apertou levemente as mãos de Sabrina.
-Mas eu preferia que tivesses sido tu.
Sabrina estremeceu contra o corpo de Fedra.
Fedra respirou fundo, parecendo tentar organizar as ideais antes de falar alguma coisa.
-Às vezes...- A voz falhou ligeiramente.
Ela hesitou outra vez.
-Às vezes eu não sei até onde tu realmente precisas de mim.
Sabrina levantou os olhos de imediato, em choque. Mas Fedra continuou antes de perder a coragem.
-Tu és tão independente, funcional...tão... desligada às vezes. - A tristeza na voz era evidente. - E eu sei que isso vem da tua história. Eu sei!
Ela passou rapidamente a mão no rosto.
-E desculpa, este não é o momento para esta conversa...
Fedra mais uma vez pareceu tentar organizar as ideias e finalmente verbalizou seu verdadeiro medo.
-Às vezes eu sinto que tu não fazes muita questão das coisas.
Silêncio.
Sabrina encarou-a como se tivesse levado um golpe físico, percebendo claramente que não estava sendo acusada de nada, era simplesmente Fedra sendo vulnerável. Estava apenas mostrando insegurança.
De repente, o choro voltou sem pedir licença, quase descontrolado. Agarrou-se a Fedra em desespero.
-Não pensa assim...- Disse entre soluços.
Fedra abraçou-a ainda mais forte.
-Eu ainda tenho muito a mania da sobrevivência...
A respiração falhava.
-Muita.
Ela apertava o casaco de Fedra entre os dedos.
-A vida inteira foi assim...
Pausa.
-Não me apegar...não depender...não precisar...
Cada frase parecia arrancada a ferros dela.
-Porque assim doía menos...
Fedra fechou os olhos, segurando-a ainda mais forte.
Sabrina afastou-se apenas o suficiente para olhar diretamente nos olhos dela. Completamente devastada, mas absolutamente sincera.
-Só que contigo não é assim...
As lágrimas caiam sem controlo.
-Eu só ainda não sei fazer direito. - A voz dela soava quase infantil.
Aquilo atingiu Fedra profundamente, pois conseguia vê-la desnuda de qualquer escudo.
-Eu não te liguei...- Sabrina respirou fundo tentando organizar as palavras. -Porque uma parte de mim ainda entra naquele modo automático de resolver tudo sozinha.
Ela riu sem humor no meio do choro.
-Auto preservação.
Pausa.
-Como se eu tivesse sempre de sobreviver antes de sentir.
Fedra levou a mão ao rosto dela imediatamente, os olhos completamente marejados também.
-Não há ninguém no mundo...- disse Sabrina olhando fundo nos olhos dela - Ninguém...- A voz quebrou - que eu quisesse ao meu lado naquele momento além de ti.
Silêncio.
Fedra fechou os olhos devagar, como se aquela frase lhe atravessasse todas as inseguranças de uma vez. Quando voltou a abrir os olhos, também chorava. Sem estardalhaço, mas tão real. Encostou a testa na de Sabrina e suspirou.
-Então deixa-me estar. -A voz saiu baixa. - Deixa-me cuidar de ti quando doer.
Sabrina soluçou com força, percebendo que não dependia dela. Ela era sua escolha, a parceira que queria ao seu lado enquanto fizesse sentido.
***
Os dois dias seguintes passaram num ritmo estranho, lentos e silenciosos, mas surpreendentemente acolhedores. A casa enorme deixou de parecer território desconhecido e tudo por causa de Martina. Mesmo atravessando o próprio luto, ela fazia tudo para suavizar a experiência de Sabrina.
Havia gestos que não passavam despercebidos e eram rotineiros, como deixar chá pronto no quarto, abrir discretamente as janelas para entrar ar fresco, pedir que preparassem refeições leves porque Sabrina quase não conseguia comer, perguntar como Fedra preferia o café.
Fedra como boa observadora, notava as particularidades daquela mulher e se impressionava.
Numa das noites, depois que Martina subiu para descansar, Fedra e Sabrina ficaram sentadas na varanda enroladas numa manta. O jardim estava silencioso e ao longe ouvia-se apenas o vento e alguns grilos
-Ela é extraordinária. - Fedra apoiou a cabeça no ombro de Sabrina.
-É! - Sabrina sorriu de leve.
Silêncio.
-Estou um pouco chocada, para ser sincera.
Sabrina olhou para ela.
-Com o quê?
-Com a elegância emocional dessa mulher. - Fedra soltou um pequeno riso.
-Elegância emocional? - Sabrina também riu.
-Sim. Ela está destroçada... e mesmo assim só quer garantir que tu estás bem.
Sabrina ficou em silêncio porque também sentia a mesma coisa.
Fedra continuou observando a varanda iluminada pela luz amarelada da casa.
-Agora percebo perfeitamente como o teu pai se apaixonou por ela.
-Pois...- Sabrina sorriu triste. -Mesmo com todas as nuances nem sempre interessantes dele...- balançou a cabeça. - Conseguiu fazer uma mulher magnífica apaixonar-se por ele.
Fedra ergueu o olhar e com voz firme e calma, disse:
-Meu amor... as pessoas nunca são apenas uma coisa...
Silêncio.
-Atravessamos tantas fases na vida...
Sabrina baixou o olhar tentando entender o emaranhado de emoções que teimavam em confundir-lhe todas as certezas.
-E a Martina contou-me algumas coisas. - Fedra segurou a mão dela.
Sabrina levantou os olhos devagar.
-Sobre ele querer aproximar-se de ti.
O rosto dela fechou imediatamente, num misto de raiva e dor.
-Era tão fácil...- A voz sai partida. - Era só ter ligado...ou me atendido quando ligava...
Silêncio.
-Era só isso.
Os olhos dela inundaram imediatamente.
-Um pequeno esforço...qualquer coisa...- Sabrina encolheu-se.
-Eu sei...- Fedra aproximou-se ainda mais.
-Eu teria atendido...mesmo zangada, magoada...- a voz voltou a falhar. - Eu sempre teria atendido...
O choro veio, não explosivo, apenas triste.
Fedra abraçou-a forte, permitindo que Sabrina chorasse contra o seu peito. Não havia pressa e nem necessidade de amenizar a dor.
Depois de algum tempo, Fedra falou baixinho perto dos cabelos dela:
-Pensa que, no meio de tudo isto... tu ganhaste uma pessoa maravilhosa.
Sabrina esboçou um leve sorriso, permanecendo de olhos fechados.
***
A convivência entre as três mulheres continuou de forma improvável e bonita. Tomavam café juntas, conversando sobre viagens, o trabalho delas, desafios, sonhos e até sobre Daniel em versões menos dolorosas. Era usual rirem no meio das histórias e Sabrina aos poucos foi percebendo que não se sentia obrigada a nada. Tudo fluía na mesma leveza de Martina.
A naturalidade elegante com que Martina tratava Fedra, emocionava Sabrina. Ela a incluía em tudo, perguntava seus gostos e nunca demonstrava qualquer resquício de constrangimento diante de alguma demonstração de carinho entre elas.
***
Depois da missa do sétimo dia, a casa estava finalmente silenciosa. Após dias de emoções intensas, visitas, telefonemas, burocracias e despedidas, a noite parecia suspensa no tempo. Fedra adormeceu no sofá da sala pouco depois do jantar. Confessara à Sabrina que se sentia exausta.
Sabrina a observava enquanto dormia profundamente, com uma mão descaída para fora do sofá e o rosto tranquilo. O sentimento de gratidão que invadiu o seu peito era tão grande que doía. Ficou com pena de acordá-la para subirem ao quarto. Ainda era relativamente cedo e ela não estava com sono, decidindo respirar um pouco.
A varanda estava iluminada apenas pelas luzes suaves do jardim e Sabrina surpreendeu-se pela presença de Martina que estava sentada numa cadeira de madeira com uma chávena fumegante entre as mãos. Ela sorriu ao vê-la.
-Pensei que já estivesses no quinto sono. - Brincou Sabrina, sentando-se ao lado dela.
-Sem sono e precisando respirar um pouco...
-Eu também...
As duas olharam para o céu ao mesmo tempo.
Durante alguns minutos conversaram sobre coisas triviais, até que se instalou um silêncio que para Sabrina pareceu inquietante.
-Posso te fazer uma pergunta?
-Claro!
Sabrina demorou um pouco a organizar o pensamento.
-Como consegues?
-Conseguir o quê? - Martina franziu levemente a testa.
-Lidar com isto...- O tom de voz era baixo. - Com a morte dele...
Silêncio.
-Eu olho para ti e vejo tristeza, mas não vejo revolta. - Continuou Sabrina.
Baixou os olhos.
-E nem desespero...
Martina sorriu de forma melancólica.
- Quem te disse que não houve desespero?
Sabrina levantou os olhos e pela primeira vez desde que chegara, viu lágrimas aparecerem nos olhos de Martina. Não muitas, mas suficientes para a surpreender.
-Os últimos dias foram muito difíceis. - A voz saiu serena. - Eu sabia que estava a aproximar-se e mesmo assim não estava preparada.
Uma lágrima deslizou-lhe pelo rosto e Martina limpou-a sem pressa.
-Naquele dia...- respirou fundo - No hospital...
Sabrina ficou imóvel.
-Ele pediu-me uma coisa...
Silêncio.
-Pediu-me que não ficasse triste.
Martina soltou uma pequena gargalhada emocionada.
-Como se fosse possível.
As duas sorriram.
-Mas ele insistiu. - Olhou para o horizonte -Disse que tínhamos tido uma vida bonita.
Silêncio.
-Disse que estava em paz...
A voz dela falhou e Sabrina sentiu seus olhos se encherem de lágrimas.
-Foi a última conversa que tivemos...
Silêncio.
-Voltei para casa. -Engoliu em seco -Duas horas depois ele partiu.
O ar pareceu desaparecer da varanda.
Sem pensar muito, Sabrina apertou a mão de Martina entre as suas.
-Tu amaste-o muito...
Martina sorriu.
-Sim!
Silêncio.
-Com todas as qualidades - outro sorriso. - E os defeitos também.
Ficaram em silêncio mais alguns minutos, até que Martina falou novamente, com cuidado, como quem pisa terreno sensível.
-Sabrina...
-Hmm?
-Posso dizer-te uma coisa sem que fiques zangada?
Sabrina sorriu de leve.
-Depende da coisa.
-É sobre a Fedra...- Martina riu.
Sabrina inquietou-se um pouco e não conseguiu sorrir.
-Ela não pensou duas vezes antes de vir.
Sabrina baixou os olhos, antevendo o rumo daquela conversa.
-Largou tudo e veio sem que a tivesses chamado...
Silêncio.
-Eu sei...- Sabrina respirou fundo. -Eu sei.
-Sabes?
-Sim.
Ela passou a mão pelos cabelos.
-O problema é que...
Parou, tentando organizar algo que nem ela entendia completamente.
- A minha vida inteira eu resolvi tudo sozinha.
A voz saiu cansada.
-Quando as coisas corriam mal... -Sorriu sem humor - Era eu.
Pausa.
-Sempre eu...sozinha.
Martina observou-a longamente.
Depois falou com a mesma delicadeza que usava para tudo.
-Mas agora não estás sozinha, tens alguém que te olha como prioridade, que te escolhe...
Silêncio.
Sabrina sentiu seus olhos arderem.
-Aprende a conviver com esse presente da vida.
A voz de Martina era suave, mas firme.
-Porque é exatamente isso que ela é.
Sabrina respirou fundo, tentando conter a emoção. Sem sucesso.
-Essa mulher forte, decidida...um pouco impulsiva.
As duas riram.
- E cheia de amor por ti.
A frase atingiu Sabrina diretamente no coração.
-Eu sei - A voz saiu trémula.
Respirou fundo e sorriu entre lágrimas.
-Sou tão feliz por isso.
Martina apertou-lhe a mão.
-Não é fácil amar-me...
A confissão saiu quase num sussurro, profunda, vinda de lugares muito antigos.
Martina virou-se completamente para ela abanando a cabeça.
-Discordo! - Maneou a cabeça em negação.
Sabrina piscou os olhos várias vezes.
-Não acho nada difícil amar-te.
Silêncio.
-Tu és cativante, Sabrina.
A frase saiu simples, como uma constatação óbvia. Sabrina soltou uma pequena gargalhada incrédula.
-Estou a falar sério.
Martina sorriu.
-És inteligente, generosa, engraçada quando não estás a tentar parecer séria.
Sabrina revirou os olhos, arrancando uma risada de Martina.
-E tens uma capacidade enorme de cuidar das pessoas.
Pausa.
-Mesmo quando ainda estás a aprender a deixar que cuidem de ti.
Sabrina ficou sem reação ao perceber que aquela mulher a via de verdade.
As duas permaneceram ali, lado a lado, olhando a noite. Partilhando silêncio...ausência...amor. E, pela primeira vez, Sabrina sentiu que ao perder um pai que nunca tivera completamente...tinha encontrado uma família que jamais esperou receber.
A noite continuava tranquila na varanda. O vento movia suavemente as folhas das árvores e, por alguns instantes, nenhuma das duas falou. Sabrina ainda tinha os olhos húmidos, mas já não era apenas tristeza. Era como se alguma coisa dentro dela estivesse finalmente a reorganizar-se.
Ela limpou uma lágrima que insistia em cair e tentou sorrir.
-Prometo uma coisa. - Disse olhando diretamente para Martina.
-O quê? - Martina arqueou uma sobrancelha.
Sabrina apontou para o céu escuro, mas carregado de estrelas cintilantes.
-Vou buscar sabedoria nas estrelas.
Martina ficou séria durante dois segundos. Depois desatou a rir, uma gargalhada genuína, bonita. Daquelas que raramente se esquecem.
-Nas estrelas?
Sabrina sorriu.
-Sim. Vou consultar constelações, planetas, mapas celestes...
Martina abanava a cabeça, divertida.
-Tudo para garantir que nunca desiludo a Fedra.
Agora as duas estavam a rir.
Quando o riso acalmou, Martina segurou novamente as mãos dela, com carinho, sem pressa.
-Não precisas ir tão longe.
Sabrina inclinou ligeiramente a cabeça.
-Basta ouvires o teu coração.
Silêncio.
-Em relação à Fedra, ele sempre te dirá o que fazer.
A frase ficou suspensa entre elas, como tantas verdades simples que demoram anos para serem compreendidas.
Sabrina baixou os olhos, pensativa. E então o silêncio voltou, confortável, mas desta vez algo mudou. Martina percebeu antes mesmo que ela falasse, a tensão subtil nos ombros, a respiração mais curta, o brilho diferente nos olhos.
Sabrina começou a chorar novamente, não de forma explosiva, mas profunda.
Martina permaneceu calada, não tentou interromper, tão pouco resolver. Limitou-se a apertar-lhe as mãos, e permanecer ali. Demorou alguns minutos até que Sabrina conseguisse organizar palavras.
-Estou confusa. - A voz saiu baixa, rouca.
Martina olhou para ela, com o mesmo olhar doce que parecia nunca exigir nada.
-Confusa como?
Sabrina respirou fundo e por um momento pareceu procurar as palavras certas.
-De repente...-Ela engoliu em seco -...não sinto raiva do meu pai.
O silêncio instalou-se imediatamente.
-A vida inteira eu tive raiva dele.
Os olhos voltaram a encher-se de lágrimas.
-A vida inteira, ou pelo menos desde que eu aprendi a pensar...mas agora não sinto...
Sabrina abanou a cabeça lentamente.
-Não sinto...
Pausa.
-E eu queria sentir...
As lágrimas escorriam sem controlo.
- ...raiva.
Outra pausa.
-Ou pelo menos indiferença...
Martina observava-a atentamente.
-E porque estás a dizer isso? - Perguntou com suavidade.
Sabrina soltou uma pequena gargalhada nervosa, daquelas que antecedem uma verdade importante.
-Porque sinto que ele me deixou um presente.
A voz falhou.
-Um presente quase sagrado.
As lágrimas aumentaram, mas ela continuou.
-Um presente em forma de lucidez, -respirou - amor... sabedoria.
Martina sentiu os próprios olhos marejarem.
-Exatamente o que eu precisava para seguir em paz - A voz tremia -sem tantos demónios a atormentar-me.
Sabrina levou a mão ao peito, tentando explicar algo que mal compreendia.
-É como um puzzle. -Ela sorriu através do choro. - Daqueles de mil peças.
Pausa.
-Que finalmente fica completo...
Martina apertou-lhe as mãos, sem dizer nada, porque não havia nada a acrescentar.
-Talvez eu esteja emocional demais.
Sabrina soltou uma risada trémula.
-Mais perdida do que imagino....
Olhou diretamente para Martina.
-Mas eu senti paz desde o momento em que te vi.
Silêncio.
-Nunca me senti a mais nesta casa...ou desconfortável...
A voz começou a falhar outra vez.
- Mesmo com o luto...com o choque...com tudo...
As lágrimas corriam livremente.
-Eu me senti acolhida...amparada...e sabes o quanto isso significa para mim?
Martina sentiu o próprio coração apertar, porque sabia, talvez mais do que Sabrina imaginava.
-Recebeste a Fedra...- continuou - ...sem sequer saberes quem ela era.
Martina sorriu imediatamente.
-Sabia sim.
Sabrina piscou os olhos, confusa.
-Como assim?
-Vi na tela do teu telefone.
As duas começaram a rir, um riso desajeitado, molhado de lágrimas.
- "Meu amor" - Disse Martina ainda a rir - Não havia margem para dúvidas.
- Ainda me lembro o dia em que me senti confiante para mudar o nome Fedra, para meu amor...
As duas voltaram a rir, até que o riso desapareceu lentamente, dando lugar a outra emoção.
-Estou confusa.
Sabrina repetiu.
-Não estou a fazer sentido nenhum.
Martina aproximou-se um pouco mais.
-Fazes todo o sentido do mundo.
Sabrina levantou os olhos.
-Todo. - A voz saiu firme, segura. - Porque às vezes a paz chega antes da compreensão.
Silêncio.
-E eu acho que foi isso que te aconteceu.
Os olhos de Sabrina voltaram a transbordar. Pela primeira vez desde a morte do pai, alguém tinha conseguido traduzir exatamente o que ela sentia.
Devagar, ela inclinou-se para a frente, e abraçou Martina. Um abraço apertado, longo, sem pressa. Martina retribuiu imediatamente, segurando-a com o mesmo cuidado que teria com algo precioso.
Nenhuma das duas falou. Elas simplesmente se entregaram à conexão forte que nascia exatamente quando as duas se encontravam no lugar mais difícil das suas vidas...e tinham escolhido ficar.
***
Na manhã da partida de volta a Glasgow, a casa parecia ainda mais silenciosa. Malas prontas no hall, o carro à espera lá fora e Sabrina com uma sensação que não sabia nomear. Parada na varanda, palco de grandes conversas e revelações, tentava se organizar emocionalmente, quando ouviu Martina chamá-la. No hall, a esposa do seu pai conversava com Fedra. Sabrina observou a cena por alguns segundos antes de interagir. Em seu coração coexistiam emoções quase conflitantes...não conseguia entender a paz que a acolhia diante de tudo que estava a viver e lutava para sentir coisas mais adequadas, como tristeza, raiva...mas como ter raiva diante do que seus olhos viam?
-Estavas a despedir da varanda? Eu sei que gostas daquele canto da casa...-Martina sorria com a alma escancarada e Sabrina limitou-se a abraçá-la com carinho.
Permaneceram no abraço por algum tempo.
-Toma...- Martina estendeu algo a Sabrina.
-O que é isso? Uma chave...-Franziu a testa e olhou para Martina e em seguida para Fedra.
-Essa casa também é tua. - Martina sorriu com ternura e algum cansaço.
Sabrina abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. Apertou a chave na mão e sentiu um tremor no coração.
-Venha quando quiseres, com quem quiseres...eu vou ficar muito feliz. - O sorriso dela era o mais genuíno que Sabrina vira nos últimos tempos. - Sem pedir, sem avisar, sem qualquer cerimónia.
Sabrina puxou o ar com força para evitar que seus olhos se inundassem mais uma vez.
-E tenho a casa enorme nas montanhas...também é tua e acho que vais adorar...
Foi a vez de Fedra sorrir, sabia que Sabrina adorava os alpes e toda aquela natureza exuberante. Sabrina passou a mão no rosto tentando conter as lágrimas.
-Vocês podem usar quando quiserem, levar amigos...ficarem escondidas do mundo.
-Isso parece perigosamente tentador. - Fedra riu baixinho.
- Foi exatamente o que eu pensei. - Sorriu Martina com o semblante cada vez mais leve.
Seguiu-se um momento de silêncio repleto de emoção para caber em palavras simples. Sabrina fez a única coisa que lhe cabia, voltou a abraçar Martina, forte, deixando-se ficar no afago. Não existia reserva, apenas uma intensa e inusitada confiança. Martina a acolhia como se sempre tivesse sido assim. Não demorou e Fedra juntou-se ao abraço, as três permanecendo no encontro por alguns minutos.
Quando finalmente entraram no carro, Sabrina olhou pela janela enquanto a casa ficava para trás lentamente. Á medida que Martina ia desaparecendo de seu campo visual, pensava que nem todos os abandonos conseguem ser reparados, mas que às vezes, a vida encontrava formas delicadas de devolver pertencimento.
***
No apartamento em Glasgow, as malas ainda estavam na entrada da sala, Fedra pedia alguma coisa para comerem, enquanto Sabrina tomava banho há algum tempo.
-Não era assim que tinha imaginado a tua primeira visita ao meu apartamento...
Sabrina abraçou Fedra por trás enquanto ela arrumava a mesa.
-Temos tempo, meu bem...para me mostrares tudo...
-Mas vais embora amanhã...- Suspirou.
-Sim...mas volto...- apertou-lhe os braços com as mãos.
-Obrigada por teres vindo comigo...se tivesse entrado sozinha aqui, eu nem sei...
Abraçaram-se. O interfone tocou.
-Eu recebo, podes tomar banho...se quiseres.
Fedra sorriu.
-Eu quero e preciso...estou com o corpo todo moído...volto em 2 minutos...
-Ao contrário da tua namorada que demorou mais de meia hora...
Gargalhadas.
-Hoje, eu não brigo...só hoje...
-Eu te amo...tanto...
-A porta...amor...a porta...
Sabrina sorriu, saindo do transe.
Recebeu a comida, organizou tudo e ficou à espera, o coração em paz. Com o cheiro do perfume de Fedra invadindo o ambiente, ela levantou o olhar e encontrou-a encostada na porta do quarto. Aproximou-se com o peito em alvoroço e uma necessidade dela que não se lembrava tão intensa. Tocou-a de leve no rosto, Fedra fechou os olhos, soltando o ar.
-Estou com saudades...tantas que doem...eu preciso de ti...agora...- Tocou-a quase em desespero, abrindo-lhe o roupão com urgência.
Fedra sorriu deixando-se tocar com a intensidade que seu corpo também ansiava. Suas bocas uniram-se num beijo sôfrego e as roupas foram caindo pelo chão. Os toques de Sabrina eram viris, certeiros e a dança perfeita dos seus corpos aconteceu no meio da sala. Entrega absoluta de corpos que se ansiavam e almas que há muito tempo tinham se conectado de forma inequívoca. O prazer veio rápido, intenso, provocando o alívio que os corpos precisavam.
Algum tempo depois, Sabrina fazia carinho com a ponta dos dedos nos seios de Fedra que se arrepiava. Fedra riu baixinho, se aninhando ainda mais no corpo dela.
-O que foi? - perguntou Sabrina com voz rouca.
-Estou com fome...- Sussurrou com a boca colada no ouvido dela.
-Oh meu Deus...e eu egoísta...com meu corpo desesperado por prazer...nem pensei em ti...mas acho que gostaste e querias tanto quanto eu...pelo menos, o teu corpo queria...- Sabrina disse baixinho, num tom quase vergonhoso.
Fedra riu alto, posicionando-se sobre o corpo quente de Sabrina que a recebeu com vontade.
-Minha fome é disso...mais disso do que qualquer outra coisa...
-Ui despertei um monstro...e nem vou correr...
Riram às gargalhadas entregando-se mais uma vez ao prazer que tão bem conheciam, mas que ainda tinha o dom de surpreender...na intensidade...
***
Sabrina servia-se de mais café enquanto era observada por Fedra. A mesa de pequeno almoço estava praticamente intacta.
-Não vais comer nada? Eu estou sem apetite...
-Viste a hora que fomos comer ontem à noite?
Risos.
-Era de madrugada...
-Hum-hum...também estou sem apetite e...
Sabrina ergueu o olhar e sustentou a troca por alguns segundos, até desviar. O coração ensaiava um galope que ela já conhecia e não gostava.
-Queria que fosses comigo...estou receosa em deixar-te sozinha aqui depois de toda essa atribulação emocional...
-Eu iria...ou tu ficavas...- o tom de Sabrina era triste, embora tentasse disfarçar com um leve sorriso. - Mas ainda não podemos...eu já demorei demais a dar feedback da viagem ao Japão e tu tens que renegociar teu novo status.
-Pois...mas se pudesse ficava...
As duas riram.
-Já fizeste tanto por mim...tanto...- estendeu a mão sobre a mesa, alcançando a de Fedra. Entrelaçaram os dedos.
-Meu bem, promete uma coisa...
-Até duas...
Risos.
-É sério...promete que ligas à Martina...ela foi tão...
-Eu ligo! Prometo que sim...aliás, vou ligar assim que te deixar no aeroporto. Não sei o que estamos a construir, mas eu gosto...
-Permita viver essa nova fase...a vossa conexão é inexplicável e bonita...ninguém diz que não é de uma vida inteira...que mulher...
-Não vou fugir...
-Quero ver-te feliz...mais feliz, fico mais tranquila sabendo que tens mais um ombro...à distancia de uma ligação, ou de uma videochamada...
-Fedra, eu tenho os meus amigos em Cabo Verde...tenho a Glória, a Catarina, tenho...
-Meu amor, entendeste bem o que eu quis dizer...
Os olhos de Sabrina encheram-se de lágrimas. Fedra puxou-a para mais perto, sentando-a nas suas pernas.
-Tu e a Martina têm um elo que não tens com as tuas amigas...as nossas amigas, se calhar nem comigo...
Sabrina suspirou afundando a cara no colo de Fedra que a abraçou com força.
***
Mais tarde, no silêncio do seu apartamento, sentada no sofá, Sabrina refletia sobre a avalanche que lhe acontecera nos últimos dias. Tinha sido atropelada por um sofrimento atroz e ao mesmo tempo, inundada do afeto mais puro que já recebera na vida. Percorrendo os vários cantos da sua memória, foi organizando a própria história, tentando se entender naquele emaranhado. O lema de não se apegar para não sofrer, funcionou muito bem durante anos. Funcionou como escudo, mas roubou-lhe muita coisa...
Com a cabeça apoiada no encosto do sofá, respirou fundo várias vezes.
-Funcionou bem...meu escudo funcionou bem até aparecer essa mulher...que eu já conhecia e admirava, mas não me permitia ir além...ela me desarmou sem esforço...- Sorriu olhando ao redor à procura de algo que ela tivesse esquecido.
-Parabéns, dona Fedra, a senhora venceu todo o meu medo...derrubou todas as barreiras e com subtileza...
Riu sozinha, aceitando os fatos.
O telefone tocou algures e ela correu para atender. Não podia ser Fedra, porque ela ainda estava em voo até Zurique. Abriu um sorriso luminoso quando viu o nome na tela: Martina.
Fim do capítulo
Olá,
Mais um capítulo e a nossa viagem termina...pelo menos por aqui.
Abraço
Nadine
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NovaAqui
Em: 01/06/2026
Sabrina é uma fantástica. Sempre fez tudo sozinha e agora tem 2 anjos para lhe apoiar.
Ela vai conseguir entender isso e não precisará mais dizer:
"- Eu só ainda não sei fazer direito"
Isso é tão real quando a gente é criada pela vida.... Real demais
Obrigada pelo capítulo
A página ficou fora por um tempo. Só agora consegui ler e comentar (meia noite no Brasil)
Boa semana nessa sua terra linda
Beijão!!
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Nadine Helgenberger Em: 01/06/2026 Autora da história
Eu que te agradeço, do fundo do coração.
A saga de Sabrina foi tão bonita...eu pelo menos, adorei rsrsrs
Sim, ontem percebi que logo que postei o capítulo, a pagina saiu do ar.
Abraço com carinho.