Capitulo 2
Os pomposos arranha-céus de Manhattan se acenderam pouco depois das seis da noite. Com a proximidade do inverno, o céu da Big Apple escurecia mais cedo que o comum. Cada osso do corpo de Andréa Sachs implorava por descanso. A escritora tinha passado por uma verdadeira maratona nos últimos dias.
Há uns dez anos Sachs não morava em NY; nesse meio tempo, dividiu-se entre Washington, Los Angeles e América Latina. Sua mudança de volta à cidade tinha se consolidado há menos de uma semana e, por pressão da Netflix, surgiu a promoção da noite de autógrafos no The Plaza. Por isso, usufruía sem remorso algum da banheira da suíte mais luxuosa do hotel.
— Alô, alô, torcida do Flamengo... — cantarolava vagarosamente, tentando imitar as vogais abertas do sotaque baiano de Gilberto Gil. — Aquele abraço...
Ao concluir a frase, sorriu, curtindo o ritmo da música que era reproduzida em seu headphone JBL. A água quente da hidromassagem parecia quase um abraço em sua alma depois de tantas horas de voo. Em menos de uma semana, fez Rio de Janeiro, Bogotá — onde o livro fora relançado —, de Bogotá foi para o Chile e, em seguida, visitar os pais em Ohio, com direito a conexão em Miami; dali foi para Los Angeles e, por fim, NY. Estava acabada; se pudesse, passaria uma semana naquela banheira cheia de espuma. Infelizmente, os planos de seu agente não eram os mesmos. Antes mesmo de acabar Aquele Abraço, Andréa assistiu à porta do banheiro se abrir. Era Chris, seu assistente pessoal.
— Não demora, a maquiadora estará aqui em 20 minutos.
Ela retirou o fone; mesmo de ouvidos tampados, conseguiu entender a mensagem.
— Maquiadora? Mas é mesmo necessário?
— Querida, agradeça! Com a quantidade de flashes que tem aí embaixo, sem maquiagem você fica pálida e nem esse bronzeado divino conquistado em Ipanema te salva.
Um tanto frustrada, Andy jogou o corpo para frente e deixou a cabeça se afundar na água de sais. Em uma hora e meia, estava no salão do The Plaza. Havia escolhido um terno marinho, de corte italiano, sapato fechado — uma sobriedade que contrastava com uma camisa de algodão que trazia a estampa da escadaria Selarón e trazia registrado: Santa Teresa, RJ. Ao colocar os pés no local onde ocorria o evento, Andy foi recebida por um canhão de flashes e microfones estendidos em sua direção. Agradeceu pela maquiadora ter caprichado na base; tinha a impressão de que, com aquele tanto de luzes, suas olheiras gritariam nas fotos. Assim que os flashes se direcionaram à sua pessoa, Andy sentiu dois braços morenos invadirem seu espaço pessoal e agarrarem sua cintura de maneira quase possessiva.
— Minha escritora américarioca favorita! — Andy sentiu sua bochecha ser marcada pelos lábios carnudos da morena. — Que bom ter você de volta no nosso país!
— Lena, querida! — respondeu com um sorriso amarelo. — Como vai?
Animada, a influenciadora digital não interpretou a pergunta como um mero gesto protocolar, mas segurou Andy naquela posição por alguns minutos enquanto os fotógrafos se deliciavam com a proximidade proporcionada por Lena. A mulher falava tão rápido e estava tão preocupada com as câmeras que Andy tinha dificuldade em acompanhá-la, e apenas respondia o que sabe-lá-o-que a outra estava dizendo com um sorriso cortês. Lena apenas a soltou quando Chris se aproximou, avisando que alguns repórteres queriam conversar com Andy.
— Pode ir lá, cariño! — Lena disse, acenando. — Depois continuamos nossa conversa.
Um sorriso sem dentes surgiu no rosto de Andy, que foi puxada por um curioso Chris.
— O que vocês estavam conversando?
— Não faço a mínima ideia. Posso ter vendido meu rim para aquela mulher nesse exato momento, inclusive.
— Tudo bem, a Netflix quer ganhar dinheiro com seu cérebro mesmo — Chris respondeu, com um sorriso em direção a uma câmera. — Sobre a Lena... Você sabe que ela está doida para fazer a Flora, e ela faz jogo pesado. Se os jornalistas perguntarem sobre o elenco...
Os dois se aproximaram da pesada mesa de carvalho onde Andy ficara instalada para as entrevistas e também para assinar os livros. Ela ajeitou alguns exemplares da pilha ao seu modo. A conversa com Chris ainda seguia entre risos, apesar de ela não estar contente com aquela proximidade forçada de Lena.
— Eu não tenho poder de escalar elenco. Isso é com a Netflix.
— Mas os 18 milhões de seguidores dela não precisam saber. Eles que vão te dar um best-seller. Não custa nada vocês trocarem alguns sorrisos, olhares... Pensei em vocês jantarem juntas no restaurante do hotel... — Andy mordeu o próprio lábio inferior e revirou os olhos. — Apenas jogue o jogo, cariño. — Chris enfiou a mão no bolso e devolveu um pesado isqueiro de prata para sua assessorada. — Vou liberar os jornalistas.
Andy guardou o isqueiro no bolso interno do blazer, junto de um estojo metálico que já estava ali. Ao sentar na cadeira ergonômica separada pelo The Plaza, Andy aproveitou para esticar as costas. A hérnia de disco estava lhe matando. Necessitava de um bom colchão urgentemente, e não de um jantar com uma influencer com milhões de seguidores que nem deveriam saber por que seguiam Lena. Pegou a caneta de seu bolso e começou a testar em um bloquinho de rascunho que sempre trazia consigo. Sua visão parou na figura de Lena posando ao lado do pôster gigante do livro e, espontaneamente, fez um gesto negativo. O teste com a caneta passou a ser um risco de espirais. Não era elitismo seu, mas Lena não oferecia nada além de coreografias de TikTok e uma marca própria. Procurava ser educada com ela, mas não achava necessária aquela proximidade. Chris fez um gesto de "joia", liberando o primeiro jornalista, e silabou sem som, apenas para Andy entender:
— Jantar, ok!
Andy arrancou a página de seu rascunho e a amassou, transformando-a em uma bolinha de papel. Um homem loiro, muito bem alinhado, se acomodou na cadeira à sua frente.
— Devo tratá-la como senhora ou senhorita Sachs?
O bom de lidar com a imprensa é que Andy tinha faro aguçado para armadilhas. Ela sabia que estava em cima de uma. Há um bom tempo a imprensa especulava sobre sua vida afetiva, e ela não teria problema algum em falar se não parecesse que, em sua vida profissional, não houvesse nada acontecendo. Tinha vendido milhões de cópias; o que importava a existência de um "senhor Sachs"?
— Boa noite. Pode me chamar de Andréa ou Andy mesmo...
— Aposto que pegou a mania do primeiro nome dos brasileiros. O país onde parece que todo mundo se conhece...
— Um povo bastante hospitaleiro quando quer, e inspirador também — disse com um sorriso genuíno. — Talvez eu tenha mesmo pegado esse e muitos costumes deles...
— Mas vamos falar do que importa! — O loiro disse, animado. Com o queixo, apontou para Lena. — Estamos diante da nossa Flora Morales? É a sua musa inspiradora?
Andy pressionou um lábio contra o outro; uma leve lufada de ar invadiu suas narinas. Enquanto respondia ao repórter, voltou a desenhar espirais, mesmo sem olhar para o papel. Após o loiro, atendeu mais alguns jornalistas e o script foi mais ou menos o mesmo. Duas perguntas sobre seu trabalho e quatro sobre a vida pessoal. Tinha a impressão de que, quando era apenas A.G. Sachs, ninguém sabia se era homem ou mulher; seu trabalho era mais especulado do que descobrirem com quem ela estava saindo.
Chris enfim liberou para que alguns fãs fossem atendidos. A fila estava enorme; procurava atender a todos com carinho. Diferente dos jornalistas, ninguém tinha recebido para estar ali, então gostava de dar a atenção merecida. A questão é que havia tantas pessoas e suas costas estavam reclamando tanto que passou a fazer tudo no automático. Estava cabisbaixa quando sentiu o cheiro cítrico da loção pós-barba de Chris se aproximando de seu perímetro, acompanhado de um aroma forte de cigarro de canela. Sem tirar os olhos do livro que assinava, ouviu-o dizer:
— Já reservei uma mesa para você e a Lena. — Ele simplesmente avisou. Andy aproveitou a pausa para se levantar um pouco e alongar. Ficou de costas para a fila; precisava de privacidade com o assessor. — A editora de arte e cultura está aí em pessoa. Pelo amor de Deus, seja simpática e responda tudo que essa mulher te perguntar, porque é a Runway! — Andréa arqueou as sobrancelhas castanhas. — Você tem ideia do peso disso?
Andy sorriu. Isso que dava contratar jovens feras da geração Z, experts em redes sociais e IAs, mas completamente equivocados na vida fora das telas do iPhone.
— Sim, acho que tenho ideia do peso da Runway. — Deu um gole em um copo de água mineral que Chris lhe trouxe, curiosa. — Quem está na editoria de arte e cultura da Runway?
Deu mais um gole. A temperatura da água estava tão gelada a ponto de anestesiar sua garganta. Foi quando ouviu um ruído que parecia tatuado em sua memória auditiva, mesmo passados tantos anos. Embora não tivesse a intenção de fumar naquele instante, tateou seu isqueiro no bolso por puro reflexo. O “clap clap” dos saltos das garotas Runway parecia a trilha sonora de um grande anúncio. E, de certa forma, foi.
— Emily Charlton — a própria ruiva respondeu. Sua voz saiu como um raio rasgando o céu no meio da noite. Em reflexo, Andy pressionou o isqueiro no bolso com força. — Teria um minuto para me atender, Sachs?
Fim do capítulo
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