Capitulo 41
Mais um fim de tarde em Glasgow, com uma chuva fina caindo lá fora e Sabrina estava sentada no chão da sala, encostada ao sofá, portátil aberto ao lado e uma sopa esquecida na mesa de centro. Tinha trabalhado de casa e para não fugir à sua regra obsessiva, mal tirara os olhos do ecrã. O telefone vibrou sobre a mesa de centro, tirando-a por segundos do foco. Estendeu a mão para pegar o aparelho e imediatamente sorriu, era Martina.
-Olá - A voz instantaneamente soara mais leve.
Do outro lado, Martina respondeu com aquela calma italiana que Sabrina já reconhecia:
-Estás a trabalhar demais outra vez?
Sabrina riu alto, esticando as pernas.
-Boa noite para ti também.
-Não respondeste à minha mensagem de mais cedo.
-Eu estava numa reunião on line...
-E depois?
Sabrina olhou para o teto.
-Martina...
A mulher riu alto do outro lado.
-Só estou a certificar-me de que estás viva.
Risos dos dois lados.
Sabrina voltou a sentir aquele calor estranho no peito. Ainda não tinha se acostumado totalmente com alguém a preocupar-se com ela, naturalmente, sem cobrança. Tinha o afeto maravilhoso da Fedra, mas era diferente...o tom era outro, e adorava.
-Comeste?
A pergunta veio simples, como sempre, e logo Sabrina percebeu que não era controlo, era cuidado.
-Estou a comer agora. - Pegou distraidamente na colher.
-Mentira!
Sabrina riu alto.
-Como sabes?
-Já conheço essa pausa, tu ainda nem começaste.
Sabrina abanou a cabeça, rindo sozinha.
-Incrível...tu és incrível, Martina.
Martina sorriu do outro lado.
-Vai comer.
-Sim, senhora.
Instalou-se um silêncio confortável, ouvia-se apenas o barulho da chuva e de talheres. Martina sempre deixava o silêncio existir, mas sem peso algum. Outra novidade para Sabrina.
Depois de alguns minutos, Martina perguntou:
-Dormiste melhor esta semana?
-Melhor... - Sabrina pensou antes de responder.
E era verdade. Ainda havia dias conturbados, momentos em que o luto pesava, mas já havia menos vazio.
-Hoje abri aquela gaveta horrível do teu pai. -Disse Martina, casualmente.
Sabrina riu imediatamente.
-Qual delas? O escritório inteiro era uma afronta à organização.
Sabrina riu às gargalhadas e a reação emocionou Martina silenciosamente do outro lado.
-Encontrei fotografias tuas...
Sabrina ficou quieta.
-Quando eras pequena.
Pausa.
-Ele guardava tudo. -O peito dela apertou imediatamente com recordações que de tão boas, pareciam de outra pessoa, ou então, inventadas.
Mas agora a dor era diferente, não gritava apenas no abandono, era bem mais complexa.
-Posso enviar-te algumas?
Sabrina encostou a cabeça ao sofá, respirando fundo.
-Quero!
Silêncio.
-Obrigada. - Disse num tom mais baixo.
Martina respondeu com uma delicadeza que desmontaria qualquer defesa antiga de Sabrina:
-Não tens de agradecer por amor, querida.
Sabrina fechou os olhos imediatamente, absorvendo aquela verdade em silêncio. Já não provocava tanto medo, mas ainda precisava aprender mais...
***
A vida fluía cada vez numa toada mais leve. Fisicamente estava no mesmo lugar, ou seja, longe das pessoas que amava, mas a distância parecia cada vez menor. E era. Sentia-se preenchida, inundada de afeto...talvez já fosse assim, mas não se permitia sentir. Era tão bom e cada vez mais seguro receber amor. Recebia tanto que transbordava...
Num dia comum e numa videochamada com Fedra, conversavam sobre coisas banais do dia-a-dia, até que Sabrina distraidamente comentou:
-A Martina mandou-me hoje uma receita impossível de fazer.
Fedra sorriu automaticamente.
-Ah é?
Sabrina riu.
-Ela acha genuinamente que eu tenho tempo para cozinhar durante a semana.
-Talvez ela tenha fé demais em ti.
-Claramente!
Gargalhadas.
E Sabrina continuou naturalmente falando dela, contando das obras que tinha iniciado na casa dos Alpes, das fotos da evolução das obras que mandava e da insistência para que elas fossem passar umas férias por lá, no verão.
Fedra escutava tudo, admirada com a naturalidade, a falta de tensão no relato de Sabrina. Havia algo de profundamente bonito naquilo. Sabrina falava de alguém com pertencimento. Sem cautela, distância calculada, sem aquela vigilância emocional constante.
Observando a face iluminada dela ao falar de Martina, não pôde evitar comparar a versão antiga de sua mulher: contida, desconfiada, sempre pronta para sobreviver sozinha. E agora o que se via era a disponibilidade para criar vínculos, dando espaço para o fortalecimento de uma relação nascida em meio à dor.
Sabrina continuou sua partilha feliz:
-Acho que ela gosta mais de ti do que de mim.
Fedra riu alto.
-Impossível!
-Ela perguntou três vezes quando voltas à Itália.
-Porque eu sou adorável.
Sabrina revirou os olhos.
-Convencida!
Fedra sorriu olhando diretamente nos olhos dela através da tela, enquanto pensava na rede de afeto que havia sido construída.
Sabrina percebeu o silêncio dela.
-O que foi?
Fedra piscou, saindo dos próprios pensamentos.
-Estava só a ouvir-te.
-E?
Fedra sorriu daquele jeito pequeno e sincero que sempre desmontava Sabrina.
-E gosto de te ver assim.
Sabrina franziu levemente a testa.
-Assim como?
Fedra sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de responder.
-Sem medo de ser amada.
***
Os meses seguintes mantiveram o ritmo que era possível, dando ao amor espaço para evoluir naturalmente. Não abriam mão de videochamadas, muitas vezes tarde da noite, para contar alguma coisa, ou apenas para se verem e sorrirem uma para a outra, ainda que cansadas das demandas do dia. Embora vivessem muitas vezes pulando de aeroporto em aeroporto, sempre havia um áudio animado contando algo trivial. Os encontros físicos seguiram o combinado de alternarem entre Glasgow e Bruxelas, mas sempre havia concessões em nome de estarem juntas.
***
Numa noite, chegando no apartamento em Glasgow depois de mais uma viagem a trabalho, Sabrina deixou a mala num canto, atirou a mochila de trabalho sobre o sofá e logo pegou o telefone. Depois de três respirações e um sorriso no rosto, premiu a tecla que ligava diretamente à Fedra.
-Oi, meu amor...acabei de chegar em casa e estive a pensar... precisamos de rever alguns planos.
-Hmm, gosto sempre quando começas assim...
Sabrina sorriu.
***
O ar em Glasgow estava frio, mas limpo, aquele tipo de frio que acorda o corpo. Sabrina caminhava devagar pela rua, mãos nos bolsos do casaco, olhando distraidamente as vitrines. Sem pressa, ou aquele peso constante que carregou durante tanto tempo. Parou num semáforo e sorriu sozinha, reconhecendo a sensação que já se tornara habitual. Não era uma ausência de problemas, mas um certo equilíbrio na vida.
-Estás a sorrir sozinha.
A voz veio de atrás, mas nem precisava virar para saber de quem era. Revirou os olhos num sorriso. Quando virou, Fedra estava ali, como sempre elegante, ar de quem tinha vindo direta do aeroporto, e aquele olhar que sempre seria capaz de lhe provocar redemoinhos no corpo...no coração
-Sua maluca! Consegues agora me explicar essa ideia doida de me encontrar fora de casa? - Fingiu-se brava, puxando Fedra para perto.
-Eu já conheço os teus arredores como ninguém e queria ver-te toda maravilhosa andando por aí. Se não fosses minha mulher, eu juro, mas juro mesmo que teria me apaixonado.
Gargalhadas altas.
-Ah juras? E mesmo sendo tua mulher, não te apaixonaste? Pelo menos mais um pouquinho? Ou será que esse fato tira a graça de tudo?
Riram entre abraços.
-Sua idiota! Me beija para ver se te perdoo...
E o beijo veio, leve, discreto, mas perfeitamente capaz de acender a conexão. Em seguida, mais um abraço, dessa vez apertado.
Sabrina fechou os olhos por um segundo.
-Chegaste! - Suspirou ainda no abraço.
Fedra sorriu.
-Como sempre.
Caminharam lado a lado, mantendo conversas soltas, sobre o frio absurdo dos últimos dias, um café novo que abrira na esquina do apartamento de Sabrina, uma colega nova no escritório de Fedra.
Pararam num parque e sentaram-se num banco. Fedra olhou para ela com um ar específico que Sabrina já reconhecia.
-Tu tens uma coisa para me dizer.
Fedra sorriu.
-Tenho!
Sabrina cruzou os braços, sorrindo.
-Diz e rápido, pois não tens vocação para drama.
Riram juntas e Fedra respirou fundo.
-Consegui!
Silêncio e Sabrina completamente expectante.
-Trabalho híbrido.
Os olhos de Sabrina abriram um pouco mais.
-Uma semana a cada dois meses em Zurique. - Pausa. - O resto... de onde eu quiser.
Silêncio.
-Estás a falar a sério?
Fedra riu.
-Infelizmente, sim.
Sabrina levantou-se num rompante e puxou-a pelo casaco.
-Tu estás a brincar comigo!
Fedra riu alto.
-Não estou!
Sabrina abraçou-a com força, erguendo-a no ar e rindo muito.
-Fedra, isso é perfeito!
Fedra aproveitou o momento e com uma expressão que Sabrina não conseguiu ler de imediato, disse:
-Sim... e é aqui que tu me atiras um balde de água fria e dizes que vais para o Japão.
Sabrina soltou uma risada tão genuína e bela, que Fedra apaixonou-se um pouco mais.
-Tu és impossível, Fedra. - Continuava a rir, segurando os braços dela.
-Então vais? - A insegurança no olhar de Fedra era simplesmente cativante.
Sabrina abanou a cabeça, ainda rindo.
-Não, meu amor...há propostas aqui pela Europa, e um projeto mais pequeno em Cabo Verde.
-E já decidiste?
Sabrina cruzou os braços, tranquila.
-Não...
Fedra levantou uma sobrancelha.
-Por duas razões, a primeira é que quero decidir contigo, ver o que faz mais sentido para nós...
Silêncio leve.
-E a segunda?
Sabrina sorriu.
-Meu amor, estás ansiosa...
-Estou...muito, porque tu és imprevisível e me convences de qualquer coisa...
Risos.
-Quero descansar!
Fedra piscou tentando entender.
-Descansar?
-Sim...e usufruir de algum dinheiro que ganhei.
Fedra voltou a rir.
-De que adianta lutar para ganhar mais... se não usufruímos?
Fedra já ria alto.
-Minha mulher rica vai-me sustentar.
Sabrina empurrou-a de leve.
-Sem dúvida...mas acho que minhas finanças estão salvas, porque a minha mulher ganha no mínimo, o dobro do meu salário.
Riram, leves, livres. Fedra encostou a cabeça no ombro dela.
-Tenho de ir a Cabo Verde ver a minha mãe antes de decidir qualquer coisa.
Sabrina virou-se ligeiramente.
-E se fizéssemos uma coisa diferente?
Fedra encarou-a com interesse imediato.
-Gosto do tom.
Sabrina riu.
-A casa nas montanhas...os Alpes Italianos. - Seus olhos brilhavam e os de Fedra se iluminaram
-Sim...parece bom. - Fedra ainda tentava entender a ideia.
-Juntamos toda a gente.
Silêncio de entusiasmo crescente.
Fedra levantou-se num rompante.
-Espera...Sabrina...
E começou a contar nos dedos.
-Nós duas, a Martina, a minha mãe, Malia, Glória e a filha, Catarina...
Olhou para Sabrina que seguia completamente empolgada.
-Férias na primavera italiana! - Reiterou Sabrina, rindo.
-Amor... não é gente demais? - Fedra arqueou a sobrancelha.
-Não, a casa é enorme e a Martina está louca para ter vida lá dentro.
Fedra sorriu, cada vez mais entusiasmada com a ideia.
-E eu estou com saudades dela. - Admitiu Sabrina.
Silêncio.
-E com vontade de me perder naquela beleza toda contigo...e com as pessoas que gostamos por perto.
Fedra observou-a, longamente.
Sabrina segurou-lhe o rosto, delicadamente.
-Sabes o que é mais estranho?
-O quê? - Fedra sorriu.
Sabrina aproximou-se um pouco mais.
-Eu não estou com medo...acho que pela primeira vez na minha vida, eu não estou com medo do peso de uma decisão minha...conjeturando o que pode dar errado...
Silêncio.
-Meu bem...o que pode dar errado nos Alpes Italianos?
Riram com as testas encostadas. Fedra abraçou-a forte, entendendo o peso daquela declaração.
-Sinto que estamos finalmente no mesmo lugar...- Sabrina sorriu.
-Estávamos há algum tempo. - Fedra riu. - Só demoraste a admitir.
Sabrina deu-lhe um leve empurrão.
-Cala-te.
-Eu também te amo muito, meu amor.
Riram enquanto suas bocas se buscavam.
Elas começaram a caminhar novamente, sem pressa, nem destino urgente, apenas...juntas. Desapareceram pela rua fria de Glasgow, abraçadas e rindo de alguma coisa irrelevante, enquanto planeavam viagens, misturando vidas. E, pela primeira vez, nenhuma das duas parecia ter pressa de chegar a lugar algum.
FIM
Fim do capítulo
Mais uma história que chega ao fim...
Hoje é dia das crianças aqui na minha terra e minha versão de 7 anos já dizia que queria ser escritora :) resolvi honrá-la e concluir mais essa aventura.
Essa história tocou-me em lugares bem diferentes...alguns capítulos foram escritos com lágrimas nos olhos.
Claro que já chorei hoje...depois da última cena, então...
É sempre complicado despedir-me de personagens que durante algum tempo deram asas à minha paixão pela arte de criar mundos. Mas precisamos seguir e há outras tantas histórias precisando ser contadas...
Obrigada a quem esteve por aqui...nessa história, bem menos gente, pelo menos nos comentários e sobre isso, preciso agradecer e muito à leitora Nova Aqui (Erica, perdoa-me se confundi o teu nome, estou em dúvida entre Erica e Carla rsrs) a única que comentou em todos os capítulos. Muito obrigada. Muitas vezes mantive a constancia nas postagens ( ou pelo menos tentei) porque sabia que estarias aqui aguardando atualização.
Eu não sou a pessoa mais apegada a feedback, até porque escrevo por diversão e para extravasar as muitas ideias que habitam a minha mente, mas é importante saber se o que esccrevemos faz sentido para mais alguém...enfim.
Despeço-me com uma sensação de leveza por ter concluído a saga de Sabrina e cia.
Muito obrigada.
Nadine H.
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