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Depois eu te conto... por Nadine Helgenberger

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Palavras: 3854
Acessos: 327   |  Postado em: 26/05/2026

Capitulo 39

 

 

Martina continuava a falar sobre detalhes práticos, documentação, funerária, horários e Sabrina escutava como se um vidro espesso bloqueasse o fluxo das palavras.  Tudo lhe parecia distante demais, quase um sonho.

Quando a chamada terminou, permaneceu imóvel no sofá, à espera de alguma coisa que não sabia exatamente o que era. O apartamento está silencioso demais. Com o olhar fixo na parede à sua frente, ensaiava uma reação. Chorar parecia-lhe razoável, gritar, talvez. Mas nada fluía, ao ponto de perceber que não respirava. Um pensamento cruel atingiu-a como uma lança.

"Eu não consigo sentir nada. Meu pai morreu e não sinto nada."

Encostada no sofá e com a sensação de peito seco, começou a ser atropelada por fragmentos de memórias com o pai... ausências, promessas vagas, telefonemas esporádicos, aniversários esquecidos, uma sensação constante de não prioridade. Uma vida inteira de abandono, ou quase isso. Os primeiros anos tinham sido mágicos, mas desse tempo só restavam névoas que já nem sabia se reais ou imaginárias.

Toda a desconfiança do mundo que ditava a sua vida, o pavor de se apegar e perder, a excessiva necessidade de controlar tudo e a certeza de que o amor sempre seria intermitente...

Fechou os olhos com força e uma onda de clareza invadiu a sua mente. Quase soltou um riso sem qualquer humor.

            -Sempre tu, pai.

O homem ausente continuava a atravessar-lhe a vida inteira, mesmo agora... morto.

Algum tempo depois, levantou-se do sofá, caminhou até ao frigorifico, abriu e fechou sem ao menos olhar o interior. Deu alguns passos até à janela, mas a vida lá fora estava em standby. Andou em círculos, completamente sem direção. Tonta, desabou no chão da sala.

            -Eu deveria estar devastada? - questionou em voz alta sendo sacudida por um esgar violento.

Mas devastada por quem? Por um pai que nunca realmente teve? Por um homem que aparecia e desaparecia como quem visitava uma estação de comboio? Que passava a maior parte do tempo caindo de bêbado?

Abraçou-se encolhida no chão gelado da sala.

            -Então porque que isto dói tanto? Porque tenho a sensação que meu peito é espetado por uma brasa quente? - gritou.

De repente dobrou-se ao meio e caiu num choro violento, cru, sem controlo. O corpo desistiu de sustentar e entregou-se ao desespero. A dor de anos inteiros sendo expurgada de uma vez. Com as mãos cobrindo o rosto, respiração descompassada, chorou. Não apenas pela morte repentina do pai, também pela ausência, pela adolescência emocionalmente incompleta, pela sensação de nunca ter sido escolhida plenamente por ele, pela raiva que muitas vezes sempre fingiu não existir.

            -Merda! - bateu a mão com força contra o chão. - Merda de vida que até na tua morte, eu esteja sozinha...sozinha...- Entregou-se ao pranto convulsivo.

 

***

Num lapso de lucidez, pegou o telefone e abriu na última mensagem de Fedra. Soluçou quando seus olhos turvos depararam com tamanho carinho. Os dedos trémulos sobre o teclado, tentaram escrever algo como, preciso de ti, mas algo a fez frear o impulso. Fedra estava em Zurique, em reuniões importantes, que talvez pudessem definir o seu futuro. Não era justo com ela...não tinha esse direito de causar um tumulto na vida da sua namorada. Desistiu...

Buscou forças para organizar a mente e então começar a agir, mas a verdade era que ainda não sabia pedir ajuda quando se sentia destruída.

Aos poucos as lágrimas secaram, restando apenas a sensação horrível de vazio. Endireitou-se, ligou o portátil e o modo sobrevivência. Itália, voos, horários, tudo organizado em tempo recorde. Enviou uma mensagem à Martina pedindo algumas informações mais práticas, como horário do funeral e avisou que chegaria nas primeiras horas do dia. Uma mensagem objetiva e um tanto fria, mas era tudo o que conseguia dar quando seu corpo experimentava um vazio que não lhe parecia coerente...

De madrugada, no aeroporto, ainda anestesiada, finalmente conseguiu enviar uma mensagem à Fedra.

"Cheguei a Glasgow. Aconteceu uma coisa complicada. Liga-me quando puderes."

Não explicou com detalhes. Não conseguia ainda sequer ter clareza do que está realmente estava a acontecer. Chamaram o seu voo e antes de entrar na fila para o avião, colocou o telefone no silêncio.

 

***

No táxi, a caminho da pequena cidade onde o pai vivia, observava a bela paisagem, colinas suaves, casas antigas de pedra clara, vinhas a perder de vista, roupas a secar ao ar livre. Tudo pareceu-lhe absurdamente vivo para o dia em que alguém tinha morrido...

Com a cabeça encostada no vidro, experimentou mais uma vez a sensação de cansaço e não era apenas o inegável cansaço físico, era algo que a atirava para uma escuridão aterradora.

Desceu do carro à frente da propriedade de Martina. Tudo era muito bonito, bem cuidado. Sabia que a condição financeira da esposa do pai era boa, mas estava diante de uma casa de alto padrão. Tudo ali era silenciosamente lindo. De repente experimentou uma sensação de contração na boca do estomago. Era raiva. O senhor ausente tinha construído uma vida de sonho em que ela jamais fora convidada para fazer parte. Ajeitou as roupas amassadas, respirou fundo e repreendeu-se pelo acesso de raiva infantil. Precisava enfrentar algo sério, e era hora de vestir sua armadura de uma vida...

Mal encostou a ponta do dedo na campainha, a porta abriu-se e seus olhos assustados viram a figura de Martina se aproximando. Antes mesmo de conseguir organizar uma expressão facial condizente com o momento, sentiu-se abraçada com força. Não havia qualquer resquício de hesitação e aquilo desarmou um eventual planeamento de como agir. Sentiu seu corpo rígido por alguns segundos, não estava à espera daquela receção.

            -Meu Deus...estás tão cansada. - Martina afastou-se ligeiramente, segurado o rosto dela com delicadeza.

A voz dela pareceu ter algumas fraturas, o que confundiu ainda mais Sabrina. Ela parecia realmente emocionada em vê-la. Havia mais do que educação...a voz, o abraço, o olhar, havia carinho ali. Mas como?

O interior da casa estava cheio de gente que conversava em tom baixo. Havia flores, cheiro de café e de nostalgia. Sabrina observava tudo com desconfiança misturada a uma sensação de inadequação. O pai dela, um homem emocionalmente distante, irregular, muitas vezes negligente...tinha tanta gente que chorava por ele?

Durante o funeral quase não falou. A sensação de trava na garganta não passava e parecia que sua mente não funcionava com a agilidade normal requerida. Agradeceu o conforto com olhares, acenos, tentando representar um papel que não lhe assentava bem. Cada elogio que ouvia sobre o pai, seu estomago contraía, e não foram poucos...

Quando ouviu que o pai tinha orgulho dela, precisou de uma dose extra de autocontrole para não rir cinicamente na cara da senhora de boa aparência.

Orgulho? De quê? De uma vida acompanhada à distância? Do abandono? Ela apertou os dedos até doerem ao perceber que uma parte dela queria acreditar naquilo. Queria correr dali, apagar o episódio...seus olhos encontraram os de Martina, e estranhamente experimentou algo parecido com calma...

Mais tarde, refugiada na varanda da bonita casa de Martina, Sabrina observava o anoitecer italiano em tons dourados e azul-escuro. Com os pensamentos viajando em direções pouco ortodoxas, viu-se surpreendida pela presença de Martina, carregando duas canecas nas mãos. Entregou-lhe uma sem perguntar nada e Sabrina segurou a caneca quente entre as mãos.

Silêncio. Talvez o primeiro confortável desde que pisara naquela casa...

Martina sentou-se ao lado dela, olhando a paisagem por um momento antes de falar:

-Ele tinha medo de ti...

Sabrina sobressaltou-se na cadeira e encarou-a com olhos arregalados.

-Medo?

Martina sorriu com tristeza.

-Do que tu pensavas dele...

A frase atingiu fundo demais a ponto de fazer Sabrina desviar o olhar.

Pensou que talvez ele tivesse razão em ter medo dela, da sua raiva, mas não disse nada.

            - O Daniel tinha uma forma complicada de funcionar...- Continuou Martina com sua voz calma.

Sabrina quase riu.

            -É uma forma bastante gentil de descrevê-lo...- ironizou.

Martina sorriu de um jeito que à Sabrina pareceu como resignação. Fez-se mais um curto silêncio.

            -Ele tinha plena consciência que falhou contigo...

Silêncio.

            -E isso foi crescendo dentro dele ao longo dos anos...

Sabrina sentiu o aperto subir velozmente do estomago à garganta, quase levando-a a náuseas. Respirou fundo, com olhar perdido algures nas oliveiras.

-Quanto mais tempo passava... mais impossível lhe parecia aproximar-se.

-O que acabou de dizer é um absurdo. - A frase saiu dura e Sabrina se agitou na cadeira. - Ele era meu pai...MEU PAI. - Gritou.

-Eu sei.

Martina olhou para ela com uma serenidade desarmante.

-Mas nem toda a gente consegue lidar com culpa da forma certa.

A frase calou Sabrina, porque ela entendia perfeitamente, bem mais do que gostaria de admitir.

Um vento frio atravessou a varanda e Martina segurou a caneca com as duas mãos antes de continuar:

            -Ele queria muito aproximar-se de ti...nos últimos tempos parecia uma obsessão...

Sabrina ficou imóvel.

-Mas não se sentia no direito...

Mais uma pausa.

-Nem acreditava que ainda houvesse espaço.

O peito de Sabrina apertou violentamente. Seu olhar finalmente cruzou com o de Martina.

-Por isso fui-me aproximando...

Silêncio.

-Para tentar abrir caminho...

Sabrina sentiu os olhos encherem-se de lágrimas que tentou controlar para não transbordar.

            - Porque ele não tinha coragem. - Martina sorriu triste. - Mas eu queria tentar, porque sabia que isso o faria feliz.

Sabrina baixou a cabeça imediatamente, como se o corpo não conseguisse sustentar mais aquilo. As lágrimas caíram silenciosas, muito diferentes do desespero em Glasgow quando recebeu a notícia. A dor agora era mais funda...

-Porque é que ele nunca me disse isso? - A pergunta saiu pequena, quase infantil.

Martina respondeu com honestidade brutal:

-Porque algumas pessoas passam tanto tempo a fugir dos próprios erros... que desaprendem a voltar.

Silêncio.

As plantas do jardim moveram-se suavemente com o vento e alguém bateu uma porta no interior da casa, enquanto Sabrina tentava conciliar a respiração.

-O teu pai carregava muita culpa.

Sabrina permanecia imóvel.

-Eu acho... não, eu tenho certeza... que ele nunca conseguiu sobreviver verdadeiramente à morte da tua mãe. - Prosseguiu Martina com calma.

A garganta de Sabrina fechou imediatamente.

Martina olhou para o jardim enquanto falava, como se estivesse a organizar memórias.

-Ele falava dela como quem perdeu o eixo da própria vida.

Pausa.

-E acho que, depois daquilo, ele passou a acreditar que era fraco.

Silêncio.

            -Fraco por não conseguir continuar... fraco por não conseguir cuidar de uma menina pequena enquanto também estava destruído.

Sabrina apertou os dentes, porque uma parte dela compreendia, e outra queria odiar o pai.

            -Quando tu cresceste... a culpa piorou. - Continuou Martina.

            -Porquê? - Sabrina sentia seus lábios tremendo.

            -Porque ele começou a ver-te como alguém muito melhor do que ele.

Aquela frase desarmou Sabrina por um segundo.

            -Tu eras inteligente. - Martina respirou fundo. - Forte, organizada...muito parecida com a tua mãe.

            -Ele me dizia isso...quando criança na nossa casa feliz...e mais tarde, quando se perdia no álcool...- Um sorriso triste formou-se nos lábios de Sabrina.

            -Daniel nunca soube lidar com a perda da tua mãe...ele perdeu o sentido da vida com a morte repentina dela...perdeu-se de si, tornando-se alcoólatra, instável...problemático, até concluir que o melhor que podia fazer por ti era ficar longe.

Sabrina riu num misto de incredulidade e desprezo.

            -Patético...ele nunca pensou em mim...uma menina de 11 anos que também perdera a mãe e que só tinha ele como suporte.

            - Eu te entendo...- Martina assentiu com tristeza. - No fundo, ele achava que contaminava tudo o que era bom.

Sabrina experimentou um aperto violento no peito. Aquela frase simbolizou por muito tempo o que ela achava de si mesma.

            -Quando nos conhecemos, ele dizia constantemente que eu acabaria por me cansar dele. - Continuou Martina num tom mais baixo.

            -Ah, mas tu o conheceste numa fase boa...eu tinha largado a minha vida na Praia para o socorrer...tirá-lo da lama, para ser mais honesta. Ele estava bem...nós estávamos...bem, ou algo parecido com isso...

            -Eu me apaixonei por ele...completamente e no auge dos meus sessenta anos quando já nem pensava nisso...tive as melhores férias da minha vida inteira...

            -Ele não pensou duas vezes em mudar-se para cá...deve ter se apaixonado também...- Havia mágoa nas palavras de Sabrina.

            -Ele sempre me tratou muito bem...era um amigo e tanto...meu companheiro e excelente pessoa...à maneira dele, mas era...

A força do vento balançou as árvores e Sabrina sentiu-se quebrar inteira. Olhou para Martina com os olhos marejados e soluçou.

            -Eu só queria um pai que me ligasse de vez em quando...

Seu rosto contraiu-se de dor e a voz saiu quase infantil.

            -Só queria um pai que não me abandonasse à minha própria sorte...

As lágrimas caíram como enxurrada e ela não se escondeu.

            -Às vezes parece que é difícil de entender...ninguém entende como é horrível se sentir sozinha...não dormir à noite, por medo do que vai acontecer na manhã seguinte, de qual loucura vai acometer o teu pai e em qual buraco ele vai te enfiar...

Marina apenas ouvia, presente, sem interromper e nem emitir qualquer juízo de valor.

            -Éramos tão felizes. - Sabrina levou a mão ao rosto, completamente devastada. - Tão felizes quando a minha mãe era viva. - A frase saiu entrecortada. - De repente...- a voz falhou. - De repente eu fiquei sem ninguém...sozinha num mundo nem sempre bom...meu pai estava lá...às vezes ele estava lá, mas tão longe de mim...eu não existia...era um estorvo...

De repente, a mulher de mais de 40 anos parecia uma menina de 11 anos.

            -Eu precisei sobreviver...nem sei como não sucumbi...não era sempre ruim, mas às vezes eu só queria um abraço e que alguém me dissesse que tudo voltaria ao que era antes...- Chorou copiosamente.

Martina aproximou-se e segurou-a com força nos seus braços. Sabrina deixou-se ficar sem qualquer resistência.

            -Tu não tens culpa de nada, Sabrina. Nunca foi culpa tua...-Martina acariciava-lhe o cabelo com a ponta dos dedos.

Sabrina suspirou com força sentindo mais uma vez uma dor aguda cruzar-lhe o peito. Passou grande parte da vida se sentindo culpada de tudo e ainda não era uma questão totalmente sanada, apesar da terapia.

-Ele é que nunca conseguiu acreditar que ainda merecia ser amado depois de perder o amor da sua vida.

Silêncio.

-E pessoas assim... às vezes afastam precisamente aquilo de que mais precisam.

Sabrina fechou os olhos, o rosto molhado encostado ao ombro de Martina.

            -Precisamos dormir, minha menina...-Disse Martina beijando-lhe o topo da cabeça.

            -Estou exausta. - Admitiu Sabrina enquanto sua mente oscilava entre a constatação de que o pai passara a vida inteira a fugir da dor e ela a fugir da possibilidade de ser abandonada outra vez.

 

***

Depois de uma noite mal dormida, em que o corpo apagou pela exaustão, mas a mente continuou a mil, provocando pesadelos com corredores em forma de labirinto, aeroportos com portas de entrada trancadas, a mãe sorrindo enquanto ia embora até desaparecer, o pai a gritar sem que pudesse ver-lhe o rosto, Sabrina acordou com a sensação que não passara nem dez minutos depois que fechou os olhos.

O quarto estava no mais absoluto silêncio e por instantes sentiu-se confusa, até ser trazida de forma quase cruel de volta à realidade. Sentou-se na cama, com a sensação de que todos os ossos estavam fora do lugar. Tudo doía, a cabeça pesava toneladas, os olhos inchados ardiam e a boca estava seca. Afastou os lençóis e dirigiu-se à janela, precisava ver a luz do dia. Lá fora, a manhã italiana pareceu-lhe exageradamente bela, quase ofensiva.

Encostou a cabeça no vidro e seu pensamento foi logo invadido pela figura de Fedra. Precisava dela, não como escape ou distração, mas como suporte emocional que não a sufocava. Saudades da voz dela, da forma peculiar de organizar o caos, do silêncio confortável...do abraço, do calor...

            -Preciso de ti, meu amor...- Sussurrou.

Há algum tempo, admitir que precisava de alguém, seria um sinal claro de fraqueza, perigo iminente, mas no momento, o único sentimento relevante era a dor de não ter a presença de Fedra.

Perdida nos próprios pensamentos nem sempre coerentes, ouviu uma leve batida na porta e mais outra ainda mais sutil.

            -Estás acordada? Posso entrar? - Martina inclinou a cabeça para dentro do quarto de forma cautelosa.

            -Claro! - Sabrina limpou o rosto com a costa da mão, mesmo que não tivesse chorado.

            -Como estás? - o tom de voz de Martina era quase um sussurro.

            -Não faço ideia...- foi a resposta mais sincera que Sabrina poderia dar.

            -É justo. - Martina sorriu com tristeza no olhar.

Breve silêncio.           

            -Fiz café!

O cuidado e a delicadeza de Martina sempre desarmavam Sabrina.

            -Posso tomar banho antes? Estou me sentindo devastada...

            -Claro, tens todo o tempo do mundo. Estou lá em baixo. - Sorriu antes de fechar a porta.

Sabrina ficou no meio do quarto tentando se entender naquele contexto. Desde que chegara ali, sentia-se estranhamente como uma adolescente, mas havia algo novo. Na sua adolescência precisou sempre ser rápida, para crescer, para agir, para não incomodar...e agora alguém lhe dizia que tinha todo o tempo do mundo. Sacudiu a cabeça e entrou na casa de banho.

***

A cozinha, banhada pela luz do dia, irradiava vida. O cheiro de café fresco, pão quente na mesa, frutas cortadas, queijos variados, compotas caseiras, tudo preparado com cuidado.

Sabrina sentou-se à mesa e logo experimentou um redemoinho no estomago gritando uma fome que ela não acreditava ser possível diante do seu estado emocional. Comeu tudo sem nenhum resquício de cerimónia.

Martina serviu-lhe mais café sem perguntar e ela apenas agradeceu com o olhar.  Era bom estar ali. Apesar do motivo fúnebre, era bom sentir-se acolhida por uma quase desconhecida e que ao mesmo tempo, parecia conhecê-la como poucos.

A conversa girou em torno de assuntos triviais, como o frio de Glasgow, a comida italiana, vinhos, fuso horário, o sol majestoso de Cabo Verde, claramente uma pausa no luto que cada uma vivia à sua maneira.

Dando resposta ao apetite voraz e inesperado daquela manhã particular, Sabrina passava manteiga num pedaço de pão, quando percebeu que Martina estava mais quieta do que o habitual. Ela apertava a caneca de café com as duas mãos, soltava, brincava com a borda e por mais estranho que pudesse parecer, Sabrina já associava aqueles gestos a uma espécie de ansiedade da sua anfitriã. Já notara a mesma atitude em outros momentos...esperou calada até que ela se manifestasse.

            -Fiz uma coisa que talvez tu não gostes. - Disse escolhendo as palavras e o tom.

Sabrina ergueu os olhos assustada. Alerta, já que seu corpo sempre estava habituado a antecipar impacto.

            - Ontem à noite... eu fui ver se estavas bem. - Continuou Martina com calma.

Sabrina não reagiu.

            -Tu estavas a dormir.

Silêncio.

-Agitada...

O peito de Sabrina apertou levemente.

-O teu telefone acendia sem parar. - Martina pareceu hesitar alguns segundos.

Sabrina ficou totalmente atenta.

-A pessoa insistia muito.

Silêncio.

-Eu não queria acordar-te...

Martina respirou fundo e encarou Sabrina.

-Mas tive um impulso de atender.

Sabrina abriu a boca ligeiramente, mas não emitiu qualquer som.

-E não, eu não sou uma pessoa intrometida. - Martina levantou logo a mão, quase defensiva.

Aquilo fez Sabrina quase sorrir apesar do susto. Afinal, Martina não era apenas calmaria e ponderação.

-Só que eu vi na tela...

Pausa.

-Estava escrito ‘meu amor'...

O coração de Sabrina pulou no peito. Fedra, claro.

Martina baixou o olhar por um instante antes de continuar, agora com seu tom mais ponderado.

-Eu atendi.

Silêncio absoluto.

-Com o meu português sofrível...

            -Tu falas muito bem o português...- Sabrina tentava acalmar o seu coração falando sem pensar.

-Percebi rapidamente que ela não sabia de nada.

Sabrina fechou os olhos por um segundo, imaginando Fedra do outro lado ansiosa, querendo entender tudo, quase em pânico.

            -E eu acabei por contar...

Silêncio, mas nada constrangedor ou agressivo. As palavras pareciam assentar no ar...

Sabrina passou a mão lentamente pelo rosto e pela primeira vez desde que chegara à Itália, sentiu algo inesperado: alívio. Já não precisava sustentar aquilo sozinha. Mesmo à distância e sem nenhum controlo, Fedra agora sabia.

O silêncio permaneceu suspenso na cozinha depois da revelação de Martina.

            -Martina...- o raciocínio de Sabrina foi interrompido por uma movimentação diferente de uma das empregadas da casa.

            -Eu não contei tudo...- A frase tinha um tom quase de culpa.

Sabrina franziu a testa, se agitando na cadeira.

            -Como assim? - O coração iniciou um galope estranho no peito ainda mais quando ela percebeu um quê de hesitação em Martina.

            -Ela perguntou se podia vir diretamente para cá.

Sabrina arregalou os olhos instantaneamente.

-O quê? - Quase se engasgou nas próprias palavras.

-E eu disse que sim.

O coração de Sabrina disparou num galope que ia do peito aos ouvidos.

-Mas ela está em Zurique, tinha uma apresentação importante, a possibilidade de...

A frase morreu pelo caminho, já que não conseguia raciocinar e ainda tinha o olhar quase inquisidor e com certeza muito firme de Martina sobre si.

-Permita que ela decida o que é importante.

Silêncio.

Aquela frase atingiu Sabrina em cheio.

-Não deixes que o medo roube de ti as melhores coisas da tua vida. - O tom dela agora era mais baixo, quase conciliador.

Sabrina sentiu o peito apertar imediatamente ao entender que não estavam a falar apenas dela. Martina chamava atenção pelas atitudes do pai dela ao longo da vida, do hábito de decidir sozinho o que o outro merece, aguenta ou não.

Sabrina baixou os olhos, respirando fundo.

Uma funcionária da casa apareceu discretamente à entrada da cozinha, tirando Sabrina de seu torpor.

            -Senhora Martina, sua visita chegou.

Martina apenas assentiu e logo olhou para Sabrina.

            -Vai!

Sabrina levantou-se devagar, o coração batia tão forte que sentia que as pernas poderiam falhar. Atravessou o corredor quase sem sentir os seus próprios passos. Martina acompanhou-a em silêncio até chegarem ao hall de entrada. A porta principal entreaberta e lá estava ela. Casaco longo, cabelo mal preso, olheiras evidentes, uma mala pequena ao lado. O cansaço era evidente, mas a preocupação no olhar ansioso, era o que mais chamava a atenção.

Silêncio, ou nem tanto...cada uma ouvia o próprio coração galopar.

Os olhares de Fedra e Sabrina cruzaram e foi o suficiente. Sabrina desfez-se completamente. O choro veio brutal e convulsivo, sem pedir licença. Era como se o corpo finalmente tivesse permissão para cair.

            -Ei... ei...- Fedra largou a bolsa de mão no chão e atravessou o espaço quase a correr.

Segurou-a antes mesmo que ela conseguisse equilibrar a respiração.

            -Eu estou aqui...estou aqui. - Uma mão nos cabelos dela, outra apertando-a contra o peito.

Sabrina chorou de forma quase desesperada, toda a contenção dos últimos dias rompeu de uma vez.

Um pouco mais afastada, Martina observou a cena por alguns segundos. Logo em seguida, discretamente, se afastou, fechando a porta do acesso ao hall, deixando-as sozinhas.

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Boa leitura.

 

Abraço

 

Nadine H.


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Comentários para 39 - Capitulo 39:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 26/05/2026

Capítulo maravilhoso 

Não me emocionava assim há muito tempo 


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 26/05/2026 Autora da história
Muito obrigada. Ele quase ficou perdido pelo espaço cibernético rsrsrs, o computador foi à vida, mas resgatei o conteúdo do disco e lá estava ele, lindo e inteiro. Seria uma pena ter de reescreve-lo e nem sei se o faria, mas ainda bem que deu tudo certo. São as emoções do fim, todo livro que escrevo é a mesma coisa...e acho que aprendi a gostar rsrsrs

Abraço


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